sexta-feira, dezembro 27, 2013

As Bimbys e a inteligência dos portugueses.

O Wall Street Journal pela pena da jornalista Patricia Kowsmann publicou em 25 de dezembro um texto sobre a compra de Bimbys em Portugal. O destaque ao nosso país, está claro, é causado pelo nosso estado de insolvência económica. O título da peça "Mesmo em tempos difíceis Portugal adora as suas Bimbys" tem um pendor claramente pejorativo. O que lhe está subjacente é a ideia de que qualquer tendência de consumo em Portugal deve ser julgada como uma insensata moda despesista de mais um desregulado país do Sul da Europa. É assim que o lêem os americanos e o interpretam os media portugueses e logo será assim entendido pelo fundamentalismo económico das sumidades pró-austeridade.

Esta questão merece alguma reflexão dada a cobertura nos média e nas redes sociais e as habituais reações a quente. Vejamos:

  1. O país que vende armas em supermercados (280 milhões de armas em mãos civis) e inventou o termo TV-Dinner fascina-se facilmente com um povo que compra um eletrodoméstico para cozinhar em casa, e jantar em família. Não um telefone para encomendar pizzas, nem um micro-ondas para aquecer algo congelado. Um eletrodoméstico para cozinhar alimentos frescos. Espantoso.
  2. O povo português, em vez de perceber o elogio que está subjacente a tal destaque mediático dado à sua opção em termos de investimento, em detrimento doutros investimentos mais populares nos países ditos civilizados, chama "modernice" à tal máquina e baixa os olhos em vergonha perante tal achado estatístico.

Conclusão:

As reportagens na Televisão e alguns comentários nas redes sociais, como de costume, revelam os vícios do comentarismo pós-moderno. Pouca reflexão e pensamento unidimensional.

Vão atribuir este facto estatístico à falta de educação económica dos portugueses e à sua predileção pela brejeirice consumista. Já se fez o mesmo com os telemóveis. Esses mesmos que hoje todo o mundo usa.

Mas há outras formas de ler a realidade destes factos.

A "Bimby", como lhe chamam (o seu nome verdadeiro é Thermomix, nem nos EUA lhe chamam Bimby o que torna o título da notícia muito estranho), é um aparelho como outro qualquer para preparar alimentos. Muito usado em restaurantes de topo (esta é para os puristas engolirem) e noutros mais modestos, inclusive no famoso programa Masterchef. Só lhe sente utilidade quem sabe cozinhar e procura variar a ementa. A Bimby não cozinha por nós mas atalha caminhos. Há vários modelos de várias marcas. É importante pensar porque é que um povo pobre decide investir numa máquina para cozinhar em casa e cozinhar de modo variado. É importante refletir o quanto isso representa em termos de inteligência económica, sustentabilidade, qualidade de vida e saúde.

Bem sei que é fácil rir e muitos haverá, no poder, a dizer "Estão a ver! Ainda há dinheiro para Bymbis! Esses esbanjadores lusos! Corta-lhes no vencimento!". Na verdade, um povo mais pobre, que fica em casa, que poupa nos alimentos, soube bem onde investir. Na mesa dos filhos e na variedade da sua dieta. Não sejam burgessos e não digam tolices a este propósito. Portugal tem um povo deseducado mas não estúpido como aqueles que o governam.

 

quarta-feira, dezembro 25, 2013

A encomenda ao Pai Natal

Ainda há poucos dias os "Gato Fedorento" nos brindaram com a mais profunda honestidade humorística e "tentaram" contratar Steven Seagal para, enfim, dar uma carga de porrada no Primeiro Ministro.

Muitas vozes se levantaram contra os "Gato Fedorento". Algumas, mais tristes, acusaram-nos de falta de piada. Impossível, neste caso. Outros, os do politicamente correcto, acusaram-nos de ser incorrectos. De apelar à violência.

Na verdade o que fizeram foi o mais simples humor político usando para isso um desejo (não tão secreto quanto isso) de uma boa parte dos portugueses. Claro que é necessário ter algum sentido de humor e ironia. Pagar a Seagal com azeite e pasteis de nata tem graça e ilustra, com imensa ironia, a descapitalização da nossa economia e como, em seu resultado, as nossas exportações ganham terreno na nossa balança comercial. Tudo normal.

Como é Natal imaginei que a mesma encomenda pudesse ser feita ao Pai Natal. E aqui está o desenho. Com uma pequenos acrescentos à versão publicada no dia 24 no meu Facebook.

O Natal, para mim, é estar em família, é uma trégua, um momento de partilha e generosidade. Lamento que cada vez menos portugueses possam ter um Feliz Natal à conta desta gente que nos governa. Não consigo ficar impávido e muito menos sereno perante o actual estado de coisas.

2014 vai ser pior para uma data de gente, para quase toda a gente. Será melhor apenas para aqueles para quem 2013 nem foi muito mau, ou foi mesmo bom. Para os do costume. Os que vivem do sistema, que o sugam como se não houvesse amanhã, literalmente. Esses, sem pudor, já anunciam o seu sucesso no meio de festejos enquanto empobrecem tudo quanto tocam.

Por isso não podemos abdicar do nosso sentido de humor, do nosso sentido crítico, da nossa liberdade de expressão. E que esse humor seja tão cáustico que envergonhe os sem vergonha. Contra tudo e contra todos se for preciso.

Feliz Natal.

 

quinta-feira, dezembro 19, 2013

Bad Science, ou as contradições de um cientista de qualquer coisa.

Há um mito urbano a circular nos média, nas redes sociais e nos círculos de poder desde já há algum tempo. O mito de que Nuno Crato é um cientista que percebe de educação. Que domina o tema da administração e organização escolar. Que sabe muito.

É um mito falso, não é a verdade. Enraizado socialmente, este mito fundador de que o político domina a ciência por detrás do rito da governação do seu ministério, tornou-se um inquestionável sofisma na defesa de um conjunto de princípios de ação que estão longe de estar provados.
Como rito que é assistiu-se a uma autêntica peregrinação ideológica no sentido do que o senhor defende. Hordas de (pseudo) pensadores, seguiram a doutrina e afirmaram-na como verdade absoluta. O evangelho de Crato, denunciador de ímpios pensamentos que defendiam o "facilitismo" na educação sob o argumento romântico de que todas as crianças nascem boas e devem crescer, como as galinhas do campo, livres dos constrangimentos do saber e do conhecimento.
A consciência acrítica dos média vem agora aos poucos por em causa os princípios do senhor ministro. Parece que afinal, lá na Europa, uns senhores (doutores da verdadeira área em que Nuno Crato se doutorou) publicaram um estudo que comprova duas coisas:

  1. O paradigma do mercado e da livre escolha aplicado simplesmente ao sistema educativo tem efeitos negativos nos resultados.
  2. Os princípios pedagógicos, curriculares e organizativos do sistema educativo português, concebidos e implementados pelos adeptos do "eduquês" romântico e construtivista, melhoraram os resultados e aumentaram a equidade das aprendizagens entre os alunos.

Curiosamente os mesmos média recusam-se ainda a aceitar que o mito possa ser falso. Como exemplo convocamos Rui Costa que no Expresso afirma que "Nuno Crato chegou ao governo com uma vantagem sobre boa parte dos seus colegas. Ao contrário de muitos ministros tinha um pensamento continuado e sólido sobre a área que foi chamado a dirigir." Nada mais errado. Tinha um livro recebido com desdém pela academia. Nem um artigo científico nem uma formação académica relevante sobre educação ou sobre políticas educativas.
Agora, a propósito de uma prova completamente inútil de acesso à profissão docente, o ministro Nuno Crato apresenta como justificação a sua "desconfiança" na formação dos professores das Escolas Superiores de Educação. O ministro cientista, pelos vistos, toma decisões com base no instinto, em pressentimentos ou pior, com base no preconceito. Não há ciência na base das opiniões sobre educação e sobre formação de professores.
Vejamos algumas contradições no seu discurso:

  1. Nuno Crato cria uma prova com duas componentes. Uma prova para "capacidades mínimas" de conhecimentos transversais e competências de raciocínio. E uma outra prova de conhecimentos científicos nas áreas específicas de lecionação. Não há pedagogia à vista.
  2. Nuno Crato acha que os professores sabem pouco das matérias científicas que lecionam mas não desconfia tanto das capacidades pedagógicas que, segundo diz, vão ser avaliadas dentro do sistema, na avaliação de desempenho. No entanto quando fala da necessidade da prova justifica-a com a necessidade de um profissional provar que sabe fazer aquilo para que é contratado. Como os professores são contratados para dar aulas... não se entende.
  3. Mas Crato em entrevista à RTP afirma, faltando à verdade, que os professores que entram na profissão não foram julgados antes. Na verdade todos os professores profissionalizados passam por um estágio, aulas assistidas e realizam cadeiras de didática específica das áreas para as quais estão formados. Isto ele não diz ou não sabe.
  4. Mas porque sabem tão pouco das suas áreas os professores? Se acederam ao ensino superior, ainda que a escolas politécnicas (atenção que estou a ser irónico), e com o 12º ano concluído com sucesso, qual é o problema? As escolas selecionam mal? Para isso o ministro tem duas respostas - Exames à entrada dos cursos e alteração dos currículos dos mesmos. Ora bem, por exemplo, o curso de Educação Básica da Escola Superior de Educação de Lisboa exige, à entrada, o exame de Português mais um dos seguintes: Biologia, Geologia, Filosofia, Física e Química, Geografia, História ou Matemática. Chega? Faça você mesmo a pesquisa para outras escolas neste link. Por outro lado os currículos das Escolas Superiores de Educação sempre foram supervisionados pelo próprio ministério que ele tutela e têm sido suficientes. O PISA está aí para o provar.

