sexta-feira, novembro 01, 2013

A Reforma do Estado e a Educação. (um rascunho)


"Reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor no novo estatuto do aluno. Concluíu-se um regime descentralizado de gestão escolar e a rede escolar teve de ser reordenada, tendo em conta as contingências demográficas e territoriais. Fez-se uma opção pública pela exigência, com a instituição de exames nacionais no final dos ciclos escolares, reforço do Português e da Matemática nos currículos e densificação nas metas curriculares." (Documento "Um Estado Melhor" p. 33) Descarregue neste link a totalidade do documento.

Alguém consegue detetar a incoerência?

Se "reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor" e se se concluiu "um regime descentralizado de gestão" acho curioso que no âmbito de tanta autonomia e descentralização se tenha tomado a opção "pública" pela "qualidade" para todo o sistema assente em medidas centralizadoras. Medidas como mais "exames nacionais", leram bem "nacionais", ou seja de conceção e execução centralizada, em ciclos iniciais do ensino e também o "reforço do Português e da Matemática nos currículos" igual para todo o país, sem olhar às especificidades dos teritórios educativos e das escolas. Ainda mais interessante é o conceito de "densificação nas metas curriculares". Muito bem aplicada o conceito de "densificação" porque se trata sobretudo de densificar e não de melhorar. Foram também essas metas decididas pelo Ministério de modo absolutamente centralizado. Se existe autonomia não é com certeza curricular ou na organização do processo ensino-aprendizagem.

Quer isto dizer que as políticas educativas do Estado, e deste governo em particular, anunciam e proclamam uma autonomia para depois tomarem decisões centralizadas, normatizando a diversidade educativa e esmagando as diferenças e especificidades num enorme almofariz burocrático. O argumento da qualidade, medida em unidades universais, não respeita nenhum tipo de diferenciação e homogeniza as soluções.

Hoje as escolas não têm autonomia para coisa nenhuma. Têm menos do que alguma vez tiveram. Currículos, organização do ano letivo, número de turmas, número de alunos por turma, tipos de cursos, professores, apoios, educação especial, funcionários ou até o refeitório. Para tudo isto existem plataformas com caixinhas onde os números devem encaixar e para tudo isto existem normas burocráticas a cumprir. As inspeções atentam ao cumprimento da lei e só isso, e não à satisfação e ao sucesso dos alunos.

O cumprimento de algumas destas normas tem sido, historicamente, desvalorizado pelas escolas. O controlo do Estado era fraco e assente sobretudo na leitura de resmas de papéis. O exercício de uma autonomia clandestina fez e faz ainda parte da vida das escolas portuguesas que foram encontrando soluções para problemas que fugiam à uniformidade das normas.

Hoje a implementação de um controlo apertado e implacável com recurso a multiplas aplicações informáticas, programadas para o normativismo, obriga ao cumprimento das normas e revela, em última análise, a impossibilidade prática do seu cumprimento por todos.

 

O documento "Um Estado Melhor" apresentado como um guião para a reforma do Estado faz um conjunto de propostas para a educação que merecem reflexão atenta e separada. É interessante realçar a preferência por modelos de gestão contratualizados, seja com as autarquias, com grupos de professores ou empresas privadas, numa lógica descentralizadora mas sempre enquadrada por conceitos de competitividade e concorrência profundamente perversos. Dizer que a "qualidade do ensino é um fator de concorrência saudável entre municípios" é aceitar a ideia de uma luta comercial por melhores alunos ou por melhores escolas em que os que ficam a perder ficam irremediavelmente para trás. No contexto dos territórios educativos parece-me completamente desadequada esta afirmação. Em educação a "concorrência" promove a exclusão social e a reprodução social. Os mais fortes, que é o mesmo que dizer os mais ricos, não deixam nunca de ganhar neste jogo viciado da "concorrência".

Neste sentido toda a lógica da proposta do governo assenta em pressupostos invertidos. De que é necessário, para gerir melhor, descentralizar e contratualizar mas que por outro lado para aumentar a qualidade é necessário centralizar os modelos de avaliação e densificar os currículos.

A autonomia que se promove é sobretudo a da responsabilidade jurídica e financeira e não a curricular, nas escolas na alçada do Estado. Por outro lado abre-se a porta ao aumento do financiamento direto (contratos de associação) e indireto (cheque ensino) do ensino privado apresentado como panaceia para o insucesso educativo, nunca provada na prática, e sem refletir sobre a despesa que esse mesmo financiamento vai implicar num contexto assumido de contração da procura e diminuição da capacidade de investimento do Estado. Os perigos da criação de um clientelismo oportunista no negócio educativo com efeitos irreversíveis na gestão da fatura pública da educação são demasiados. Já temos PPPs a mais. É de concluir que estas medidas vão sobretudo depender, em termos da sua eficácia financeira, de uma diminuição brutal das remunerações dos professores e de uma concorrência fraticida entre os mesmos. O resultado será sempre uma diminuição da qualidade em que mais uma vez a oferta "prime" vai ficar salvaguardada para aqueles que têm mais recursos.

Para terminar é importante destacar a afirmação de que "queremos, em breve, ter no ensino secundário cerca de 50% dos jovens em ofertas profissionalizantes, que permitam o acesso direto a uma profissão útil e necessária à sociedade, não deixando de permitir o prosseguimento de estudos". Esta afirmação, já feita anteriormente pelo Sr. Ministro da Educação, é particularmente interessante. Por um lado porque estes percursos profissionais são indicados, pelo mesmo ministério, para alunos com reiterado insucesso ou com algum grau de insucesso, caso dos vocacionais e dos profissionais respetivamente. Sendo assim dever-se-á concluir que se pretende atingir os 50% de insucesso, na leitura oficial. Talvez de modo a alterar a estrutura social do país e construir uma força de trabalho barata e qualificada apenas para o trabalho menos intelectual. Esta medida visa claramente aumentar a base da pirâmide social, mantendo o topo bem estreitinho e sempre com os mesmos. Por outro lado a igualdade de oportunidades prevista, porque estes cursos "não deixam de permitir o prosseguimento de estudos", é aniquilada pela criação de critérios injustos e impossíveis de superar como são os exames nacionais para alunos que frequentaram curriculos diferentes ou a construção de "médias" ponderadas que desvalorizam o trabalho prático dos alunos e os colocam em clara desvantagem.

O "Estado Melhor" é, enfim, melhor apenas para alguns. A eficácia é sobretudo no modo como se usa muitos para o benefício de poucos gastando menos. É baseado, pelo menos na educação, em lógicas neo-liberais de concorrência que garantem a reprodução social. Procura-se a diferenciação e a autonomia mas de maneira a permitir que o Estado patrocine o sucesso dos que já o garantiram pela via económica.

Pelas medidas até agora implementadas em dois anos de governação, pela escrita legislativa e pela atuação no controlo e gestão do sistema educativo somos inevitavelmente levados a desconfiar das intenções autonómicas e descentralizadoras do governo. O discurso da descentralização e da autonomia é aqui o alibi para a desresponsabilização política e financeira e para a introdução de uma agenda que pretende privatizar e dividir para reinar.

terça-feira, outubro 29, 2013

Que chatice agora as ciganinhas loiras...

A Europa racista estava com o pito aos pulos. Tinham roubado uma loirinha do seu berço de ouro e encontraram-na na Grécia, pátria de todos os pecados. Esses perigosos e pérfidos ciganos, raça maldita, tinham sequestrado uma filha do sol, uma herdeira da fortuna, enfim, uma ariana.

Porquê? Para vender ou escravizar. A ruindade desta gente, destes morenos itinerantes, não tem limites.

Maria, a tal menina loira, vem-se a saber afinal, é proveniente de uma família cigana búlgara e foi abandonada na Grécia, por onde a família andou. Terá sido abandonada por falta de dinheiro para a sustentar. "Abandonada" a troca de dinheiro ou não, isso é que já não sei.

No Reino Unido, pátria de insossos racistas, a esperança de encontrar Maddie no barracão ao lado do "Anjo loiro", como de pronto chamaram a Maria, contagiou toda a gente. Na Irlanda uma menina cigana foi retirada à familia por ser loira. Só isso. Mais tarde foi devolvida aos pais por se ter provado com teste de ADN que era realmente a filha do casal. Um pouco ao lado, ainda na Irlanda, um pequeno rapaz de 2 anos passou pelo mesmo. Até em Portugal se alinha na farsa monumental. Falava-se, por exemplo, do bando de ciganos que andava a roubar casas por alturas do caso da Maddie. Teriam esses monstros roubado Maddie? Acham coincidência dizerem isso agora? Ciganos? A sério?

O tráfico de crianças existe mas dificilmente se pode atribuir aos ciganos europeus a responsabilidade pelo mesmo. Por outro lado é evidente e preocupante a preferência dada aos casos das meninas loiras e tal seleção, por parte das polícias, da comunicação social e da opinião pública, revela fantasmas nojentos nas velhas consciências europeias.

Não consta, apesar de tudo, que a procura por "anjinhos loiros" para o mercado da pedofilia seja criada por ciganos. Consta inclusive que muitos daqueles senhores, disfarçados de estola e batina, que nos Estados Unidos ou na Polónia comiam crianças ao pequeno almoço, tinham o olhinho azul, também eles.

