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sábado, janeiro 31, 2015

Processo Educativo, a educação é um modo de fazer e não um resultado.

 

"The stick which drips paint is a toot which acknowledges the nature of the fluidity of paint. Like any other tool it is still one that controls and transforms matter. But unlike the brush it is in far greater sympathy with matter because it acknowledges the inherent tendencies and properties of that matter."

Robert Morris, 1968

Robert Morris, escreveu em 1968 um pequeno ensaio que viria a cunhar o termo "Process Art" para um movimento que mais não foi do que um princípio simples de entender a obra de arte como um processo ao contrário de um objeto ou um resultado. Para o efeito Morris realçou o trabalho de Pollock e como os materiais utilizados funcionam uns em articulação com os outros e no estrito respeito pela sua natureza. Assim, para Morris, o "pau" que Pollock utiliza para pingar a tinta sobre a tela está em harmonia com a fluidez da tinta mais do que o tradicional pincel que a disciplina. O "fazer" é a obra e não apenas do ponto de vista performativo. As formas de fazer emergem nos materiais e a sua manipulação é ritual estático. Ao despromover o objeto de arte em relação ao processo que o faz existir Morris está a fazer a mais sincera afirmação. Não são os resultados que nos movem, são os processos.
A arte de Robert Morris, como a de Pollock, destaca-se pela materialidade e profundidade dos modos de fazer que implica. Estão lá os materiais de uma forma tão palpável que os sentimos intimamente ligados ao prazer que produz a sua manipulação. São trabalhos que produzem em nós o desejo de inventar novas soluções e processos artísticos. Meter as mãos à obra. Morris realça no seu trabalho e nos seus ensaios algo que os artistas sabem há muito. Mesmo quando o objecto de arte se quer destacar do seu próprio processo e se afirma apenas pelo produto final, por vezes quase sobre-humano, para o artista o processo é muitas vezes um ritual quase mágico e os ateliers autênticos santuários do fazer. Há etapas, procedimentos, sons, espaços e estados de alma que constituem um processo nem sempre visível na obra mas fundamental à sua construção.
Nas escolas é igualmente importante valorizar os processos. Numa época em que vivemos rodeados de números e resultados e em que os meios são condicionados pelas finalidades projetadas, a escola deve separar-se dessa loucura insana e afirmar-se como um lugar de processos, de caminhos, e não de metas. Claro que aqui a semântica é importante. O que queremos dizer com umas palavras podemos dizer com outras. Por isso é importante que fique claro o seu significado. Os indicadores, os resultados, são importantes na educação. Mas são-no apenas na medida em que podem ensinar-nos algo sobre o processo.
É fácil manipular os resultados. O mediatismo educativo, a popularidade de rankings e gráficos que vivemos hoje, promove a visibilidade de apenas uns poucos indicadores ou resultados. Facilmente as políticas educativas populistas e centradas nos resultados se deixam levar pela simplificação dos processos e pela economia de meios para alterar os números naqueles indicadores. Por isso os rankings matam as escolas. Sobretudo algumas escolas que se deixam escravizar pelos resultados dos exames e que cedem à tentação de manipular os seus resultados, sacrificando o processo educativo em favor da ilusão criada por uma mão cheia de notas atingidas em três ou quatro provas. O treino para os exames é isso mesmo, um treino. Dificilmente se pode confundir com um processo educativo. Um processo educativo centrado no aluno e em aprendizagens significativas permite outro tipo de resultados, menos mensuráveis no imediato. Porque é centrado nas experiências dos alunos, de cada aluno, e está planeado de modo a produzir conhecimento e felicidade. A escola é um espaço de felicidade e de aprendizagem para a felicidade. Mas a felicidade dos alunos, o gosto por tarefas que promovem o seu desenvolvimento humano e intelectual, o seu empenho e prazer por frequentar a escola, não é reproduzido nos rankings dos resultados imediatos.
A implementação, nas escolas de artes, de modelos de ensino/aprendizagem baseados em projetos e na resolução criativa de problemas pode e deve ser um laboratório para a aplicação destes processos educativos noutros contextos. Uma escola que investe no caminho e não na meta e que deixa que cada aluno possa contribuir também para metas diferentes. Estes modelos implicam uma escola humana, reflexiva e que funciona como coletivo. Uma escola em permanente transformação, produzida por todos os intervenientes enquanto o espaço social que ocupa se vai transformando. Uma escola que rejeita o facilitismo dos resultados imediatos e que opta por viver com entusiasmo o seu dia-a-dia. Esta escola, atelier do aluno, é a escola do "fazer". Não a escola técnica mas a escola do "fazer" diário. Um "fazer" que ensina, com consequências, com espaço de desenvolvimento e crescimento e com oportunidades de correção e recuo. Um "fazer" em conjunto e em partilha. Um "fazer" que promove o conhecimento. A escola não é mais um horário em que os sapientes fazem a transmissão do saber a indivíduos a quem pouco mais se pede do que provar, por escrito, que ouviram a lição. É um espaço de trabalho onde acontece um processo, multidimensional, de desenvolvimento de seres humanos. Como Robert Morris escrevia sobre Pollock e sobre a harmonia entre as ferramentas, os materiais e os suportes numa ação coerente, na escola os meios, os modos de fazer a educação e os alunos devem estar em harmonia.
Se um projecto visa um resultado, um processo, um processo educativo, visa uma transformação eterna, uma ação perpétua. Um aluno preparado para essa transformação e desenvolvimento permanentes será um cidadão que faz avançar o mundo e não simplesmente um que se usa dele para um qualquer objetivo.
 