Se Crato considera que os resultados do PISA são fruto apenas da aplicação dos exames do básico e da divulgação dos resultados das escolas, o que está a dizer é que os professores têm todas as capacidades e só lhes faltava a obrigação da prestação de contas para serem eficazes. Não é isso que ele diz quando defende a prova. O que o Ministro quer é "os melhores" a dar aulas. A frase mais dita é "os melhores". Melhores como quem? Como ele? Não tem formação superior na área da educação e é ministro. O primeiro ministro? Esse é um dos melhores? Hummm... Os boys contratados para o governo acabadinhos de sair das faculdades e tão saltitantes nas hostes da JSD? São esses os melhores?
Por exemplo, quando se trata de escolher pessoas para o Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência e Tecnologia, escolhem-se os melhores? Ou os amigos?
Mas por falar Ciências. Que provas científicas tem Nuno Crato de tudo o que afirma? O que apresenta o estatístico Crato como defesa das suas teorias? Nada. Não tem um estudo, um trabalho. Tem uns livros americanos a defender a educação competitiva em regime de mercado livre num país em que as estatísticas e os estudos provaram que essas mesmas estratégias aprofundam as desigualdades, diminuem a igualdade de oportunidades. Mais nada.
Nuno Crato defende um sistema educativo que promove a reprodução social
Nuno Crato é o ministro cientista sem ciência. É um preconceituoso da educação que toma medidas com base no que culturalmente foi acreditando que é a escola e não no que realmente ela é. Com não-ciência a conduzir a sua cadeia de decisões Crato não vai resolver problema nenhum.

Actualização: O jornal Público deixa claro nesta notícia a falácia do argumento de Nuno Crato acerca da alegada deficiente formação de professores. A agência de acreditação do ensino superior, a A3ES fechou muito poucos cursos de formação de professores e todos de instituições privadas. Mais ainda, a lei obriga a que os cursos sejam iguais, deitando por terra o argumento do Ministro.


O título deste post foi inspirado no site Bad Science de Ben Goldacre, cronista de ciência do The Guardian.

 

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Crato o dominador ou o prazer lusitano da submissão.

A tradição centralista, conservadora e de submissão normativa tende, na cultura portuguesa, a naturalizar tanto as más como as boas práticas de modo indiferenciado. Basta, para o efeito que estejam devidamente normatizadas. A distância temporal e ideológica aos conceitos que estão na base de uma norma vão provocando uma deterioração na interpretação do seu cumprimento, tornando-se este um formalismo sem sentido e com objetivos e/ou resultados que podem, em última análise, ser contrários ao seu princípio inicial.

Tudo isto para dizer que, infelizmente, dentro de poucos anos a prova de acesso à carreira será romaria habitual para carneiros docentes enviados ao sacrifício.

A sociedade portuguesa adulta é pouco escolarizada, fruto de uma democracia pouco participativa e tardia. Sem sentido crítico vai aplaudindo estes laivos de Estado Novo revisitado. Exige-se sobre o outro o que não se exige a si próprio. Dificulta-se a vida ao mais novo com o falso argumento da eterna e infinita deterioração do ADN. Os mais jovens são sempre piores do que as gerações anteriores. Em tudo. "Antigamente é que era bom" como dizia o graffiti na parede da escola.

Agora que uns "moderados" venderam barato a dignidade dos jovens licenciados que estudaram para ser professores, o caminho está aberto a este processo de "naturalização" da prova. O ministro tem uma vitória entregue numa bandeja. O mesmo ministro que chama "pacote de medidas" a atirar exames para cima de qualquer problema. Um ministro de um governo chefiado por um mau aluno, um economista medíocre, sem currículo que não seja sacar uns subsídios numa empresa de formação que nunca deu formação a ninguém. O governo do Relvas. O governo que era dos técnicos geniais, os mesmos que já foram substituídos pelos lacaios partidários.

A mediocridade do governo, do ministro, das suas medidas, são fruto de uma naturalização da incompetência que o povo português aceita com facilidade.

Por isso, daqui por uns anos, em dezembro, haverá a habitual romaria dos contratados à prova de acesso à profissão docente e as escolas de professores ensinarão para a resolução dos problemas da prova, em vez de se debruçarem sobre o currículo ou sobre a pedagogia e a aprendizagem.

O sadismo insano de Nuno Crato, sobre os professores ou sobre os alunos, é visto como uma autoridade produtiva e necessária por um Portugal que cheira a mofo e bolas de naftalina e é patologicamente submisso. A FNE deu voz a esse Portugal e deu uma saída ao ministro que, sem oposição, vai paulatinamente destruindo a educação portuguesa.

 

Crato dominatrix ou o prazer lusitano da submissão.

A tradição centralista, conservadora e de submissão normativa tende, na cultura portuguesa, a naturalizar tanto as más como as boas práticas de modo indiferenciado. Basta, para o efeito que estejam devidamente normatizadas. A distância temporal e ideológica aos conceitos que estão na base de uma norma vão provocando uma deterioração na interpretação do seu cumprimento, tornando-se este um formalismo sem sentido e com objetivos e/ou resultados que podem, em última análise, ser contrários ao seu princípio inicial.

Tudo isto para dizer que, infelizmente, dentro de poucos anos a prova de acesso à carreira será romaria habitual para carneiros docentes enviados ao sacrifício.

A sociedade portuguesa adulta é pouco escolarizada, fruto de uma democracia pouco participativa e tardia. Sem sentido crítico vai aplaudindo estes laivos de Estado Novo revisitado. Exige-se sobre o outro o que não se exige a si próprio. Dificulta-se a vida ao mais novo com o falso argumento da eterna e infinita deterioração do ADN. Os mais jovens são sempre piores do que as gerações anteriores. Em tudo. "Antigamente é que era bom" como dizia o graffiti na parede da escola.

Agora que uns "moderados" venderam barato a dignidade dos jovens licenciados que estudaram para ser professores, o caminho está aberto a este processo de "naturalização" da prova. O ministro tem uma vitória entregue numa bandeja. O mesmo ministro que chama "pacote de medidas" a atirar exames para cima de qualquer problema. Um ministro de um governo chefiado por um mau aluno, um economista medíocre, sem currículo que não seja sacar uns subsídios numa empresa de formação que nunca deu formação a ninguém. O governo do Relvas. O governo que era dos técnicos geniais, os mesmos que já foram substituídos pelos lacaios partidários.

A mediocridade do governo, do ministro, das suas medidas, são fruto de uma naturalização da incompetência que o povo português aceita com facilidade.

Por isso, daqui por uns anos, em dezembro, haverá a habitual romaria dos contratados à prova de acesso à profissão docente e as escolas de professores ensinarão para a resolução dos problemas da prova, em vez de se debruçarem sobre o currículo ou sobre a pedagogia e a aprendizagem.

O sadismo insano de Nuno Crato, sobre os professores ou sobre os alunos, é visto como uma autoridade produtiva e necessária por um Portugal que cheira a mofo e bolas de naftalina e é patologicamente submisso. A FNE deu voz a esse Portugal e deu uma saída ao ministro que, sem oposição, vai paulatinamente destruindo a educação portuguesa.

 

domingo, novembro 10, 2013

Cristiano, Leonel e a relatividade dos sucessos

Cristiano e Leonel são dois meninos que gostam muito de jogar à bola. São ambos grandes adeptos do mesmo clube da primeira divisão. Cristiano é filho de dois operários de uma fábrica. Os pais de Leonel são licenciados e quadros superiores na mesma empresa.

Desde os seis anos que Cristiano e Leonel jogam numa equipa de futebol. Cristiano está inscrito na escolinha do clube lá da terra, paga uma mensalidade simbólica. Leonel está inscrito numa escola de futebol na cidade, paga uma propina muito mais alta. Três vezes por semana lá vão para o treino durante hora e meia. No fim-de-semana os jogos.

Os pais de Cristiano, com muito esforço, lá lhe compraram umas botas para jogar e uma bola. São das mais baratas. O terreno de jogo é um pelado, às vezes uma autêntica piscina de lama, mas as condições têm melhorado. A Junta e a Câmara uniram-se e fizeram umas obras. Até contrataram um treinador formado.

Leonel recebeu novinhas umas botas de marca. Cores garridas e pítons especiais para o sintético da escola de futebol. A bola é com desenhos verdes, igual à do mundial. "É super levezinha!" diz Leonel orgulhoso aos amigos. Com a propina paga-se também o equipamento que inclui os calções, as camisolas, os fatos de treino e até as caneleiras. É ver o Leonel vaidoso e vestido a preceito, com a bola debaixo do braço.