A minha mãe, quando eu era pequeno, já me dizia, num inocente assomo racista que eu lhe perdoo, "Se não te portas bem vou-te dar aos ciganos!".

Só posso concluir, pelos casos recentes, que a minha tez morena acabou por obrigar os meus pais à difícil tarefa de me educar até ao fim, enfim, até hoje. Tivesse eu o olho azul e o cabelo dourado como as estrelas e quem sabe...

Não há vergonha nesta Europa neo-liberal de gosto ariano. Não há sequer um esforço em disfarçar.

“Todos os paises envolvidos nesta história são da União Europeia. E o caso revela que a Europa não está conciliada com a sua própria realidade. A Europa é diversa, tem todos os tipos de pele e a maioria dos grupos étnicos do mundo, mas percebemos que a realidade sociológica avançou mas que os nossos estereótipos não se adequam à realidade”, afirma o sociólogo Pedro Góis numa excelente reportagem do Público.

Multiplicam-se os getos na Grécia e na Bulgária. Multiplicam-se os getos criados pela austeridade, defendida por todo o lado como a salvação do sistema. Sem pudor criam-se pobres todos os dias em nome da riqueza. Quando a coisa aperta recorre-se ao racismo e à xenofobia para pôr uns pobres contra os outros. É o trabalho das extremas direitas. Foi o que aconteceu em França com a menina cigana Leonarda Dibrani. Filha de um pai Kosovar que se viu obrigado a mentir para ter um país para os seus filhos. Para que estes tivessem um oportunidade.

Com o avanço do desemprego e da pobreza nos países abrangidos por programas de empobrecimento difarçados com o nome de "programas de assistência" os ciganos do futuro são os europeus do sul. São os mais pobres. Esses devem ser mantidos à distância e a trabalhar por um salário pequenino, com poucas mordomias do Estado.

No norte da Europa, onde os naturais usufruem de um generoso e amplo Estado Social, a escravatura laboral aos estrangeiros, mesmo sobre os caucasianos do sul, é algo perfeitamente natural. Para eles somos todos um pouquinho ROMANI, de tez morena e patilha atrevida. É cultural, e tudo se perdoa ao mais rico. A superioridade ariana não é posta em causa. Os arianos do norte são obedientes, organizados, não cospem no chão e respeitam as passadeiras. E são tão bonitinhos... parecem pontinhos de luz. E que grandes? Um orgulho para o Sapiens Sapiens.

Se não refletirmos sobre estes fenómenos racistas e não os denunciarmos situações como estas, como o que aconteceu em França ou o caso da Irlanda, serão cada vez mais frequentes e a pouca réstia de humanidade que temos esfuma-se.

sexta-feira, outubro 25, 2013

Qual guião para qual reforma?

Zombie Love will doom us all
"Zombie Love will doom us all" é uma ilustração em iPad de José António Fundo.

Segundo a TVI, Pedro Passos Coelho terá alterado a agenda do próximo Conselho de Ministros, para incluir a aprovação (tácita) do guião da reforma do Estado apenas depois de o ter anunciado no Parlamento.
Ao que aprece esta medida surpreendeu inclusive alguns ministros que nada sabiam do assunto. As declarações de Passos Coelho no parlamento tresandam a improsivo auto-justificativo.
Este fait-divers revela, apesar de tudo, alguma leviandade e muita irresponsabilidade governativa por parte do Primeiro Ministro. Passos Coelho pretende fazer passar como uma qualquer portaria, sem qualquer tipo de reflexão ou participação pública, uma medida que visa promover uma mudança de regime político e de modelo de administração e assistência aos cidadãos, sem que para isso tenha qualquer mandato eleitoral. O modo leviano como a expressão "reforma do estado" é utilizada pelo governo, na assembleia da república e nas infinitas crónicas nos jornais e na televisão, sem que seja feito qualquer esforço no sentido de gizar um princípio lógico e coerente que a defina, é bem reveladora da mediocridade política em que vivemos. Basta dizer "reforma do estado" e temos panaceia para tudo e mais alguma coisa. 
O povo português alinha no discurso. Em Portugal tudo se aceita. Este centralismo burocrático autoritário de inspiração iluminista está no nosso ADN. O autoritarismo é bem-vindo. É um berço que nos embala num comodismo comovente. Comove a comunidade internacional que se embevece com a nossa obediência suicidária num misto de espanto e troça. Que Deus nos proteja é o que a sociedade portuguesa mais deseja. Até ver nem sinal da salvação divina. Apenas o castigo devido por esta existência ímpia que caracteriza qualquer povo que confia no Estado para o assistir quando precisa.
Passos Coelho acha que tem competência ou mesmo o direito de reformar o que quer que seja. Está enganado.
Se alguma reforma do estado deve haver é no sentido de evitar que aquilo que aconteceu nos últimos dois anos se volte a passar.
É inadmissível imaginar que estes sacrifícios que todos fizemos (bem, uns mais do outros) serviram para absolutamente nada. Serviram para deixar uns cobres nuns bancos geridos por atrasados mentais com fatos caros e deixar a população mais pobre. Dívida gorda, economia anémica e cofres cheios para pagar juros que aumentam à medida que vamos mostrando vontade de os pagar.
Com o argumento único de que os ricos e poderosos devem continuar ricos e poderosos para manter o status quo que a todos nos alimenta, tudo se legitima. Todas as medidas se justificam.
Em junho falava-se de um guião aberto para a reforma. Com a participação de todos. Agora o PM faz caixinha e esconde o que quer fazer. Tipo jogo.
Dificilmente esconde que não faz a mínima ideia do que vai apresentar. Será tudo à pressa e a fingir. Paulo Portas, esse ideólogo da nação, mais uma vez participará na farsa sendo um forte candidato ao prémio do maior contorcionista político da história moderna. 
O governo tem um conceito, isso concedo. O Estado não pode pagar a assistência que atualmente faz às famílias. Mas, por outro lado, pode pagar a empresas privadas para o fazer. Para isso já há dinheiro.
Como na educação, o ministro Nuno Crato não tem dinheiro para a escola pública mas acha que pode dar mais às escolas privadas. Faz sentido. 
As suas secretárias e motoristas ganham mais do que a esmagadora maioria dos professores - essa corja que se arrasta pelo chão dos estabelecimentos de ensino público com a mania que partilham conhecimento ou que promovem algum tipo de evolução. Toda a gente sabe que o sucesso e a eficácia depende sobretudo das secretárias e dos motoristas do governo. O mérito a quem o merece.
A reforma do estado vai ser o toque a rebate para o assalto final ao agora super interessante bolo dos impostos, sobretudo o IRS que aumentou em 30%. Será um real banquete de zombies. Á maneira antiga.
Tudo privatizado, uma alegria! É a solução para todos os problemas. Isso e manter os pobres afastados como se fossem leprosos no séc. XIII. De preferência com sininho e tudo. Em escolas profissionais para operários e funcionários dos serviços. Salários baixos, lucros altos. Uma economia atrofiada mas que garante a manutenção desta ordem social. Cada macaco no seu galho.
A ideia de reformar o estado, que está em permanente reforma para quem ainda não percebeu, não se cumpre num guião escrito por um governo. Muito menos por este governo. Muito menos se reforma o estado em estado de emergência. Esse sentido abrirá as portas a todo o tipo de ideias radicais e emergencialistas.
A sociedade está partida, não há emprego, não há dinheiro a circular na economia. Aqueles que pagam os impostos vêm o seu salário diminuir e aqueles que fogem aos impostos ganham perdões e reduções com o argumento de revitalizar a economia. Só se for a do bolso deles.
Antes de reformar o estado é necessário trocar de governo. Discutir soluções de modo realista e com ideias às claras. Sem boicotes na comunicação social onde os economistas da mesma coisa defendem o indefensável todos os dias à espera do tal gabinete, do motorista e da secretária. Parem a Casa dos Segredos e expliquem como vão viver milhares de famílias sem educação pública de qualidade, saúde pública ou auxílio para a manutenção da sua dignidade e qualidade de vida. E expliquem também quem vai pagar às empresas privadas que querem que assumam essas funções públicas. De onde vem esse dinheiro? Digam-me. E para onde vai?

domingo, setembro 29, 2013

Hoje é dia de ir votar.

A vida é feita de muitas escolhas impossíveis, escolhas difíceis, táticas, arriscadas, corajosas. Mais ou menos inteligentes. Umas por vezes irrefletidas outras apenas mal preparadas. Algumas, dizem, mais vale ser o diabo a fazê-las. Mas uma escolha é sempre melhor do que uma não escolha. Do que uma demissão.

Participar no ato eleitoral de hoje e fazer as várias escolhas que nos propõem, é reivindicar a nossa casa, o nosso poder, muito ou pouco. É dizer que estamos aqui também para cumprir as nossas obrigações, para dizer com quem queremos trabalhar e pensar o futuro. Este país é nosso, não é "deles". Só vão para "lá" se nós quisermos, se nós deixarmos. Hoje a nossa participação vale tanto como a de qualquer outro português. Não há portugueses a valer mais e outros a valer menos. Valemos todos um. Não é todos os dias que isso acontece. Vamos aproveitar e vamos votar.