Texto para a revista Dinâmicas 3 do Curso de Design de Produto da Escola Artística de Soares dos Reis, publicada em janeiro de 2015.
Consulta a revista neste link.

domingo, novembro 10, 2013

Cristiano, Leonel e a relatividade dos sucessos

Cristiano e Leonel são dois meninos que gostam muito de jogar à bola. São ambos grandes adeptos do mesmo clube da primeira divisão. Cristiano é filho de dois operários de uma fábrica. Os pais de Leonel são licenciados e quadros superiores na mesma empresa.

Desde os seis anos que Cristiano e Leonel jogam numa equipa de futebol. Cristiano está inscrito na escolinha do clube lá da terra, paga uma mensalidade simbólica. Leonel está inscrito numa escola de futebol na cidade, paga uma propina muito mais alta. Três vezes por semana lá vão para o treino durante hora e meia. No fim-de-semana os jogos.

Os pais de Cristiano, com muito esforço, lá lhe compraram umas botas para jogar e uma bola. São das mais baratas. O terreno de jogo é um pelado, às vezes uma autêntica piscina de lama, mas as condições têm melhorado. A Junta e a Câmara uniram-se e fizeram umas obras. Até contrataram um treinador formado.

Leonel recebeu novinhas umas botas de marca. Cores garridas e pítons especiais para o sintético da escola de futebol. A bola é com desenhos verdes, igual à do mundial. "É super levezinha!" diz Leonel orgulhoso aos amigos. Com a propina paga-se também o equipamento que inclui os calções, as camisolas, os fatos de treino e até as caneleiras. É ver o Leonel vaidoso e vestido a preceito, com a bola debaixo do braço.

Ambos o rapazes estão empenhados na sua atividade desportiva. Em casa os pais de Cristiano acham que é perda de tempo e dinheiro, mas lá o vão apoiando. "Ele nunca será jogador de futebol profissional. É muito franzino" dizem. "Como o pai era".

Em casa do Leonel é diferente. O pai adora desporto e sempre praticou. Ele também joga futsal com os amigos num campo coberto lá perto de casa, duas vezes por semana. Leonel adora assistir aos treinos do pai. Nos fins de tarde Leonel e o pai vão muitas vezes correr para o parque e trocar umas bolas. São os momentos preferidos para o Leonel. A mãe às vezes também vai e faz o circuito de manutenção. Levam lanches leves e chegam a casa muito cansados.

Cristiano quando sai da escola gosta de jogar à bola com os amigos. Às vezes, quando faltam os outros, passa horas a chutar a bola contra a parede. A mãe avisa-o para tirar as botas. "Não as gastes! Olha que não tens outras!"

Quando chove o Cristiano fica em casa a ver televisão. Leonel vai com o pai para o campo coberto do clube. "É muito fixe!".

Antes dos treinos a mãe do Leonel faz-lhe sempre um lanche leve e cheio de energia. "A alimentação é muito importante!", diz sempre a mãe. O Leonel já lhe acaba as frases.

Cristiano come muitos hambúrgueres. Como os pais têm pouco tempo trazem-lhe hambúrgueres e às vezes pizza. "Acaba por ficar mais barato..." ouve muitas vezes o pai a dizer.

Ambos os meninos andam muito felizes lá no clube. O Cristiano deu nas vistas num jogo com a freguesia vizinha. "É muito rápido. Mas precisa de limar umas arestas" disse o treinador ao pai.

Leonel vai com a escolinha a França. É um torneio em que a escola participa. Será uma grande experiência.

Nos jogos do fim-de-semana Leonel tem sempre a presença do pai e muitas vezes da mãe. Dão-lhe um grande apoio e no final reúnem-se com o treinador para ouvir recomendações e conselhos para o Leonel trabalhar em termos físicos e técnicos. O pai de Cristiano também vai aos jogos mas ralha sempre muito com o árbitro e com o treinador da equipa. Cristiano diz ao pai que gosta do treinador e o pai responde com ar sério "O clube não tem condições e ele não quer saber!". É injusto e o pai do Cristiano sabe mas gostava de o ter a jogar na escolinha de futebol privada.

Chega finalmente o dia em que no jornal se anunciam as captações do clube que ambos apoiam. Ficam loucos de entusiasmo. Inscrevem-se e lá vão para o campo do centro de estágio. Cristiano, de autocarro com o pai, botas já calçadas e calções vestidos. A mãe não vai, tem de trabalhar.

Leonel vai num minibus com os outros meninos da escolinha. O pai e a mãe vão lá ter de carro.

