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terça-feira, julho 22, 2014

Objetivamente a P.A.C.C. é inútil.

Realiza-se hoje a segunda tentativa/chamada para realizar a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades dos docentes contratados. Quero deixar bem claro que sou totalmente contra a prova. E sou, para além de um conjunto de outras razões políticas, porque a considero inútil essencialmente por dois motivos:
  1. Porque, objetivamente, a prova, pelo tipo de enunciado que apresenta, não certifica as competências profissionais dos docentes, quer ao nível específico das suas áreas, quer ao nível pedagógico, logo não tem repercussões na qualidade de ensino nas escolas.
  2. Porque a contratação de professores pelo Ministério da Educação depende apenas das necessidades das escolas, logo nenhum professor é contratado a mais ou a menos por causa da prova.
Estes são dois motivos objetivos e bastantes para a PACC ser inútil. Ela existe para afrontar os professores e as escolas onde são formados. É uma afronta ao conhecimento científico produzido em Portugal pelas Ciências da Educação e é, em última análise, uma despesa desnecessária para o orçamento da educação, um mau acto de gestão e uma medida que visa a desestabilização do sistema educativo.
Não há qualquer tipo de benefício, direto ou indireto, para os alunos das escolas públicas que resulte da aplicação da PAAC. E esta não é uma questão de opinião, é uma questão objetiva.

 

sábado, janeiro 11, 2014

A imoralidade dos Contratos de Emprego e Inserção

Não podia estar mais de acordo com o Daniel Oliveira sobre os Contratos de Emprego e Inserção.

"Estes desempregados trabalham, no período de um ano, para o Estado e para IPSS, com horários e deveres iguais aos restantes trabalhadores, em troca do subsídio a que já tinham direito e para o qual descontaram. A esse subsídio acresce um complemento de 20% do Indexante de Apoios Sociais, pago pela "entidade promotora" (assim é chamado o empregador), o que corresponde a 83 euros por mês, mais subsídio de transporte e alimentação. Sendo que a tal "bolsa mensal" de 83 euros é, quando as instituições "promotoras" são privadas, paga em 50% pelo Estado. No caso da CEI+ a responsabilidade financeira do Instituto de Emprego e Formação Profissional é de 90% e o trabalho é pago pelo valor total de 419 euros (correspondendo ao total do Indexante de Apoios Sociais). O que significa que o Estado e IPSS (que são apenas responsáveis pelo pagamento de 42 euros) contratam trabalhadores a tempo inteiro a receber abaixo do Salário Mínimo Nacional."

Já em 2012, neste mesmo blog, me tinha insurgido contra um texto de Rui Rio onde era glorificado o seu programa de ocupação de beneficiários do Rendimento Social de Inserção, qualificando-o eu na altura como imoral e ilegítimo.

Como subdiretor de uma escola pública que se vê obrigada a recorrer a Contratos de Emprego e Inserção para ter o serviço a funcionar normalmente, posso afirmar que estes trabalhadores demonstram, na maioria dos casos, uma inexcedível dedicação ao trabalho e à organização e se tornam muitas vezes absolutamente imprescindíveis ao fim de um ano. Trabalhadores que sabem que não terão nunca um vínculo à organização. Nada. É generosidade e capacidade de trabalho em estado puro.

Temos alguns trabalhadores na Soares dos Reis nesta situação. Os que não se dedicam tanto ao trabalho na escola é sempre porque percebem o lado perverso do programa e não porque sejam maus trabalhadores.

Os serviços da escola, tanto na área administrativa como na dos assistentes operacionais, têm uma falta de funcionários crónica, grave, e o problema é "tapado com a peneira" dos CEI ano após ano. Sem reflexão da tutela, sem abertura de lugares para contrato e sem qualquer tipo de verificação real por parte dos gestores do programa nos centros de emprego e nos serviços centrais da tutela para comprovar sequer a necessidade do posto de trabalho. Ninguém faz nada e todos aceitam esta ilegalidade. A escola está de mãos atadas. É ter CEIs ou fechar a porta.

Os centros de emprego exercem esta política com um sadismo e perversão ainda mais acentuados porque, mantendo o serviço a mesma necessidade no ano seguinte, proíbem a manutenção do trabalhador que desempenhou bem a função no mesmo posto de trabalho para o programa seguinte. Mesmo quando o trabalhador quer ficar e o serviço o QUER MANTER obrigam à rotação. O argumento prende-se com o cumprimento da lei que implica que os postos de trabalho ocupados nos programas não sejam de caráter permanente. Na verdade os programas são aprovados ano após ano e compreendem necessidades permanentes. Este cumprimento austero do programa, apenas para um dos lados, é prejudicial a todos e não é ponderado. Para que o trabalhador não se acomode sacrifica-se o serviço público e a função específica do posto de trabalho. É um processo de pressão e de depressão imposta ao trabalhador para que este se sinta indefeso e dependente dos serviços do centro de emprego.

