sexta-feira, julho 19, 2013

O que se segue agora?

Agora que não há acordo o que se segue? O PSD e o CDS-PP parecem demasiado interessados em cumprir o acordo de entendimento com a Troika. O PS não podia cair na armadilha e aceitar uma não solução que consistia basicamente em aceitar tudo o que o governo quer ou o caos. Nunca houve nenhuma base para apoio realmente proposta pelo Presidente. A possibilidade do acordo partia do princípio da admissão de que a governação tem corrido bem e tem um sentido. Não tem.

Seguro fez um mau discurso na TV. Muito inseguro e a dar razão aos que duvidam de si. Deveria ter sido mais peremptório. Mais duro. Convenhamos que aceitar um acordo seria mau para o país. Seria pior do que deixar cair o que já caiu. Mas apesar de tudo as alternativas deveriam ser mais claras e mais bem comunicadas.

Cavaco criou uma crise sem paralelo e agora, depois de duas piruetas e um mortal, vai voltar a depositar a confiança no Governo. Como se fossemos todos parvos. Vai ficar tudo na mesma e aquela remodelação falhada vai em frente.

Uma das soluções imediatas é o próprio Cavaco renunciar mas estou a delirar. Na melhor das hipóteses foge para as Selvagens.

O interesse suicida em continuar a destruir o país, sem vincar novas posições com a Europa que permitam uma existência económica e social sustentável vai levar ao afundamento financeiro definitivo. Vai levar a uma crise ainda mais profunda.

Agora vem aí um segundo resgate. Provocado pelo primeiro. Pela incompetência dos que gizaram o primeiro. A começar pela Troika e a acabar nos responsáveis portugueses. É estranho, por exemplo, o facto de muitas das imposições da Troika serem fundamentalmente políticas e não necessariamente económicas ou que conduzam a alguma melhoria económica, como é o caso de algumas privatizações em saldo por meia dúzia de trocos. Não é aceitável esse tipo de imposição.

As reformas fazem-se em décadas. Alguns dos compromissos de redução da despesa são políticas que demoram muitos anos a consolidar e não é exequível o plano da Troika que o quer fazer em dois ou três anos. Toda a gente percebe isso.

Se não é exequível então porque se insiste? Que interesse é esse em insistir em algo que é inexequível com tanta vontade?

Essa é a suspeita sobre o Governo. Se o programa não é do interesse do país, porque está visto que não tem efeitos positivos sobre a economia, então é do interesse de quem?

A quem interessa realmente esta austeridade pela qual se luta tanto?

 

quinta-feira, julho 18, 2013

Porque duplicam os lucros do Goldman Sachs em plena crise bancária?

Lloyd Blankfein é o CEO do Goldman Sachs.

A "austeridade" é o processo que os "mercados" inventaram para financiar o lucro dos bancos de investimento como o Goldman Sachs que agora se noticia. Com a ajuda preciosa de clientes e colaboradores, colocados em cargos políticos com grande poder, estes "bancos" vão manipulando as finanças dos países através da especulação sobre os juros da dívida e aproveitando as oportunidades de negócio criadas pelas privatizações dos negócios públicos mais rentáveis. Essas privatizações são impostas por intermédio da chantagem política dos seus agentes colocados por todo o mundo em organismos como o FMI, o BCE, a Comissão Europeia ou mesmo dentro dos governos dos países.

O aumento de impostos e a poupança gerada pelo emagrecimento forçado dos Estados permite o pagamento de juros altíssimos. Esses mesmos juros que nos são vendidos pelos média como resultado da "incapacidade produtiva" dos povos e do demérito das suas economias.

A nossa pobreza financia diretamente a acumulação de capital desta "gente".

O que irrita mais é o facto de os nossos políticos continuarem a promover o enriquecimento destas mega-instituições sem aparente contradição pública dos muitos "especialistas" que vão cuspindo palavras nas TVs e nos jornais.

Nós vivemos acima das nossas possibilidades, eles não.

Os Antónios Borges, os Medinas Carreiras, os Coutos dos Santos, os Gaspares e muitos outros são os porta-voz da limpeza moral que se está a promover via este estrangulamento económico.

Em primeiro lugar convence-se os portugueses, diariamente pelas televisões, de que são uns miseráveis improdutivos. Que vivem acima das suas possibilidades.

Depois desvia-se o dinheiro produto da poupança nos salários e do aumento dos impostos para o pagamento da dívida enorme que se acumula por intermédio do aumento de juros explosivo e por meio da influência política na promoção de negócios ruinosos como foi o caso dos Swaps.

Pior ainda, o prejuízo dos bancos falidos por causa do estrangulamento que os mega-bancos exercem sobre outros mais pequenos ou apenas porque a insustentabilidade do seu negócio é por demais evidente é pago pelos contribuintes.

Perante isto é cómico/trágico o modo como se construiu uma ilusão coletiva que faz de qualquer um ser racional, que se revolta contra este estado corrupto das coisas, um comunista, um criminoso, um despesista desprovido de inteligência.

Tanta burrice travestida de conhecimento só convence os povos menos educados... é o nosso caso.

sábado, julho 13, 2013

O dia em que se ficou a saber que a educação pode mudar o mundo.

Foi o espanto e a agitação geral na assembleia da ONU quando Malala Yousafzai, uma ativista paquistanesa de 16 anos, bloguista, defensora dos direitos humanos e do direito à educação, sobrevivente de um atentado taliban, proferiu a seguinte declaração:

“Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação primeiro.”

Os presentes aplaudiram as palavras mas não muito longe dali as reações foram bem diferentes.

O Goldman & Sachs e o JP Morgan pediram que Malala frequentasse de imediato e compulsivamente um curso organizado pela Reserva Federal para perceber melhor o que pode ou não mudar o mundo. O tipo que criou aquele avião drone bombardeiro de longo alcance que faz tudo sozinho ofereceu-se para fazer uma demonstração a Malala. "Pomos um árabe no meio do deserto com uma caneta e um livro e mandamos o X-47B mostrar-lhe quem pode mudar o mundo" afirmou o engenheiro especializado em armamento.

Em Portugal, ao ver a notícia, Pedro Passos Coelho liga a Aníbal Cavaco Silva de urgência e este diz-lhe que a estabilidade política e dos mercados não pode ser posta em causa por uma garota árabe de 16 anos.