 

domingo, agosto 25, 2013

Morreu o economista António Borges.

Morreu o economista e conselheiro do governo António Borges.

A morte de alguém é sempre trágica mas não podemos esquecer que António Borges representou o pior que a economia tem para oferecer aos regimes democráticos contemporâneos. As políticas neo-liberais que praticou e defendeu são responsáveis por muita pobreza e infelicidade. O regime neo-liberal deu cabo do país, da Europa, das economias mundiais. A. Borges esteve demasiadas vezes nos centros de poder que orientaram estas políticas. Inclusive no banco de investimentos Goldman-Sachs.

A preocupação exclusiva pelo lucro privado e a crença (não tão inocente quanto isso) de que os mercados tudo nivelam e se auto-regulam provaram ser princípios que levam ao caos económico e beneficiam apenas os que já são ricos. O seu contributo para o país não foi uma mais valia. A sua troça pela pobreza do português comum não deve ser esquecida.

Portugal nada deve ao economista António Borges. Não vamos agora embarcar em agradecimentos porque nada lhe devemos. Portugal não perdeu nenhum intelectual importante, nenhum benfeitor, nenhum artista que tenha acrescentado à nossa riqueza cultural. Perdeu apenas um chefe de fila de um grupo de interesseiros que finge ter ideias globais para atingir objetivos privados e pessoais. Não merece lugar nenhum de destaque.

Infelizmente o poder político vai dizer o contrário e muita gente aparecerá a fazer o elogio do que nunca existiu.

Deve haver respeito pelo ser humano e pela família que com certeza sofre.

Nota: O cartoon desta noticia é uma alteração de um outro desenhado em Outubro de 2012

Para actualizar o post... No meu facebook:
"Os Bombeiros Portugueses que se amanhem. Não merecem condolências dos Portugueses, de acordo com o nosso Presidente.
Já A. Borges merece que o nosso Presidente apresente condolências em nome de todos nós. Está lá escrito "Em nome dos Portugueses e em meu nome pessoal". Pergunto-me se todos os académicos internacionalizados têm direito a este tratamento e se não haverá quem, pelo seu sacrifício para o bem de todos, não merece bem mais esta honra.
Para Cavaco Silva este senhor foi um dos "um dos economistas mais brilhantes da sua geração", sobretudo no modo absolutamente cego como procurou políticas de desregulação dos mercados com os efeitos que se conhecem, acrescento eu.
"Ambicionava um Portugal mais próspero e desenvolvido e nunca desistiu de lutar por esse ideal." Por isso mesmo advogava a diminuição dos salários dos portugueses. Sobretudo dos que já ganham menos. A prosperidade de que fala Cavaco deve ser apenas para aquele circulo de gente que anda a voar à volta do estado como as moscas e depois faz carreira universitária a dizer mal do mesmo.
O que vale é que já estamos habituados..."

quinta-feira, agosto 22, 2013

Eu dava o Nobel da Paz a Manning e a Snowden!

Bradley Manning foi condenado a 35 anos de cadeia, depois de ter passado três anos encarcerado em condições horríveis e com menos direitos do que a maior parte dos prisioneiros que se encontram em Guantanamo. Este jovem militar, com uma consciência e sentido de dever para com a humanidade mais aguçado do que pelos vistos é suposto, é considerado mais perigoso do que a maioria dos "terroristas do Islão" que a trupe de Washington vai mantendo em cativeiro fora de qualquer regime legal.

Edward Snowden está exilado na Rússia. Temporariamente. Arrisca-se a servir de moeda de troca entre um regime corrupto e um outro corruptor. O jornalista Glen Greenwald, do jornal The Guardian, é perseguido e considerado perigoso. Os serviços secretos britânicos prenderam durante 9 horas um amigo do jornalista. Ameaçaram-no e arrancaram-lhe a ferros todas as passwords que abrem a porta à sua intimidade. Retiraram-lhe o direito a qualquer réstia de vida privada. Roubaram-lhe equipamento. Tudo com o argumento legal de que seria suspeito de terrorismo.

Ao mesmo tempo um diretor do The Guardian era intimado a destruir toda a informação que o jornal armazenava proveniente de Snowden. Por ordem direta do governo Inglês. Sem pudor.

A Inglaterra era uma democracia. Um Estado de Direito. Mas agora o Estado de Direito é a desculpa que se usa para se desrespeitar a liberdade do cidadão a torto e a direito.

Passam-se coisas que não devemos saber e que somos proibidos de saber. Coisas que nos dizem respeito. Estão a vigiar-nos. Os tribunais e as leis que conhecemos são uma treta. Há uma outra ordem das coisas, acima de todos nós, que tudo dita e tudo vigia.

O governo português, inclusive, acha legítimo mentir sobre o caso do avião de Evo Morales numa comissão parlamentar. Foi lá Paulo Portas (aquele que não gosta dos partidos por achar que os seus dirigentes são miseráveis) dar desculpas que todos sabem serem mentira.

Mannning e Snowden abriram-nos os olhos ou pelo menos deram-nos provas concretas de que temos realmente razões para nos preocuparmos. São os dois primeiros dissidentes políticos dos regimes pseudo-democráticos ocidentais do séc. XXI, pelo menos os mais mediáticos.

Este estado de coisas advém do facto de os desígnios destes governos terem deixado de ser os desígnios dos seus povos e terem passado a ser os das corporações e dos obscuros interesses privados. Fazem-se guerras a povos inteiros, mata-se gente com drones, tudo por interesses económicos. Noam Chomsky chama a estes estados RECD (Really Existing Capitalist Democracies, que se lê WRECKED, o que em inglês significa estragado ou destruído).

O terrorismo não são só os homens bomba do islão revoltado, também são estes Governos e exércitos a soldo dos interesses que nos trouxeram a esta crise interminável.

A iniciativa de propor Manning e Snowden para o Nobel da Paz é um gesto absolutamente essencial na defesa dos cidadãos europeus e americanos e uma réstia de esperança de que um dia possamos viver uma verdadeira democracia participativa.

 

quinta-feira, agosto 08, 2013

Porta aberta ao cheque-ensino e ao fim da escola pública.

Governo abre a porta ao cheque-ensino no básico e secundário.

Samuel Silva in Público de 8 de agosto de 2013

Aí está ele! Queriam saber porque é que se reduzem turmas nas escolas? Porque se criam exames e regras completamente parvas para acesso ao ensino superior nos cursos profissionalizantes, aqueles que obrigam a ter oficinas e equipamentos nas escolas? Está aí o cheque ensino.

Quer pôr o menino num colégio para fugir à rançosa escola pública? Sem problema, o Estado paga.

Aí está o maior golpe de mestre. O processo pelo qual a educação vai passar a ser um negócio de compra e venda de alunos e diplomas. O estado vai passar a patrocinar as escolas privadas, por via indireta, dando aos pais o dinheiro para gastar nos colégios. As escolas públicas nem sequer entregues a si próprias vão ficar. Isto porque não terão nenhuma autonomia. Número de alunos por turma, número de horas de aulas, número de turmas, autonomia na contratação de professores, currículos e métodos de ensino, tudo definido pelo Ministério.

Só faria verdadeiramente sentido o cheque educação se as escolas públicas tivessem mais autonomia e mesmo aí seria uma má medida educativa e económica. O que prova a irresponsabilidade e as más intenções do ministro Nuno Crato é o facto de vivermos o momento em que mais se centraliza na educação, tudo é decidido, tudo é controlado pelo MEC, muito mais do que alguma vez o foi na história da educação pública. É neste preciso momento que se dá a liberdade às famílias para fugir das más decisões do Ministério. Fuga paga pelo mesmo Ministério que criou as medidas que afugentam.

Esta decisão do cheque ensino não tem volta. Não há retorno desta decisão. Criará um clientelismo empresarial na educação que será impossível de reverter. Vai destruir a carreira docente, esvaziar escolas públicas com milhões em investimento em instalações (posteriormente e oportunamente vendidas ou concessionadas) e vai, com certeza, criar oportunidades de negócio para as novas "Modernas" ou "Lusófonas" mas agora no ensino secundário e patrocinadas pelo Estado, esse mesmo que tem imenso dinheiro para dar.

Como se entende que o mesmo Ministério que quer dar às famílias liberdade de escolha na escola ao mesmo tempo esteja a impor a redução do número de turmas em tantas escolas públicas com alunos já inscritos? Essa liberdade só é válida se for para o privado? Será essa a mensagem de Nuno Crato?

Nuno Crato e o PSD tinham um plano - Acabar com o ensino público e ajudar a pagar os colégios aos que procuram o privado. Vão conseguir porque toda a gente vai achar esta ideia o máximo. Quero ver quando as escolas públicas forem guetos de excluídos sociais como acontece nos países em que estas medidas foram aplicadas e as escolas privadas com a qualidade média de uma pública de hoje forem demasiado caras para a família mais modesta.

Nesse momento estes liberais vão acenar com o mercado e a natural seleção social que este faz como uma inevitabilidade económica e algo que devemos aceitar.