Ambos o rapazes estão empenhados na sua atividade desportiva. Em casa os pais de Cristiano acham que é perda de tempo e dinheiro, mas lá o vão apoiando. "Ele nunca será jogador de futebol profissional. É muito franzino" dizem. "Como o pai era".

Em casa do Leonel é diferente. O pai adora desporto e sempre praticou. Ele também joga futsal com os amigos num campo coberto lá perto de casa, duas vezes por semana. Leonel adora assistir aos treinos do pai. Nos fins de tarde Leonel e o pai vão muitas vezes correr para o parque e trocar umas bolas. São os momentos preferidos para o Leonel. A mãe às vezes também vai e faz o circuito de manutenção. Levam lanches leves e chegam a casa muito cansados.

Cristiano quando sai da escola gosta de jogar à bola com os amigos. Às vezes, quando faltam os outros, passa horas a chutar a bola contra a parede. A mãe avisa-o para tirar as botas. "Não as gastes! Olha que não tens outras!"

Quando chove o Cristiano fica em casa a ver televisão. Leonel vai com o pai para o campo coberto do clube. "É muito fixe!".

Antes dos treinos a mãe do Leonel faz-lhe sempre um lanche leve e cheio de energia. "A alimentação é muito importante!", diz sempre a mãe. O Leonel já lhe acaba as frases.

Cristiano come muitos hambúrgueres. Como os pais têm pouco tempo trazem-lhe hambúrgueres e às vezes pizza. "Acaba por ficar mais barato..." ouve muitas vezes o pai a dizer.

Ambos os meninos andam muito felizes lá no clube. O Cristiano deu nas vistas num jogo com a freguesia vizinha. "É muito rápido. Mas precisa de limar umas arestas" disse o treinador ao pai.

Leonel vai com a escolinha a França. É um torneio em que a escola participa. Será uma grande experiência.

Nos jogos do fim-de-semana Leonel tem sempre a presença do pai e muitas vezes da mãe. Dão-lhe um grande apoio e no final reúnem-se com o treinador para ouvir recomendações e conselhos para o Leonel trabalhar em termos físicos e técnicos. O pai de Cristiano também vai aos jogos mas ralha sempre muito com o árbitro e com o treinador da equipa. Cristiano diz ao pai que gosta do treinador e o pai responde com ar sério "O clube não tem condições e ele não quer saber!". É injusto e o pai do Cristiano sabe mas gostava de o ter a jogar na escolinha de futebol privada.

Chega finalmente o dia em que no jornal se anunciam as captações do clube que ambos apoiam. Ficam loucos de entusiasmo. Inscrevem-se e lá vão para o campo do centro de estágio. Cristiano, de autocarro com o pai, botas já calçadas e calções vestidos. A mãe não vai, tem de trabalhar.

Leonel vai num minibus com os outros meninos da escolinha. O pai e a mãe vão lá ter de carro.

Para avaliar os jogadores os treinadores do clube fazem um treino físico, um conjunto de exercícios com bola e um jogo treino. No final publicam num placard uma lista ordenada do jogadores com as respetivas notas. Quem entrou e quem não entrou. Os olhos de Leonel e Cristiano, reluzentes, lado a lado, procuram o seu nome na lista.

Quem acham que ficou à frente na lista e entrou no clube?

As vidas e os processos de ensino e aprendizagem fazem-se em contextos com múltiplos fatores. A nossa mania de fazer listas ordenadas para tudo, unidimensionaliza aquilo que é necessariamente pluridimensional. Os sucessos e resultados de uns não valem o mesmo que os sucessos e resultados de outros porque partiram de condições a priori diferentes.

O sistema de ensino tem uma missão. Ensinar, preparar para a vida numa dimensão comunitária, numa dimensão societária e na dimensão do conhecimento e do desenvolvimento cognitivo. Promover as condições ideais para uma "igualdade de oportunidades" que de outro modo dificilmente aconteceria. Não é papel da escola seriar. Essa função a sociedade faz com particular crueldade e a escola deve ser escudada da perversidade desse processo.

Cada aluno é diferente. Tem sucessos e insucessos diferentes. Nem o seu grau de esforço para alcançar um objetivo pode ser medido de forma linear em comparação com outro. Não sabemos o que se passa lá em casa. Muito menos podemos comparar em listas o seu desempenho em números.

Acho muito bem que o Ministério disponibilize os dados dos resultados escolares e dos contextos sócio-económicos das escolas. Não só dos exames, de tudo. Deveria fazê-lo constantemente em relação às escolas públicas, as que estão na sua alçada. Antes de os divulgar aos jornais deveria trabalhar referenciais e discuti-los com as escolas. Os pacotes de dados deveriam ser do conhecimento prévio das escolas.

Ninguém sabe quem fez mais trabalho, quem criou mais-valias educativas com trabalho importante com os alunos. Ninguém sabe que práticas pedagógicas e programas tiveram sucesso na construção dessas mais-valias. Só se mede a quantidade. Como em tudo.

O que se assiste anualmente nos jornais aquando da publicação destes rankings é a demonstração de que temos muito a fazer dentro das escolas para melhorar as leituras que se fazem do mundo e da sua natureza diversa. Talvez um dia, no futuro, os nossos alunos, então adultos, se riam da nossa santa ignorância quando se lembrarem do entusiasmo bacoco que a publicação destas listas provocava nos jornais.

Isso sim seria um sucesso educativo que eu gostava de poder assistir.

 

sexta-feira, novembro 01, 2013

A Reforma do Estado e a Educação. (um rascunho)


"Reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor no novo estatuto do aluno. Concluíu-se um regime descentralizado de gestão escolar e a rede escolar teve de ser reordenada, tendo em conta as contingências demográficas e territoriais. Fez-se uma opção pública pela exigência, com a instituição de exames nacionais no final dos ciclos escolares, reforço do Português e da Matemática nos currículos e densificação nas metas curriculares." (Documento "Um Estado Melhor" p. 33) Descarregue neste link a totalidade do documento.

Alguém consegue detetar a incoerência?

Se "reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor" e se se concluiu "um regime descentralizado de gestão" acho curioso que no âmbito de tanta autonomia e descentralização se tenha tomado a opção "pública" pela "qualidade" para todo o sistema assente em medidas centralizadoras. Medidas como mais "exames nacionais", leram bem "nacionais", ou seja de conceção e execução centralizada, em ciclos iniciais do ensino e também o "reforço do Português e da Matemática nos currículos" igual para todo o país, sem olhar às especificidades dos teritórios educativos e das escolas. Ainda mais interessante é o conceito de "densificação nas metas curriculares". Muito bem aplicada o conceito de "densificação" porque se trata sobretudo de densificar e não de melhorar. Foram também essas metas decididas pelo Ministério de modo absolutamente centralizado. Se existe autonomia não é com certeza curricular ou na organização do processo ensino-aprendizagem.

Quer isto dizer que as políticas educativas do Estado, e deste governo em particular, anunciam e proclamam uma autonomia para depois tomarem decisões centralizadas, normatizando a diversidade educativa e esmagando as diferenças e especificidades num enorme almofariz burocrático. O argumento da qualidade, medida em unidades universais, não respeita nenhum tipo de diferenciação e homogeniza as soluções.

Hoje as escolas não têm autonomia para coisa nenhuma. Têm menos do que alguma vez tiveram. Currículos, organização do ano letivo, número de turmas, número de alunos por turma, tipos de cursos, professores, apoios, educação especial, funcionários ou até o refeitório. Para tudo isto existem plataformas com caixinhas onde os números devem encaixar e para tudo isto existem normas burocráticas a cumprir. As inspeções atentam ao cumprimento da lei e só isso, e não à satisfação e ao sucesso dos alunos.

O cumprimento de algumas destas normas tem sido, historicamente, desvalorizado pelas escolas. O controlo do Estado era fraco e assente sobretudo na leitura de resmas de papéis. O exercício de uma autonomia clandestina fez e faz ainda parte da vida das escolas portuguesas que foram encontrando soluções para problemas que fugiam à uniformidade das normas.

Hoje a implementação de um controlo apertado e implacável com recurso a multiplas aplicações informáticas, programadas para o normativismo, obriga ao cumprimento das normas e revela, em última análise, a impossibilidade prática do seu cumprimento por todos.

 

O documento "Um Estado Melhor" apresentado como um guião para a reforma do Estado faz um conjunto de propostas para a educação que merecem reflexão atenta e separada. É interessante realçar a preferência por modelos de gestão contratualizados, seja com as autarquias, com grupos de professores ou empresas privadas, numa lógica descentralizadora mas sempre enquadrada por conceitos de competitividade e concorrência profundamente perversos. Dizer que a "qualidade do ensino é um fator de concorrência saudável entre municípios" é aceitar a ideia de uma luta comercial por melhores alunos ou por melhores escolas em que os que ficam a perder ficam irremediavelmente para trás. No contexto dos territórios educativos parece-me completamente desadequada esta afirmação. Em educação a "concorrência" promove a exclusão social e a reprodução social. Os mais fortes, que é o mesmo que dizer os mais ricos, não deixam nunca de ganhar neste jogo viciado da "concorrência".