Em resultado foi convocado um Conselho de Ministros extraordinário, na nave central do Mosteiro dos Jerónimos, mas sem a presença de Maria Luís Albuquerque "Vou à faculdade ler uns livros..." e Paulo Portas "Agora não me dava jeito, tou a fazer um sacrifício em nome do estado!".

Miguel Macedo propôs enviar um SMS à Troika com a pergunta:

"Vimos por este meio confirmar se um consultor financeiro, um grupo de investidores de risco, um banco e um daqueles quadros cheios de números e luzes se mantém como o modo oficial de transformar o mundo."

Poiares Maduro defendeu a criação de um Ask.fm do governo para responder às dúvidas dos banqueiros mais aflitos.

Fontes não oficiais revelam que Nuno Crato afirmou durante o Conselho de Ministros que iria ligar para o Paquistão para propor o sistema dual para que nunca mais uma miúda de 16 anos tivesse esse tipo de atrevimento. O Ministro da Educação chegou mesmo a afirmar com segurança "Malala chumbaria no exame de matemática com certeza! Queria vê-la a pagar explicações com uma caneta ou um livro!".

Paula Teixeira da Cruz afirmou indignada "Eu pensava que as gajas árabes não iam à escola!". "Modernices..." retorquiu Assunção Cristas.

Entretanto, ao telefone, Angela Merkel garantiu a Passos Coelho que Malala era amiga de Snowden no Facebook e que por esse motivo todas as verdades que dizia eram por defeito mentiras de acordo com comunicado da Casa Branca. Obama, que estava a ouvir a chamada pelo Prism, acrescentou que tinha provas de que Malala era uma agente infiltrada do Wikileaks porque Assange lhe tinha feito "like" num post.

A Standard & Poor's desceu em dois pontos o rating do Paquistão e classificou como lixo as declarações de jovens activistas na ONU. Os juros da dívida portuguesa aumentaram na sequência desta crise de valores.

 

sexta-feira, julho 12, 2013

O vidente de Belém gosta pouco de democracia.

"[...] Em terceiro lugar, deverá tratar-se de um acordo de médio prazo, que assegure, desde já, que o Governo que resulte das próximas eleições poderá contar com um compromisso entre os três partidos que assegure a governabilidade do País, a sustentabilidade da dívida pública, o controlo das contas externas, a melhoria da competitividade da nossa economia e a criação de emprego.[...]"
Aníbal Cavaco Silva, 10 de julho de 2013

Aníbal Cavaco Silva ou é vidente ou não tem respeito nenhum pelo sentido de voto dos portugueses. Promete convocar eleições legislativas dentro de um ano mas já sabe de antemão que resultado estas vão ter.
Afirmou-o publicamente nas televisões do país. A democracia e a vontade popular está em desuso para os lados de Belém. Esta situação concreta é mais uma prova do golpe de estado que estes mangas de alpaca devotos da religião do dinheiro estão empenhados em levar ao fim. Na Madeira Alberto João, o protegido, pede o estado de emergência e uma nova Constituição numa declaração vergonhosa publicada oficialmente no site do Governo Regional.
Pede-se despudoradamente a suspenção da democracia para que os cidadãos não vetem a espoliação do povo para sanear as contas das instituições financeiras acumuladas por via da especulação.
É inadmissível que seja o Chefe de Estado a mostrar tal desrespeito pela normalidade democrática e pelo escrutínio popular. Quando é para votar a favor da normal aplicação de direitos constitucionais a pessoas com preferências sexuais diferentes a direita portuguesa, economicamente liberal e socialmente conservadora, clama por referendos populares. Quando se trata de eleger um governo já não gosta do voto popular porque os seus interesses económicos e o prolongamento da sua estada no poder não podem ser comprometidos.

quinta-feira, julho 11, 2013

No Cavaquistão quem não manda é o cidadão.

Cavaco Silva habituou-nos à desilusão e à ambiguidade. Ele é a imagem da derrota da nação, do desânimo. O seu rosto inexpressivo e cinzento promove a falta de esperança que as suas palavras parecem querer gravar nos nossos túmulos. E vemos Portugal a parar, a morrer às mãos daquele cinzentismo , daquela falta de imaginação, daquela falta de paixão e falsa austeridade.

Cavaco é uma espécie de Dr. Kevorkian na cabeceira de um Portugal moribundo, depois de um grupo de técnicos medíocres, seus aprendizes, nos ter deixado em coma.

Parece telecomandado por um macaco, de tal modo se apresenta desligado do que diz e o que diz desligado de tudo o resto.

Ninguém o entende porque, mesmo lendo palavras escritas, foi incapaz de criar um sentido inequívoco, uma direção ou uma linha de ação clara e evidente. Com as suas frases mal ditas, mal lidas, mal escritas ficamos a saber menos sobre o futuro do que já sabíamos. Cavaco é também um moralista pragmático. A moral interessa-lhe de ponto de vista do controlo social. Nada de maluquices e pouca participação. Para Cavaco ser presidente é igual a ser dono de um galinheiro industrial. Nós somos as galinhas e ele vai deixando, para que o negócio se mantenha, que as condições do galinheiro fiquem cada vez piores e os frangos vendidos mais baratos. Importante é o negócio, o mercado e fazer feliz a Maria. A salmonela faz parte, assim como o desemprego. Azar.

Tenho olhado para as notícias como quem olha para uma corrida perdida, mas com o desejo tonto, secreto, de um sprint final que nos qualifique para a fase seguinte. À espera da sorte, do talento, mas nada. Neste contexto nada mesmo nos vai salvar.

Nunca mais me esqueço da inevitável desaceleração de Fernando Mamede. Quando tudo podia acontecer e a vitória estava ainda ao seu alcance eis que faltavam as pernas e a cabeça ao corredor português e ele ia parando, devagarinho, enquanto os nossos olhos e punhos cerrados pareciam querer empurra-lo para a frente. Impossível, Mamede desistia.

Aprendemos com Cavaco que não vale a pena esperar, puxar por ele, torcer por uma medida inteligente, na defesa dos portugueses. Nem a esperança vaga e lusa que o talento enorme de Fernando Mamede nos fazia sentir o nosso Presidente nos provoca. Nem isso. Cavaco provoca tudo menos uma emoção.

