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artes plásticas... cinema... poesia... política... sei lá! ... basicamente as ideias todas a monte... o que passa pela cabeça e que escapa pelos dedos...
quarta-feira, junho 11, 2014
O passado deles é o nosso presente.
A presunção, no discurso do Presidente, de que "soubemos vencer as adversidades de um tempo muito difícil", como se as adversidades fossem coisa do passado, "dos últimos três anos" e não se prolongassem ainda hoje ou se projetassem no futuro, é de um cinismo e insensibilidade social próprio de alguém que não foi talhado para representar um povo.
Depois de uma semana em que o Primeiro Ministro e seus acólitos nos brindaram com todo o tipo de birras, insultos e ameaças ao Tribunal Constitucional e à própria lei fundamental por não terem sido autorizados a baixar ainda mais os salários e as pensões, só por gozo alguém considera que as adversidades pertencem ao passado.
Depois de o INE provar que o PIB está novamente a recuar, que as exportações baixaram e a balança comercial está de novo desequilibrada só por calculismo político inadmissível alguém pode considerar a crise uma coisa do passado.
O passado do Presidente da República é o nosso presente e provavelmente o nosso futuro. Isto a acreditar nas palavras dos próprio Primeiro Ministro.
É por estas e por outras que quando o PR desmaia durante uma cerimónia ninguém se cala em respeito ao senhor. Porque ele nos falta ao respeito todos os dias, porque não cumpre o seu juramento, porque não é um de nós. A Presidência da República merece-nos o respeito de ser o alvo privilegiado dos mais importantes protestos. Se o programa de empobrecimento não parou por causa do mal de tantos porque pararia o protesto por uma simples indisposição de um?
Não lhe desejo a doença mas sei que ele também, na prática, não nos deseja a saúde.
sexta-feira, maio 23, 2014
Porque estão os professores desmotivados?
"Quase dois terços dos professores admitem que a motivação para estar na escola diminuiu nos últimos anos"
PÚBLICO, Samuel Silva, 23 de maio
Desconhecendo a amostra deste estudo em detalhe diria que me parece, à primeira vista, demasiado pequena. Gostaria, apesar de tudo, de realçar o conceito de "massacre sistemático" da comunicação social que contribui, junto com o discurso do poder político, para enfraquecer os professores e desvalorizar o trabalho da escola.
No entanto não podemos deixar de constatar que muitos professores contribuem para o discurso negativo centrando-se, por exemplo, na questão da indisciplina como factor desestabilizador da profissão quando, na verdade, faz parte das competências profissionais de um docente identificar, estudar e procurar soluções de um modo colaborativo para questões como essa. O trabalho de um professor é sempre com os alunos que tem à frente e não com outros que o sonho imagina melhores ou mais sossegados.
É urgente que os professores se afirmem como profissionais com saberes únicos e específicos capazes de lidar com os desafios (sejam eles quais forem) que as gerações atuais e futuras de alunos lhes colocam. Devemos adaptarmo-nos à realidade dos alunos com os quais trabalhamos de modo a ser possível estes realizarem aprendizagens significativas, sejam quais forem as circunstâncias ou as dificuldades. É um projeto profissional. O engenheiro de pontes também não pede um rio mais estreito para ligar as duas margens.
Não se pode ignorar, apesar de tudo, que a desvalorização dos salários equivale a uma desvalorização social da profissão e que ambas, o empobrecimento e a desvalorização social, se somam e multiplicam assim o efeito desmoralizador. Mas nada disto é ao acaso. O ataque aos professores é um ataque à ideia de escola pública e escola para todos. É um ataque ao projeto de uma sociedade que promove a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos. É isso que está em causa e é desse ataque que os professores se devem defender. Pessoalmente (e nem todos têm de ser como eu) é neste momento que me sinto mais motivado. Mas é pelos motivos piores. É por sentido de resistência e por preocupação pelo futuro difícil dos meus alunos. A desmotivação dos professores é totalmente justificada e não se limita à classe docente.
Para o poder político neo-conservador que nos governa a escola pode, se correr mal, encurtar as distâncias e aproximar as oportunidades. A escola pode, se correr mal, abrir os olhos dos futuros trabalhadores para a natureza da exploração laboral e das novas escravaturas. A escola pode, se correr mal, ensinar a tolerância e o respeito pela diferença. A escola pode, se correr mal, fomentar uma crítica dos valores e por em causa os preconceitos que passam por tradição. A escola pode, se correr mal, fazer de crianças e jovens adultos que pensam de modo crítico e que exigem respeito e democracia.
Enfim, se correr mal, a escola pode ser um ninho de subversivos com uma visão mais clara do mundo.
Na Soares dos Reis fazemos um esforço para que corra muito mal. A vingança contra este sistema é o conhecimento e a vontade de saber que plantamos nas cabeças dos alunos como quem coloca uma bomba que mais tarde explode e transforma o mundo completamente. É um acto subversivo e terrorista promover o conhecimento em países europeus pobres e endividados em pleno séc. XXI e os professores, a cada aluno que ensinam, estão a criar homens-bomba da liberdade do pensamento e do conhecimento.
Vote Noutro Qualquer!
Em véspera de eleições para o Parlamento Europeu, gostava de deixar um forte apelo ao voto. Ficar em casa é entregar o ouro ao bandido.
Como mensagem política, em final de campanha deixo aqui um pequeno guião em notícias reunido rapidamente mas que será esclarecedor:
"Merkel apoia Juncker para suceder a Barroso" Jornal de Negócios, 3 de fevereiro
"PSD critica PS e apoia Juncker" Correio da Manhã, 7 de março.
"Marcelo justifica voto na coligação só para eleger Juncker" Público, 20 de maio
"Merkel decide formação da Comissão Europeia antes das eleições"Jornali, 21 de maio
"Nicolas Sarkozy propõe fim da igualdade dos Estados na União Europeia" Expresso, 22 de maio
Faça como eu e VOTE NOUTRO QUALQUER!
domingo, maio 11, 2014
Andamos a contribuir para o porquinho deles...
Ajudas a Portugal e Grécia foram resgates aos bancos alemães Isabel Arriaga e Cunha (Bruxelas) in Público 11/05/2014 - 08:10
Já o tinha dito e afirmado logo no início da crise. O resgate foi uma transferência indireta para os cofres de bancos alemães e franceses. Agora vem alguém comprovar isso.
Não era difícil chegar a essa conclusão. Tudo o indicava.
Mas para além de percebermos que desde o início esta crise não foi culpa dos portugueses, mais importante, neste momento, é denunciar a fraude que é o sucesso do programa de ajustamento. É uma irresponsabilidade que roça a traição festejar este programa.
Diz Philippe Legrain ao Jornal Público:
"[...] a troika (de credores da zona euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas. Já é mau demais ter-se um patrão imperial porque não tem base democrática, mas é pior ainda quando este patrão lhe impõe o caminho errado. Isso tornou-se claro quando em vez de enfrentarem os problemas do sector bancário, a Europa entrou numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi claramente o que aconteceu em Portugal. As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa."
Philippe Legrain, ex-conselheiro do actual presidente da Comissão Europeia
terça-feira, maio 06, 2014
Os alunos não são atletas mas podem ser todos vencedores
Inovação, Democratização e Imaginação são os três factores fundamentais para a melhoria constante dos recordes desportivos. David Epstein demonstra, nesta conferência TED, como a única coisa que se transformou para que o ser humano atinja novos máximos físicos foi o seu querer, o seu engenho tecnológico, o seu conhecimento científico, a sua vontade de treinar e a oportunidade de cada um ser diferente ou de tirar partido da sua diferença.
Enquanto ouço David Epstein vou refletindo sobre como o sucesso educativo depende dos mesmos fatores. Da nossa capacidade de conhecer melhor os alunos e o seu modo de aprender, da tecnologia que usamos para os ensinar, das expectativas que vamos semeando nas suas cabeças e que fomentam o seu querer e, muito importante, do respeito que devemos ter pelas diferenças entre os alunos e como elas representam potenciais diferentes e não necessariamente dificuldades de aprendizagem ou de adaptação. Se a sociedade e o poder político de hoje olhasse de um modo mais humano, mais pragmático e mais científico para a educação estaria a potenciar todos os alunos em vez de fazer uma cínica e cuidadosa seleção social, com objetivos políticos e económicos.
Os professores, em contacto direto e humano com os seus alunos, vão acreditando no seu potencial e vão remando contra a maré sistémica que parece querer garantir que muitos trabalhem barato para o benefício de muito poucos.