Isto tudo para além da profunda imoralidade da coisa, do sistema de remuneração e do modelo de contratação como, MUITO BEM, referiu o Daniel Oliveira no seu texto.

Estes trabalhadores merecem um contrato de trabalho. Merecem condições justas de remuneração para as funções que exercem e merecem manter o posto de trabalho quando, havendo necessidade, o serviço os quer manter.

Quem não defender isto vale tanto como um qualquer latifundiário do sul da América na primeira metade do séc. XIX. E acreditem que, a ver pelos comentários a esta notícia no Expresso, temos muitos Calvin Candies no armário cá em Portugal.

Os CEI representam o imaginário utilitarista e desumano de gente como o futuro comissário europeu Paulo Portas. Mas apesar de ser esta uma das medidas que ele sempre reivindicou foram os socialistas a implementar pela primeira vez (julgo não estar errado). Serve isto para comprovar o estado de alienação e infiltração das ideias neo-liberais desumanas na sociedade portuguesa.

Flexibilidade máxima, segurança mínima e dependência burocrática centralista. Trabalho mal pago e pago com os direitos do próprio trabalhador o que é tão grave como obrigar a trabalhar um reformado pelo valor da pensão e tomar esse valor como um salário justo. Sem perspectiva de ver o seu mérito e esforço reconhecidos e sendo pago pelos seus próprios descontos esta solução moderna de engajar trabalhadores é uma solução muito pouco ética e que deveria ser considerada inconstitucional.

Os CEI não são empregos falsos, inventados, como querem imaginar os conservadores delirantes de má consciência mas de sono pesado. São necessidades levantadas pelos gestores dos serviços públicos para vagas quase sempre permanentes (o que é manifestamente ilegal mas é ignorado pelos serviços centrais e pelo governo). Viver bem com esta situação é não ter um pingo de ética ou humanidade. É um defeito de caráter. Não reconhecer isto é pura e simplesmente ser ignorante. Não podemos continuar a aceitar que o Estado trate o desempregado como alguém que merece um castigo, como um condenado do utilitarismo meritocrático do moderno mercado do trabalho.

Não esqueçamos que boa parte dos nossos governantes, deputados e demais moscas, devem os seus rendimentos e postos de trabalho apenas ao cartão do partido e à militância mais ou menos acrítica em favor dos seus financiadores e clientes de favores. Não há mérito nem conhecimento envolvidos no processo. Há sobretudo falta de pudor.

Os Contratos de Emprego e Inserção são um regime de escravatura e devem ser denunciados.

 

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Crato o dominador ou o prazer lusitano da submissão.

A tradição centralista, conservadora e de submissão normativa tende, na cultura portuguesa, a naturalizar tanto as más como as boas práticas de modo indiferenciado. Basta, para o efeito que estejam devidamente normatizadas. A distância temporal e ideológica aos conceitos que estão na base de uma norma vão provocando uma deterioração na interpretação do seu cumprimento, tornando-se este um formalismo sem sentido e com objetivos e/ou resultados que podem, em última análise, ser contrários ao seu princípio inicial.

Tudo isto para dizer que, infelizmente, dentro de poucos anos a prova de acesso à carreira será romaria habitual para carneiros docentes enviados ao sacrifício.

A sociedade portuguesa adulta é pouco escolarizada, fruto de uma democracia pouco participativa e tardia. Sem sentido crítico vai aplaudindo estes laivos de Estado Novo revisitado. Exige-se sobre o outro o que não se exige a si próprio. Dificulta-se a vida ao mais novo com o falso argumento da eterna e infinita deterioração do ADN. Os mais jovens são sempre piores do que as gerações anteriores. Em tudo. "Antigamente é que era bom" como dizia o graffiti na parede da escola.

Agora que uns "moderados" venderam barato a dignidade dos jovens licenciados que estudaram para ser professores, o caminho está aberto a este processo de "naturalização" da prova. O ministro tem uma vitória entregue numa bandeja. O mesmo ministro que chama "pacote de medidas" a atirar exames para cima de qualquer problema. Um ministro de um governo chefiado por um mau aluno, um economista medíocre, sem currículo que não seja sacar uns subsídios numa empresa de formação que nunca deu formação a ninguém. O governo do Relvas. O governo que era dos técnicos geniais, os mesmos que já foram substituídos pelos lacaios partidários.