Depois de o ouvirmos ficamos com a ideia de que não há governo. Que ele não concorda com este mas também não discorda e quer mais do mesmo. Quer ser ele a escolher. Ele e um amigo.

Não sabemos que amigo mas a julgar por alguns deles tenho algum medo. Cavaco sempre andou com más companhias.

Daqui por um ano temos eleições. Mas atenção. Ele já definiu o seu resultado e já decidiu quem irá governar depois delas. Portanto não se desgaste a votar.

A democracia, esse incómodo constitucional que impede o país de ser rico e bem sucedido, tem um valor relativo quando comparado com os mercados ou os interesses dos "investidores".

Nem os seus apoiantes perceberam bem qual é o seu plano. Governo a três? A dois, com o terceiro a olhar? Com promessa de uma perninha, quiçá dois ministérios, em 2014...

Governo de amigos do presidente? Votar é que não porque nós não sabemos escolher e portanto, para nossa defesa, devemos ser afastados da esfera da decisão.

Livrem-nos da vontade popular e da decisão do povo. No Cavaquistão quem manda menos é o cidadão. Mais nada!

 

quarta-feira, julho 03, 2013

O caso do avião de Evo Morales

O caso do avião de Evo Morales é muito grave. Muito mais grave do que à partida nos querem fazer crer.

Um chefe de estado democraticamente eleito foi proibido de aterrar em Portugal com o seu avião oficial. Mais do que isso foi impedido de utilizar o espaço aéreo português. Não foi só Portugal a tomar esta decisão. França e Itália também participaram nesta farsa.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros, esse que não tem ministro, ou tem, não se sabe, diz que "considerações técnicas" ditaram a interdição de aterragem, uma vez que depois de estar já pousado em Viena, autorizaram o sobrevoo. Considerações técnicas? Isso quer dizer o quê?

Será que o avião não cumpre as exigências da Zona de Emissões Reduzidas de Lisboa? Não creio.

Não há motivos para esta quebra de confiança com o Estado Boliviano e exige-se uma explicação plausível e verdadeira sobre esta medida anti-diplomática que se toma apenas com inimigos.

Em Portugal é assustador o vício da mentira e do encobrimento. Um despudor verdadeiramente nojento que está enraizado no modo fazer política.

Toda a gente sabe que o avião foi proibido de aterrar por se suspeitar que Edward Snowden ia a bordo.

O que eu gostava de saber é o que é que o governo de Portugal tem a dizer sobre Snowden. Estará proibido de entrar em Portugal? Porquê?

Já recebemos em Portugal ditadores em comitivas extensas alapadas em tendas, reuniões informais para combinar embustes que levaram a guerras, reuniões do Bildenberg e outros meliantes. Sempre com imensa hospitalidade. Quando foram os prisioneiros para Guantanamo a atitude Portuguesa foi bem diferente.

Edward Snowden mostrou-nos a todos que o governo americano nos espia descaradamente e nós, em vez de pedir-mos explicações como deve ser, tornamos o mensageiro "personae no gratae". Boa!


Actualização:

Hoje, dia 4 de julho, o Ministro Marques Guedes afirmou, em conferência de imprensa, que desconhecia a origem da ordem dada no sentido de proibir a aterragem do voo de Evo Morales. Ou seja, aquele rapaz que se demitiu antes de ontem, tem agora um novo motivo para se demitir uma vez que nem sequer governa o seu ministério e o usa apenas para os seus jogos palacianos. Por seu lado os EUA negam qualquer intervenção no caso.

Eu reafirmo a profunda vergonha que sinto pela atitude do governo português que se portou de forma indigna e que se justifica sem pudor com a sua absoluta incompetência e desorganização como se isso não fosse, por si só, um motivo de embaraço.

 

Marcelo, os comentadores e a "narrativa" do armagedão económico.

Ouvi ontem Marcelo na TVI, num comentário especial por telefone, falar da irresponsabilidade de Portas e da sua substituição no PP. Está visto que está choné. Acredita num governo até ao fim da legislatura com Assunção Cristas como líder do PP. Gargalhada total! Entretanto os ministros do PP já preparam a saída, fieis ao líder.

Também diz uma mentira grave, como já é habitual. Diz que a situação económica se agravou porque Portas saiu. É mentira! É mentira porque nada mudou na economia portuguesa de ontem para hoje. Continua tão miserável como Gaspar fez questão de a deixar.

É a narrativa do desespero. E este é só o episódio piloto de uma série muito longa.

Lá fora os suspeitos do costume, na comissão europeia ou no governo alemão, ameaçam já o próximo primeiro ministro. Tal é o desejo de nos ver no chão.

Um novo governo é uma situação normal em qualquer país. A Europa agora é que diz quem pode ou não pode ser governo? Que treta. Os governos europeus do norte querem suspender a democracia no sul para continuar a gerir, por intermédio de uns quantos Passos Coelhos, os seus interesses económicos e proteger o seu domínio na liderança política e económica da Europa.

Passos Coelho alinha nesta ideia. Sem ele a Europa deixa de acreditar em nós. Mas porquê? A Europa sabe tão bem como nós quão miserável é Passos Coelho como primeiro ministro. Outro qualquer fará, na pior das hipóteses, tão mau quanto ele.

Os mercados tremem com a democracia. Mas que regime é este que especula sobre a democracia. Em que os povos são intimados a escolher governos que protejam os interesses dos donos do dinheiro. Sob ameaça de falta de financiamento. Tudo no mundo é financiado. Tudo gira à volta da circulação do dinheiro, à volta dos bancos, das bolsas e mercados de bens, mas sobretudo de capitais.

Ontem mesmo, nos últimos minutos, subiram juros da dívida, desceram cotações da bolsa daqui até Berlim. Só faltou dizerem que tinham morrido todas as borboletas na China. Esta volatilidade é completamente parva e só mostra como o sistema é instável e especulativo e precisa de uma séria reforma. Aceitar estas consequências como inevitáveis é aceitar sermos escravos da estupidez, é aceitar sermos condenado à pobreza e ao endividamento eterno.

A narrativa de que a desgraça económica, um verdadeiro armagedão, virá se houver eleições vai tentar os portugueses nas vozes de Marcelo, do próprio Passos ou dos habituais comentadores "especialistas" para quem o crónico cagaço dos mercados justifica tudo.