Os exames aos alunos, os exames aos professores, as metas, o aumento do número de alunos por turma, vai tudo conduzir ao mesmo objetivo. O que me entristece é que a sociedade portuguesa vai embarcar nesta catástrofe. Porque o sonho do português é ser rico e as medidas para os ricos vão-nos servir um dia... num futuro de sonho. Continue a jogar no Euromilhões e pode ser que um dia este governo lhe sirva para alguma coisa.

sábado, julho 27, 2013

E se houvesse exames para Ministro?

Nuno Crato não desiste de adoptar medidas más e injustas contra alunos e professores, aliás na senda de muitos dos seus antecessores.

Agora quer o exame para acesso ao exercício da profissão docente. Um exame parecido com o da ordem dos advogados, esse mesmo que está prestes a ser considerado ilegal pelos tribunais.

A ideia nem sequer foi dele, foi de Maria de Lurdes Rodrigues, mas ele gosta. Ele adora exames.

Eu pergunto: Para que servem as Escolas Superiores de Educação? Para que servem as Universidades? Para que servem as centenas de professores do ensino superior que leccionam disciplinas de desenvolvimento curricular, pedagogia, psicologia da educação e afins?

O diploma certificado obtido por cada professor, na sua profissionalização para a docência, reconhecido por Bolonha e pelo próprio MEC - que tutela igualmente o Ensino Superior - não é válido para o mesmo MEC, que o quer substituir por um exame nacional que mais não pode fazer do que avaliar generalidades e ter critérios ambíguos.

Isto porque tal exame, pelo menos na sua componente comum, não obedece a um currículo único, um conjunto de competências e objectivos definidos e universais, trabalhados nos diversos cursos Universitários.

Esse exame não pode avaliar a diversidade de formações entre os professores e entre as diferentes visões da educação veiculadas nas Universidades e tenderá a afunilar essas mesmas formações e competências diversas para responder apenas àquelas perguntas, daquela matriz.

Nunca será eficaz na prova de que o candidato a professor domina as matérias cientificas constantes dos programas das disciplinas, até porque estas são tantas vezes pouco consensuais e demasiado abrangentes. Um grupo disciplinar chega a poder leccionar quatro ou cinco disciplinas diferentes com níveis diferentes.

O exame nunca irá provar nada da capacidade prática do professor em ensinar porque mais não é do que uma prova teórica cega.

O exame não terá impacto na qualidade das escolas porque, para além dos motivos mencionados, se aplica apenas aos professores contratados.

Esta mania de tratar as competências profissionais e educativas dos portugueses como se isto fosse uma linha de montagem tayloriana, que faz parafusos todos iguais, é de uma pobreza intelectual de bradar aos céus. Esta mania de que um exame é um espécie de esfregona moral que tudo limpa e certifica é de um facilitismo organizacional próprio dos maus gestores.

A história do 14 como mínimo é completamente parva porque não representa nenhum grau real de exigência, é mesmo só para inglês ver. Qualquer exame pode ser trabalhado para qualquer nota mínima, a nota pouco representa.

Como não acredito que Nuno Crato seja um menor intelectual só posso deduzir uma coisa: este processo tem por objectivo reduzir o acesso à profissão por via administrativa, a muitos professores, e com isso poupar algum dinheiro.

Mas porquê este processo enviesado?

É simples. Porque quem não é intelectualmente honesto só pode pensar em soluções para os problemas distorcendo os dados dos mesmos problemas. Não consegue ver as mais simples soluções porque parte do princípio de que os outros vigarizam tudo.

São sempre os que dobram as regras aqueles que criam regras mais inflexíveis. Projetam-se naqueles que tutelam.

Nuno Crato não confia em ninguém, não confia nas competências dos alunos e muito menos nas dos professores.

O Ministro não tem de inventar processos paralelos, inúteis e dispendiosos para impor medidas castigadoras aos jovens professores. Ou há vagas ou não há. Tem formação ou não tem. A formação para professor deve estar na alçada das Universidades e a sua avaliação e acreditação também.

Que exame é esse? O que pode ele perguntar? Mesmo depois de ler a proposta de Decreto Regulamentar tenho dificuldade em imaginar.

Posso ainda assim imaginar um exame para Ministro da Educação e as respostas que o Professor Nuno Crato daria às mais simples perguntas.

quarta-feira, julho 24, 2013

And Now for Something Completely The Same!

Depois da exigida remodelação, no governo há caras novas mas ideias velhas.

Mais um do BPN, essa Universidade de Inverno do PSD, desta vez nos Negócios Estrangeiros. É sempre bom para a credibilidade manter homens da confiança de Oliveira e Costa no Governo. Isto para além daquele que mantemos na Presidência... Dá um outro sentimento de estabilidade aos mercados e aos eleitores. Assim temos a certeza de que tudo continuará na mesma.

No ambiente um especialista, mas não estou a ver que interesse Passos Coelho possa ter pelo assunto e um economista fala barato do CDS/PP na Ministério da Economia que vai fazer coisa nenhuma porque nenhuma coisa está planeada para além de cortes, cortes e mais cortes.

Paulo Portas vai ser Vice PM. É uma óptima ideia pôr Portas sem nada que fazer mas com cadeira de camarote a controlar tudo. Será o ministro sem pasta que vai assinar em privado e rejeitar em público. Uma boa medida para quem gosta de ter facas espetadas nas costas, mas enfim...

Hoje vi o Helder Rosalino na RTP e ia jurar que no intervalo do governo plantou mais três cabelos. Acho que ele planta um sempre que garante uns quantos despedimentos na função pública. Ou arranca, confesso que é complicado acompanhar. O objetivo final da reforma na função pública deve ser ficar apenas com os motoristas do governo e uma ama para a criança da Assunção Cristas que vem aí.

Com tudo isto e com a ajuda de Pires de Lima ficaremos a saber que o novo sabor do governo para o Verão é...

Exatamente o mesmo, apenas servido em garrafas da Super Bock!

segunda-feira, julho 22, 2013

"Tudo como dantes no Quartel-General em Abrantes"

Este ditado popular, com raízes nas invasões Napoleónicas, é um símbolo do conformismo e subserviência portuguesa a forças invasoras.

Cavaco Silva é o Presidente que se esforça para manter no governo aqueles que vendem facilmente o país em troca de benefícios desconhecidos. Cavaco está mais preocupado com os rendimentos certos dos senhores dos mercados do que com a qualidade de vida da democracia portuguesa.

Um exemplo. Um senhor do PSD, Pedro Pinto de seu nome, veio hoje afirmar que "dois terços do programa de assistência já foram cumpridos com sucesso e teremos um novo ciclo de ação governativa em que a prioridade é o crescimento económico e o emprego".

Tudo isto é mentira exceto as questões de calendário. É mentira e toda a gente o sabe. Toda a gente sabe que vêm aí mais medidas de austeridade, mas despedimentos, mais desemprego e provavelmente mais impostos ou cortes de vencimento na função pública. Estamos mais perto de um segundo resgate do que de qualquer resquício de sucesso. E, finalmente, estamos muito longe de ter um novo ciclo governativo com os mesmos senhores no governo.

Mas este fulano vem mentir para a televisão porque em Portugal ter vergonha na cara não se usa. Ser mentiroso, desde que se tenha acesso à televisão, é motivo de orgulho para a família. É uma cena política. Funciona.

Passos Coelho acha que "o país precisa de quem não acalente a fantasia de uma súbita e perpétua vontade de o Norte da Europa passar a pagar as nossas dívidas provavelmente para sempre". Parece que estamos a ler algo dito pelo ministro das finanças alemão.

O Primeiro Ministro não está do nosso lado. Está contra nós. Um homem que ainda há uns anos andava com manigâncias a sacar subsídios para cursos de formação fictícios com a ajuda do seu amigo Relvas agora dá lições de moral e de macro-economia.

Não foram os portugueses que inventaram a crise da dívida soberana, que afeta muito mais países, e não se sabe quem pagará o prejuízo da governação de Passos Coelho mas também já se percebeu que o "Norte da Europa" andou a lucrar com a crise do Sul em vez de pagar facturas.

Foi a este tipo de mentalidade que Cavaco nos entregou de mão beijada. A um governo que, dizem, nem ele sabe bem por quem é constituído. Quem é vice ou "czar" da economia ou o raio que o parta.

Este estado de coisas não vai terminar tão cedo e a incompetência governativa vai-nos acompanhar agora "até ao fim da legislatura". Sim,porque aquelas eleições que nos foram prometidas para o ano afinal já não interessam ao Presidente.

Bem vistas as coisas Abebe Selassie e companhia são uma espécie de General Junot e Passos Coelho um D. João amedrontado e resignado. Só lhe falta um dia fugir para o Brasil mas pouco há-de faltar para algo parecido.

"Tudo como dantes, no Quartel-General em Abrantes"

 

sexta-feira, julho 19, 2013

O que se segue agora?

Agora que não há acordo o que se segue? O PSD e o CDS-PP parecem demasiado interessados em cumprir o acordo de entendimento com a Troika. O PS não podia cair na armadilha e aceitar uma não solução que consistia basicamente em aceitar tudo o que o governo quer ou o caos. Nunca houve nenhuma base para apoio realmente proposta pelo Presidente. A possibilidade do acordo partia do princípio da admissão de que a governação tem corrido bem e tem um sentido. Não tem.