A mediocridade do governo, do ministro, das suas medidas, são fruto de uma naturalização da incompetência que o povo português aceita com facilidade.

Por isso, daqui por uns anos, em dezembro, haverá a habitual romaria dos contratados à prova de acesso à profissão docente e as escolas de professores ensinarão para a resolução dos problemas da prova, em vez de se debruçarem sobre o currículo ou sobre a pedagogia e a aprendizagem.

O sadismo insano de Nuno Crato, sobre os professores ou sobre os alunos, é visto como uma autoridade produtiva e necessária por um Portugal que cheira a mofo e bolas de naftalina e é patologicamente submisso. A FNE deu voz a esse Portugal e deu uma saída ao ministro que, sem oposição, vai paulatinamente destruindo a educação portuguesa.

 

Crato dominatrix ou o prazer lusitano da submissão.

A tradição centralista, conservadora e de submissão normativa tende, na cultura portuguesa, a naturalizar tanto as más como as boas práticas de modo indiferenciado. Basta, para o efeito que estejam devidamente normatizadas. A distância temporal e ideológica aos conceitos que estão na base de uma norma vão provocando uma deterioração na interpretação do seu cumprimento, tornando-se este um formalismo sem sentido e com objetivos e/ou resultados que podem, em última análise, ser contrários ao seu princípio inicial.

Tudo isto para dizer que, infelizmente, dentro de poucos anos a prova de acesso à carreira será romaria habitual para carneiros docentes enviados ao sacrifício.

A sociedade portuguesa adulta é pouco escolarizada, fruto de uma democracia pouco participativa e tardia. Sem sentido crítico vai aplaudindo estes laivos de Estado Novo revisitado. Exige-se sobre o outro o que não se exige a si próprio. Dificulta-se a vida ao mais novo com o falso argumento da eterna e infinita deterioração do ADN. Os mais jovens são sempre piores do que as gerações anteriores. Em tudo. "Antigamente é que era bom" como dizia o graffiti na parede da escola.

Agora que uns "moderados" venderam barato a dignidade dos jovens licenciados que estudaram para ser professores, o caminho está aberto a este processo de "naturalização" da prova. O ministro tem uma vitória entregue numa bandeja. O mesmo ministro que chama "pacote de medidas" a atirar exames para cima de qualquer problema. Um ministro de um governo chefiado por um mau aluno, um economista medíocre, sem currículo que não seja sacar uns subsídios numa empresa de formação que nunca deu formação a ninguém. O governo do Relvas. O governo que era dos técnicos geniais, os mesmos que já foram substituídos pelos lacaios partidários.

A mediocridade do governo, do ministro, das suas medidas, são fruto de uma naturalização da incompetência que o povo português aceita com facilidade.

Por isso, daqui por uns anos, em dezembro, haverá a habitual romaria dos contratados à prova de acesso à profissão docente e as escolas de professores ensinarão para a resolução dos problemas da prova, em vez de se debruçarem sobre o currículo ou sobre a pedagogia e a aprendizagem.

O sadismo insano de Nuno Crato, sobre os professores ou sobre os alunos, é visto como uma autoridade produtiva e necessária por um Portugal que cheira a mofo e bolas de naftalina e é patologicamente submisso. A FNE deu voz a esse Portugal e deu uma saída ao ministro que, sem oposição, vai paulatinamente destruindo a educação portuguesa.

 

sexta-feira, novembro 01, 2013

A Reforma do Estado e a Educação. (um rascunho)


"Reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor no novo estatuto do aluno. Concluíu-se um regime descentralizado de gestão escolar e a rede escolar teve de ser reordenada, tendo em conta as contingências demográficas e territoriais. Fez-se uma opção pública pela exigência, com a instituição de exames nacionais no final dos ciclos escolares, reforço do Português e da Matemática nos currículos e densificação nas metas curriculares." (Documento "Um Estado Melhor" p. 33) Descarregue neste link a totalidade do documento.

Alguém consegue detetar a incoerência?

Se "reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor" e se se concluiu "um regime descentralizado de gestão" acho curioso que no âmbito de tanta autonomia e descentralização se tenha tomado a opção "pública" pela "qualidade" para todo o sistema assente em medidas centralizadoras. Medidas como mais "exames nacionais", leram bem "nacionais", ou seja de conceção e execução centralizada, em ciclos iniciais do ensino e também o "reforço do Português e da Matemática nos currículos" igual para todo o país, sem olhar às especificidades dos teritórios educativos e das escolas. Ainda mais interessante é o conceito de "densificação nas metas curriculares". Muito bem aplicada o conceito de "densificação" porque se trata sobretudo de densificar e não de melhorar. Foram também essas metas decididas pelo Ministério de modo absolutamente centralizado. Se existe autonomia não é com certeza curricular ou na organização do processo ensino-aprendizagem.