É preciso contrariar este discurso. O melhor para a economia é dar a voz a quem vota. As teorias económicas dos liberais, defensores da ditadura do mercado, conduzem sempre ao autoritarismo e à subserviência da democracia às lógicas perversas da acumulação do capital.

É preciso um governo novo, forte, com consensos partidários que envolvam a defesa da dignidade do Estado e dos cidadãos contra os interesses totalitários da Europa. Não há espaço hoje para uma ideologia de direita que defende o status quo e os interesses dos grupos financeiros acima das pessoas. Há sempre dinheiro para o que é preciso. Depende agora se é mais importante pagar swaps manhosos e aguentar juros de 7% ou manter apoios sociais, apoios ao emprego, salários condignos e serviços públicos de qualidade.

 

sábado, junho 29, 2013

Pobres, ignorantes e covardes?

No dia 27 de junho, dia de protesto e greve geral, um grupo de manifestantes que desfilava em direção à ponte 25 de abril foi cercado pela polícia e identificado um a um como se fossem criminosos. Alega a polícia que o protesto não estava autorizado e punha em risco a segurança rodoviária. Vão todos a tribunal. O país acha normal.

Não há pachorra para o clima hipócrita, pseudo-legalista, de resignação e passividade que se está a instalar neste país. Fruto da proclamação da subserviência como prática obrigatória de cidadania.

Ele é a greve que não pode incomodar, a manifestação que não pode interromper o trânsito, o insuportável Presidente da República a quem ninguém pode chamar gatuno (ele que nem teve nada a ver com o BPN), etc, etc...

Já a Constituição, pelo contrário, é um texto sujeito a interpretações... e não o cumprir é um ato heróico e justificável num momento de emergência económica, blá, blá, blá, blá, blá, blaaaaaaaaaaaaaargh!

A legalidade das manifestações é ditada pelo povo que vê ilegalidades maiores serem votadas como lei sem pudor e sem castigo. Não é, nem pode ser, ditada pelas regras burocráticas do Estado. A emergência que estes senhores justificam para nos retirarem direitos é a mesma que justifica que se interrompa uma estrada ou se ocupe uma praça. Aqui, na Grécia, na Turquia ou no Brasil. A ordem pública pode esperar que nos devolvam o país e a dignidade.

Aceitar ser tratado e conduzido como gado é que não!

Em Portugal aceita-se esta espécie de democraciazinha de brincadeira que uns senhores que nunca foram democratas nos vendem nas TVs. Porque na verdade nunca acreditaram na liberdade do povo. Nunca acharam a liberdade do povo importante para o desenvolvimento económico. São liberarais porque querem a liberdade toda para si e para os seus negócios milionários. É ouvir a gravação dos banqueiros irlandeses que conspiram às gargalhadas para roubar os contribuintes do seu país, porque os de cá fazem o mesmo tipo de coisas. É dessa liberdade que gostam estes liberais.

Os opinistas dos jornais e da televisão alinham-se de pingo de baba no canto da boca a promover a ordem e a legalidade, provavelmente no intervalo de uma ação de campanha eleitoral de um Menezes ou um Seara. Ambos a marimbar-se para a lei e cheios de vontade de mamar no favorzinho que a Assembleia da República lhes fez.

Os Turcos, os Gregos, os Brasileiros, os Franceses quando querem vão buscar. Partem tudo. Vergam políticos e políticas.

Nós, esta cambada lusa de covardes na qual me incluo, baixamos a cabeça e pedimos desculpa pela imaginação do insulto. Somos uns masoquistas pobres, ignorantes e covardes. Uns educadinhos ajudantes de sacristia à espera que a benção do senhor pároco nos invada o reto enquanto lhe agradecemos as graças.

É isso que somos? Será mesmo só isso que somos? De que esperamos para fazer uma nova revolução?

Para quem quiser ouvir a gravação original dos banqueiros Irlandeses a conspiar à gargalhada clique aqui.

 

sábado, junho 22, 2013

Os nossos sonhos não têm cor nem se encaixam na tua folha de cálculo.

A Direção de Serviços da Região Norte do Ministério da Educação convocou recentemente as escolas, públicas e privadas, que oferecem cursos profissionais para discutir a rede escolar.

Um senhor, ex vereador do CDS/PP da Câmara Municipal de Viana do Castelo, tristemente celebre por defender as touradas na cidade, nomeado "Delegado" e representante do Ministério da Educação (M.E.), fala na importância de "prosseguir o esforço nacional da diminuição da despesa". Confirmo a data. Confirmo o local. Aquele discurso não é para ali, para aquele público. Mas ainda assim acontece. Estou numa ação de propaganda.

Misturam-se informações sobre Jardins Infantis, Escolas do 1º ciclo e do 2º e 3º ciclos, números de turmas e números de alunos por turmas. Parece que para o M.E. as turmas se fazem em múltiplos de 30 e trocos. Significa isto que se uma escola, com espaço e professores para 10 turmas do 7º ano, tiver 280 candidatos pode abrir 9 turmas e manda 10 alunos para a escola do lado, por falta de vagas, em vez de abrir 10 turmas com 28 alunos. Esta é a norma. Não está prescrita nenhuma exceção apesar de depois ser a balda e ninguém controlar nada. Autonomia clandestina.

A norma está mal, logo se vê. É como um pilar que de tão rígido se torna frágil e quebradiço, incapaz de cumprir a sua função de suporte. "A norma é para cumprir" diz o tal senhor. Pode ainda acontecer a escola ter só autorização para abrir 8 turmas e o que sobrar vai para o colégio com contrato de associação mas sobre isto não se falou.

Apesar de tudo o pior ainda estava para vir. Apresentam-se as prioridades na abertura de cursos profissionais. Atenção que a rede pública não foi separada da oferta privada. Não há uma estratégia específica para a rede pública. Na verdade são todos considerados "públicos" uma vez que a oferta privada de cursos profissionais depende exclusivamente do financiamento europeu que só chega quando a administração pública ratifica a abertura de um curso. Há algo de perverso aqui. Uma escola não pode justificar o mérito de uma oferta pela empregabilidade dos alunos, pela procura ou pela qualidade da formação e projeto educativo. A abertura do curso é uma decisão política. Sempre.