Reconhecer a hipocrisia embutida nos sistemas de seleção falsamente meritocráticos em que se tornaram os sistemas educativos modernos é um primeiro passo para a construção de soluções eficazes e para o cumprimento cabal da declaração dos direitos da criança e da declaração dos direitos do homem.
Se pensarmos bem e se quisermos trabalhar bem, todas as escolas podem ser escolas de sucesso e todos os alunos podem ter direito ao seu sucesso educativo.
Agora imaginem uma economia assente no sucesso de cada cidadão em vez de uma economia assente na desvalorização do trabalho, na desescolarização das aprendizagens (querem empresas a ensinar alunos, não é?) e com a finalidade única do aumento do lucro corporativo. É utópico apenas na medida em que é realizável. Um sistema educativo eficaz é uma distopia para o capitalismo neoliberal que se instalou na Europa. Porque não promove a exploração do trabalho barato, fruto de uma fraca educação, e nesse sentido não contribui para a diminuição dos custos de produção e provoca, necessariamente, uma diminuição do lucro corporativo, hoje a medida de todas as coisas quanto à saúde financeira de um Estado.
quarta-feira, abril 30, 2014
Conhece alguém que precise do First Certificate para alguma coisa?
O teste de Cambridge foi hoje às escolas mas...
Eu percebo que queiram aumentar a qualidade do ensino de inglês. Percebo, mas levantam-se algumas questões. Este certificado tem uma validade muito baixa ou mesmo nula. Não serve para estudar no Reino Unido ao nível do Ensino Superior, por exemplo. Não se percebe o investimento neste grau se ele tem pouca ou nenhuma utilidade prática, sobretudo num momento em que a escolaridade obrigatória é o 12º ano.
Se fosse um exame em que a classificação final resulta num nível de proficiência em Inglês? Mas não é. Ou se passa ou não. E o First Certificate não serve na prática para absolutamente nada. Servirá para emigrar, talvez... Nem isso.
Por outro lado não me parece que a certificação em Inglês que este grau atribui, para o habitual empregador que exige menos do que a escolaridade obrigatória a quem contrata, seja assim tão determinante. Dificilmente o First Certificate fará diferença na contratação de alguém com o 9º ano. Sejamos sérios.
Este exame é um negócio. Pura e simplesmente um negócio. Com a conivência de uma Confederação de Associações de Pais que parece pouco preocupada com a qualidade de ensino e mais preocupada com diplomas e outras aparências. Parece que defende sobretudo os interesses dos alunos provenientes de famílias com alguns recursos financeiros, quer seja para pagar o exame quer seja para dar uso ao seu Inglês.
O objetivo será fazer a mesma coisa no final do 11° ano. Mas em que medida faz sentido associar a aprendizagem de uma língua a uma certificação por uma entidade privada? Não faria mais sentido certificar o exame nacional de Inglês?
Esta má ideia é o exemplo das não medidas que o MEC gosta de tomar. Melhorar alguma coisa nas escolas? Naaaaa... Criar um exame pago para um certificado inútil pago a uma entidade privada? Grande ideia! E depois os pouco produtivos somos nós...
sábado, abril 19, 2014
O sucesso de Nuno Crato.
O jornal Público noticia hoje, com dados do MEC, que o número de estudantes que, à saída do ensino secundário, declara querer prosseguir a sua formação entrando no ensino superior não tem parado de diminuir desde 2008. Avança ainda que as razões económicas são as mais apontadas para não querer continuar a estudar.
Conclui-se daqui que as medidas do MEC e de Nuno Crato estão a resultar em pleno. Reprodução social garantida pela seleção económica. Menos cidadãos habilitados a uma formação superior. O dinheiro e a formação dos pais como decisivos no futuro do aluno. A meritocracia aparente tinha de dar lugar a um sistema mais simples e garantido. Tem quem paga.
Se tornarmos o acesso ao ensino superior menos atrativo economicamente, ou pura e simplesmente impossível, dentro de pouco tempo voltaremos a ouvir frequentemente a frase "não tive dinheiro para estudar", um queixume não tão velho quanto isso. Com resultados muito maus para o país e aparentemente bons para a elite saudosista do fascismo (olha o Durão).
A crise económica, causada pela geração dos 45 para cima, também é fruto da sua falta de formação, não só técnica mas sobretudo ética e, ao contrário do que escreve a elite conservadora, nós temos andado para a frente em termos de qualidade na educação nos últimos anos. Estamos melhor hoje, todos os dados o comprovam. Querem a regressão porquê?
A mudança do projeto económico do país, assente em salários baixos e produção barata para investimento industrial estrangeiro, tinha de ser acompanhada pela criação de uma força operária barata, com pouca formação, essencialmente técnica, profissional e muito específica. Quanto menor a formação e mais específica mais dependente é o trabalhador do empregador, menor o salário, menores os custos de produção. Por isso se criaram os cursos vocacionais. Por isso andaram responsáveis alemães, juntamente com responsáveis do MEC, a apresentar este tipo de cursos. São os investidores estrangeiros os mais interessados na criação dessa força operária, pois é a garantia da diminuição dos custos do investimento e da maximização dos lucros.
Neste projeto económico o país encolhe (como tem sido defendido e exigido por tantos economistas inconscientes), reduz-se a arrecadação por via dos impostos, sejam sobre o consumo ou sobre os rendimentos, e torna-se impossível manter um Estado com um grau de proteção social ao cidadão suficiente. O governo desce os impostos sobre as empresas, em nome do crescimento, e os impostos sobre os cidadãos, apesar de mantidos elevados, não chegam para as encomendas fruto dos baixos rendimentos e fraco consumo.
Aumentam as diferenças entre ricos e pobres e gera-se uma aparência de riqueza, como em todas as ditaduras, investindo na capital da nação, escondendo-se os pobres debaixo do tapete. Seremos um caso de sucesso, tipo Brasil, mas um sucesso que os portugueses nem cheiram. Um país rico com cidadãos pobres. A invenção do neo-liberalismo.
O projeto para Portugal está desenhado. O papel do Ministério da Educação é um dos mais importantes e tem sido cumprido à risca. Sempre contando com o apoio involuntário dos portugueses que gostam pouco dos seus jovens e se esforçam demasiado (e de forma até infantil) para provar que são melhores do que os seus próprios filhos. É que vencer a ignorância e procurar o conhecimento, à escala de uma nação, é um obstáculo bem mais difícil de ultrapassar do que se imagina. Não se chega lá castigando os mais novos.
Se defende justiça e igualdade no acesso ao ensino superior assine está petição.
terça-feira, abril 15, 2014
A "Flip Art" ou o neo-liberalismo no mercado da arte.
"Auto-retrato anónimo" (2014) técnica mista, autor anónimo.
Dan Rees, à esquerda, na inauguração de uma sua exposição na Fundação Goss-Michael em Dalas.
Chamam-lhe "Flip Art" (ler este artigo no New York Times) e é, na verdade, a aplicação das práticas especulativas dos mercados de capitais à compra e venda de obras de arte.
Se, por um lado, para os mercados artísticos emergentes é pouco atraente a especulação com obras de artistas muito importantes. As obras são raras, correm mais riscos de falsificação e mais risco financeiro por cada obra. O mercado da arte mais animado e borbulhante prefere comprar e vender muito depressa, vender antes de comprar, fazer muito barulho.
Por outro lado o processo de legitimação artística tradicional é demasiado demorado e implica dar tempo aos artistas para que a sua obra amadureça e seja devidamente digerida pelo olhar da crítica e do público. É um processo relativamente democrático que pouco interessa aos investidores que poucos riscos querem correr. Não lhes interessa a arte mas as oportunidades de realização de lucro rápido.
As vendas são organizadas em leilões porque, dizem, os investidores acreditam que o artista que está representado num leilão tem à partida um determinado grau de qualidade. Não é necessariamente verdade.
Para isto são selecionados muitas vezes novos artistas de qualidade muito duvidosa e com um trabalho suficientemente ambíguo para que o discurso críptico de críticos, previamente comprados, deixe investidores à beira do orgasmo.
Os artistas escolhidos, os que estão no centro dos interesses, inundam o mercado com centenas de obras e criam algum "hype" com a ajuda de galeristas inteligentes e cheios de contactos. A colocação de uma obra numa coleção importante pode desencadear um furiosa torrente de vendas e compras completamente às cegas.