Quer isto dizer que as políticas educativas do Estado, e deste governo em particular, anunciam e proclamam uma autonomia para depois tomarem decisões centralizadas, normatizando a diversidade educativa e esmagando as diferenças e especificidades num enorme almofariz burocrático. O argumento da qualidade, medida em unidades universais, não respeita nenhum tipo de diferenciação e homogeniza as soluções.

Hoje as escolas não têm autonomia para coisa nenhuma. Têm menos do que alguma vez tiveram. Currículos, organização do ano letivo, número de turmas, número de alunos por turma, tipos de cursos, professores, apoios, educação especial, funcionários ou até o refeitório. Para tudo isto existem plataformas com caixinhas onde os números devem encaixar e para tudo isto existem normas burocráticas a cumprir. As inspeções atentam ao cumprimento da lei e só isso, e não à satisfação e ao sucesso dos alunos.

O cumprimento de algumas destas normas tem sido, historicamente, desvalorizado pelas escolas. O controlo do Estado era fraco e assente sobretudo na leitura de resmas de papéis. O exercício de uma autonomia clandestina fez e faz ainda parte da vida das escolas portuguesas que foram encontrando soluções para problemas que fugiam à uniformidade das normas.

Hoje a implementação de um controlo apertado e implacável com recurso a multiplas aplicações informáticas, programadas para o normativismo, obriga ao cumprimento das normas e revela, em última análise, a impossibilidade prática do seu cumprimento por todos.

 

O documento "Um Estado Melhor" apresentado como um guião para a reforma do Estado faz um conjunto de propostas para a educação que merecem reflexão atenta e separada. É interessante realçar a preferência por modelos de gestão contratualizados, seja com as autarquias, com grupos de professores ou empresas privadas, numa lógica descentralizadora mas sempre enquadrada por conceitos de competitividade e concorrência profundamente perversos. Dizer que a "qualidade do ensino é um fator de concorrência saudável entre municípios" é aceitar a ideia de uma luta comercial por melhores alunos ou por melhores escolas em que os que ficam a perder ficam irremediavelmente para trás. No contexto dos territórios educativos parece-me completamente desadequada esta afirmação. Em educação a "concorrência" promove a exclusão social e a reprodução social. Os mais fortes, que é o mesmo que dizer os mais ricos, não deixam nunca de ganhar neste jogo viciado da "concorrência".

Neste sentido toda a lógica da proposta do governo assenta em pressupostos invertidos. De que é necessário, para gerir melhor, descentralizar e contratualizar mas que por outro lado para aumentar a qualidade é necessário centralizar os modelos de avaliação e densificar os currículos.

A autonomia que se promove é sobretudo a da responsabilidade jurídica e financeira e não a curricular, nas escolas na alçada do Estado. Por outro lado abre-se a porta ao aumento do financiamento direto (contratos de associação) e indireto (cheque ensino) do ensino privado apresentado como panaceia para o insucesso educativo, nunca provada na prática, e sem refletir sobre a despesa que esse mesmo financiamento vai implicar num contexto assumido de contração da procura e diminuição da capacidade de investimento do Estado. Os perigos da criação de um clientelismo oportunista no negócio educativo com efeitos irreversíveis na gestão da fatura pública da educação são demasiados. Já temos PPPs a mais. É de concluir que estas medidas vão sobretudo depender, em termos da sua eficácia financeira, de uma diminuição brutal das remunerações dos professores e de uma concorrência fraticida entre os mesmos. O resultado será sempre uma diminuição da qualidade em que mais uma vez a oferta "prime" vai ficar salvaguardada para aqueles que têm mais recursos.