A administração decide que cursos quer para o futuro e decide com cores. Não há uma planificação da rede, lógica de continuidade, diversificação e complementarização da oferta, não é tida em conta a especialização das escolas e dos recursos humanos e materiais ou sequer pareceres de diversas entidades empresariais, universidades ou outros organismos. Mais grave ainda, existe uma, pouco pacífica, disputa por alunos entre as escolas e o IEFP que promove a sua própria oferta com recurso a estratégias competitivas muito eficazes.

Para o M.E. há os cursos a verde, os amarelos, os "castanhos" e os vermelhos. Curioso o "laranja" até aos laranjas parece hoje acastanhado.

Aplica-se a técnica da cultura intensiva, promovem-se áreas sem refletir sobre os efeitos nefastos da medida caso, por azar, as escolas a seguissem.

E quais são as áreas que promove o Ministério da Educação?

Suportado num estudo nunca apresentado, o senhor delegado apresenta, a "verde" para o Grande Porto: Comércio, Metalurgia e metalomecânica, Indústrias Alimentares, Materiais: madeiras, cortiça, plástico e outros, Construção civil e engenharia civil e Serviços de Transporte.

Quem ler jornais e acompanhar a economia percebe rapidamente que somos convidados a formar para áreas que hoje oferecem pouco emprego e que estão em crise. Outras áreas de desenvolvimento que se têm revelado de muito sucesso como o Design e a Criatividade ou a Multimédia e as Tecnologias de Informação, numa região marcada pelos serviços e pela presença, ainda que cada vez menor, de sedes de empresas e centros de decisão, aparecem na zona vermelha. O IEFP que se rege por resultados práticos de empregabilidade à saída das formações, por exemplo, coloca estas áreas vermelhas no topo das prioridades. São outros critérios.

Por outro lado está proibida, por qualquer motivo, a inscrição de maiores de 20 anos nestes cursos. Sabendo que a oferta de Cursos de Educação e Formação de Adultos foi drasticamente reduzida eu pergunto-me qual o objetivo real destas medidas em termos de política educativa e qualificação para o trabalho.

Na realidade a oferta tem de ser, necessariamente, diversificada e obedecer a critérios estratégicos económicos mas também culturais e ter sempre em conta a dignidade e a liberdade das pessoas. Não há qualquer necessidade de usar as cores e oferecer a formação profissional aos repelões sem ter sequer respeito pelas vocações e sonhos dos formandos. Mas esta é a questão essencial desta política.

Ao organizar a oferta formativa desta forma a administração garante que a população jovem que foi identificada e carimbada pelo sistema público de educação como menos bem sucedida vai confrontar-se com oportunidades que os disciplinam e organizam consoante necessidades económicas. Perdem o direito a querer ser o que quer que sejam e são obrigados a ser uma daquelas coisas. E essa obrigação produz efeitos sociais interessantes. Trabalhadores em número abundante em áreas tradicionalmente com custo de trabalho baixo assim como competências profissionais simples. Não há procura para esta mão de obra hoje. Mas o governo acha que haverá amanhã e está a trabalhar nesse sentido. Numa sociedade partida, com uma pequena e insignificante classe média, uma abundante e barata classe trabalhadora e uma pequena e abastada elite com direitos adquiridos dados pelas eternas gerações de senhores doutores premiados pela meritocracia que melhor convir.

É esta a natureza das nações ricas do séc.XXI, com um sério deficit democrático e com uma população escrava de objetivos económicos de larga escala para acumulação do capital num grupo cada vez mais restrito.

Este tipo de políticas são motivo de preocupação e devemos refletir sobre elas.

 

quinta-feira, junho 20, 2013

Sr. Doutor Juiz, posso levar um insulto?

Este texto vem no contexto da notícia «Jornalista condenado a multa e indemnização por chamar "idiota" a ex-secretário de Estado» do jornal Público de 19 de junho de 2013.