Como podem ver na esmagadora maioria deste lote extraordinário da casa de leilões Philips a qualidade das obras é muito duvidosa.
Lá está a nossa Joaninha com os pijamas de renda para bichos de louça, mas a vender pouco quando comparada com algumas pérolas como Parker Ito (o seu site é do mais autêntico Glitch Art ou simplesmente mau html, as obras nem comento), Dan Rees, na fotografia acima, Lucien Smith, ou o mesmo o pseudo-clone de Basquiat, Oscar Murillo.
Aliás a Philips, detida na totalidade por uma empresa russa de retalho de luxo, deixa evidente no seu site o motivo pelo qual vende e porque tem sucesso. Não são os artistas nem as obras, senão leiam:
É claro não é?
Se mais tarde o mercado topa a real qualidade das obras e estas deixam de valer o que quer que seja, pouco interessa para aqueles que, na feira de arte e no leilão, fizeram milhões com telas manchadas por materiais de bricolage baratos.
É, já se sabia, muito fácil criar fenómenos artísticos da noite para o dia, com campanhas mais mediáticas, com ordens de compra falsas e sempre com muitos telefonemas à mistura. É como largar um mentos numa bacia de coca-cola. A magia acontece. Pouco interessa a qualidade da obra. Estas obras, na sua maioria, nem penduradas serão depois de terminarem as exposições. Viajam empacotadas de depósito de galeria em depósito de galeria. Trocam de mãos constantemente. Interessa apenas o valor financeiro realizado na troca. Como em tudo. A substância passou a ser o dinheiro, tudo o resto é subproduto. Encorajador.
O meu pai bem me falou da importância de um grande mercado e do sucesso da fábrica de pregos de duas cabeças. Hoje,com a institucionalização de compra e venda de perspetivas de ganhos em vez de produtos reais, nem fábrica precisa de existir, apenas a crença de que existe uma fábrica e um produto. Só isso já dá para especular e ganhar dinheiro.
sábado, abril 12, 2014
A música oficial do Mundial de Futebol é um insulto ao povo brasileiro.
sexta-feira, fevereiro 28, 2014
Não, não preparamos ninguém para exames...
Cada vez mais os País e Encarregados de Educação, quando questionam sobre este ou aquele professor, este ou aquele problema, concentram quase exclusivamente a sua atenção e preocupação na preparação para os exames.
Os problemas que apresentam são, de um modo geral, pertinentes e merecem a nossa total atenção e cuidado. Os objetivos, no entanto, pelos quais estes elementos da comunidade escolar querem ver esses problemas resolvidos não são os mesmos que nos incentivam à sua resolução. Pensamos de modo diferente o "ser uma escola".
Quando questionados sobre o facto de as aulas não servirem para preparar os alunos para os exames mas servirem para promover a aprendizagem de um conjunto de coisas e as competências para continuar essa mesma aprendizagem com autonomia respondem quase sempre "sim, claro, mas ele/a precisa de se preparar para o exame!". Percebo, mas isso assim não funciona.
Os exames já não existem para avaliar aprendizagens realizadas na escola mas são hoje o centro dos objetivos de pais, alunos e professores. Na prática o programa da disciplina dá lugar à matriz de um exame e este, assumidamente, serve para selecionar e não para avaliar.
Deixou de interessar o que se aprende e passou a interessar apenas a performance competitiva na resposta ao exame. Por esse motivo é natural que cada vez mais os melhores saibam menos. É fruto da pseudo-exigência do sistema instalado. O sistema de exames não garante uma avaliação justa (porque tenta a impossível tarefa de normalizar aprendizagens demasiado diversas), aplana as aprendizagens e reduz a sua profundidade (para conteúdos facilmente quantificáveis na avaliação) e implementa um sistema desumano de abandono sistemático e rejeição dos alunos que aprendem de modo diferente, a um ritmo diferente ou que simplesmente não aceitam a lógica de obediência e pensamento acrítico que a escola vai promovendo.
Creio que o fino fio que sustenta a escola hoje é a relação humana que os professores vão mantendo com os alunos em que a curiosidade e criatividade dos últimos estimula os primeiros a arriscar ensinar outras coisas.
É urgente alterar o centro de gravidade da escola. Centrar o seu trabalho na construção partilhada do conhecimento dos alunos e na sua vontade de continuar sempre a aprender. É urgente devolver a humanidade à escola numa altura em que, cada vez mais, se entende o seu trabalho como o da fábrica. Os alunos não são carros numa linha de montagem.
O trabalho da escola não se avalia com testes mecânicos, matemáticos. O trabalho da escola avalia-se com o olhar experimentado como o de um crítico de arte. Como quem olha para uma obra de um artista ou de um grupo de artistas. Com exigência, com recurso a muito conhecimento, de um modo estruturado e sistemático mas nunca com base em números que perderam há muito o seu sentido porque representam outros objetivos, outras metas.
Para fazer essa avaliação é fundamental perceberem todos o que se está a fazer na escola e porquê. É fundamental ter um projeto comum e no interesse dos alunos. Não é, acreditem, preparar para exames. Para isso os professores e as aulas podem facilmente ser substituídos por livros, páginas da internet, ou uma qualquer app. Para esse efeito a escola pode pura e simplesmente acabar.
Por isso, ainda que respeite muito os Pais e Encarregados de Educação que me procuram e me considere o seu mais importante aliado na educação dos seus educandos, ainda que me disponibilize infinitamente para os ajudar e resolver os seus problemas, muitas vezes me dá vontade de responder "Nós aqui não preparamos para exames, fazemos coisas diferentes. Nós somos uma Escola!"
segunda-feira, janeiro 13, 2014
Uns com os outros (Editorial para o Magazine DINÂMICAS #2)
Este texto foi publicado como editorial no Magazine DINÂMICAS #2 do curso de Design de Produto da Escola Artística de Soares dos Reis com o tema "Interações"(disponível neste link)
Formei-me pintor e acreditava, na altura, que a minha arte se fazia sozinho. Era semeada com os outros, sim, mas colhida numa solidão nem sempre fácil, como são todos os olhares para dentro. Gostava da solidão do fazer. Essa solidão realizava-se num silêncio que era, para mim, mais a ausência das palavras dos outros e sobretudo das minhas do que a ausência do som.
Embalava-me no fazer difícil da pintura. Sentia a tinta macia a espalhar-se, transparente, muito transparente, sobre uma tela cuja textura suave do papel de jornal lá colado me dava um prazer sublime. Os azuis, uns por cima dos outros, deixavam composições que me interessaram sempre mais a mim do que aos outros. Era uma coisa minha e por muito que gostasse de a partilhar nunca comunicou para fora com a eficácia que eu lhe imaginava naquelas formas ambíguas cheias de ironia e impossibilidade.
Um dia a escola abateu-se sobre mim com tanta força que o exigente exercício emocional de pintar se tornou insuportável. Precisava de calma e paz para depois as poder destruir na pintura. Sem essas a pintura era impossível. Nunca pintei para me curar de nada, antes pelo contrário.
Parei de pintar sem nenhum sentimento de perda definitiva. Os desafios que se me puseram punham à prova toda a minha capacidade de sonhar estruturas e de fazer coisas. Desenhava sem lápis sobre outros papéis mas comunicava mais e continuava a tentar fazer mossas na realidade teimosa.
A escola é um lugar diferente do atelier, da tela branca. É o lugar da partilha e do contacto humano constante. Deve ser o lugar da impossibilidade da solidão. Mas o que a torna diferente dos outros espaços e organizações do humano é a sua missão de contaminação. É o espaço da contaminação do conhecimento, do aprender a viver que não acontece em casa, do aprender a conviver com o outro, com a diferença. Contaminamo-nos uns com os outros constantemente. A solidão, quando acontece na escola, é patológica. É fruto do abandono, do isolamento, e contraria a sua identidade orgânica e coletiva.
O egoísmo também não tem lugar na escola. Não se faz nada sozinho. Ninguém deve ser abandonado a fazer sozinho. Uma escola é uma rede de gente a tratar com gente. Não fazemos parafusos nem vendemos seguros. Fazemo-nos gente. A todos. Por cada aluno que se constrói na partilha da escola vários professores se fazem, se transformam tanto como os seus alunos.
Esta partilha exige de cada um a capacidade para se conectar mas também a liberdade de se transformar, de crescer livre.