Neste sentido toda a lógica da proposta do governo assenta em pressupostos invertidos. De que é necessário, para gerir melhor, descentralizar e contratualizar mas que por outro lado para aumentar a qualidade é necessário centralizar os modelos de avaliação e densificar os currículos.

A autonomia que se promove é sobretudo a da responsabilidade jurídica e financeira e não a curricular, nas escolas na alçada do Estado. Por outro lado abre-se a porta ao aumento do financiamento direto (contratos de associação) e indireto (cheque ensino) do ensino privado apresentado como panaceia para o insucesso educativo, nunca provada na prática, e sem refletir sobre a despesa que esse mesmo financiamento vai implicar num contexto assumido de contração da procura e diminuição da capacidade de investimento do Estado. Os perigos da criação de um clientelismo oportunista no negócio educativo com efeitos irreversíveis na gestão da fatura pública da educação são demasiados. Já temos PPPs a mais. É de concluir que estas medidas vão sobretudo depender, em termos da sua eficácia financeira, de uma diminuição brutal das remunerações dos professores e de uma concorrência fraticida entre os mesmos. O resultado será sempre uma diminuição da qualidade em que mais uma vez a oferta "prime" vai ficar salvaguardada para aqueles que têm mais recursos.

Para terminar é importante destacar a afirmação de que "queremos, em breve, ter no ensino secundário cerca de 50% dos jovens em ofertas profissionalizantes, que permitam o acesso direto a uma profissão útil e necessária à sociedade, não deixando de permitir o prosseguimento de estudos". Esta afirmação, já feita anteriormente pelo Sr. Ministro da Educação, é particularmente interessante. Por um lado porque estes percursos profissionais são indicados, pelo mesmo ministério, para alunos com reiterado insucesso ou com algum grau de insucesso, caso dos vocacionais e dos profissionais respetivamente. Sendo assim dever-se-á concluir que se pretende atingir os 50% de insucesso, na leitura oficial. Talvez de modo a alterar a estrutura social do país e construir uma força de trabalho barata e qualificada apenas para o trabalho menos intelectual. Esta medida visa claramente aumentar a base da pirâmide social, mantendo o topo bem estreitinho e sempre com os mesmos. Por outro lado a igualdade de oportunidades prevista, porque estes cursos "não deixam de permitir o prosseguimento de estudos", é aniquilada pela criação de critérios injustos e impossíveis de superar como são os exames nacionais para alunos que frequentaram curriculos diferentes ou a construção de "médias" ponderadas que desvalorizam o trabalho prático dos alunos e os colocam em clara desvantagem.

O "Estado Melhor" é, enfim, melhor apenas para alguns. A eficácia é sobretudo no modo como se usa muitos para o benefício de poucos gastando menos. É baseado, pelo menos na educação, em lógicas neo-liberais de concorrência que garantem a reprodução social. Procura-se a diferenciação e a autonomia mas de maneira a permitir que o Estado patrocine o sucesso dos que já o garantiram pela via económica.

Pelas medidas até agora implementadas em dois anos de governação, pela escrita legislativa e pela atuação no controlo e gestão do sistema educativo somos inevitavelmente levados a desconfiar das intenções autonómicas e descentralizadoras do governo. O discurso da descentralização e da autonomia é aqui o alibi para a desresponsabilização política e financeira e para a introdução de uma agenda que pretende privatizar e dividir para reinar.

terça-feira, outubro 29, 2013

Que chatice agora as ciganinhas loiras...

A Europa racista estava com o pito aos pulos. Tinham roubado uma loirinha do seu berço de ouro e encontraram-na na Grécia, pátria de todos os pecados. Esses perigosos e pérfidos ciganos, raça maldita, tinham sequestrado uma filha do sol, uma herdeira da fortuna, enfim, uma ariana.

Porquê? Para vender ou escravizar. A ruindade desta gente, destes morenos itinerantes, não tem limites.

Maria, a tal menina loira, vem-se a saber afinal, é proveniente de uma família cigana búlgara e foi abandonada na Grécia, por onde a família andou. Terá sido abandonada por falta de dinheiro para a sustentar. "Abandonada" a troca de dinheiro ou não, isso é que já não sei.

No Reino Unido, pátria de insossos racistas, a esperança de encontrar Maddie no barracão ao lado do "Anjo loiro", como de pronto chamaram a Maria, contagiou toda a gente. Na Irlanda uma menina cigana foi retirada à familia por ser loira. Só isso. Mais tarde foi devolvida aos pais por se ter provado com teste de ADN que era realmente a filha do casal. Um pouco ao lado, ainda na Irlanda, um pequeno rapaz de 2 anos passou pelo mesmo. Até em Portugal se alinha na farsa monumental. Falava-se, por exemplo, do bando de ciganos que andava a roubar casas por alturas do caso da Maddie. Teriam esses monstros roubado Maddie? Acham coincidência dizerem isso agora? Ciganos? A sério?

O tráfico de crianças existe mas dificilmente se pode atribuir aos ciganos europeus a responsabilidade pelo mesmo. Por outro lado é evidente e preocupante a preferência dada aos casos das meninas loiras e tal seleção, por parte das polícias, da comunicação social e da opinião pública, revela fantasmas nojentos nas velhas consciências europeias.

Não consta, apesar de tudo, que a procura por "anjinhos loiros" para o mercado da pedofilia seja criada por ciganos. Consta inclusive que muitos daqueles senhores, disfarçados de estola e batina, que nos Estados Unidos ou na Polónia comiam crianças ao pequeno almoço, tinham o olhinho azul, também eles.

A minha mãe, quando eu era pequeno, já me dizia, num inocente assomo racista que eu lhe perdoo, "Se não te portas bem vou-te dar aos ciganos!".

Só posso concluir, pelos casos recentes, que a minha tez morena acabou por obrigar os meus pais à difícil tarefa de me educar até ao fim, enfim, até hoje. Tivesse eu o olho azul e o cabelo dourado como as estrelas e quem sabe...

Não há vergonha nesta Europa neo-liberal de gosto ariano. Não há sequer um esforço em disfarçar.

“Todos os paises envolvidos nesta história são da União Europeia. E o caso revela que a Europa não está conciliada com a sua própria realidade. A Europa é diversa, tem todos os tipos de pele e a maioria dos grupos étnicos do mundo, mas percebemos que a realidade sociológica avançou mas que os nossos estereótipos não se adequam à realidade”, afirma o sociólogo Pedro Góis numa excelente reportagem do Público.

Multiplicam-se os getos na Grécia e na Bulgária. Multiplicam-se os getos criados pela austeridade, defendida por todo o lado como a salvação do sistema. Sem pudor criam-se pobres todos os dias em nome da riqueza. Quando a coisa aperta recorre-se ao racismo e à xenofobia para pôr uns pobres contra os outros. É o trabalho das extremas direitas. Foi o que aconteceu em França com a menina cigana Leonarda Dibrani. Filha de um pai Kosovar que se viu obrigado a mentir para ter um país para os seus filhos. Para que estes tivessem um oportunidade.

Com o avanço do desemprego e da pobreza nos países abrangidos por programas de empobrecimento difarçados com o nome de "programas de assistência" os ciganos do futuro são os europeus do sul. São os mais pobres. Esses devem ser mantidos à distância e a trabalhar por um salário pequenino, com poucas mordomias do Estado.

No norte da Europa, onde os naturais usufruem de um generoso e amplo Estado Social, a escravatura laboral aos estrangeiros, mesmo sobre os caucasianos do sul, é algo perfeitamente natural. Para eles somos todos um pouquinho ROMANI, de tez morena e patilha atrevida. É cultural, e tudo se perdoa ao mais rico. A superioridade ariana não é posta em causa. Os arianos do norte são obedientes, organizados, não cospem no chão e respeitam as passadeiras. E são tão bonitinhos... parecem pontinhos de luz. E que grandes? Um orgulho para o Sapiens Sapiens.

Se não refletirmos sobre estes fenómenos racistas e não os denunciarmos situações como estas, como o que aconteceu em França ou o caso da Irlanda, serão cada vez mais frequentes e a pouca réstia de humanidade que temos esfuma-se.

sexta-feira, outubro 25, 2013

Qual guião para qual reforma?

Zombie Love will doom us all
"Zombie Love will doom us all" é uma ilustração em iPad de José António Fundo.