Atenção: este texto tem linguagem menos própria para o consumo dos mais pudicos.
Acho muito complicado e perigoso que em Portugal se condene alguém por chamar "idiota" a um governante. Em primeiro lugar porque está em causa a liberdade de expressão e em segundo porque pode, em última análise, impedir que alguém diga a verdade.
Bem sei que o acórdão condena o arguido sobretudo por ter chamado "idiota" a um secretário de estado sem ter apresentado justificação para o efeito. Alguns argumentarão que ter sido secretário de estado de Sócrates é motivo bastante, por exemplo. São livres de pensar isso. Mas seria com certeza, como noutros casos se fez, muito fácil fazer prova da idiotice deste ou daquele secretário de estado em tribunal, bastando para o efeito recorrer à leitura de declarações públicas ou ao enunciado das medidas que se vão tomando nas secretarias de estado.
No caso em apreço o jornalista escreveu que o inatacável funcionário do estado "é o mais idiota dos políticos que conheço e foi durante este último ano e meio secretário de Estado da Agricultura e Florestas" e continua dizendo "um dia será ministro das Finanças, ou da Educação, ou da Justiça de um qualquer governo, a confiar no aparelho partidário do Partido Socialista, onde parece que toda a gente boa foi de férias e só ficaram as galinhas".
As palavras são fodidas (olha, usei uma delas agora mesmo). Se o jornalista em apreço tivesse o talento para desenhar um galinheiro com o símbolo do Partido Socialista pendurado e um grupo de galinhas a bicar no chão sendo uma delas a carinha laroca do dito inominável e inatacável secretário de estado, o senhor doutor juiz nunca o teria condenado. Apesar de sabermos todos que as galinhas são um bicho que só não é idiota quando está no tacho.
Mas os símbolos são do caraças e a semiótica é fodida. Se em vez de galinhas fossem porcos numa pocilga já era diferente e o juiz deste caso, admirador confesso, presumo, dos brilhantes trabalhos na área da liberdade de expressão realizados pela justiça iraniana ou chinesa, já iria franzir o sobrolho e pensava "mil... mil e trezentos, devem bastar". Já, por último, se trocássemos os porcos por cavalos talvez o dito ex-secretário de estado, cujo nome é impronunciável e cuja dignidade está acima de qualquer suspeita, decidisse em vez de um processo presentear o jornalista em causa com um belo cabaz de Natal. É a natureza dos signos.
O que, com certeza, o senhor doutor juiz, se esqueceu de estudar foi que a palavra "idiota" está ligada ao exercício da política desde a Grécia Antiga ou antes ao não exercício – a palavra vem da raíz iδio que significa “em si mesmo” alguém que se exclui e não participa e que por isso rejeita a política (como tão bem explica Papandreou na sua comunicação no TED – ver aos 12m34s).
Neste caso particular talvez o jornalista não se estivesse a referir à falta de exercício e participação política do dito cujo, mas antes a um exercício que, em si mesmo, exclui os outros, exclui a comunidade para a qual trabalha. Por estar distante daqueles a quem se destina é idiota por princípio. Exatamente aquilo que se passa hoje na nossa governação “idiota”.
Mas ser "idiota" toca a todos. Ser o "mais idiota" toca a quase todos, uma vez ou outra. Incluindo-me a mim na galeria dos mais idiotas muitas vezes. É diferente de chamar "gatuno" que implica roubar, ou "cabrão" que implica um exercício específico da sua senhora ou, no máximo dos máximos, "filho da puta" que põe em causa a moral da proveniência dos rendimentos da mãe. "Idiota" em Portugal significa um ignorante ou vaidoso. Dificilmente encontraremos alguém que não pense o mesmo da maioria dos políticos. Estarão proibidos de o dizer sem o justificar?
Os políticos, sobretudo os que governam, estão a jeito. Não são cidadãos comuns. Legislam, afetam a vida das pessoas de forma determinante e andam com seguranças não identificados que batem e dão ordem de prisão. Nas revoluções perdem as cabeças. Literalmente. O exercício de um cargo político obriga a aceitar que nos chamem idiotas sem qualquer justificação. Faz parte. É diferente de dizer que roubamos. É só dizer que fomos maus. Dizer que se é "o mais idiota" é só dizer que fomos os piores.
Não quero um país em que não se possa chamar "idiota" livremente a um governante. Sobretudo sendo este um país de governantes Idiotas, Ignorantes, Vaidosos, Mentirosos e que todos os dias vão governando a favor dos seus interesses sem qualquer tipo de pudor nem compaixão pelos seus cidadãos. Será que é proibido mandá-los "à merda"?
Quanto custa senhor doutor juiz?
Neste mercado de insultos que se tornaram alguns tribunais portugueses, na inútil e impossível defesa da dignidade dos que nos governam, apetece-me entrar e dizer: Vou levar três "idiotas", uma dúzia de "gatunos" e apenas um "filho da puta"*, mas só porque não me pagam agora em junho. Venho cá em novembro e levo mais...
Tenham juiz(o).
* atenção que estou só a brincar, não me pagam o suficiente para liberdades dessas...

quarta-feira, junho 19, 2013

Uma questão de empatia...

O relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, intitulado "duas faces da saúde", revela aquilo que é já uma doença clássica nacional. A total e absoluta falta de empatia da classe política, dos governantes em particular, relativamente aos graves problemas da população portuguesa.

Quem ouviu ontem o Ministro Poiares Maduro na TVI ficou com a ideia de que para este governante Portugal é um caso de sucesso. Como somos todos ignorantes ficamos a saber que não vai haver despedimentos na função pública, apenas "requalificações" e que a coligação está forte. Ora, na mesma altura o outro partido da coligação estava a realizar um congresso em que prometia o oposto do que o governo anuncia. A "requalificação" só se for na situação no trabalho para efeitos de IRS que será requalificado para "desempregado" pois os números de redução de efetivos na função pública prometidos à Troika ultrapassam em muito as reformas e os contratados que vão ser postos a andar. Finalmente todos os números relativos ao nível de vida dos portugueses estão no pior de sempre desde que temos liberdade mas Maduro acha que este é o caminho certo. Para Maduro este é o Portugal com que ele sempre sonhou, um em que ele é Ministro e que os outros se f****. O grau de irrealidade e de desplante na distorção dos factos chega a ser cómico.

Mas voltando ao relatório da OPSS. O que me chocou é que se concluiu que o acesso à saúde piorou, sobretudo para os mais pobres e para os idosos, a aquisição de medicamentos deixou, em muitos casos, de ser feita e que o governo ultrapassou em muitos milhões a poupança prevista ou aconselhada pela Troika para o sector. Ou seja, segundo Maduro, Gaspar ou Passos, estaremos no sentido certo e o Ministro da Saúde Paulo Macedo é, considerado por todos, o melhor do mundo. Tirando para os velhinhos e os pobrezinhos claro, mas o que é que esses interessam no grande esquema das coisas?

Lá na Europa e nos Bildenbergs, G20s e G8s ninguém quer saber. A vida é tratada ao quilo. Como foi tratada a vida dos cerca de mil cidadãos do Bangladesh que morreram soterrados ao lado dos nossos pólos cor-de-rosa da Benetton. Ninguém quer saber. Os números dos gráficos são grandes demais e a riqueza das nações, como é o exemplo dessa grande nação que é o Brasil, não representa os problemas sociais e as dificuldades da grande massa de pobres que não participa desse sucesso económico feito de polícia militar, balas e condomínios de luxo muito fechadinhos.

Conclusão. Há mais gente a deixar de ir aos médicos e a deixar de tomar os medicamentos, há mais suicídios, há mais fome e muito mais pobreza, mas os ministros são bons, são académicos competentes e a sua palavra é rainha. Portugal está bem, a Europa recomenda-se, no Brasil as pessoas que se calem porque a FIFA quer fazer uma festa e quer silêncio, tirando o ruído irritante das "caixirolas" oficiais. Na Turquia vai tudo a eito que os parques não são para as pessoas, são para os governos mostrarem quem manda. No G8 a Rússia defende um criminoso no poder na Síria porque lhe interessa vender umas armas (boa estratégia económica, o rating da Rússia ainda vai subir). A China agora é de todos os que lá vão molhar o pincel, na mão de obra barata, menos dos pobres chineses. Obama anda a espionar a malta toda, a culpa é do rapaz que o denunciou, e na América matam-se na rua todos os dias sem que se legisle contra as armas porque dão muito guito nos bolsos dos políticos republicanos que querem que se ensine o Adão e a Eva na escola primária em vez do Darwin (possa que ainda há pior que o Crato), etc e etc e etc... tenho de deixar de ler jornais e ver notícias. Começa a ser demasiado difícil.