Este coletivismo, apesar de tudo, não assenta na diluição do indivíduo. Pelo contrário, constrói-se com indivíduos e estrutura-se na singularidade de cada um. A escola não é uma massa amorfa mas uma rede de nós, todos diferentes e todos livres.
Chamam à escola um "caos organizado" e com razão, mas esse caos não acontece por desleixo, é o caos do humano em ação. A escola deve obedecer cada vez mais a uma organização rizomática, em transformação permanente. Capaz de incluir cada um. Capaz de se alargar e conectar com outras estruturas. Sem perder a sua orientação, a sua razão de ser.
A Soares dos Reis, como as outras escolas artísticas, é uma escola do aprender do fazer. Do fazer com sentido, tão estruturado como criativo e livre. O conhecimento tem um resultado expressivo nas escolas artísticas. Não fica guardado nas dobrinhas do cérebro à espera de um questionário qualquer que o reifique num diploma ou numa classificação.
O sentido coletivo do fazer, do construir coisas, dá à Soares dos Reis um ar estranhamente homogéneo ao olhar estranho. Nos momentos mais acelerados, como é o final do ano, parece uma instituição em transe. Não podemos admitir que alguns desses olhares estranhos, vindos de cima, nos considerem menores ou menos capazes apenas por sermos produtivos, por fazermos coisas. Nas escolas também se aprende fazendo. Se calhar só se aprende fazendo.
Não podemos admitir que, de cima para baixo, a ignorância e a opacidade dos princípios destrua o sonho dentro de cada um que procura o seu sentido, o seu lugar no meio dos outros humanos.
As escolas de arte serão sempre portas para a realização de sonhos. Lugares para sonhadores. Sonhadores corajosos, sonhadores descarados, sonhadores em missão. Nessa missão é importante não esquecer que somos um coletivo de indivíduos, todos diferentes e todos ligados entre si. A fazer coisas ao mesmo tempo, coisas por vezes diferentes, por vezes iguais, com ritmos diferentes, objetivos e sentidos múltiplos mas sempre com o apoio uns dos outros.
A missão da Soares dos Reis é ajudar a concretizar esses sonhos. É ser o espaço organizado onde essa rede de indivíduos se suporta e se constrói livremente. Todos somos responsáveis por permitir ao outro que alcance o seu objetivo e esse é o verdadeiro propósito de uma comunidade educativa artística.
sábado, janeiro 11, 2014
A imoralidade dos Contratos de Emprego e Inserção
Não podia estar mais de acordo com o Daniel Oliveira sobre os Contratos de Emprego e Inserção.
Já em 2012, neste mesmo blog, me tinha insurgido contra um texto de Rui Rio onde era glorificado o seu programa de ocupação de beneficiários do Rendimento Social de Inserção, qualificando-o eu na altura como imoral e ilegítimo.
Como subdiretor de uma escola pública que se vê obrigada a recorrer a Contratos de Emprego e Inserção para ter o serviço a funcionar normalmente, posso afirmar que estes trabalhadores demonstram, na maioria dos casos, uma inexcedível dedicação ao trabalho e à organização e se tornam muitas vezes absolutamente imprescindíveis ao fim de um ano. Trabalhadores que sabem que não terão nunca um vínculo à organização. Nada. É generosidade e capacidade de trabalho em estado puro.
Temos alguns trabalhadores na Soares dos Reis nesta situação. Os que não se dedicam tanto ao trabalho na escola é sempre porque percebem o lado perverso do programa e não porque sejam maus trabalhadores.
Os serviços da escola, tanto na área administrativa como na dos assistentes operacionais, têm uma falta de funcionários crónica, grave, e o problema é "tapado com a peneira" dos CEI ano após ano. Sem reflexão da tutela, sem abertura de lugares para contrato e sem qualquer tipo de verificação real por parte dos gestores do programa nos centros de emprego e nos serviços centrais da tutela para comprovar sequer a necessidade do posto de trabalho. Ninguém faz nada e todos aceitam esta ilegalidade. A escola está de mãos atadas. É ter CEIs ou fechar a porta.
Os centros de emprego exercem esta política com um sadismo e perversão ainda mais acentuados porque, mantendo o serviço a mesma necessidade no ano seguinte, proíbem a manutenção do trabalhador que desempenhou bem a função no mesmo posto de trabalho para o programa seguinte. Mesmo quando o trabalhador quer ficar e o serviço o QUER MANTER obrigam à rotação. O argumento prende-se com o cumprimento da lei que implica que os postos de trabalho ocupados nos programas não sejam de caráter permanente. Na verdade os programas são aprovados ano após ano e compreendem necessidades permanentes. Este cumprimento austero do programa, apenas para um dos lados, é prejudicial a todos e não é ponderado. Para que o trabalhador não se acomode sacrifica-se o serviço público e a função específica do posto de trabalho. É um processo de pressão e de depressão imposta ao trabalhador para que este se sinta indefeso e dependente dos serviços do centro de emprego.
Isto tudo para além da profunda imoralidade da coisa, do sistema de remuneração e do modelo de contratação como, MUITO BEM, referiu o Daniel Oliveira no seu texto.
Estes trabalhadores merecem um contrato de trabalho. Merecem condições justas de remuneração para as funções que exercem e merecem manter o posto de trabalho quando, havendo necessidade, o serviço os quer manter.
Quem não defender isto vale tanto como um qualquer latifundiário do sul da América na primeira metade do séc. XIX. E acreditem que, a ver pelos comentários a esta notícia no Expresso, temos muitos Calvin Candies no armário cá em Portugal.
Os CEI representam o imaginário utilitarista e desumano de gente como o futuro comissário europeu Paulo Portas. Mas apesar de ser esta uma das medidas que ele sempre reivindicou foram os socialistas a implementar pela primeira vez (julgo não estar errado). Serve isto para comprovar o estado de alienação e infiltração das ideias neo-liberais desumanas na sociedade portuguesa.
Flexibilidade máxima, segurança mínima e dependência burocrática centralista. Trabalho mal pago e pago com os direitos do próprio trabalhador o que é tão grave como obrigar a trabalhar um reformado pelo valor da pensão e tomar esse valor como um salário justo. Sem perspectiva de ver o seu mérito e esforço reconhecidos e sendo pago pelos seus próprios descontos esta solução moderna de engajar trabalhadores é uma solução muito pouco ética e que deveria ser considerada inconstitucional.
Os CEI não são empregos falsos, inventados, como querem imaginar os conservadores delirantes de má consciência mas de sono pesado. São necessidades levantadas pelos gestores dos serviços públicos para vagas quase sempre permanentes (o que é manifestamente ilegal mas é ignorado pelos serviços centrais e pelo governo). Viver bem com esta situação é não ter um pingo de ética ou humanidade. É um defeito de caráter. Não reconhecer isto é pura e simplesmente ser ignorante. Não podemos continuar a aceitar que o Estado trate o desempregado como alguém que merece um castigo, como um condenado do utilitarismo meritocrático do moderno mercado do trabalho.
Não esqueçamos que boa parte dos nossos governantes, deputados e demais moscas, devem os seus rendimentos e postos de trabalho apenas ao cartão do partido e à militância mais ou menos acrítica em favor dos seus financiadores e clientes de favores. Não há mérito nem conhecimento envolvidos no processo. Há sobretudo falta de pudor.
Os Contratos de Emprego e Inserção são um regime de escravatura e devem ser denunciados.
sexta-feira, dezembro 27, 2013
As Bimbys e a inteligência dos portugueses.
O Wall Street Journal pela pena da jornalista Patricia Kowsmann publicou em 25 de dezembro um texto sobre a compra de Bimbys em Portugal. O destaque ao nosso país, está claro, é causado pelo nosso estado de insolvência económica. O título da peça "Mesmo em tempos difíceis Portugal adora as suas Bimbys" tem um pendor claramente pejorativo. O que lhe está subjacente é a ideia de que qualquer tendência de consumo em Portugal deve ser julgada como uma insensata moda despesista de mais um desregulado país do Sul da Europa. É assim que o lêem os americanos e o interpretam os media portugueses e logo será assim entendido pelo fundamentalismo económico das sumidades pró-austeridade.
Esta questão merece alguma reflexão dada a cobertura nos média e nas redes sociais e as habituais reações a quente. Vejamos:
- O país que vende armas em supermercados (280 milhões de armas em mãos civis) e inventou o termo TV-Dinner fascina-se facilmente com um povo que compra um eletrodoméstico para cozinhar em casa, e jantar em família. Não um telefone para encomendar pizzas, nem um micro-ondas para aquecer algo congelado. Um eletrodoméstico para cozinhar alimentos frescos. Espantoso.