Para terminar é importante destacar a afirmação de que "queremos, em breve, ter no ensino secundário cerca de 50% dos jovens em ofertas profissionalizantes, que permitam o acesso direto a uma profissão útil e necessária à sociedade, não deixando de permitir o prosseguimento de estudos". Esta afirmação, já feita anteriormente pelo Sr. Ministro da Educação, é particularmente interessante. Por um lado porque estes percursos profissionais são indicados, pelo mesmo ministério, para alunos com reiterado insucesso ou com algum grau de insucesso, caso dos vocacionais e dos profissionais respetivamente. Sendo assim dever-se-á concluir que se pretende atingir os 50% de insucesso, na leitura oficial. Talvez de modo a alterar a estrutura social do país e construir uma força de trabalho barata e qualificada apenas para o trabalho menos intelectual. Esta medida visa claramente aumentar a base da pirâmide social, mantendo o topo bem estreitinho e sempre com os mesmos. Por outro lado a igualdade de oportunidades prevista, porque estes cursos "não deixam de permitir o prosseguimento de estudos", é aniquilada pela criação de critérios injustos e impossíveis de superar como são os exames nacionais para alunos que frequentaram curriculos diferentes ou a construção de "médias" ponderadas que desvalorizam o trabalho prático dos alunos e os colocam em clara desvantagem.

O "Estado Melhor" é, enfim, melhor apenas para alguns. A eficácia é sobretudo no modo como se usa muitos para o benefício de poucos gastando menos. É baseado, pelo menos na educação, em lógicas neo-liberais de concorrência que garantem a reprodução social. Procura-se a diferenciação e a autonomia mas de maneira a permitir que o Estado patrocine o sucesso dos que já o garantiram pela via económica.

Pelas medidas até agora implementadas em dois anos de governação, pela escrita legislativa e pela atuação no controlo e gestão do sistema educativo somos inevitavelmente levados a desconfiar das intenções autonómicas e descentralizadoras do governo. O discurso da descentralização e da autonomia é aqui o alibi para a desresponsabilização política e financeira e para a introdução de uma agenda que pretende privatizar e dividir para reinar.

domingo, agosto 25, 2013

Morreu o economista António Borges.

Morreu o economista e conselheiro do governo António Borges.

A morte de alguém é sempre trágica mas não podemos esquecer que António Borges representou o pior que a economia tem para oferecer aos regimes democráticos contemporâneos. As políticas neo-liberais que praticou e defendeu são responsáveis por muita pobreza e infelicidade. O regime neo-liberal deu cabo do país, da Europa, das economias mundiais. A. Borges esteve demasiadas vezes nos centros de poder que orientaram estas políticas. Inclusive no banco de investimentos Goldman-Sachs.

A preocupação exclusiva pelo lucro privado e a crença (não tão inocente quanto isso) de que os mercados tudo nivelam e se auto-regulam provaram ser princípios que levam ao caos económico e beneficiam apenas os que já são ricos. O seu contributo para o país não foi uma mais valia. A sua troça pela pobreza do português comum não deve ser esquecida.

Portugal nada deve ao economista António Borges. Não vamos agora embarcar em agradecimentos porque nada lhe devemos. Portugal não perdeu nenhum intelectual importante, nenhum benfeitor, nenhum artista que tenha acrescentado à nossa riqueza cultural. Perdeu apenas um chefe de fila de um grupo de interesseiros que finge ter ideias globais para atingir objetivos privados e pessoais. Não merece lugar nenhum de destaque.

Infelizmente o poder político vai dizer o contrário e muita gente aparecerá a fazer o elogio do que nunca existiu.

Deve haver respeito pelo ser humano e pela família que com certeza sofre.

Nota: O cartoon desta noticia é uma alteração de um outro desenhado em Outubro de 2012

Para actualizar o post... No meu facebook:
"Os Bombeiros Portugueses que se amanhem. Não merecem condolências dos Portugueses, de acordo com o nosso Presidente.
Já A. Borges merece que o nosso Presidente apresente condolências em nome de todos nós. Está lá escrito "Em nome dos Portugueses e em meu nome pessoal". Pergunto-me se todos os académicos internacionalizados têm direito a este tratamento e se não haverá quem, pelo seu sacrifício para o bem de todos, não merece bem mais esta honra.
Para Cavaco Silva este senhor foi um dos "um dos economistas mais brilhantes da sua geração", sobretudo no modo absolutamente cego como procurou políticas de desregulação dos mercados com os efeitos que se conhecem, acrescento eu.
"Ambicionava um Portugal mais próspero e desenvolvido e nunca desistiu de lutar por esse ideal." Por isso mesmo advogava a diminuição dos salários dos portugueses. Sobretudo dos que já ganham menos. A prosperidade de que fala Cavaco deve ser apenas para aquele circulo de gente que anda a voar à volta do estado como as moscas e depois faz carreira universitária a dizer mal do mesmo.
O que vale é que já estamos habituados..."

quinta-feira, agosto 08, 2013

Porta aberta ao cheque-ensino e ao fim da escola pública.

Governo abre a porta ao cheque-ensino no básico e secundário.