 

segunda-feira, junho 17, 2013

Pela profissão e pela educação.

A luta dos professores, a nossa luta, é uma luta por melhores condições de trabalho. Por melhores remunerações. Contra a precariedade do trabalho docente. Por uma melhor e mais justa organização do nosso trabalho. É uma luta contra as regras que permitem ao governo descartar, como se faz com as fraldas, docentes efetivos com muitos anos de trabalho. É uma luta por melhores condições para todos os milhares de fantásticos professores que são essenciais ao sistema e que, apesar disso, todos os anos são chamados de contratados e estão impedidos de serem profissionais com estabilidade no emprego.

Todos estes motivos são legítimos. Ao contrário do que nos querem fazer crer é totalmente legítimo fazer greve por motivos estritamente ligados ao exercício da profissão. Todos o fazem. E quando não o fazem é porque chantagens ilegítimas os impedem de se manifestar. É um execício de liberdade e tem consequências. Tem de ter consequências para fazer sentido.

Mas há motivações acrescidas. Este Ministério da Educação já provou que pouco ou nada lhe interessa a qualidade da oferta educativa pública. A injustiça cometida sobre os alunos da Soares dos Reis é exemplo da falta de ética e valores de justiça nas suas decisões. E os professores sabem que o Ministro mente e que o que promete hoje amanhã desmente. Sabem também que cada vez mais apresentarão como inevitável um sistema em que empresas privadas organizam e enriquecem com o ensino público por via de concessões. A greve dos professores é um alerta de que a classe não vai admitir a privatização da escola pública. Não vai admitir a degradação progressiva da oferta pública para justificar esta privatização.

É isto tudo que está em causa, são muitos os motivos. Não se esqueçam que a greve vem depois de trapalhadas e desmentidos, de mega agrupamentos e de novos "programas" realizados contra os professores. Não há motivos para confiar na qualidade do trabalho e na veracidade da palavra do Ministro. A greve é apenas o corolário de uma má governação, sempre contra os portugueses.

Por outro lado a tarefa primeira dos professores é ensinar e só depois avaliar. Os professores ao fazer greve às vigilâncias estão, na prática, a fazer greve a uma tarefa menor da profissão que nem sequer a dignifica. Apenas se prejudica uma função administrativa do ensino. Não se prejudicam os alunos.

Os professores levam hoje a escola às costas. Contra tudo e contra todos. Cumprem todo o tipo de tarefas e fazem muitos sacrifícios. São os artífices de uma das mais significativas melhorias de resultados na Europa. Recuperaram uma sociedade marcada pelo analfabetismo e pelo abandono escolar. Têm poucos a defendê-los, na sua maioria alunos que diariamente testemunham o seu entusiasmo, competência e dedicação.

Os professores merecem mais respeito e estão de facto a dar uma lição de democracia aos seus alunos. Nunca nos devemos resignar às lógicas utilitaristas desta selvajaria liberal. Nunca nos devemos calar na defesa dos nossos direitos e liberdades.

No dia 27 de Junho, dia da greve geral, devemos estar lá todos, alunos, professores, pais, trabalhadores do público e do privado, juntos lado a lado por um país com identidade, por um país que respeita as pessoas, por uma Europa de todos e não só de alguns.

domingo, junho 16, 2013

O trabalho dos professores é ensinar os alunos. Verdade?

Nunca vi uma classe profissional ter de defender uma greve desta maneira. É inédito. Alguém sabe os motivos da greve dos controladores aéreos franceses? Não, pois não?

É sobre o "Céu Único Europeu". Primeiro pensei que fosse uma ideia do Papa Francisco, mas depois percebi que era um projeto que, na prática, retira a soberania dos ares aos países Europeus para a dar aos do costume. Só a Ryan Air é que disse que se deveria proibir a greve dos controladores. Cá em Portugal, com tanta gente, já em férias, apeada em aeroportos, ninguém quer saber. A greve é bem justa, já agora.

O que pergunto é:

Os alunos vão à escola para aprender. Verdade?

O trabalho dos professores é ensinar os alunos. Verdade?

Se nenhum aluno perdeu uma única aula com esta greve como pode sair prejudicado?

Se faço greve a uma vigilância, uma vez que não sou nem polícia, nem segurança, estarei a falhar no meu dever cívico e profissional aos meus alunos?

A Malta está qualificada é para dar aulas e apoiar alunos. As notas são um processo administrativo e os exames também.

Esta greve é, na verdade, aquela que menos prejudica os alunos!

Numa escola aprende-se e ninguém deixou de aprender este ano. O resto são tretas. E treteiros não faltam.

sábado, maio 25, 2013

Um Ministério que presta um serviço mínimo.

Gostava de saber qual é o conceito de serviço mínimo adaptado aos conselhos de turma ou às vigilâncias de exames nacionais.

Podem-se realizar conselhos de turma só com um terço dos professores (a lei parece dizer que não)? E estes, em greve, entregarão as classificações?

Poderão os exames funcionar só com um vigilante?

A questão é esta: se o professores são tão importantes porque é que são tratados como inúteis?

As greves atingem onde dói mais, nada mais natural. E acontecem em situações extremas, por exemplo:

  • Quando se prepara o despedimento indiscriminado de professores do quadro.
  • Depois de provado que se paga a colégios privados para abrir turmas que as escolas públicas estão proibidas de abrir.
  • Depois de congelamentos intermináveis da carreira.
  • Quebras brutais em salários e benefícios.
  • Aumento das horas de trabalho e do número de funções paralelas.
  • Processos kafkianos de avaliação criados para dividir a classe.
  • Legislação avulsa, fora de tempo e pedagogicamente perversa que altera programas, métodos de acesso ao ensino superior e regras de funcionamento das escolas e dos concursos.
Não chega de motivos?

Os professores têm sido atacados não apenas como classe ou grupo profissional, em assuntos diretamente relacionados com concursos, colocações, salários, horário de trabalho e funções. O próprio sistema de ensino e a qualidade do processo educativo, onde têm um papel absolutamente esencial, estão a ser postos em causa por medidas contrárias à qualidade da educação.

A greve só é surpresa e só é injusta para quem ou anda a dormir ou não tem respeito nenhum pelos portugueses que são ou foram alunos.