- O povo português, em vez de perceber o elogio que está subjacente a tal destaque mediático dado à sua opção em termos de investimento, em detrimento doutros investimentos mais populares nos países ditos civilizados, chama "modernice" à tal máquina e baixa os olhos em vergonha perante tal achado estatístico.
Conclusão:
As reportagens na Televisão e alguns comentários nas redes sociais, como de costume, revelam os vícios do comentarismo pós-moderno. Pouca reflexão e pensamento unidimensional.
Vão atribuir este facto estatístico à falta de educação económica dos portugueses e à sua predileção pela brejeirice consumista. Já se fez o mesmo com os telemóveis. Esses mesmos que hoje todo o mundo usa.
Mas há outras formas de ler a realidade destes factos.
A "Bimby", como lhe chamam (o seu nome verdadeiro é Thermomix, nem nos EUA lhe chamam Bimby o que torna o título da notícia muito estranho), é um aparelho como outro qualquer para preparar alimentos. Muito usado em restaurantes de topo (esta é para os puristas engolirem) e noutros mais modestos, inclusive no famoso programa Masterchef. Só lhe sente utilidade quem sabe cozinhar e procura variar a ementa. A Bimby não cozinha por nós mas atalha caminhos. Há vários modelos de várias marcas. É importante pensar porque é que um povo pobre decide investir numa máquina para cozinhar em casa e cozinhar de modo variado. É importante refletir o quanto isso representa em termos de inteligência económica, sustentabilidade, qualidade de vida e saúde.
Bem sei que é fácil rir e muitos haverá, no poder, a dizer "Estão a ver! Ainda há dinheiro para Bymbis! Esses esbanjadores lusos! Corta-lhes no vencimento!". Na verdade, um povo mais pobre, que fica em casa, que poupa nos alimentos, soube bem onde investir. Na mesa dos filhos e na variedade da sua dieta. Não sejam burgessos e não digam tolices a este propósito. Portugal tem um povo deseducado mas não estúpido como aqueles que o governam.
quarta-feira, dezembro 25, 2013
A encomenda ao Pai Natal
Ainda há poucos dias os "Gato Fedorento" nos brindaram com a mais profunda honestidade humorística e "tentaram" contratar Steven Seagal para, enfim, dar uma carga de porrada no Primeiro Ministro.
Muitas vozes se levantaram contra os "Gato Fedorento". Algumas, mais tristes, acusaram-nos de falta de piada. Impossível, neste caso. Outros, os do politicamente correcto, acusaram-nos de ser incorrectos. De apelar à violência.
Na verdade o que fizeram foi o mais simples humor político usando para isso um desejo (não tão secreto quanto isso) de uma boa parte dos portugueses. Claro que é necessário ter algum sentido de humor e ironia. Pagar a Seagal com azeite e pasteis de nata tem graça e ilustra, com imensa ironia, a descapitalização da nossa economia e como, em seu resultado, as nossas exportações ganham terreno na nossa balança comercial. Tudo normal.
Como é Natal imaginei que a mesma encomenda pudesse ser feita ao Pai Natal. E aqui está o desenho. Com uma pequenos acrescentos à versão publicada no dia 24 no meu Facebook.
O Natal, para mim, é estar em família, é uma trégua, um momento de partilha e generosidade. Lamento que cada vez menos portugueses possam ter um Feliz Natal à conta desta gente que nos governa. Não consigo ficar impávido e muito menos sereno perante o actual estado de coisas.
2014 vai ser pior para uma data de gente, para quase toda a gente. Será melhor apenas para aqueles para quem 2013 nem foi muito mau, ou foi mesmo bom. Para os do costume. Os que vivem do sistema, que o sugam como se não houvesse amanhã, literalmente. Esses, sem pudor, já anunciam o seu sucesso no meio de festejos enquanto empobrecem tudo quanto tocam.
Por isso não podemos abdicar do nosso sentido de humor, do nosso sentido crítico, da nossa liberdade de expressão. E que esse humor seja tão cáustico que envergonhe os sem vergonha. Contra tudo e contra todos se for preciso.
Feliz Natal.
quinta-feira, dezembro 19, 2013
Bad Science, ou as contradições de um cientista de qualquer coisa.
Há um mito urbano a circular nos média, nas redes sociais e nos círculos de poder desde já há algum tempo. O mito de que Nuno Crato é um cientista que percebe de educação. Que domina o tema da administração e organização escolar. Que sabe muito.
É um mito falso, não é a verdade. Enraizado socialmente, este mito fundador de que o político domina a ciência por detrás do rito da governação do seu ministério, tornou-se um inquestionável sofisma na defesa de um conjunto de princípios de ação que estão longe de estar provados.
Como rito que é assistiu-se a uma autêntica peregrinação ideológica no sentido do que o senhor defende. Hordas de (pseudo) pensadores, seguiram a doutrina e afirmaram-na como verdade absoluta. O evangelho de Crato, denunciador de ímpios pensamentos que defendiam o "facilitismo" na educação sob o argumento romântico de que todas as crianças nascem boas e devem crescer, como as galinhas do campo, livres dos constrangimentos do saber e do conhecimento.
A consciência acrítica dos média vem agora aos poucos por em causa os princípios do senhor ministro. Parece que afinal, lá na Europa, uns senhores (doutores da verdadeira área em que Nuno Crato se doutorou) publicaram um estudo que comprova duas coisas:
- O paradigma do mercado e da livre escolha aplicado simplesmente ao sistema educativo tem efeitos negativos nos resultados.
- Os princípios pedagógicos, curriculares e organizativos do sistema educativo português, concebidos e implementados pelos adeptos do "eduquês" romântico e construtivista, melhoraram os resultados e aumentaram a equidade das aprendizagens entre os alunos.
Curiosamente os mesmos média recusam-se ainda a aceitar que o mito possa ser falso. Como exemplo convocamos Rui Costa que no Expresso afirma que "Nuno Crato chegou ao governo com uma vantagem sobre boa parte dos seus colegas. Ao contrário de muitos ministros tinha um pensamento continuado e sólido sobre a área que foi chamado a dirigir." Nada mais errado. Tinha um livro recebido com desdém pela academia. Nem um artigo científico nem uma formação académica relevante sobre educação ou sobre políticas educativas.
Agora, a propósito de uma prova completamente inútil de acesso à profissão docente, o ministro Nuno Crato apresenta como justificação a sua "desconfiança" na formação dos professores das Escolas Superiores de Educação. O ministro cientista, pelos vistos, toma decisões com base no instinto, em pressentimentos ou pior, com base no preconceito. Não há ciência na base das opiniões sobre educação e sobre formação de professores.
Vejamos algumas contradições no seu discurso:
- Nuno Crato cria uma prova com duas componentes. Uma prova para "capacidades mínimas" de conhecimentos transversais e competências de raciocínio. E uma outra prova de conhecimentos científicos nas áreas específicas de lecionação. Não há pedagogia à vista.
- Nuno Crato acha que os professores sabem pouco das matérias científicas que lecionam mas não desconfia tanto das capacidades pedagógicas que, segundo diz, vão ser avaliadas dentro do sistema, na avaliação de desempenho. No entanto quando fala da necessidade da prova justifica-a com a necessidade de um profissional provar que sabe fazer aquilo para que é contratado. Como os professores são contratados para dar aulas... não se entende.
- Mas Crato em entrevista à RTP afirma, faltando à verdade, que os professores que entram na profissão não foram julgados antes. Na verdade todos os professores profissionalizados passam por um estágio, aulas assistidas e realizam cadeiras de didática específica das áreas para as quais estão formados. Isto ele não diz ou não sabe.
- Mas porque sabem tão pouco das suas áreas os professores? Se acederam ao ensino superior, ainda que a escolas politécnicas (atenção que estou a ser irónico), e com o 12º ano concluído com sucesso, qual é o problema? As escolas selecionam mal? Para isso o ministro tem duas respostas - Exames à entrada dos cursos e alteração dos currículos dos mesmos. Ora bem, por exemplo, o curso de Educação Básica da Escola Superior de Educação de Lisboa exige, à entrada, o exame de Português mais um dos seguintes: Biologia, Geologia, Filosofia, Física e Química, Geografia, História ou Matemática. Chega? Faça você mesmo a pesquisa para outras escolas neste link. Por outro lado os currículos das Escolas Superiores de Educação sempre foram supervisionados pelo próprio ministério que ele tutela e têm sido suficientes. O PISA está aí para o provar.