Samuel Silva in Público de 8 de agosto de 2013

Aí está ele! Queriam saber porque é que se reduzem turmas nas escolas? Porque se criam exames e regras completamente parvas para acesso ao ensino superior nos cursos profissionalizantes, aqueles que obrigam a ter oficinas e equipamentos nas escolas? Está aí o cheque ensino.

Quer pôr o menino num colégio para fugir à rançosa escola pública? Sem problema, o Estado paga.

Aí está o maior golpe de mestre. O processo pelo qual a educação vai passar a ser um negócio de compra e venda de alunos e diplomas. O estado vai passar a patrocinar as escolas privadas, por via indireta, dando aos pais o dinheiro para gastar nos colégios. As escolas públicas nem sequer entregues a si próprias vão ficar. Isto porque não terão nenhuma autonomia. Número de alunos por turma, número de horas de aulas, número de turmas, autonomia na contratação de professores, currículos e métodos de ensino, tudo definido pelo Ministério.

Só faria verdadeiramente sentido o cheque educação se as escolas públicas tivessem mais autonomia e mesmo aí seria uma má medida educativa e económica. O que prova a irresponsabilidade e as más intenções do ministro Nuno Crato é o facto de vivermos o momento em que mais se centraliza na educação, tudo é decidido, tudo é controlado pelo MEC, muito mais do que alguma vez o foi na história da educação pública. É neste preciso momento que se dá a liberdade às famílias para fugir das más decisões do Ministério. Fuga paga pelo mesmo Ministério que criou as medidas que afugentam.

Esta decisão do cheque ensino não tem volta. Não há retorno desta decisão. Criará um clientelismo empresarial na educação que será impossível de reverter. Vai destruir a carreira docente, esvaziar escolas públicas com milhões em investimento em instalações (posteriormente e oportunamente vendidas ou concessionadas) e vai, com certeza, criar oportunidades de negócio para as novas "Modernas" ou "Lusófonas" mas agora no ensino secundário e patrocinadas pelo Estado, esse mesmo que tem imenso dinheiro para dar.

Como se entende que o mesmo Ministério que quer dar às famílias liberdade de escolha na escola ao mesmo tempo esteja a impor a redução do número de turmas em tantas escolas públicas com alunos já inscritos? Essa liberdade só é válida se for para o privado? Será essa a mensagem de Nuno Crato?

Nuno Crato e o PSD tinham um plano - Acabar com o ensino público e ajudar a pagar os colégios aos que procuram o privado. Vão conseguir porque toda a gente vai achar esta ideia o máximo. Quero ver quando as escolas públicas forem guetos de excluídos sociais como acontece nos países em que estas medidas foram aplicadas e as escolas privadas com a qualidade média de uma pública de hoje forem demasiado caras para a família mais modesta.

Nesse momento estes liberais vão acenar com o mercado e a natural seleção social que este faz como uma inevitabilidade económica e algo que devemos aceitar.

Os exames aos alunos, os exames aos professores, as metas, o aumento do número de alunos por turma, vai tudo conduzir ao mesmo objetivo. O que me entristece é que a sociedade portuguesa vai embarcar nesta catástrofe. Porque o sonho do português é ser rico e as medidas para os ricos vão-nos servir um dia... num futuro de sonho. Continue a jogar no Euromilhões e pode ser que um dia este governo lhe sirva para alguma coisa.

quarta-feira, julho 24, 2013

And Now for Something Completely The Same!

Depois da exigida remodelação, no governo há caras novas mas ideias velhas.

Mais um do BPN, essa Universidade de Inverno do PSD, desta vez nos Negócios Estrangeiros. É sempre bom para a credibilidade manter homens da confiança de Oliveira e Costa no Governo. Isto para além daquele que mantemos na Presidência... Dá um outro sentimento de estabilidade aos mercados e aos eleitores. Assim temos a certeza de que tudo continuará na mesma.

No ambiente um especialista, mas não estou a ver que interesse Passos Coelho possa ter pelo assunto e um economista fala barato do CDS/PP na Ministério da Economia que vai fazer coisa nenhuma porque nenhuma coisa está planeada para além de cortes, cortes e mais cortes.

Paulo Portas vai ser Vice PM. É uma óptima ideia pôr Portas sem nada que fazer mas com cadeira de camarote a controlar tudo. Será o ministro sem pasta que vai assinar em privado e rejeitar em público. Uma boa medida para quem gosta de ter facas espetadas nas costas, mas enfim...