Segundo a TVI, Pedro Passos Coelho terá alterado a agenda do próximo Conselho de Ministros, para incluir a aprovação (tácita) do guião da reforma do Estado apenas depois de o ter anunciado no Parlamento.
Ao que aprece esta medida surpreendeu inclusive alguns ministros que nada sabiam do assunto. As declarações de Passos Coelho no parlamento tresandam a improsivo auto-justificativo.
Este fait-divers revela, apesar de tudo, alguma leviandade e muita irresponsabilidade governativa por parte do Primeiro Ministro. Passos Coelho pretende fazer passar como uma qualquer portaria, sem qualquer tipo de reflexão ou participação pública, uma medida que visa promover uma mudança de regime político e de modelo de administração e assistência aos cidadãos, sem que para isso tenha qualquer mandato eleitoral. O modo leviano como a expressão "reforma do estado" é utilizada pelo governo, na assembleia da república e nas infinitas crónicas nos jornais e na televisão, sem que seja feito qualquer esforço no sentido de gizar um princípio lógico e coerente que a defina, é bem reveladora da mediocridade política em que vivemos. Basta dizer "reforma do estado" e temos panaceia para tudo e mais alguma coisa. 
O povo português alinha no discurso. Em Portugal tudo se aceita. Este centralismo burocrático autoritário de inspiração iluminista está no nosso ADN. O autoritarismo é bem-vindo. É um berço que nos embala num comodismo comovente. Comove a comunidade internacional que se embevece com a nossa obediência suicidária num misto de espanto e troça. Que Deus nos proteja é o que a sociedade portuguesa mais deseja. Até ver nem sinal da salvação divina. Apenas o castigo devido por esta existência ímpia que caracteriza qualquer povo que confia no Estado para o assistir quando precisa.
Passos Coelho acha que tem competência ou mesmo o direito de reformar o que quer que seja. Está enganado.
Se alguma reforma do estado deve haver é no sentido de evitar que aquilo que aconteceu nos últimos dois anos se volte a passar.
É inadmissível imaginar que estes sacrifícios que todos fizemos (bem, uns mais do outros) serviram para absolutamente nada. Serviram para deixar uns cobres nuns bancos geridos por atrasados mentais com fatos caros e deixar a população mais pobre. Dívida gorda, economia anémica e cofres cheios para pagar juros que aumentam à medida que vamos mostrando vontade de os pagar.
Com o argumento único de que os ricos e poderosos devem continuar ricos e poderosos para manter o status quo que a todos nos alimenta, tudo se legitima. Todas as medidas se justificam.
Em junho falava-se de um guião aberto para a reforma. Com a participação de todos. Agora o PM faz caixinha e esconde o que quer fazer. Tipo jogo.
Dificilmente esconde que não faz a mínima ideia do que vai apresentar. Será tudo à pressa e a fingir. Paulo Portas, esse ideólogo da nação, mais uma vez participará na farsa sendo um forte candidato ao prémio do maior contorcionista político da história moderna. 
O governo tem um conceito, isso concedo. O Estado não pode pagar a assistência que atualmente faz às famílias. Mas, por outro lado, pode pagar a empresas privadas para o fazer. Para isso já há dinheiro.
Como na educação, o ministro Nuno Crato não tem dinheiro para a escola pública mas acha que pode dar mais às escolas privadas. Faz sentido. 
As suas secretárias e motoristas ganham mais do que a esmagadora maioria dos professores - essa corja que se arrasta pelo chão dos estabelecimentos de ensino público com a mania que partilham conhecimento ou que promovem algum tipo de evolução. Toda a gente sabe que o sucesso e a eficácia depende sobretudo das secretárias e dos motoristas do governo. O mérito a quem o merece.
A reforma do estado vai ser o toque a rebate para o assalto final ao agora super interessante bolo dos impostos, sobretudo o IRS que aumentou em 30%. Será um real banquete de zombies. Á maneira antiga.
Tudo privatizado, uma alegria! É a solução para todos os problemas. Isso e manter os pobres afastados como se fossem leprosos no séc. XIII. De preferência com sininho e tudo. Em escolas profissionais para operários e funcionários dos serviços. Salários baixos, lucros altos. Uma economia atrofiada mas que garante a manutenção desta ordem social. Cada macaco no seu galho.
A ideia de reformar o estado, que está em permanente reforma para quem ainda não percebeu, não se cumpre num guião escrito por um governo. Muito menos por este governo. Muito menos se reforma o estado em estado de emergência. Esse sentido abrirá as portas a todo o tipo de ideias radicais e emergencialistas.
A sociedade está partida, não há emprego, não há dinheiro a circular na economia. Aqueles que pagam os impostos vêm o seu salário diminuir e aqueles que fogem aos impostos ganham perdões e reduções com o argumento de revitalizar a economia. Só se for a do bolso deles.
Antes de reformar o estado é necessário trocar de governo. Discutir soluções de modo realista e com ideias às claras. Sem boicotes na comunicação social onde os economistas da mesma coisa defendem o indefensável todos os dias à espera do tal gabinete, do motorista e da secretária. Parem a Casa dos Segredos e expliquem como vão viver milhares de famílias sem educação pública de qualidade, saúde pública ou auxílio para a manutenção da sua dignidade e qualidade de vida. E expliquem também quem vai pagar às empresas privadas que querem que assumam essas funções públicas. De onde vem esse dinheiro? Digam-me. E para onde vai?

domingo, setembro 29, 2013

Hoje é dia de ir votar.

A vida é feita de muitas escolhas impossíveis, escolhas difíceis, táticas, arriscadas, corajosas. Mais ou menos inteligentes. Umas por vezes irrefletidas outras apenas mal preparadas. Algumas, dizem, mais vale ser o diabo a fazê-las. Mas uma escolha é sempre melhor do que uma não escolha. Do que uma demissão.

Participar no ato eleitoral de hoje e fazer as várias escolhas que nos propõem, é reivindicar a nossa casa, o nosso poder, muito ou pouco. É dizer que estamos aqui também para cumprir as nossas obrigações, para dizer com quem queremos trabalhar e pensar o futuro. Este país é nosso, não é "deles". Só vão para "lá" se nós quisermos, se nós deixarmos. Hoje a nossa participação vale tanto como a de qualquer outro português. Não há portugueses a valer mais e outros a valer menos. Valemos todos um. Não é todos os dias que isso acontece. Vamos aproveitar e vamos votar.

 

domingo, agosto 25, 2013

Morreu o economista António Borges.

Morreu o economista e conselheiro do governo António Borges.

A morte de alguém é sempre trágica mas não podemos esquecer que António Borges representou o pior que a economia tem para oferecer aos regimes democráticos contemporâneos. As políticas neo-liberais que praticou e defendeu são responsáveis por muita pobreza e infelicidade. O regime neo-liberal deu cabo do país, da Europa, das economias mundiais. A. Borges esteve demasiadas vezes nos centros de poder que orientaram estas políticas. Inclusive no banco de investimentos Goldman-Sachs.

A preocupação exclusiva pelo lucro privado e a crença (não tão inocente quanto isso) de que os mercados tudo nivelam e se auto-regulam provaram ser princípios que levam ao caos económico e beneficiam apenas os que já são ricos. O seu contributo para o país não foi uma mais valia. A sua troça pela pobreza do português comum não deve ser esquecida.

Portugal nada deve ao economista António Borges. Não vamos agora embarcar em agradecimentos porque nada lhe devemos. Portugal não perdeu nenhum intelectual importante, nenhum benfeitor, nenhum artista que tenha acrescentado à nossa riqueza cultural. Perdeu apenas um chefe de fila de um grupo de interesseiros que finge ter ideias globais para atingir objetivos privados e pessoais. Não merece lugar nenhum de destaque.

Infelizmente o poder político vai dizer o contrário e muita gente aparecerá a fazer o elogio do que nunca existiu.

Deve haver respeito pelo ser humano e pela família que com certeza sofre.

Nota: O cartoon desta noticia é uma alteração de um outro desenhado em Outubro de 2012

Para actualizar o post... No meu facebook:
"Os Bombeiros Portugueses que se amanhem. Não merecem condolências dos Portugueses, de acordo com o nosso Presidente.
Já A. Borges merece que o nosso Presidente apresente condolências em nome de todos nós. Está lá escrito "Em nome dos Portugueses e em meu nome pessoal". Pergunto-me se todos os académicos internacionalizados têm direito a este tratamento e se não haverá quem, pelo seu sacrifício para o bem de todos, não merece bem mais esta honra.
Para Cavaco Silva este senhor foi um dos "um dos economistas mais brilhantes da sua geração", sobretudo no modo absolutamente cego como procurou políticas de desregulação dos mercados com os efeitos que se conhecem, acrescento eu.
"Ambicionava um Portugal mais próspero e desenvolvido e nunca desistiu de lutar por esse ideal." Por isso mesmo advogava a diminuição dos salários dos portugueses. Sobretudo dos que já ganham menos. A prosperidade de que fala Cavaco deve ser apenas para aquele circulo de gente que anda a voar à volta do estado como as moscas e depois faz carreira universitária a dizer mal do mesmo.
O que vale é que já estamos habituados..."

quinta-feira, agosto 22, 2013

Eu dava o Nobel da Paz a Manning e a Snowden!

Bradley Manning foi condenado a 35 anos de cadeia, depois de ter passado três anos encarcerado em condições horríveis e com menos direitos do que a maior parte dos prisioneiros que se encontram em Guantanamo. Este jovem militar, com uma consciência e sentido de dever para com a humanidade mais aguçado do que pelos vistos é suposto, é considerado mais perigoso do que a maioria dos "terroristas do Islão" que a trupe de Washington vai mantendo em cativeiro fora de qualquer regime legal.

Edward Snowden está exilado na Rússia. Temporariamente. Arrisca-se a servir de moeda de troca entre um regime corrupto e um outro corruptor. O jornalista Glen Greenwald, do jornal The Guardian, é perseguido e considerado perigoso. Os serviços secretos britânicos prenderam durante 9 horas um amigo do jornalista. Ameaçaram-no e arrancaram-lhe a ferros todas as passwords que abrem a porta à sua intimidade. Retiraram-lhe o direito a qualquer réstia de vida privada. Roubaram-lhe equipamento. Tudo com o argumento legal de que seria suspeito de terrorismo.