Se Crato considera que os resultados do PISA são fruto apenas da aplicação dos exames do básico e da divulgação dos resultados das escolas, o que está a dizer é que os professores têm todas as capacidades e só lhes faltava a obrigação da prestação de contas para serem eficazes. Não é isso que ele diz quando defende a prova. O que o Ministro quer é "os melhores" a dar aulas. A frase mais dita é "os melhores". Melhores como quem? Como ele? Não tem formação superior na área da educação e é ministro. O primeiro ministro? Esse é um dos melhores? Hummm... Os boys contratados para o governo acabadinhos de sair das faculdades e tão saltitantes nas hostes da JSD? São esses os melhores?
Por exemplo, quando se trata de escolher pessoas para o Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência e Tecnologia, escolhem-se os melhores? Ou os amigos?
Mas por falar Ciências. Que provas científicas tem Nuno Crato de tudo o que afirma? O que apresenta o estatístico Crato como defesa das suas teorias? Nada. Não tem um estudo, um trabalho. Tem uns livros americanos a defender a educação competitiva em regime de mercado livre num país em que as estatísticas e os estudos provaram que essas mesmas estratégias aprofundam as desigualdades, diminuem a igualdade de oportunidades. Mais nada.
Nuno Crato defende um sistema educativo que promove a reprodução social
Nuno Crato é o ministro cientista sem ciência. É um preconceituoso da educação que toma medidas com base no que culturalmente foi acreditando que é a escola e não no que realmente ela é. Com não-ciência a conduzir a sua cadeia de decisões Crato não vai resolver problema nenhum.
O título deste post foi inspirado no site Bad Science de Ben Goldacre, cronista de ciência do The Guardian.
quinta-feira, dezembro 05, 2013
Crato o dominador ou o prazer lusitano da submissão.
A tradição centralista, conservadora e de submissão normativa tende, na cultura portuguesa, a naturalizar tanto as más como as boas práticas de modo indiferenciado. Basta, para o efeito que estejam devidamente normatizadas. A distância temporal e ideológica aos conceitos que estão na base de uma norma vão provocando uma deterioração na interpretação do seu cumprimento, tornando-se este um formalismo sem sentido e com objetivos e/ou resultados que podem, em última análise, ser contrários ao seu princípio inicial.
Tudo isto para dizer que, infelizmente, dentro de poucos anos a prova de acesso à carreira será romaria habitual para carneiros docentes enviados ao sacrifício.
A sociedade portuguesa adulta é pouco escolarizada, fruto de uma democracia pouco participativa e tardia. Sem sentido crítico vai aplaudindo estes laivos de Estado Novo revisitado. Exige-se sobre o outro o que não se exige a si próprio. Dificulta-se a vida ao mais novo com o falso argumento da eterna e infinita deterioração do ADN. Os mais jovens são sempre piores do que as gerações anteriores. Em tudo. "Antigamente é que era bom" como dizia o graffiti na parede da escola.
Agora que uns "moderados" venderam barato a dignidade dos jovens licenciados que estudaram para ser professores, o caminho está aberto a este processo de "naturalização" da prova. O ministro tem uma vitória entregue numa bandeja. O mesmo ministro que chama "pacote de medidas" a atirar exames para cima de qualquer problema. Um ministro de um governo chefiado por um mau aluno, um economista medíocre, sem currículo que não seja sacar uns subsídios numa empresa de formação que nunca deu formação a ninguém. O governo do Relvas. O governo que era dos técnicos geniais, os mesmos que já foram substituídos pelos lacaios partidários.
A mediocridade do governo, do ministro, das suas medidas, são fruto de uma naturalização da incompetência que o povo português aceita com facilidade.
Por isso, daqui por uns anos, em dezembro, haverá a habitual romaria dos contratados à prova de acesso à profissão docente e as escolas de professores ensinarão para a resolução dos problemas da prova, em vez de se debruçarem sobre o currículo ou sobre a pedagogia e a aprendizagem.
O sadismo insano de Nuno Crato, sobre os professores ou sobre os alunos, é visto como uma autoridade produtiva e necessária por um Portugal que cheira a mofo e bolas de naftalina e é patologicamente submisso. A FNE deu voz a esse Portugal e deu uma saída ao ministro que, sem oposição, vai paulatinamente destruindo a educação portuguesa.
Crato dominatrix ou o prazer lusitano da submissão.
A tradição centralista, conservadora e de submissão normativa tende, na cultura portuguesa, a naturalizar tanto as más como as boas práticas de modo indiferenciado. Basta, para o efeito que estejam devidamente normatizadas. A distância temporal e ideológica aos conceitos que estão na base de uma norma vão provocando uma deterioração na interpretação do seu cumprimento, tornando-se este um formalismo sem sentido e com objetivos e/ou resultados que podem, em última análise, ser contrários ao seu princípio inicial.
Tudo isto para dizer que, infelizmente, dentro de poucos anos a prova de acesso à carreira será romaria habitual para carneiros docentes enviados ao sacrifício.
A sociedade portuguesa adulta é pouco escolarizada, fruto de uma democracia pouco participativa e tardia. Sem sentido crítico vai aplaudindo estes laivos de Estado Novo revisitado. Exige-se sobre o outro o que não se exige a si próprio. Dificulta-se a vida ao mais novo com o falso argumento da eterna e infinita deterioração do ADN. Os mais jovens são sempre piores do que as gerações anteriores. Em tudo. "Antigamente é que era bom" como dizia o graffiti na parede da escola.
Agora que uns "moderados" venderam barato a dignidade dos jovens licenciados que estudaram para ser professores, o caminho está aberto a este processo de "naturalização" da prova. O ministro tem uma vitória entregue numa bandeja. O mesmo ministro que chama "pacote de medidas" a atirar exames para cima de qualquer problema. Um ministro de um governo chefiado por um mau aluno, um economista medíocre, sem currículo que não seja sacar uns subsídios numa empresa de formação que nunca deu formação a ninguém. O governo do Relvas. O governo que era dos técnicos geniais, os mesmos que já foram substituídos pelos lacaios partidários.
A mediocridade do governo, do ministro, das suas medidas, são fruto de uma naturalização da incompetência que o povo português aceita com facilidade.
Por isso, daqui por uns anos, em dezembro, haverá a habitual romaria dos contratados à prova de acesso à profissão docente e as escolas de professores ensinarão para a resolução dos problemas da prova, em vez de se debruçarem sobre o currículo ou sobre a pedagogia e a aprendizagem.
O sadismo insano de Nuno Crato, sobre os professores ou sobre os alunos, é visto como uma autoridade produtiva e necessária por um Portugal que cheira a mofo e bolas de naftalina e é patologicamente submisso. A FNE deu voz a esse Portugal e deu uma saída ao ministro que, sem oposição, vai paulatinamente destruindo a educação portuguesa.
domingo, novembro 10, 2013
Cristiano, Leonel e a relatividade dos sucessos
Cristiano e Leonel são dois meninos que gostam muito de jogar à bola. São ambos grandes adeptos do mesmo clube da primeira divisão. Cristiano é filho de dois operários de uma fábrica. Os pais de Leonel são licenciados e quadros superiores na mesma empresa.
Desde os seis anos que Cristiano e Leonel jogam numa equipa de futebol. Cristiano está inscrito na escolinha do clube lá da terra, paga uma mensalidade simbólica. Leonel está inscrito numa escola de futebol na cidade, paga uma propina muito mais alta. Três vezes por semana lá vão para o treino durante hora e meia. No fim-de-semana os jogos.
Os pais de Cristiano, com muito esforço, lá lhe compraram umas botas para jogar e uma bola. São das mais baratas. O terreno de jogo é um pelado, às vezes uma autêntica piscina de lama, mas as condições têm melhorado. A Junta e a Câmara uniram-se e fizeram umas obras. Até contrataram um treinador formado.
Leonel recebeu novinhas umas botas de marca. Cores garridas e pítons especiais para o sintético da escola de futebol. A bola é com desenhos verdes, igual à do mundial. "É super levezinha!" diz Leonel orgulhoso aos amigos. Com a propina paga-se também o equipamento que inclui os calções, as camisolas, os fatos de treino e até as caneleiras. É ver o Leonel vaidoso e vestido a preceito, com a bola debaixo do braço.