Hoje vi o Helder Rosalino na RTP e ia jurar que no intervalo do governo plantou mais três cabelos. Acho que ele planta um sempre que garante uns quantos despedimentos na função pública. Ou arranca, confesso que é complicado acompanhar. O objetivo final da reforma na função pública deve ser ficar apenas com os motoristas do governo e uma ama para a criança da Assunção Cristas que vem aí.

Com tudo isto e com a ajuda de Pires de Lima ficaremos a saber que o novo sabor do governo para o Verão é...

Exatamente o mesmo, apenas servido em garrafas da Super Bock!

segunda-feira, julho 22, 2013

"Tudo como dantes no Quartel-General em Abrantes"

Este ditado popular, com raízes nas invasões Napoleónicas, é um símbolo do conformismo e subserviência portuguesa a forças invasoras.

Cavaco Silva é o Presidente que se esforça para manter no governo aqueles que vendem facilmente o país em troca de benefícios desconhecidos. Cavaco está mais preocupado com os rendimentos certos dos senhores dos mercados do que com a qualidade de vida da democracia portuguesa.

Um exemplo. Um senhor do PSD, Pedro Pinto de seu nome, veio hoje afirmar que "dois terços do programa de assistência já foram cumpridos com sucesso e teremos um novo ciclo de ação governativa em que a prioridade é o crescimento económico e o emprego".

Tudo isto é mentira exceto as questões de calendário. É mentira e toda a gente o sabe. Toda a gente sabe que vêm aí mais medidas de austeridade, mas despedimentos, mais desemprego e provavelmente mais impostos ou cortes de vencimento na função pública. Estamos mais perto de um segundo resgate do que de qualquer resquício de sucesso. E, finalmente, estamos muito longe de ter um novo ciclo governativo com os mesmos senhores no governo.

Mas este fulano vem mentir para a televisão porque em Portugal ter vergonha na cara não se usa. Ser mentiroso, desde que se tenha acesso à televisão, é motivo de orgulho para a família. É uma cena política. Funciona.

Passos Coelho acha que "o país precisa de quem não acalente a fantasia de uma súbita e perpétua vontade de o Norte da Europa passar a pagar as nossas dívidas provavelmente para sempre". Parece que estamos a ler algo dito pelo ministro das finanças alemão.

O Primeiro Ministro não está do nosso lado. Está contra nós. Um homem que ainda há uns anos andava com manigâncias a sacar subsídios para cursos de formação fictícios com a ajuda do seu amigo Relvas agora dá lições de moral e de macro-economia.

Não foram os portugueses que inventaram a crise da dívida soberana, que afeta muito mais países, e não se sabe quem pagará o prejuízo da governação de Passos Coelho mas também já se percebeu que o "Norte da Europa" andou a lucrar com a crise do Sul em vez de pagar facturas.

Foi a este tipo de mentalidade que Cavaco nos entregou de mão beijada. A um governo que, dizem, nem ele sabe bem por quem é constituído. Quem é vice ou "czar" da economia ou o raio que o parta.

Este estado de coisas não vai terminar tão cedo e a incompetência governativa vai-nos acompanhar agora "até ao fim da legislatura". Sim,porque aquelas eleições que nos foram prometidas para o ano afinal já não interessam ao Presidente.

Bem vistas as coisas Abebe Selassie e companhia são uma espécie de General Junot e Passos Coelho um D. João amedrontado e resignado. Só lhe falta um dia fugir para o Brasil mas pouco há-de faltar para algo parecido.

"Tudo como dantes, no Quartel-General em Abrantes"

 

sexta-feira, julho 19, 2013

O que se segue agora?

Agora que não há acordo o que se segue? O PSD e o CDS-PP parecem demasiado interessados em cumprir o acordo de entendimento com a Troika. O PS não podia cair na armadilha e aceitar uma não solução que consistia basicamente em aceitar tudo o que o governo quer ou o caos. Nunca houve nenhuma base para apoio realmente proposta pelo Presidente. A possibilidade do acordo partia do princípio da admissão de que a governação tem corrido bem e tem um sentido. Não tem.

Seguro fez um mau discurso na TV. Muito inseguro e a dar razão aos que duvidam de si. Deveria ter sido mais peremptório. Mais duro. Convenhamos que aceitar um acordo seria mau para o país. Seria pior do que deixar cair o que já caiu. Mas apesar de tudo as alternativas deveriam ser mais claras e mais bem comunicadas.

Cavaco criou uma crise sem paralelo e agora, depois de duas piruetas e um mortal, vai voltar a depositar a confiança no Governo. Como se fossemos todos parvos. Vai ficar tudo na mesma e aquela remodelação falhada vai em frente.