Seguro fez um mau discurso na TV. Muito inseguro e a dar razão aos que duvidam de si. Deveria ter sido mais peremptório. Mais duro. Convenhamos que aceitar um acordo seria mau para o país. Seria pior do que deixar cair o que já caiu. Mas apesar de tudo as alternativas deveriam ser mais claras e mais bem comunicadas.

Cavaco criou uma crise sem paralelo e agora, depois de duas piruetas e um mortal, vai voltar a depositar a confiança no Governo. Como se fossemos todos parvos. Vai ficar tudo na mesma e aquela remodelação falhada vai em frente.

Uma das soluções imediatas é o próprio Cavaco renunciar mas estou a delirar. Na melhor das hipóteses foge para as Selvagens.

O interesse suicida em continuar a destruir o país, sem vincar novas posições com a Europa que permitam uma existência económica e social sustentável vai levar ao afundamento financeiro definitivo. Vai levar a uma crise ainda mais profunda.

Agora vem aí um segundo resgate. Provocado pelo primeiro. Pela incompetência dos que gizaram o primeiro. A começar pela Troika e a acabar nos responsáveis portugueses. É estranho, por exemplo, o facto de muitas das imposições da Troika serem fundamentalmente políticas e não necessariamente económicas ou que conduzam a alguma melhoria económica, como é o caso de algumas privatizações em saldo por meia dúzia de trocos. Não é aceitável esse tipo de imposição.

As reformas fazem-se em décadas. Alguns dos compromissos de redução da despesa são políticas que demoram muitos anos a consolidar e não é exequível o plano da Troika que o quer fazer em dois ou três anos. Toda a gente percebe isso.

Se não é exequível então porque se insiste? Que interesse é esse em insistir em algo que é inexequível com tanta vontade?

Essa é a suspeita sobre o Governo. Se o programa não é do interesse do país, porque está visto que não tem efeitos positivos sobre a economia, então é do interesse de quem?

A quem interessa realmente esta austeridade pela qual se luta tanto?

 

quinta-feira, julho 18, 2013

Porque duplicam os lucros do Goldman Sachs em plena crise bancária?

Lloyd Blankfein é o CEO do Goldman Sachs.

A "austeridade" é o processo que os "mercados" inventaram para financiar o lucro dos bancos de investimento como o Goldman Sachs que agora se noticia. Com a ajuda preciosa de clientes e colaboradores, colocados em cargos políticos com grande poder, estes "bancos" vão manipulando as finanças dos países através da especulação sobre os juros da dívida e aproveitando as oportunidades de negócio criadas pelas privatizações dos negócios públicos mais rentáveis. Essas privatizações são impostas por intermédio da chantagem política dos seus agentes colocados por todo o mundo em organismos como o FMI, o BCE, a Comissão Europeia ou mesmo dentro dos governos dos países.

O aumento de impostos e a poupança gerada pelo emagrecimento forçado dos Estados permite o pagamento de juros altíssimos. Esses mesmos juros que nos são vendidos pelos média como resultado da "incapacidade produtiva" dos povos e do demérito das suas economias.

A nossa pobreza financia diretamente a acumulação de capital desta "gente".

O que irrita mais é o facto de os nossos políticos continuarem a promover o enriquecimento destas mega-instituições sem aparente contradição pública dos muitos "especialistas" que vão cuspindo palavras nas TVs e nos jornais.

Nós vivemos acima das nossas possibilidades, eles não.

Os Antónios Borges, os Medinas Carreiras, os Coutos dos Santos, os Gaspares e muitos outros são os porta-voz da limpeza moral que se está a promover via este estrangulamento económico.

Em primeiro lugar convence-se os portugueses, diariamente pelas televisões, de que são uns miseráveis improdutivos. Que vivem acima das suas possibilidades.

Depois desvia-se o dinheiro produto da poupança nos salários e do aumento dos impostos para o pagamento da dívida enorme que se acumula por intermédio do aumento de juros explosivo e por meio da influência política na promoção de negócios ruinosos como foi o caso dos Swaps.

Pior ainda, o prejuízo dos bancos falidos por causa do estrangulamento que os mega-bancos exercem sobre outros mais pequenos ou apenas porque a insustentabilidade do seu negócio é por demais evidente é pago pelos contribuintes.

Perante isto é cómico/trágico o modo como se construiu uma ilusão coletiva que faz de qualquer um ser racional, que se revolta contra este estado corrupto das coisas, um comunista, um criminoso, um despesista desprovido de inteligência.

Tanta burrice travestida de conhecimento só convence os povos menos educados... é o nosso caso.

sábado, julho 13, 2013

O dia em que se ficou a saber que a educação pode mudar o mundo.

Foi o espanto e a agitação geral na assembleia da ONU quando Malala Yousafzai, uma ativista paquistanesa de 16 anos, bloguista, defensora dos direitos humanos e do direito à educação, sobrevivente de um atentado taliban, proferiu a seguinte declaração:

“Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação primeiro.”

Os presentes aplaudiram as palavras mas não muito longe dali as reações foram bem diferentes.

O Goldman & Sachs e o JP Morgan pediram que Malala frequentasse de imediato e compulsivamente um curso organizado pela Reserva Federal para perceber melhor o que pode ou não mudar o mundo. O tipo que criou aquele avião drone bombardeiro de longo alcance que faz tudo sozinho ofereceu-se para fazer uma demonstração a Malala. "Pomos um árabe no meio do deserto com uma caneta e um livro e mandamos o X-47B mostrar-lhe quem pode mudar o mundo" afirmou o engenheiro especializado em armamento.

Em Portugal, ao ver a notícia, Pedro Passos Coelho liga a Aníbal Cavaco Silva de urgência e este diz-lhe que a estabilidade política e dos mercados não pode ser posta em causa por uma garota árabe de 16 anos.

Em resultado foi convocado um Conselho de Ministros extraordinário, na nave central do Mosteiro dos Jerónimos, mas sem a presença de Maria Luís Albuquerque "Vou à faculdade ler uns livros..." e Paulo Portas "Agora não me dava jeito, tou a fazer um sacrifício em nome do estado!".

Miguel Macedo propôs enviar um SMS à Troika com a pergunta:

"Vimos por este meio confirmar se um consultor financeiro, um grupo de investidores de risco, um banco e um daqueles quadros cheios de números e luzes se mantém como o modo oficial de transformar o mundo."

Poiares Maduro defendeu a criação de um Ask.fm do governo para responder às dúvidas dos banqueiros mais aflitos.

Fontes não oficiais revelam que Nuno Crato afirmou durante o Conselho de Ministros que iria ligar para o Paquistão para propor o sistema dual para que nunca mais uma miúda de 16 anos tivesse esse tipo de atrevimento. O Ministro da Educação chegou mesmo a afirmar com segurança "Malala chumbaria no exame de matemática com certeza! Queria vê-la a pagar explicações com uma caneta ou um livro!".

Paula Teixeira da Cruz afirmou indignada "Eu pensava que as gajas árabes não iam à escola!". "Modernices..." retorquiu Assunção Cristas.

Entretanto, ao telefone, Angela Merkel garantiu a Passos Coelho que Malala era amiga de Snowden no Facebook e que por esse motivo todas as verdades que dizia eram por defeito mentiras de acordo com comunicado da Casa Branca. Obama, que estava a ouvir a chamada pelo Prism, acrescentou que tinha provas de que Malala era uma agente infiltrada do Wikileaks porque Assange lhe tinha feito "like" num post.

A Standard & Poor's desceu em dois pontos o rating do Paquistão e classificou como lixo as declarações de jovens activistas na ONU. Os juros da dívida portuguesa aumentaram na sequência desta crise de valores.

 

sexta-feira, julho 12, 2013

O vidente de Belém gosta pouco de democracia.

"[...] Em terceiro lugar, deverá tratar-se de um acordo de médio prazo, que assegure, desde já, que o Governo que resulte das próximas eleições poderá contar com um compromisso entre os três partidos que assegure a governabilidade do País, a sustentabilidade da dívida pública, o controlo das contas externas, a melhoria da competitividade da nossa economia e a criação de emprego.[...]"
Aníbal Cavaco Silva, 10 de julho de 2013

Aníbal Cavaco Silva ou é vidente ou não tem respeito nenhum pelo sentido de voto dos portugueses. Promete convocar eleições legislativas dentro de um ano mas já sabe de antemão que resultado estas vão ter.
Afirmou-o publicamente nas televisões do país. A democracia e a vontade popular está em desuso para os lados de Belém. Esta situação concreta é mais uma prova do golpe de estado que estes mangas de alpaca devotos da religião do dinheiro estão empenhados em levar ao fim. Na Madeira Alberto João, o protegido, pede o estado de emergência e uma nova Constituição numa declaração vergonhosa publicada oficialmente no site do Governo Regional.
Pede-se despudoradamente a suspenção da democracia para que os cidadãos não vetem a espoliação do povo para sanear as contas das instituições financeiras acumuladas por via da especulação.
É inadmissível que seja o Chefe de Estado a mostrar tal desrespeito pela normalidade democrática e pelo escrutínio popular. Quando é para votar a favor da normal aplicação de direitos constitucionais a pessoas com preferências sexuais diferentes a direita portuguesa, economicamente liberal e socialmente conservadora, clama por referendos populares. Quando se trata de eleger um governo já não gosta do voto popular porque os seus interesses económicos e o prolongamento da sua estada no poder não podem ser comprometidos.

quinta-feira, julho 11, 2013

No Cavaquistão quem não manda é o cidadão.