Ao mesmo tempo um diretor do The Guardian era intimado a destruir toda a informação que o jornal armazenava proveniente de Snowden. Por ordem direta do governo Inglês. Sem pudor.

A Inglaterra era uma democracia. Um Estado de Direito. Mas agora o Estado de Direito é a desculpa que se usa para se desrespeitar a liberdade do cidadão a torto e a direito.

Passam-se coisas que não devemos saber e que somos proibidos de saber. Coisas que nos dizem respeito. Estão a vigiar-nos. Os tribunais e as leis que conhecemos são uma treta. Há uma outra ordem das coisas, acima de todos nós, que tudo dita e tudo vigia.

O governo português, inclusive, acha legítimo mentir sobre o caso do avião de Evo Morales numa comissão parlamentar. Foi lá Paulo Portas (aquele que não gosta dos partidos por achar que os seus dirigentes são miseráveis) dar desculpas que todos sabem serem mentira.

Mannning e Snowden abriram-nos os olhos ou pelo menos deram-nos provas concretas de que temos realmente razões para nos preocuparmos. São os dois primeiros dissidentes políticos dos regimes pseudo-democráticos ocidentais do séc. XXI, pelo menos os mais mediáticos.

Este estado de coisas advém do facto de os desígnios destes governos terem deixado de ser os desígnios dos seus povos e terem passado a ser os das corporações e dos obscuros interesses privados. Fazem-se guerras a povos inteiros, mata-se gente com drones, tudo por interesses económicos. Noam Chomsky chama a estes estados RECD (Really Existing Capitalist Democracies, que se lê WRECKED, o que em inglês significa estragado ou destruído).

O terrorismo não são só os homens bomba do islão revoltado, também são estes Governos e exércitos a soldo dos interesses que nos trouxeram a esta crise interminável.

A iniciativa de propor Manning e Snowden para o Nobel da Paz é um gesto absolutamente essencial na defesa dos cidadãos europeus e americanos e uma réstia de esperança de que um dia possamos viver uma verdadeira democracia participativa.

 

quinta-feira, agosto 08, 2013

Porta aberta ao cheque-ensino e ao fim da escola pública.

Governo abre a porta ao cheque-ensino no básico e secundário.

Samuel Silva in Público de 8 de agosto de 2013

Aí está ele! Queriam saber porque é que se reduzem turmas nas escolas? Porque se criam exames e regras completamente parvas para acesso ao ensino superior nos cursos profissionalizantes, aqueles que obrigam a ter oficinas e equipamentos nas escolas? Está aí o cheque ensino.

Quer pôr o menino num colégio para fugir à rançosa escola pública? Sem problema, o Estado paga.

Aí está o maior golpe de mestre. O processo pelo qual a educação vai passar a ser um negócio de compra e venda de alunos e diplomas. O estado vai passar a patrocinar as escolas privadas, por via indireta, dando aos pais o dinheiro para gastar nos colégios. As escolas públicas nem sequer entregues a si próprias vão ficar. Isto porque não terão nenhuma autonomia. Número de alunos por turma, número de horas de aulas, número de turmas, autonomia na contratação de professores, currículos e métodos de ensino, tudo definido pelo Ministério.

Só faria verdadeiramente sentido o cheque educação se as escolas públicas tivessem mais autonomia e mesmo aí seria uma má medida educativa e económica. O que prova a irresponsabilidade e as más intenções do ministro Nuno Crato é o facto de vivermos o momento em que mais se centraliza na educação, tudo é decidido, tudo é controlado pelo MEC, muito mais do que alguma vez o foi na história da educação pública. É neste preciso momento que se dá a liberdade às famílias para fugir das más decisões do Ministério. Fuga paga pelo mesmo Ministério que criou as medidas que afugentam.

Esta decisão do cheque ensino não tem volta. Não há retorno desta decisão. Criará um clientelismo empresarial na educação que será impossível de reverter. Vai destruir a carreira docente, esvaziar escolas públicas com milhões em investimento em instalações (posteriormente e oportunamente vendidas ou concessionadas) e vai, com certeza, criar oportunidades de negócio para as novas "Modernas" ou "Lusófonas" mas agora no ensino secundário e patrocinadas pelo Estado, esse mesmo que tem imenso dinheiro para dar.

Como se entende que o mesmo Ministério que quer dar às famílias liberdade de escolha na escola ao mesmo tempo esteja a impor a redução do número de turmas em tantas escolas públicas com alunos já inscritos? Essa liberdade só é válida se for para o privado? Será essa a mensagem de Nuno Crato?

Nuno Crato e o PSD tinham um plano - Acabar com o ensino público e ajudar a pagar os colégios aos que procuram o privado. Vão conseguir porque toda a gente vai achar esta ideia o máximo. Quero ver quando as escolas públicas forem guetos de excluídos sociais como acontece nos países em que estas medidas foram aplicadas e as escolas privadas com a qualidade média de uma pública de hoje forem demasiado caras para a família mais modesta.

Nesse momento estes liberais vão acenar com o mercado e a natural seleção social que este faz como uma inevitabilidade económica e algo que devemos aceitar.

Os exames aos alunos, os exames aos professores, as metas, o aumento do número de alunos por turma, vai tudo conduzir ao mesmo objetivo. O que me entristece é que a sociedade portuguesa vai embarcar nesta catástrofe. Porque o sonho do português é ser rico e as medidas para os ricos vão-nos servir um dia... num futuro de sonho. Continue a jogar no Euromilhões e pode ser que um dia este governo lhe sirva para alguma coisa.

sábado, julho 27, 2013

E se houvesse exames para Ministro?

Nuno Crato não desiste de adoptar medidas más e injustas contra alunos e professores, aliás na senda de muitos dos seus antecessores.

Agora quer o exame para acesso ao exercício da profissão docente. Um exame parecido com o da ordem dos advogados, esse mesmo que está prestes a ser considerado ilegal pelos tribunais.

A ideia nem sequer foi dele, foi de Maria de Lurdes Rodrigues, mas ele gosta. Ele adora exames.

Eu pergunto: Para que servem as Escolas Superiores de Educação? Para que servem as Universidades? Para que servem as centenas de professores do ensino superior que leccionam disciplinas de desenvolvimento curricular, pedagogia, psicologia da educação e afins?

O diploma certificado obtido por cada professor, na sua profissionalização para a docência, reconhecido por Bolonha e pelo próprio MEC - que tutela igualmente o Ensino Superior - não é válido para o mesmo MEC, que o quer substituir por um exame nacional que mais não pode fazer do que avaliar generalidades e ter critérios ambíguos.

Isto porque tal exame, pelo menos na sua componente comum, não obedece a um currículo único, um conjunto de competências e objectivos definidos e universais, trabalhados nos diversos cursos Universitários.

Esse exame não pode avaliar a diversidade de formações entre os professores e entre as diferentes visões da educação veiculadas nas Universidades e tenderá a afunilar essas mesmas formações e competências diversas para responder apenas àquelas perguntas, daquela matriz.

Nunca será eficaz na prova de que o candidato a professor domina as matérias cientificas constantes dos programas das disciplinas, até porque estas são tantas vezes pouco consensuais e demasiado abrangentes. Um grupo disciplinar chega a poder leccionar quatro ou cinco disciplinas diferentes com níveis diferentes.

O exame nunca irá provar nada da capacidade prática do professor em ensinar porque mais não é do que uma prova teórica cega.

O exame não terá impacto na qualidade das escolas porque, para além dos motivos mencionados, se aplica apenas aos professores contratados.

Esta mania de tratar as competências profissionais e educativas dos portugueses como se isto fosse uma linha de montagem tayloriana, que faz parafusos todos iguais, é de uma pobreza intelectual de bradar aos céus. Esta mania de que um exame é um espécie de esfregona moral que tudo limpa e certifica é de um facilitismo organizacional próprio dos maus gestores.

A história do 14 como mínimo é completamente parva porque não representa nenhum grau real de exigência, é mesmo só para inglês ver. Qualquer exame pode ser trabalhado para qualquer nota mínima, a nota pouco representa.

Como não acredito que Nuno Crato seja um menor intelectual só posso deduzir uma coisa: este processo tem por objectivo reduzir o acesso à profissão por via administrativa, a muitos professores, e com isso poupar algum dinheiro.

Mas porquê este processo enviesado?

É simples. Porque quem não é intelectualmente honesto só pode pensar em soluções para os problemas distorcendo os dados dos mesmos problemas. Não consegue ver as mais simples soluções porque parte do princípio de que os outros vigarizam tudo.

São sempre os que dobram as regras aqueles que criam regras mais inflexíveis. Projetam-se naqueles que tutelam.

Nuno Crato não confia em ninguém, não confia nas competências dos alunos e muito menos nas dos professores.

O Ministro não tem de inventar processos paralelos, inúteis e dispendiosos para impor medidas castigadoras aos jovens professores. Ou há vagas ou não há. Tem formação ou não tem. A formação para professor deve estar na alçada das Universidades e a sua avaliação e acreditação também.