Uma das soluções imediatas é o próprio Cavaco renunciar mas estou a delirar. Na melhor das hipóteses foge para as Selvagens.

O interesse suicida em continuar a destruir o país, sem vincar novas posições com a Europa que permitam uma existência económica e social sustentável vai levar ao afundamento financeiro definitivo. Vai levar a uma crise ainda mais profunda.

Agora vem aí um segundo resgate. Provocado pelo primeiro. Pela incompetência dos que gizaram o primeiro. A começar pela Troika e a acabar nos responsáveis portugueses. É estranho, por exemplo, o facto de muitas das imposições da Troika serem fundamentalmente políticas e não necessariamente económicas ou que conduzam a alguma melhoria económica, como é o caso de algumas privatizações em saldo por meia dúzia de trocos. Não é aceitável esse tipo de imposição.

As reformas fazem-se em décadas. Alguns dos compromissos de redução da despesa são políticas que demoram muitos anos a consolidar e não é exequível o plano da Troika que o quer fazer em dois ou três anos. Toda a gente percebe isso.

Se não é exequível então porque se insiste? Que interesse é esse em insistir em algo que é inexequível com tanta vontade?

Essa é a suspeita sobre o Governo. Se o programa não é do interesse do país, porque está visto que não tem efeitos positivos sobre a economia, então é do interesse de quem?

A quem interessa realmente esta austeridade pela qual se luta tanto?

 

sábado, julho 13, 2013

O dia em que se ficou a saber que a educação pode mudar o mundo.

Foi o espanto e a agitação geral na assembleia da ONU quando Malala Yousafzai, uma ativista paquistanesa de 16 anos, bloguista, defensora dos direitos humanos e do direito à educação, sobrevivente de um atentado taliban, proferiu a seguinte declaração:

“Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação primeiro.”

Os presentes aplaudiram as palavras mas não muito longe dali as reações foram bem diferentes.

O Goldman & Sachs e o JP Morgan pediram que Malala frequentasse de imediato e compulsivamente um curso organizado pela Reserva Federal para perceber melhor o que pode ou não mudar o mundo. O tipo que criou aquele avião drone bombardeiro de longo alcance que faz tudo sozinho ofereceu-se para fazer uma demonstração a Malala. "Pomos um árabe no meio do deserto com uma caneta e um livro e mandamos o X-47B mostrar-lhe quem pode mudar o mundo" afirmou o engenheiro especializado em armamento.

Em Portugal, ao ver a notícia, Pedro Passos Coelho liga a Aníbal Cavaco Silva de urgência e este diz-lhe que a estabilidade política e dos mercados não pode ser posta em causa por uma garota árabe de 16 anos.

Em resultado foi convocado um Conselho de Ministros extraordinário, na nave central do Mosteiro dos Jerónimos, mas sem a presença de Maria Luís Albuquerque "Vou à faculdade ler uns livros..." e Paulo Portas "Agora não me dava jeito, tou a fazer um sacrifício em nome do estado!".

Miguel Macedo propôs enviar um SMS à Troika com a pergunta:

"Vimos por este meio confirmar se um consultor financeiro, um grupo de investidores de risco, um banco e um daqueles quadros cheios de números e luzes se mantém como o modo oficial de transformar o mundo."

Poiares Maduro defendeu a criação de um Ask.fm do governo para responder às dúvidas dos banqueiros mais aflitos.

Fontes não oficiais revelam que Nuno Crato afirmou durante o Conselho de Ministros que iria ligar para o Paquistão para propor o sistema dual para que nunca mais uma miúda de 16 anos tivesse esse tipo de atrevimento. O Ministro da Educação chegou mesmo a afirmar com segurança "Malala chumbaria no exame de matemática com certeza! Queria vê-la a pagar explicações com uma caneta ou um livro!".

Paula Teixeira da Cruz afirmou indignada "Eu pensava que as gajas árabes não iam à escola!". "Modernices..." retorquiu Assunção Cristas.

Entretanto, ao telefone, Angela Merkel garantiu a Passos Coelho que Malala era amiga de Snowden no Facebook e que por esse motivo todas as verdades que dizia eram por defeito mentiras de acordo com comunicado da Casa Branca. Obama, que estava a ouvir a chamada pelo Prism, acrescentou que tinha provas de que Malala era uma agente infiltrada do Wikileaks porque Assange lhe tinha feito "like" num post.

A Standard & Poor's desceu em dois pontos o rating do Paquistão e classificou como lixo as declarações de jovens activistas na ONU. Os juros da dívida portuguesa aumentaram na sequência desta crise de valores.