Cavaco Silva habituou-nos à desilusão e à ambiguidade. Ele é a imagem da derrota da nação, do desânimo. O seu rosto inexpressivo e cinzento promove a falta de esperança que as suas palavras parecem querer gravar nos nossos túmulos. E vemos Portugal a parar, a morrer às mãos daquele cinzentismo , daquela falta de imaginação, daquela falta de paixão e falsa austeridade.

Cavaco é uma espécie de Dr. Kevorkian na cabeceira de um Portugal moribundo, depois de um grupo de técnicos medíocres, seus aprendizes, nos ter deixado em coma.

Parece telecomandado por um macaco, de tal modo se apresenta desligado do que diz e o que diz desligado de tudo o resto.

Ninguém o entende porque, mesmo lendo palavras escritas, foi incapaz de criar um sentido inequívoco, uma direção ou uma linha de ação clara e evidente. Com as suas frases mal ditas, mal lidas, mal escritas ficamos a saber menos sobre o futuro do que já sabíamos. Cavaco é também um moralista pragmático. A moral interessa-lhe de ponto de vista do controlo social. Nada de maluquices e pouca participação. Para Cavaco ser presidente é igual a ser dono de um galinheiro industrial. Nós somos as galinhas e ele vai deixando, para que o negócio se mantenha, que as condições do galinheiro fiquem cada vez piores e os frangos vendidos mais baratos. Importante é o negócio, o mercado e fazer feliz a Maria. A salmonela faz parte, assim como o desemprego. Azar.

Tenho olhado para as notícias como quem olha para uma corrida perdida, mas com o desejo tonto, secreto, de um sprint final que nos qualifique para a fase seguinte. À espera da sorte, do talento, mas nada. Neste contexto nada mesmo nos vai salvar.

Nunca mais me esqueço da inevitável desaceleração de Fernando Mamede. Quando tudo podia acontecer e a vitória estava ainda ao seu alcance eis que faltavam as pernas e a cabeça ao corredor português e ele ia parando, devagarinho, enquanto os nossos olhos e punhos cerrados pareciam querer empurra-lo para a frente. Impossível, Mamede desistia.

Aprendemos com Cavaco que não vale a pena esperar, puxar por ele, torcer por uma medida inteligente, na defesa dos portugueses. Nem a esperança vaga e lusa que o talento enorme de Fernando Mamede nos fazia sentir o nosso Presidente nos provoca. Nem isso. Cavaco provoca tudo menos uma emoção.

Depois de o ouvirmos ficamos com a ideia de que não há governo. Que ele não concorda com este mas também não discorda e quer mais do mesmo. Quer ser ele a escolher. Ele e um amigo.

Não sabemos que amigo mas a julgar por alguns deles tenho algum medo. Cavaco sempre andou com más companhias.

Daqui por um ano temos eleições. Mas atenção. Ele já definiu o seu resultado e já decidiu quem irá governar depois delas. Portanto não se desgaste a votar.

A democracia, esse incómodo constitucional que impede o país de ser rico e bem sucedido, tem um valor relativo quando comparado com os mercados ou os interesses dos "investidores".

Nem os seus apoiantes perceberam bem qual é o seu plano. Governo a três? A dois, com o terceiro a olhar? Com promessa de uma perninha, quiçá dois ministérios, em 2014...

Governo de amigos do presidente? Votar é que não porque nós não sabemos escolher e portanto, para nossa defesa, devemos ser afastados da esfera da decisão.

Livrem-nos da vontade popular e da decisão do povo. No Cavaquistão quem manda menos é o cidadão. Mais nada!

 

quarta-feira, julho 03, 2013

O caso do avião de Evo Morales

O caso do avião de Evo Morales é muito grave. Muito mais grave do que à partida nos querem fazer crer.

Um chefe de estado democraticamente eleito foi proibido de aterrar em Portugal com o seu avião oficial. Mais do que isso foi impedido de utilizar o espaço aéreo português. Não foi só Portugal a tomar esta decisão. França e Itália também participaram nesta farsa.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros, esse que não tem ministro, ou tem, não se sabe, diz que "considerações técnicas" ditaram a interdição de aterragem, uma vez que depois de estar já pousado em Viena, autorizaram o sobrevoo. Considerações técnicas? Isso quer dizer o quê?

Será que o avião não cumpre as exigências da Zona de Emissões Reduzidas de Lisboa? Não creio.

Não há motivos para esta quebra de confiança com o Estado Boliviano e exige-se uma explicação plausível e verdadeira sobre esta medida anti-diplomática que se toma apenas com inimigos.

Em Portugal é assustador o vício da mentira e do encobrimento. Um despudor verdadeiramente nojento que está enraizado no modo fazer política.

Toda a gente sabe que o avião foi proibido de aterrar por se suspeitar que Edward Snowden ia a bordo.

O que eu gostava de saber é o que é que o governo de Portugal tem a dizer sobre Snowden. Estará proibido de entrar em Portugal? Porquê?

Já recebemos em Portugal ditadores em comitivas extensas alapadas em tendas, reuniões informais para combinar embustes que levaram a guerras, reuniões do Bildenberg e outros meliantes. Sempre com imensa hospitalidade. Quando foram os prisioneiros para Guantanamo a atitude Portuguesa foi bem diferente.

Edward Snowden mostrou-nos a todos que o governo americano nos espia descaradamente e nós, em vez de pedir-mos explicações como deve ser, tornamos o mensageiro "personae no gratae". Boa!


Actualização:

Hoje, dia 4 de julho, o Ministro Marques Guedes afirmou, em conferência de imprensa, que desconhecia a origem da ordem dada no sentido de proibir a aterragem do voo de Evo Morales. Ou seja, aquele rapaz que se demitiu antes de ontem, tem agora um novo motivo para se demitir uma vez que nem sequer governa o seu ministério e o usa apenas para os seus jogos palacianos. Por seu lado os EUA negam qualquer intervenção no caso.

Eu reafirmo a profunda vergonha que sinto pela atitude do governo português que se portou de forma indigna e que se justifica sem pudor com a sua absoluta incompetência e desorganização como se isso não fosse, por si só, um motivo de embaraço.

 

Marcelo, os comentadores e a "narrativa" do armagedão económico.

Ouvi ontem Marcelo na TVI, num comentário especial por telefone, falar da irresponsabilidade de Portas e da sua substituição no PP. Está visto que está choné. Acredita num governo até ao fim da legislatura com Assunção Cristas como líder do PP. Gargalhada total! Entretanto os ministros do PP já preparam a saída, fieis ao líder.

Também diz uma mentira grave, como já é habitual. Diz que a situação económica se agravou porque Portas saiu. É mentira! É mentira porque nada mudou na economia portuguesa de ontem para hoje. Continua tão miserável como Gaspar fez questão de a deixar.

É a narrativa do desespero. E este é só o episódio piloto de uma série muito longa.

Lá fora os suspeitos do costume, na comissão europeia ou no governo alemão, ameaçam já o próximo primeiro ministro. Tal é o desejo de nos ver no chão.

Um novo governo é uma situação normal em qualquer país. A Europa agora é que diz quem pode ou não pode ser governo? Que treta. Os governos europeus do norte querem suspender a democracia no sul para continuar a gerir, por intermédio de uns quantos Passos Coelhos, os seus interesses económicos e proteger o seu domínio na liderança política e económica da Europa.

Passos Coelho alinha nesta ideia. Sem ele a Europa deixa de acreditar em nós. Mas porquê? A Europa sabe tão bem como nós quão miserável é Passos Coelho como primeiro ministro. Outro qualquer fará, na pior das hipóteses, tão mau quanto ele.

Os mercados tremem com a democracia. Mas que regime é este que especula sobre a democracia. Em que os povos são intimados a escolher governos que protejam os interesses dos donos do dinheiro. Sob ameaça de falta de financiamento. Tudo no mundo é financiado. Tudo gira à volta da circulação do dinheiro, à volta dos bancos, das bolsas e mercados de bens, mas sobretudo de capitais.

Ontem mesmo, nos últimos minutos, subiram juros da dívida, desceram cotações da bolsa daqui até Berlim. Só faltou dizerem que tinham morrido todas as borboletas na China. Esta volatilidade é completamente parva e só mostra como o sistema é instável e especulativo e precisa de uma séria reforma. Aceitar estas consequências como inevitáveis é aceitar sermos escravos da estupidez, é aceitar sermos condenado à pobreza e ao endividamento eterno.

A narrativa de que a desgraça económica, um verdadeiro armagedão, virá se houver eleições vai tentar os portugueses nas vozes de Marcelo, do próprio Passos ou dos habituais comentadores "especialistas" para quem o crónico cagaço dos mercados justifica tudo.

É preciso contrariar este discurso. O melhor para a economia é dar a voz a quem vota. As teorias económicas dos liberais, defensores da ditadura do mercado, conduzem sempre ao autoritarismo e à subserviência da democracia às lógicas perversas da acumulação do capital.