Ambos o rapazes estão empenhados na sua atividade desportiva. Em casa os pais de Cristiano acham que é perda de tempo e dinheiro, mas lá o vão apoiando. "Ele nunca será jogador de futebol profissional. É muito franzino" dizem. "Como o pai era".
Em casa do Leonel é diferente. O pai adora desporto e sempre praticou. Ele também joga futsal com os amigos num campo coberto lá perto de casa, duas vezes por semana. Leonel adora assistir aos treinos do pai. Nos fins de tarde Leonel e o pai vão muitas vezes correr para o parque e trocar umas bolas. São os momentos preferidos para o Leonel. A mãe às vezes também vai e faz o circuito de manutenção. Levam lanches leves e chegam a casa muito cansados.
Cristiano quando sai da escola gosta de jogar à bola com os amigos. Às vezes, quando faltam os outros, passa horas a chutar a bola contra a parede. A mãe avisa-o para tirar as botas. "Não as gastes! Olha que não tens outras!"
Quando chove o Cristiano fica em casa a ver televisão. Leonel vai com o pai para o campo coberto do clube. "É muito fixe!".
Antes dos treinos a mãe do Leonel faz-lhe sempre um lanche leve e cheio de energia. "A alimentação é muito importante!", diz sempre a mãe. O Leonel já lhe acaba as frases.
Cristiano come muitos hambúrgueres. Como os pais têm pouco tempo trazem-lhe hambúrgueres e às vezes pizza. "Acaba por ficar mais barato..." ouve muitas vezes o pai a dizer.
Ambos os meninos andam muito felizes lá no clube. O Cristiano deu nas vistas num jogo com a freguesia vizinha. "É muito rápido. Mas precisa de limar umas arestas" disse o treinador ao pai.
Leonel vai com a escolinha a França. É um torneio em que a escola participa. Será uma grande experiência.Nos jogos do fim-de-semana Leonel tem sempre a presença do pai e muitas vezes da mãe. Dão-lhe um grande apoio e no final reúnem-se com o treinador para ouvir recomendações e conselhos para o Leonel trabalhar em termos físicos e técnicos. O pai de Cristiano também vai aos jogos mas ralha sempre muito com o árbitro e com o treinador da equipa. Cristiano diz ao pai que gosta do treinador e o pai responde com ar sério "O clube não tem condições e ele não quer saber!". É injusto e o pai do Cristiano sabe mas gostava de o ter a jogar na escolinha de futebol privada.
Chega finalmente o dia em que no jornal se anunciam as captações do clube que ambos apoiam. Ficam loucos de entusiasmo. Inscrevem-se e lá vão para o campo do centro de estágio. Cristiano, de autocarro com o pai, botas já calçadas e calções vestidos. A mãe não vai, tem de trabalhar.
Leonel vai num minibus com os outros meninos da escolinha. O pai e a mãe vão lá ter de carro.Para avaliar os jogadores os treinadores do clube fazem um treino físico, um conjunto de exercícios com bola e um jogo treino. No final publicam num placard uma lista ordenada do jogadores com as respetivas notas. Quem entrou e quem não entrou. Os olhos de Leonel e Cristiano, reluzentes, lado a lado, procuram o seu nome na lista.
Quem acham que ficou à frente na lista e entrou no clube?
As vidas e os processos de ensino e aprendizagem fazem-se em contextos com múltiplos fatores. A nossa mania de fazer listas ordenadas para tudo, unidimensionaliza aquilo que é necessariamente pluridimensional. Os sucessos e resultados de uns não valem o mesmo que os sucessos e resultados de outros porque partiram de condições a priori diferentes.
O sistema de ensino tem uma missão. Ensinar, preparar para a vida numa dimensão comunitária, numa dimensão societária e na dimensão do conhecimento e do desenvolvimento cognitivo. Promover as condições ideais para uma "igualdade de oportunidades" que de outro modo dificilmente aconteceria. Não é papel da escola seriar. Essa função a sociedade faz com particular crueldade e a escola deve ser escudada da perversidade desse processo.
Cada aluno é diferente. Tem sucessos e insucessos diferentes. Nem o seu grau de esforço para alcançar um objetivo pode ser medido de forma linear em comparação com outro. Não sabemos o que se passa lá em casa. Muito menos podemos comparar em listas o seu desempenho em números.
Acho muito bem que o Ministério disponibilize os dados dos resultados escolares e dos contextos sócio-económicos das escolas. Não só dos exames, de tudo. Deveria fazê-lo constantemente em relação às escolas públicas, as que estão na sua alçada. Antes de os divulgar aos jornais deveria trabalhar referenciais e discuti-los com as escolas. Os pacotes de dados deveriam ser do conhecimento prévio das escolas.
Ninguém sabe quem fez mais trabalho, quem criou mais-valias educativas com trabalho importante com os alunos. Ninguém sabe que práticas pedagógicas e programas tiveram sucesso na construção dessas mais-valias. Só se mede a quantidade. Como em tudo.
O que se assiste anualmente nos jornais aquando da publicação destes rankings é a demonstração de que temos muito a fazer dentro das escolas para melhorar as leituras que se fazem do mundo e da sua natureza diversa. Talvez um dia, no futuro, os nossos alunos, então adultos, se riam da nossa santa ignorância quando se lembrarem do entusiasmo bacoco que a publicação destas listas provocava nos jornais.
Isso sim seria um sucesso educativo que eu gostava de poder assistir.
sexta-feira, novembro 01, 2013
A Reforma do Estado e a Educação. (um rascunho)
"Reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor no novo estatuto do aluno. Concluíu-se um regime descentralizado de gestão escolar e a rede escolar teve de ser reordenada, tendo em conta as contingências demográficas e territoriais. Fez-se uma opção pública pela exigência, com a instituição de exames nacionais no final dos ciclos escolares, reforço do Português e da Matemática nos currículos e densificação nas metas curriculares." (Documento "Um Estado Melhor" p. 33) Descarregue neste link a totalidade do documento.
Alguém consegue detetar a incoerência?
Se "reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor" e se se concluiu "um regime descentralizado de gestão" acho curioso que no âmbito de tanta autonomia e descentralização se tenha tomado a opção "pública" pela "qualidade" para todo o sistema assente em medidas centralizadoras. Medidas como mais "exames nacionais", leram bem "nacionais", ou seja de conceção e execução centralizada, em ciclos iniciais do ensino e também o "reforço do Português e da Matemática nos currículos" igual para todo o país, sem olhar às especificidades dos teritórios educativos e das escolas. Ainda mais interessante é o conceito de "densificação nas metas curriculares". Muito bem aplicada o conceito de "densificação" porque se trata sobretudo de densificar e não de melhorar. Foram também essas metas decididas pelo Ministério de modo absolutamente centralizado. Se existe autonomia não é com certeza curricular ou na organização do processo ensino-aprendizagem.
Quer isto dizer que as políticas educativas do Estado, e deste governo em particular, anunciam e proclamam uma autonomia para depois tomarem decisões centralizadas, normatizando a diversidade educativa e esmagando as diferenças e especificidades num enorme almofariz burocrático. O argumento da qualidade, medida em unidades universais, não respeita nenhum tipo de diferenciação e homogeniza as soluções.
Hoje as escolas não têm autonomia para coisa nenhuma. Têm menos do que alguma vez tiveram. Currículos, organização do ano letivo, número de turmas, número de alunos por turma, tipos de cursos, professores, apoios, educação especial, funcionários ou até o refeitório. Para tudo isto existem plataformas com caixinhas onde os números devem encaixar e para tudo isto existem normas burocráticas a cumprir. As inspeções atentam ao cumprimento da lei e só isso, e não à satisfação e ao sucesso dos alunos.
O cumprimento de algumas destas normas tem sido, historicamente, desvalorizado pelas escolas. O controlo do Estado era fraco e assente sobretudo na leitura de resmas de papéis. O exercício de uma autonomia clandestina fez e faz ainda parte da vida das escolas portuguesas que foram encontrando soluções para problemas que fugiam à uniformidade das normas.
Hoje a implementação de um controlo apertado e implacável com recurso a multiplas aplicações informáticas, programadas para o normativismo, obriga ao cumprimento das normas e revela, em última análise, a impossibilidade prática do seu cumprimento por todos.