Para avaliar os jogadores os treinadores do clube fazem um treino físico, um conjunto de exercícios com bola e um jogo treino. No final publicam num placard uma lista ordenada do jogadores com as respetivas notas. Quem entrou e quem não entrou. Os olhos de Leonel e Cristiano, reluzentes, lado a lado, procuram o seu nome na lista.

Quem acham que ficou à frente na lista e entrou no clube?

As vidas e os processos de ensino e aprendizagem fazem-se em contextos com múltiplos fatores. A nossa mania de fazer listas ordenadas para tudo, unidimensionaliza aquilo que é necessariamente pluridimensional. Os sucessos e resultados de uns não valem o mesmo que os sucessos e resultados de outros porque partiram de condições a priori diferentes.

O sistema de ensino tem uma missão. Ensinar, preparar para a vida numa dimensão comunitária, numa dimensão societária e na dimensão do conhecimento e do desenvolvimento cognitivo. Promover as condições ideais para uma "igualdade de oportunidades" que de outro modo dificilmente aconteceria. Não é papel da escola seriar. Essa função a sociedade faz com particular crueldade e a escola deve ser escudada da perversidade desse processo.

Cada aluno é diferente. Tem sucessos e insucessos diferentes. Nem o seu grau de esforço para alcançar um objetivo pode ser medido de forma linear em comparação com outro. Não sabemos o que se passa lá em casa. Muito menos podemos comparar em listas o seu desempenho em números.

Acho muito bem que o Ministério disponibilize os dados dos resultados escolares e dos contextos sócio-económicos das escolas. Não só dos exames, de tudo. Deveria fazê-lo constantemente em relação às escolas públicas, as que estão na sua alçada. Antes de os divulgar aos jornais deveria trabalhar referenciais e discuti-los com as escolas. Os pacotes de dados deveriam ser do conhecimento prévio das escolas.

Ninguém sabe quem fez mais trabalho, quem criou mais-valias educativas com trabalho importante com os alunos. Ninguém sabe que práticas pedagógicas e programas tiveram sucesso na construção dessas mais-valias. Só se mede a quantidade. Como em tudo.

O que se assiste anualmente nos jornais aquando da publicação destes rankings é a demonstração de que temos muito a fazer dentro das escolas para melhorar as leituras que se fazem do mundo e da sua natureza diversa. Talvez um dia, no futuro, os nossos alunos, então adultos, se riam da nossa santa ignorância quando se lembrarem do entusiasmo bacoco que a publicação destas listas provocava nos jornais.

Isso sim seria um sucesso educativo que eu gostava de poder assistir.

 

sábado, outubro 13, 2012

Os Rankings, as Escolas, os Alunos e a Soares dos Reis (re-puplicação do Facebbok)

A propósito desta noticia do Jornal Público de 13 de Outubro,

Rankings: metade das escolas públicas fica aquém do esperado


Parece que descobriram agora que escolas que seleccionam os alunos, cobram couro e cabelo e enchem as crianças de explicações e horas extras, essas crianças a quem não falta quem lhes leia livros nem livros para ler, não falta quem lhes compre computadores, essas crianças a quem a depressão diária das dificuldades económicas não afecta, essas escolas têm melhores resultados naquela coisa dos exames - agora chamam-lhe avaliação externa. Estou para a minha vida de surpreendido! Esta hipocrisia meritocrática tem de acabar. O trabalho de centenas de escolas com alunos a lutar contra todas as adversidades parece que não interessa a ninguém e confunde-se esse facilitismo económico com qualidade. A estupidez generalizada do discurso sobre educação em Portugal tem eco nos media que exultam a cada golpe na escola pública. A Soares dos Reis para já está de fora dos rankings. Um dia que lá esteja não haverá um único ponto ou décima que diga respeito à liberdade que o aluno lá viveu, ao seu crescimento pessoal e artístico, ao seu sucesso e trabalho que a tanta gente deixou os queixos em baixo. Quando um visitante vê a nossa exposição e fica fascinado, que saiba que nenhum daqueles trabalhos, centenas de trabalhos, vale um ponto que seja no nosso ranking. Termos um grupo que apoia os mais necessitados não vale um ponto que seja. Promovermos o Open-source não vale um ponto que seja. Integrarmos os que têm necessidades educativas diferentes não vale nada. Trabalharmos horas a fio com os alunos no Projeto e ganhar prémios com muitos desses trabalhos vale zero. Mas sobretudo a felicidade de cada aluno, as lágrimas por perder aquele curso e ganhar outro e a coragem de abraçar cada arte cada novo desafio, a alegria que a escola dá quando ajuda a aprender a fazer coisas, coisas que ficam, o amor e respeito que todos nós ex-alunos sentimos pela escola e a vontade de que os nossos filhos a frequentem, vale absolutamente zero nos rankings. Mas ainda há gente que acredite neles e perca a oportunidade de ter os filhos a aprender coisas reais entre colegas reais e procure as escolas da realeza para aprender a sentar e a marrar para aquela coisa dos exames. É triste.