É preciso um governo novo, forte, com consensos partidários que envolvam a defesa da dignidade do Estado e dos cidadãos contra os interesses totalitários da Europa. Não há espaço hoje para uma ideologia de direita que defende o status quo e os interesses dos grupos financeiros acima das pessoas. Há sempre dinheiro para o que é preciso. Depende agora se é mais importante pagar swaps manhosos e aguentar juros de 7% ou manter apoios sociais, apoios ao emprego, salários condignos e serviços públicos de qualidade.

 

sábado, junho 29, 2013

Pobres, ignorantes e covardes?

No dia 27 de junho, dia de protesto e greve geral, um grupo de manifestantes que desfilava em direção à ponte 25 de abril foi cercado pela polícia e identificado um a um como se fossem criminosos. Alega a polícia que o protesto não estava autorizado e punha em risco a segurança rodoviária. Vão todos a tribunal. O país acha normal.

Não há pachorra para o clima hipócrita, pseudo-legalista, de resignação e passividade que se está a instalar neste país. Fruto da proclamação da subserviência como prática obrigatória de cidadania.

Ele é a greve que não pode incomodar, a manifestação que não pode interromper o trânsito, o insuportável Presidente da República a quem ninguém pode chamar gatuno (ele que nem teve nada a ver com o BPN), etc, etc...

Já a Constituição, pelo contrário, é um texto sujeito a interpretações... e não o cumprir é um ato heróico e justificável num momento de emergência económica, blá, blá, blá, blá, blá, blaaaaaaaaaaaaaargh!

A legalidade das manifestações é ditada pelo povo que vê ilegalidades maiores serem votadas como lei sem pudor e sem castigo. Não é, nem pode ser, ditada pelas regras burocráticas do Estado. A emergência que estes senhores justificam para nos retirarem direitos é a mesma que justifica que se interrompa uma estrada ou se ocupe uma praça. Aqui, na Grécia, na Turquia ou no Brasil. A ordem pública pode esperar que nos devolvam o país e a dignidade.

Aceitar ser tratado e conduzido como gado é que não!

Em Portugal aceita-se esta espécie de democraciazinha de brincadeira que uns senhores que nunca foram democratas nos vendem nas TVs. Porque na verdade nunca acreditaram na liberdade do povo. Nunca acharam a liberdade do povo importante para o desenvolvimento económico. São liberarais porque querem a liberdade toda para si e para os seus negócios milionários. É ouvir a gravação dos banqueiros irlandeses que conspiram às gargalhadas para roubar os contribuintes do seu país, porque os de cá fazem o mesmo tipo de coisas. É dessa liberdade que gostam estes liberais.

Os opinistas dos jornais e da televisão alinham-se de pingo de baba no canto da boca a promover a ordem e a legalidade, provavelmente no intervalo de uma ação de campanha eleitoral de um Menezes ou um Seara. Ambos a marimbar-se para a lei e cheios de vontade de mamar no favorzinho que a Assembleia da República lhes fez.

Os Turcos, os Gregos, os Brasileiros, os Franceses quando querem vão buscar. Partem tudo. Vergam políticos e políticas.

Nós, esta cambada lusa de covardes na qual me incluo, baixamos a cabeça e pedimos desculpa pela imaginação do insulto. Somos uns masoquistas pobres, ignorantes e covardes. Uns educadinhos ajudantes de sacristia à espera que a benção do senhor pároco nos invada o reto enquanto lhe agradecemos as graças.

É isso que somos? Será mesmo só isso que somos? De que esperamos para fazer uma nova revolução?

Para quem quiser ouvir a gravação original dos banqueiros Irlandeses a conspiar à gargalhada clique aqui.

 

sábado, junho 22, 2013

Os nossos sonhos não têm cor nem se encaixam na tua folha de cálculo.

A Direção de Serviços da Região Norte do Ministério da Educação convocou recentemente as escolas, públicas e privadas, que oferecem cursos profissionais para discutir a rede escolar.

Um senhor, ex vereador do CDS/PP da Câmara Municipal de Viana do Castelo, tristemente celebre por defender as touradas na cidade, nomeado "Delegado" e representante do Ministério da Educação (M.E.), fala na importância de "prosseguir o esforço nacional da diminuição da despesa". Confirmo a data. Confirmo o local. Aquele discurso não é para ali, para aquele público. Mas ainda assim acontece. Estou numa ação de propaganda.

Misturam-se informações sobre Jardins Infantis, Escolas do 1º ciclo e do 2º e 3º ciclos, números de turmas e números de alunos por turmas. Parece que para o M.E. as turmas se fazem em múltiplos de 30 e trocos. Significa isto que se uma escola, com espaço e professores para 10 turmas do 7º ano, tiver 280 candidatos pode abrir 9 turmas e manda 10 alunos para a escola do lado, por falta de vagas, em vez de abrir 10 turmas com 28 alunos. Esta é a norma. Não está prescrita nenhuma exceção apesar de depois ser a balda e ninguém controlar nada. Autonomia clandestina.

A norma está mal, logo se vê. É como um pilar que de tão rígido se torna frágil e quebradiço, incapaz de cumprir a sua função de suporte. "A norma é para cumprir" diz o tal senhor. Pode ainda acontecer a escola ter só autorização para abrir 8 turmas e o que sobrar vai para o colégio com contrato de associação mas sobre isto não se falou.

Apesar de tudo o pior ainda estava para vir. Apresentam-se as prioridades na abertura de cursos profissionais. Atenção que a rede pública não foi separada da oferta privada. Não há uma estratégia específica para a rede pública. Na verdade são todos considerados "públicos" uma vez que a oferta privada de cursos profissionais depende exclusivamente do financiamento europeu que só chega quando a administração pública ratifica a abertura de um curso. Há algo de perverso aqui. Uma escola não pode justificar o mérito de uma oferta pela empregabilidade dos alunos, pela procura ou pela qualidade da formação e projeto educativo. A abertura do curso é uma decisão política. Sempre.

A administração decide que cursos quer para o futuro e decide com cores. Não há uma planificação da rede, lógica de continuidade, diversificação e complementarização da oferta, não é tida em conta a especialização das escolas e dos recursos humanos e materiais ou sequer pareceres de diversas entidades empresariais, universidades ou outros organismos. Mais grave ainda, existe uma, pouco pacífica, disputa por alunos entre as escolas e o IEFP que promove a sua própria oferta com recurso a estratégias competitivas muito eficazes.

Para o M.E. há os cursos a verde, os amarelos, os "castanhos" e os vermelhos. Curioso o "laranja" até aos laranjas parece hoje acastanhado.

Aplica-se a técnica da cultura intensiva, promovem-se áreas sem refletir sobre os efeitos nefastos da medida caso, por azar, as escolas a seguissem.

E quais são as áreas que promove o Ministério da Educação?

Suportado num estudo nunca apresentado, o senhor delegado apresenta, a "verde" para o Grande Porto: Comércio, Metalurgia e metalomecânica, Indústrias Alimentares, Materiais: madeiras, cortiça, plástico e outros, Construção civil e engenharia civil e Serviços de Transporte.

Quem ler jornais e acompanhar a economia percebe rapidamente que somos convidados a formar para áreas que hoje oferecem pouco emprego e que estão em crise. Outras áreas de desenvolvimento que se têm revelado de muito sucesso como o Design e a Criatividade ou a Multimédia e as Tecnologias de Informação, numa região marcada pelos serviços e pela presença, ainda que cada vez menor, de sedes de empresas e centros de decisão, aparecem na zona vermelha. O IEFP que se rege por resultados práticos de empregabilidade à saída das formações, por exemplo, coloca estas áreas vermelhas no topo das prioridades. São outros critérios.

Por outro lado está proibida, por qualquer motivo, a inscrição de maiores de 20 anos nestes cursos. Sabendo que a oferta de Cursos de Educação e Formação de Adultos foi drasticamente reduzida eu pergunto-me qual o objetivo real destas medidas em termos de política educativa e qualificação para o trabalho.

Na realidade a oferta tem de ser, necessariamente, diversificada e obedecer a critérios estratégicos económicos mas também culturais e ter sempre em conta a dignidade e a liberdade das pessoas. Não há qualquer necessidade de usar as cores e oferecer a formação profissional aos repelões sem ter sequer respeito pelas vocações e sonhos dos formandos. Mas esta é a questão essencial desta política.

Ao organizar a oferta formativa desta forma a administração garante que a população jovem que foi identificada e carimbada pelo sistema público de educação como menos bem sucedida vai confrontar-se com oportunidades que os disciplinam e organizam consoante necessidades económicas. Perdem o direito a querer ser o que quer que sejam e são obrigados a ser uma daquelas coisas. E essa obrigação produz efeitos sociais interessantes. Trabalhadores em número abundante em áreas tradicionalmente com custo de trabalho baixo assim como competências profissionais simples. Não há procura para esta mão de obra hoje. Mas o governo acha que haverá amanhã e está a trabalhar nesse sentido. Numa sociedade partida, com uma pequena e insignificante classe média, uma abundante e barata classe trabalhadora e uma pequena e abastada elite com direitos adquiridos dados pelas eternas gerações de senhores doutores premiados pela meritocracia que melhor convir.