Que exame é esse? O que pode ele perguntar? Mesmo depois de ler a proposta de Decreto Regulamentar tenho dificuldade em imaginar.

Posso ainda assim imaginar um exame para Ministro da Educação e as respostas que o Professor Nuno Crato daria às mais simples perguntas.

quarta-feira, julho 24, 2013

And Now for Something Completely The Same!

Depois da exigida remodelação, no governo há caras novas mas ideias velhas.

Mais um do BPN, essa Universidade de Inverno do PSD, desta vez nos Negócios Estrangeiros. É sempre bom para a credibilidade manter homens da confiança de Oliveira e Costa no Governo. Isto para além daquele que mantemos na Presidência... Dá um outro sentimento de estabilidade aos mercados e aos eleitores. Assim temos a certeza de que tudo continuará na mesma.

No ambiente um especialista, mas não estou a ver que interesse Passos Coelho possa ter pelo assunto e um economista fala barato do CDS/PP na Ministério da Economia que vai fazer coisa nenhuma porque nenhuma coisa está planeada para além de cortes, cortes e mais cortes.

Paulo Portas vai ser Vice PM. É uma óptima ideia pôr Portas sem nada que fazer mas com cadeira de camarote a controlar tudo. Será o ministro sem pasta que vai assinar em privado e rejeitar em público. Uma boa medida para quem gosta de ter facas espetadas nas costas, mas enfim...

Hoje vi o Helder Rosalino na RTP e ia jurar que no intervalo do governo plantou mais três cabelos. Acho que ele planta um sempre que garante uns quantos despedimentos na função pública. Ou arranca, confesso que é complicado acompanhar. O objetivo final da reforma na função pública deve ser ficar apenas com os motoristas do governo e uma ama para a criança da Assunção Cristas que vem aí.

Com tudo isto e com a ajuda de Pires de Lima ficaremos a saber que o novo sabor do governo para o Verão é...

Exatamente o mesmo, apenas servido em garrafas da Super Bock!

segunda-feira, julho 22, 2013

"Tudo como dantes no Quartel-General em Abrantes"

Este ditado popular, com raízes nas invasões Napoleónicas, é um símbolo do conformismo e subserviência portuguesa a forças invasoras.

Cavaco Silva é o Presidente que se esforça para manter no governo aqueles que vendem facilmente o país em troca de benefícios desconhecidos. Cavaco está mais preocupado com os rendimentos certos dos senhores dos mercados do que com a qualidade de vida da democracia portuguesa.

Um exemplo. Um senhor do PSD, Pedro Pinto de seu nome, veio hoje afirmar que "dois terços do programa de assistência já foram cumpridos com sucesso e teremos um novo ciclo de ação governativa em que a prioridade é o crescimento económico e o emprego".

Tudo isto é mentira exceto as questões de calendário. É mentira e toda a gente o sabe. Toda a gente sabe que vêm aí mais medidas de austeridade, mas despedimentos, mais desemprego e provavelmente mais impostos ou cortes de vencimento na função pública. Estamos mais perto de um segundo resgate do que de qualquer resquício de sucesso. E, finalmente, estamos muito longe de ter um novo ciclo governativo com os mesmos senhores no governo.

Mas este fulano vem mentir para a televisão porque em Portugal ter vergonha na cara não se usa. Ser mentiroso, desde que se tenha acesso à televisão, é motivo de orgulho para a família. É uma cena política. Funciona.

Passos Coelho acha que "o país precisa de quem não acalente a fantasia de uma súbita e perpétua vontade de o Norte da Europa passar a pagar as nossas dívidas provavelmente para sempre". Parece que estamos a ler algo dito pelo ministro das finanças alemão.

O Primeiro Ministro não está do nosso lado. Está contra nós. Um homem que ainda há uns anos andava com manigâncias a sacar subsídios para cursos de formação fictícios com a ajuda do seu amigo Relvas agora dá lições de moral e de macro-economia.

Não foram os portugueses que inventaram a crise da dívida soberana, que afeta muito mais países, e não se sabe quem pagará o prejuízo da governação de Passos Coelho mas também já se percebeu que o "Norte da Europa" andou a lucrar com a crise do Sul em vez de pagar facturas.

Foi a este tipo de mentalidade que Cavaco nos entregou de mão beijada. A um governo que, dizem, nem ele sabe bem por quem é constituído. Quem é vice ou "czar" da economia ou o raio que o parta.

Este estado de coisas não vai terminar tão cedo e a incompetência governativa vai-nos acompanhar agora "até ao fim da legislatura". Sim,porque aquelas eleições que nos foram prometidas para o ano afinal já não interessam ao Presidente.

Bem vistas as coisas Abebe Selassie e companhia são uma espécie de General Junot e Passos Coelho um D. João amedrontado e resignado. Só lhe falta um dia fugir para o Brasil mas pouco há-de faltar para algo parecido.

"Tudo como dantes, no Quartel-General em Abrantes"

 

sexta-feira, julho 19, 2013

O que se segue agora?

Agora que não há acordo o que se segue? O PSD e o CDS-PP parecem demasiado interessados em cumprir o acordo de entendimento com a Troika. O PS não podia cair na armadilha e aceitar uma não solução que consistia basicamente em aceitar tudo o que o governo quer ou o caos. Nunca houve nenhuma base para apoio realmente proposta pelo Presidente. A possibilidade do acordo partia do princípio da admissão de que a governação tem corrido bem e tem um sentido. Não tem.

Seguro fez um mau discurso na TV. Muito inseguro e a dar razão aos que duvidam de si. Deveria ter sido mais peremptório. Mais duro. Convenhamos que aceitar um acordo seria mau para o país. Seria pior do que deixar cair o que já caiu. Mas apesar de tudo as alternativas deveriam ser mais claras e mais bem comunicadas.

Cavaco criou uma crise sem paralelo e agora, depois de duas piruetas e um mortal, vai voltar a depositar a confiança no Governo. Como se fossemos todos parvos. Vai ficar tudo na mesma e aquela remodelação falhada vai em frente.

Uma das soluções imediatas é o próprio Cavaco renunciar mas estou a delirar. Na melhor das hipóteses foge para as Selvagens.

O interesse suicida em continuar a destruir o país, sem vincar novas posições com a Europa que permitam uma existência económica e social sustentável vai levar ao afundamento financeiro definitivo. Vai levar a uma crise ainda mais profunda.

Agora vem aí um segundo resgate. Provocado pelo primeiro. Pela incompetência dos que gizaram o primeiro. A começar pela Troika e a acabar nos responsáveis portugueses. É estranho, por exemplo, o facto de muitas das imposições da Troika serem fundamentalmente políticas e não necessariamente económicas ou que conduzam a alguma melhoria económica, como é o caso de algumas privatizações em saldo por meia dúzia de trocos. Não é aceitável esse tipo de imposição.

As reformas fazem-se em décadas. Alguns dos compromissos de redução da despesa são políticas que demoram muitos anos a consolidar e não é exequível o plano da Troika que o quer fazer em dois ou três anos. Toda a gente percebe isso.

Se não é exequível então porque se insiste? Que interesse é esse em insistir em algo que é inexequível com tanta vontade?

Essa é a suspeita sobre o Governo. Se o programa não é do interesse do país, porque está visto que não tem efeitos positivos sobre a economia, então é do interesse de quem?

A quem interessa realmente esta austeridade pela qual se luta tanto?

 

quinta-feira, julho 18, 2013

Porque duplicam os lucros do Goldman Sachs em plena crise bancária?

Lloyd Blankfein é o CEO do Goldman Sachs.

A "austeridade" é o processo que os "mercados" inventaram para financiar o lucro dos bancos de investimento como o Goldman Sachs que agora se noticia. Com a ajuda preciosa de clientes e colaboradores, colocados em cargos políticos com grande poder, estes "bancos" vão manipulando as finanças dos países através da especulação sobre os juros da dívida e aproveitando as oportunidades de negócio criadas pelas privatizações dos negócios públicos mais rentáveis. Essas privatizações são impostas por intermédio da chantagem política dos seus agentes colocados por todo o mundo em organismos como o FMI, o BCE, a Comissão Europeia ou mesmo dentro dos governos dos países.

O aumento de impostos e a poupança gerada pelo emagrecimento forçado dos Estados permite o pagamento de juros altíssimos. Esses mesmos juros que nos são vendidos pelos média como resultado da "incapacidade produtiva" dos povos e do demérito das suas economias.

A nossa pobreza financia diretamente a acumulação de capital desta "gente".

O que irrita mais é o facto de os nossos políticos continuarem a promover o enriquecimento destas mega-instituições sem aparente contradição pública dos muitos "especialistas" que vão cuspindo palavras nas TVs e nos jornais.

Nós vivemos acima das nossas possibilidades, eles não.

Os Antónios Borges, os Medinas Carreiras, os Coutos dos Santos, os Gaspares e muitos outros são os porta-voz da limpeza moral que se está a promover via este estrangulamento económico.

Em primeiro lugar convence-se os portugueses, diariamente pelas televisões, de que são uns miseráveis improdutivos. Que vivem acima das suas possibilidades.

Depois desvia-se o dinheiro produto da poupança nos salários e do aumento dos impostos para o pagamento da dívida enorme que se acumula por intermédio do aumento de juros explosivo e por meio da influência política na promoção de negócios ruinosos como foi o caso dos Swaps.