O documento "Um Estado Melhor" apresentado como um guião para a reforma do Estado faz um conjunto de propostas para a educação que merecem reflexão atenta e separada. É interessante realçar a preferência por modelos de gestão contratualizados, seja com as autarquias, com grupos de professores ou empresas privadas, numa lógica descentralizadora mas sempre enquadrada por conceitos de competitividade e concorrência profundamente perversos. Dizer que a "qualidade do ensino é um fator de concorrência saudável entre municípios" é aceitar a ideia de uma luta comercial por melhores alunos ou por melhores escolas em que os que ficam a perder ficam irremediavelmente para trás. No contexto dos territórios educativos parece-me completamente desadequada esta afirmação. Em educação a "concorrência" promove a exclusão social e a reprodução social. Os mais fortes, que é o mesmo que dizer os mais ricos, não deixam nunca de ganhar neste jogo viciado da "concorrência".
Neste sentido toda a lógica da proposta do governo assenta em pressupostos invertidos. De que é necessário, para gerir melhor, descentralizar e contratualizar mas que por outro lado para aumentar a qualidade é necessário centralizar os modelos de avaliação e densificar os currículos.
A autonomia que se promove é sobretudo a da responsabilidade jurídica e financeira e não a curricular, nas escolas na alçada do Estado. Por outro lado abre-se a porta ao aumento do financiamento direto (contratos de associação) e indireto (cheque ensino) do ensino privado apresentado como panaceia para o insucesso educativo, nunca provada na prática, e sem refletir sobre a despesa que esse mesmo financiamento vai implicar num contexto assumido de contração da procura e diminuição da capacidade de investimento do Estado. Os perigos da criação de um clientelismo oportunista no negócio educativo com efeitos irreversíveis na gestão da fatura pública da educação são demasiados. Já temos PPPs a mais. É de concluir que estas medidas vão sobretudo depender, em termos da sua eficácia financeira, de uma diminuição brutal das remunerações dos professores e de uma concorrência fraticida entre os mesmos. O resultado será sempre uma diminuição da qualidade em que mais uma vez a oferta "prime" vai ficar salvaguardada para aqueles que têm mais recursos.
Para terminar é importante destacar a afirmação de que "queremos, em breve, ter no ensino secundário cerca de 50% dos jovens em ofertas profissionalizantes, que permitam o acesso direto a uma profissão útil e necessária à sociedade, não deixando de permitir o prosseguimento de estudos". Esta afirmação, já feita anteriormente pelo Sr. Ministro da Educação, é particularmente interessante. Por um lado porque estes percursos profissionais são indicados, pelo mesmo ministério, para alunos com reiterado insucesso ou com algum grau de insucesso, caso dos vocacionais e dos profissionais respetivamente. Sendo assim dever-se-á concluir que se pretende atingir os 50% de insucesso, na leitura oficial. Talvez de modo a alterar a estrutura social do país e construir uma força de trabalho barata e qualificada apenas para o trabalho menos intelectual. Esta medida visa claramente aumentar a base da pirâmide social, mantendo o topo bem estreitinho e sempre com os mesmos. Por outro lado a igualdade de oportunidades prevista, porque estes cursos "não deixam de permitir o prosseguimento de estudos", é aniquilada pela criação de critérios injustos e impossíveis de superar como são os exames nacionais para alunos que frequentaram curriculos diferentes ou a construção de "médias" ponderadas que desvalorizam o trabalho prático dos alunos e os colocam em clara desvantagem.
O "Estado Melhor" é, enfim, melhor apenas para alguns. A eficácia é sobretudo no modo como se usa muitos para o benefício de poucos gastando menos. É baseado, pelo menos na educação, em lógicas neo-liberais de concorrência que garantem a reprodução social. Procura-se a diferenciação e a autonomia mas de maneira a permitir que o Estado patrocine o sucesso dos que já o garantiram pela via económica.
Pelas medidas até agora implementadas em dois anos de governação, pela escrita legislativa e pela atuação no controlo e gestão do sistema educativo somos inevitavelmente levados a desconfiar das intenções autonómicas e descentralizadoras do governo. O discurso da descentralização e da autonomia é aqui o alibi para a desresponsabilização política e financeira e para a introdução de uma agenda que pretende privatizar e dividir para reinar.
terça-feira, outubro 29, 2013
Que chatice agora as ciganinhas loiras...
A Europa racista estava com o pito aos pulos. Tinham roubado uma loirinha do seu berço de ouro e encontraram-na na Grécia, pátria de todos os pecados. Esses perigosos e pérfidos ciganos, raça maldita, tinham sequestrado uma filha do sol, uma herdeira da fortuna, enfim, uma ariana.
Porquê? Para vender ou escravizar. A ruindade desta gente, destes morenos itinerantes, não tem limites.
Maria, a tal menina loira, vem-se a saber afinal, é proveniente de uma família cigana búlgara e foi abandonada na Grécia, por onde a família andou. Terá sido abandonada por falta de dinheiro para a sustentar. "Abandonada" a troca de dinheiro ou não, isso é que já não sei.
No Reino Unido, pátria de insossos racistas, a esperança de encontrar Maddie no barracão ao lado do "Anjo loiro", como de pronto chamaram a Maria, contagiou toda a gente. Na Irlanda uma menina cigana foi retirada à familia por ser loira. Só isso. Mais tarde foi devolvida aos pais por se ter provado com teste de ADN que era realmente a filha do casal. Um pouco ao lado, ainda na Irlanda, um pequeno rapaz de 2 anos passou pelo mesmo. Até em Portugal se alinha na farsa monumental. Falava-se, por exemplo, do bando de ciganos que andava a roubar casas por alturas do caso da Maddie. Teriam esses monstros roubado Maddie? Acham coincidência dizerem isso agora? Ciganos? A sério?
O tráfico de crianças existe mas dificilmente se pode atribuir aos ciganos europeus a responsabilidade pelo mesmo. Por outro lado é evidente e preocupante a preferência dada aos casos das meninas loiras e tal seleção, por parte das polícias, da comunicação social e da opinião pública, revela fantasmas nojentos nas velhas consciências europeias.
Não consta, apesar de tudo, que a procura por "anjinhos loiros" para o mercado da pedofilia seja criada por ciganos. Consta inclusive que muitos daqueles senhores, disfarçados de estola e batina, que nos Estados Unidos ou na Polónia comiam crianças ao pequeno almoço, tinham o olhinho azul, também eles.
A minha mãe, quando eu era pequeno, já me dizia, num inocente assomo racista que eu lhe perdoo, "Se não te portas bem vou-te dar aos ciganos!".
Só posso concluir, pelos casos recentes, que a minha tez morena acabou por obrigar os meus pais à difícil tarefa de me educar até ao fim, enfim, até hoje. Tivesse eu o olho azul e o cabelo dourado como as estrelas e quem sabe...
Não há vergonha nesta Europa neo-liberal de gosto ariano. Não há sequer um esforço em disfarçar.
Multiplicam-se os getos na Grécia e na Bulgária. Multiplicam-se os getos criados pela austeridade, defendida por todo o lado como a salvação do sistema. Sem pudor criam-se pobres todos os dias em nome da riqueza. Quando a coisa aperta recorre-se ao racismo e à xenofobia para pôr uns pobres contra os outros. É o trabalho das extremas direitas. Foi o que aconteceu em França com a menina cigana Leonarda Dibrani. Filha de um pai Kosovar que se viu obrigado a mentir para ter um país para os seus filhos. Para que estes tivessem um oportunidade.
Com o avanço do desemprego e da pobreza nos países abrangidos por programas de empobrecimento difarçados com o nome de "programas de assistência" os ciganos do futuro são os europeus do sul. São os mais pobres. Esses devem ser mantidos à distância e a trabalhar por um salário pequenino, com poucas mordomias do Estado.
No norte da Europa, onde os naturais usufruem de um generoso e amplo Estado Social, a escravatura laboral aos estrangeiros, mesmo sobre os caucasianos do sul, é algo perfeitamente natural. Para eles somos todos um pouquinho ROMANI, de tez morena e patilha atrevida. É cultural, e tudo se perdoa ao mais rico. A superioridade ariana não é posta em causa. Os arianos do norte são obedientes, organizados, não cospem no chão e respeitam as passadeiras. E são tão bonitinhos... parecem pontinhos de luz. E que grandes? Um orgulho para o Sapiens Sapiens.
Se não refletirmos sobre estes fenómenos racistas e não os denunciarmos situações como estas, como o que aconteceu em França ou o caso da Irlanda, serão cada vez mais frequentes e a pouca réstia de humanidade que temos esfuma-se.