É esta a natureza das nações ricas do séc.XXI, com um sério deficit democrático e com uma população escrava de objetivos económicos de larga escala para acumulação do capital num grupo cada vez mais restrito.

Este tipo de políticas são motivo de preocupação e devemos refletir sobre elas.

 

quinta-feira, junho 20, 2013

Sr. Doutor Juiz, posso levar um insulto?

Este texto vem no contexto da notícia «Jornalista condenado a multa e indemnização por chamar "idiota" a ex-secretário de Estado» do jornal Público de 19 de junho de 2013.

Atenção: este texto tem linguagem menos própria para o consumo dos mais pudicos.
Acho muito complicado e perigoso que em Portugal se condene alguém por chamar "idiota" a um governante. Em primeiro lugar porque está em causa a liberdade de expressão e em segundo porque pode, em última análise, impedir que alguém diga a verdade.
Bem sei que o acórdão condena o arguido sobretudo por ter chamado "idiota" a um secretário de estado sem ter apresentado justificação para o efeito. Alguns argumentarão que ter sido secretário de estado de Sócrates é motivo bastante, por exemplo. São livres de pensar isso. Mas seria com certeza, como noutros casos se fez, muito fácil fazer prova da idiotice deste ou daquele secretário de estado em tribunal, bastando para o efeito recorrer à leitura de declarações públicas ou ao enunciado das medidas que se vão tomando nas secretarias de estado.
No caso em apreço o jornalista escreveu que o inatacável funcionário do estado "é o mais idiota dos políticos que conheço e foi durante este último ano e meio secretário de Estado da Agricultura e Florestas" e continua dizendo "um dia será ministro das Finanças, ou da Educação, ou da Justiça de um qualquer governo, a confiar no aparelho partidário do Partido Socialista, onde parece que toda a gente boa foi de férias e só ficaram as galinhas".
As palavras são fodidas (olha, usei uma delas agora mesmo). Se o jornalista em apreço tivesse o talento para desenhar um galinheiro com o símbolo do Partido Socialista pendurado e um grupo de galinhas a bicar no chão sendo uma delas a carinha laroca do dito inominável e inatacável secretário de estado, o senhor doutor juiz nunca o teria condenado. Apesar de sabermos todos que as galinhas são um bicho que só não é idiota quando está no tacho.
Mas os símbolos são do caraças e a semiótica é fodida. Se em vez de galinhas fossem porcos numa pocilga já era diferente e o juiz deste caso, admirador confesso, presumo, dos brilhantes trabalhos na área da liberdade de expressão realizados pela justiça iraniana ou chinesa, já iria franzir o sobrolho e pensava "mil... mil e trezentos, devem bastar". Já, por último, se trocássemos os porcos por cavalos talvez o dito ex-secretário de estado, cujo nome é impronunciável e cuja dignidade está acima de qualquer suspeita, decidisse em vez de um processo presentear o jornalista em causa com um belo cabaz de Natal. É a natureza dos signos.
O que, com certeza, o senhor doutor juiz, se esqueceu de estudar foi que a palavra "idiota" está ligada ao exercício da política desde a Grécia Antiga ou antes ao não exercício – a palavra vem da raíz iδio que significa “em si mesmo” alguém que se exclui e não participa e que por isso rejeita a política (como tão bem explica Papandreou na sua comunicação no TED – ver aos 12m34s).
Neste caso particular talvez o jornalista não se estivesse a referir à falta de exercício e participação política do dito cujo, mas antes a um exercício que, em si mesmo, exclui os outros, exclui a comunidade para a qual trabalha. Por estar distante daqueles a quem se destina é idiota por princípio. Exatamente aquilo que se passa hoje na nossa governação “idiota”.
Mas ser "idiota" toca a todos. Ser o "mais idiota" toca a quase todos, uma vez ou outra. Incluindo-me a mim na galeria dos mais idiotas muitas vezes. É diferente de chamar "gatuno" que implica roubar, ou "cabrão" que implica um exercício específico da sua senhora ou, no máximo dos máximos, "filho da puta" que põe em causa a moral da proveniência dos rendimentos da mãe. "Idiota" em Portugal significa um ignorante ou vaidoso. Dificilmente encontraremos alguém que não pense o mesmo da maioria dos políticos. Estarão proibidos de o dizer sem o justificar?
Os políticos, sobretudo os que governam, estão a jeito. Não são cidadãos comuns. Legislam, afetam a vida das pessoas de forma determinante e andam com seguranças não identificados que batem e dão ordem de prisão. Nas revoluções perdem as cabeças. Literalmente. O exercício de um cargo político obriga a aceitar que nos chamem idiotas sem qualquer justificação. Faz parte. É diferente de dizer que roubamos. É só dizer que fomos maus. Dizer que se é "o mais idiota" é só dizer que fomos os piores.
Não quero um país em que não se possa chamar "idiota" livremente a um governante. Sobretudo sendo este um país de governantes Idiotas, Ignorantes, Vaidosos, Mentirosos e que todos os dias vão governando a favor dos seus interesses sem qualquer tipo de pudor nem compaixão pelos seus cidadãos. Será que é proibido mandá-los "à merda"?
Quanto custa senhor doutor juiz?
Neste mercado de insultos que se tornaram alguns tribunais portugueses, na inútil e impossível defesa da dignidade dos que nos governam, apetece-me entrar e dizer: Vou levar três "idiotas", uma dúzia de "gatunos" e apenas um "filho da puta"*, mas só porque não me pagam agora em junho. Venho cá em novembro e levo mais...
Tenham juiz(o).
* atenção que estou só a brincar, não me pagam o suficiente para liberdades dessas...

quarta-feira, junho 19, 2013

Uma questão de empatia...

O relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, intitulado "duas faces da saúde", revela aquilo que é já uma doença clássica nacional. A total e absoluta falta de empatia da classe política, dos governantes em particular, relativamente aos graves problemas da população portuguesa.

Quem ouviu ontem o Ministro Poiares Maduro na TVI ficou com a ideia de que para este governante Portugal é um caso de sucesso. Como somos todos ignorantes ficamos a saber que não vai haver despedimentos na função pública, apenas "requalificações" e que a coligação está forte. Ora, na mesma altura o outro partido da coligação estava a realizar um congresso em que prometia o oposto do que o governo anuncia. A "requalificação" só se for na situação no trabalho para efeitos de IRS que será requalificado para "desempregado" pois os números de redução de efetivos na função pública prometidos à Troika ultrapassam em muito as reformas e os contratados que vão ser postos a andar. Finalmente todos os números relativos ao nível de vida dos portugueses estão no pior de sempre desde que temos liberdade mas Maduro acha que este é o caminho certo. Para Maduro este é o Portugal com que ele sempre sonhou, um em que ele é Ministro e que os outros se f****. O grau de irrealidade e de desplante na distorção dos factos chega a ser cómico.

Mas voltando ao relatório da OPSS. O que me chocou é que se concluiu que o acesso à saúde piorou, sobretudo para os mais pobres e para os idosos, a aquisição de medicamentos deixou, em muitos casos, de ser feita e que o governo ultrapassou em muitos milhões a poupança prevista ou aconselhada pela Troika para o sector. Ou seja, segundo Maduro, Gaspar ou Passos, estaremos no sentido certo e o Ministro da Saúde Paulo Macedo é, considerado por todos, o melhor do mundo. Tirando para os velhinhos e os pobrezinhos claro, mas o que é que esses interessam no grande esquema das coisas?

Lá na Europa e nos Bildenbergs, G20s e G8s ninguém quer saber. A vida é tratada ao quilo. Como foi tratada a vida dos cerca de mil cidadãos do Bangladesh que morreram soterrados ao lado dos nossos pólos cor-de-rosa da Benetton. Ninguém quer saber. Os números dos gráficos são grandes demais e a riqueza das nações, como é o exemplo dessa grande nação que é o Brasil, não representa os problemas sociais e as dificuldades da grande massa de pobres que não participa desse sucesso económico feito de polícia militar, balas e condomínios de luxo muito fechadinhos.

Conclusão. Há mais gente a deixar de ir aos médicos e a deixar de tomar os medicamentos, há mais suicídios, há mais fome e muito mais pobreza, mas os ministros são bons, são académicos competentes e a sua palavra é rainha. Portugal está bem, a Europa recomenda-se, no Brasil as pessoas que se calem porque a FIFA quer fazer uma festa e quer silêncio, tirando o ruído irritante das "caixirolas" oficiais. Na Turquia vai tudo a eito que os parques não são para as pessoas, são para os governos mostrarem quem manda. No G8 a Rússia defende um criminoso no poder na Síria porque lhe interessa vender umas armas (boa estratégia económica, o rating da Rússia ainda vai subir). A China agora é de todos os que lá vão molhar o pincel, na mão de obra barata, menos dos pobres chineses. Obama anda a espionar a malta toda, a culpa é do rapaz que o denunciou, e na América matam-se na rua todos os dias sem que se legisle contra as armas porque dão muito guito nos bolsos dos políticos republicanos que querem que se ensine o Adão e a Eva na escola primária em vez do Darwin (possa que ainda há pior que o Crato), etc e etc e etc... tenho de deixar de ler jornais e ver notícias. Começa a ser demasiado difícil.