Pior ainda, o prejuízo dos bancos falidos por causa do estrangulamento que os mega-bancos exercem sobre outros mais pequenos ou apenas porque a insustentabilidade do seu negócio é por demais evidente é pago pelos contribuintes.

Perante isto é cómico/trágico o modo como se construiu uma ilusão coletiva que faz de qualquer um ser racional, que se revolta contra este estado corrupto das coisas, um comunista, um criminoso, um despesista desprovido de inteligência.

Tanta burrice travestida de conhecimento só convence os povos menos educados... é o nosso caso.

sábado, julho 13, 2013

O dia em que se ficou a saber que a educação pode mudar o mundo.

Foi o espanto e a agitação geral na assembleia da ONU quando Malala Yousafzai, uma ativista paquistanesa de 16 anos, bloguista, defensora dos direitos humanos e do direito à educação, sobrevivente de um atentado taliban, proferiu a seguinte declaração:

“Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação primeiro.”

Os presentes aplaudiram as palavras mas não muito longe dali as reações foram bem diferentes.

O Goldman & Sachs e o JP Morgan pediram que Malala frequentasse de imediato e compulsivamente um curso organizado pela Reserva Federal para perceber melhor o que pode ou não mudar o mundo. O tipo que criou aquele avião drone bombardeiro de longo alcance que faz tudo sozinho ofereceu-se para fazer uma demonstração a Malala. "Pomos um árabe no meio do deserto com uma caneta e um livro e mandamos o X-47B mostrar-lhe quem pode mudar o mundo" afirmou o engenheiro especializado em armamento.

Em Portugal, ao ver a notícia, Pedro Passos Coelho liga a Aníbal Cavaco Silva de urgência e este diz-lhe que a estabilidade política e dos mercados não pode ser posta em causa por uma garota árabe de 16 anos.

Em resultado foi convocado um Conselho de Ministros extraordinário, na nave central do Mosteiro dos Jerónimos, mas sem a presença de Maria Luís Albuquerque "Vou à faculdade ler uns livros..." e Paulo Portas "Agora não me dava jeito, tou a fazer um sacrifício em nome do estado!".

Miguel Macedo propôs enviar um SMS à Troika com a pergunta:

"Vimos por este meio confirmar se um consultor financeiro, um grupo de investidores de risco, um banco e um daqueles quadros cheios de números e luzes se mantém como o modo oficial de transformar o mundo."

Poiares Maduro defendeu a criação de um Ask.fm do governo para responder às dúvidas dos banqueiros mais aflitos.

Fontes não oficiais revelam que Nuno Crato afirmou durante o Conselho de Ministros que iria ligar para o Paquistão para propor o sistema dual para que nunca mais uma miúda de 16 anos tivesse esse tipo de atrevimento. O Ministro da Educação chegou mesmo a afirmar com segurança "Malala chumbaria no exame de matemática com certeza! Queria vê-la a pagar explicações com uma caneta ou um livro!".

Paula Teixeira da Cruz afirmou indignada "Eu pensava que as gajas árabes não iam à escola!". "Modernices..." retorquiu Assunção Cristas.

Entretanto, ao telefone, Angela Merkel garantiu a Passos Coelho que Malala era amiga de Snowden no Facebook e que por esse motivo todas as verdades que dizia eram por defeito mentiras de acordo com comunicado da Casa Branca. Obama, que estava a ouvir a chamada pelo Prism, acrescentou que tinha provas de que Malala era uma agente infiltrada do Wikileaks porque Assange lhe tinha feito "like" num post.

A Standard & Poor's desceu em dois pontos o rating do Paquistão e classificou como lixo as declarações de jovens activistas na ONU. Os juros da dívida portuguesa aumentaram na sequência desta crise de valores.

 

sexta-feira, julho 12, 2013

O vidente de Belém gosta pouco de democracia.

"[...] Em terceiro lugar, deverá tratar-se de um acordo de médio prazo, que assegure, desde já, que o Governo que resulte das próximas eleições poderá contar com um compromisso entre os três partidos que assegure a governabilidade do País, a sustentabilidade da dívida pública, o controlo das contas externas, a melhoria da competitividade da nossa economia e a criação de emprego.[...]"
Aníbal Cavaco Silva, 10 de julho de 2013

Aníbal Cavaco Silva ou é vidente ou não tem respeito nenhum pelo sentido de voto dos portugueses. Promete convocar eleições legislativas dentro de um ano mas já sabe de antemão que resultado estas vão ter.
Afirmou-o publicamente nas televisões do país. A democracia e a vontade popular está em desuso para os lados de Belém. Esta situação concreta é mais uma prova do golpe de estado que estes mangas de alpaca devotos da religião do dinheiro estão empenhados em levar ao fim. Na Madeira Alberto João, o protegido, pede o estado de emergência e uma nova Constituição numa declaração vergonhosa publicada oficialmente no site do Governo Regional.
Pede-se despudoradamente a suspenção da democracia para que os cidadãos não vetem a espoliação do povo para sanear as contas das instituições financeiras acumuladas por via da especulação.
É inadmissível que seja o Chefe de Estado a mostrar tal desrespeito pela normalidade democrática e pelo escrutínio popular. Quando é para votar a favor da normal aplicação de direitos constitucionais a pessoas com preferências sexuais diferentes a direita portuguesa, economicamente liberal e socialmente conservadora, clama por referendos populares. Quando se trata de eleger um governo já não gosta do voto popular porque os seus interesses económicos e o prolongamento da sua estada no poder não podem ser comprometidos.

quinta-feira, julho 11, 2013

No Cavaquistão quem não manda é o cidadão.

Cavaco Silva habituou-nos à desilusão e à ambiguidade. Ele é a imagem da derrota da nação, do desânimo. O seu rosto inexpressivo e cinzento promove a falta de esperança que as suas palavras parecem querer gravar nos nossos túmulos. E vemos Portugal a parar, a morrer às mãos daquele cinzentismo , daquela falta de imaginação, daquela falta de paixão e falsa austeridade.

Cavaco é uma espécie de Dr. Kevorkian na cabeceira de um Portugal moribundo, depois de um grupo de técnicos medíocres, seus aprendizes, nos ter deixado em coma.

Parece telecomandado por um macaco, de tal modo se apresenta desligado do que diz e o que diz desligado de tudo o resto.

Ninguém o entende porque, mesmo lendo palavras escritas, foi incapaz de criar um sentido inequívoco, uma direção ou uma linha de ação clara e evidente. Com as suas frases mal ditas, mal lidas, mal escritas ficamos a saber menos sobre o futuro do que já sabíamos. Cavaco é também um moralista pragmático. A moral interessa-lhe de ponto de vista do controlo social. Nada de maluquices e pouca participação. Para Cavaco ser presidente é igual a ser dono de um galinheiro industrial. Nós somos as galinhas e ele vai deixando, para que o negócio se mantenha, que as condições do galinheiro fiquem cada vez piores e os frangos vendidos mais baratos. Importante é o negócio, o mercado e fazer feliz a Maria. A salmonela faz parte, assim como o desemprego. Azar.

Tenho olhado para as notícias como quem olha para uma corrida perdida, mas com o desejo tonto, secreto, de um sprint final que nos qualifique para a fase seguinte. À espera da sorte, do talento, mas nada. Neste contexto nada mesmo nos vai salvar.

Nunca mais me esqueço da inevitável desaceleração de Fernando Mamede. Quando tudo podia acontecer e a vitória estava ainda ao seu alcance eis que faltavam as pernas e a cabeça ao corredor português e ele ia parando, devagarinho, enquanto os nossos olhos e punhos cerrados pareciam querer empurra-lo para a frente. Impossível, Mamede desistia.

Aprendemos com Cavaco que não vale a pena esperar, puxar por ele, torcer por uma medida inteligente, na defesa dos portugueses. Nem a esperança vaga e lusa que o talento enorme de Fernando Mamede nos fazia sentir o nosso Presidente nos provoca. Nem isso. Cavaco provoca tudo menos uma emoção.

Depois de o ouvirmos ficamos com a ideia de que não há governo. Que ele não concorda com este mas também não discorda e quer mais do mesmo. Quer ser ele a escolher. Ele e um amigo.

Não sabemos que amigo mas a julgar por alguns deles tenho algum medo. Cavaco sempre andou com más companhias.

Daqui por um ano temos eleições. Mas atenção. Ele já definiu o seu resultado e já decidiu quem irá governar depois delas. Portanto não se desgaste a votar.

A democracia, esse incómodo constitucional que impede o país de ser rico e bem sucedido, tem um valor relativo quando comparado com os mercados ou os interesses dos "investidores".

Nem os seus apoiantes perceberam bem qual é o seu plano. Governo a três? A dois, com o terceiro a olhar? Com promessa de uma perninha, quiçá dois ministérios, em 2014...

Governo de amigos do presidente? Votar é que não porque nós não sabemos escolher e portanto, para nossa defesa, devemos ser afastados da esfera da decisão.

Livrem-nos da vontade popular e da decisão do povo. No Cavaquistão quem manda menos é o cidadão. Mais nada!