Devemos refletir sobre a natureza destas medidas, cuja maioria não foi exigida por nenhuma troika. Foi a ideologia retrógrada, conservadora e sobretudo protecionista dos mais favorecidos que criou esta miséria de ideias em que se tornou o mais importante ministério de uma democracia.

Andam secretários de estado (Poiares Maduro) a dizer que a Constituição é um entrave à livre iniciativa legislativa democrática porque lhes falta escola, falta escola democrática a estes governantes. Porque não sabem que a liberdade pertence aos cidadãos e não aos governos que os exploram e desrespeitam. A Constituição existe para impedir que tais governantes tenham poder sem limites e falhem nos seus deveres aos cidadãos.

Uma escola livre e autónoma, verdadeiramente democrática e centrada no aluno e nas suas necessidades, irá derrotar esta ideologia passadista e criar cidadãos maduros e responsáveis diferentes desta "gente".

O futuro anda na escola e merece o melhor de nós.

 

domingo, maio 05, 2013

Será que 40 horas chegam para tanto trabalho?

Os professores em Portugal têm de realizar 1100 minutos de aulas por semana. São, de facto, 22 aulas de 50 minutos, os chamados "tempos". Para leccionar uma disciplina que, por semana, ocupe 4 destes tempos, ou seja 200 minutos, cada professor terá de ter 5 turmas e meia. Seja lá o que "meia" for. Nas regras actuais isso significa cerca de 150 alunos. Se por mês o professor dedicar 30 minutos de trabalho de casa a avaliar e a reflectir sobre cada um destes alunos - que dedica mais, tendo em conta toda a preparação de aulas, correcções de trabalhos, etc. - isso representa 4500 minutos por mês, 90 tempos de 50 minutos por mês ou seja 22,5 tempos por semana.

Quer isto dizer que os professores, sem muita dedicação, facilmente atingem os 44 ou 45 tempos (de 50 minutos) por semana. 36 horas de trabalho no mínimo.

A juntar a isto estão as Componentes Não Lectivas (trabalho realizado na escola diferente de aulas - apoios, clubes e outras tarefas) que representam mais 150 minutos no mínimo legal.

São, no total, 39 horas de trabalho hoje, sem aumentos nenhuns!

Agora imaginem em disciplinas com menos de 200 minutos semanais e com o respectivo aumento do número de turmas para 6, 7 ou 8. Mais de 200 alunos. Será que chega?

Isto para explicar que o aumento do horário do trabalho na função pública é uma farsa quando se aplica aos professores e terá consequências terríveis na qualidade do sistema educativo se for aplicado às horas lectivas.

Um caminho sem retorno?

Pode parecer que não, para quem ouça os economistas, mas o caminho que seguimos todos tem retorno. Chama-se respeito próprio. E esse respeito próprio deve expressar-se na rejeição total e absoluta desta visão da escola como uma empresa pecuária.

Não somos trabalhadores de um matadouro nem os alunos são animais para serem tratados como tal!

Esta escola está a ser construída para realizar uma triagem social e os professores são os funcionários encarregues do trabalho sujo que os ideólogos do poder exigem mas não admitem.

Os alunos que sairão destes modelos de organização da escola vão andar nas ruas amanhã e não se vão esquecer do que lhes fizeram. Quando a violência, a falta de respeito pelo outro, o caos tomar as nossas ruas os dedos estarão apontados aos professores, esses tarefeiros. Serão então exigidas medidas para repor a ordem, mais polícia, mais autoridade.

Nessa altura os políticos de hoje estarão todos a viver muito bem e longe da confusão que criaram.

Que não se esqueçam também aqueles que se ficam a rir ou aplaudem estas medidas com esgares de vingança porque, se um professor ou funcionário do estado pode dar mais, daqui a pouco tempo o seu patrão irá concluir que ele próprio pode dar ainda mais e a ganhar ainda menos.

Os padrões de tempo de trabalho e vencimento estabelecidos pelo estado têm sempre reflexo nas empresas privadas e em contexto de crise tudo se admite.

Que a divisão que nos semeiam no meio do povo não floresça. Que o nosso respeito próprio vença a estupidez do "hunger game" neo-liberal. É necessário resistir sempre e cansar os ouvidos dos que ainda não acordaram.

 

quinta-feira, abril 25, 2013

Hoje posso gritar "Passos para a rua!"

Dei este título porque quero escrever algo positivo neste 25 de Abril. Não sei se consigo mas vou tentar.

Este título vale, no dia de hoje, não tanto pelo meu desejo que tal se concretize ou porque seja esse o assunto desta crónica, mas mais pela celebração da minha liberdade de o escrever. É absolutamente inegável que o 25 de Abril marca o início de um processo de libertação dos portugueses das amarras das concepções perversas e curtas do que é um Estado, um País, um Povo. Mas não foi só nesse dia que se conquistou a liberdade. Em muitos dias seguintes, em 39 anos, esta foi sendo conquistada e trabalhada e vivemos hoje uma democracia.

O trabalho está longe de estar concluído. Percebemos hoje que as tentações totalitárias dos que estão no poder se mantêm e que é necessário vigiar a democracia. Percebemos hoje que a democracia é sobretudo fruto de uma educação para a liberdade. Só um povo educado em liberdade vai conseguir viver e exercer totalmente a democracia. O papel dos outros, dos que não foram educados em liberdade, será o de garantir que os mais novos o sejam.

Esta é uma questão absolutamente essencial para aqueles que, no nosso país, se sentem donos da democracia apenas porque já vestiam calças em 1974. A democracia não pertence a ninguém. Uns não são mais dignos dela do que outros. Não se reclama totalmente conquistada. Conquista-se todos os dias.

Existe em Portugal uma geração que se considera a "da democracia". Todos os anos se esforça em provar que o povo português, mais novo, raramente é digno de tão nobre e generosa oferta.

Todos os anos, nos jornais e na TV se torcem todos de alegria nervosa quando vêem um jovem ou uma criança a errar um detalhe histórico ou demonstrar desconhecimento sobre os conceitos em causa. Gemem felizes com a ignorância dos mais novos e vangloriam-se da sua consciência democrática e histórica.

É uma hipocrisia. Se os mais jovens não sabem mais é porque nós temos vergonha de falar do 25 de Abril. Guardamos um dia do ano para o assunto. Cantamos umas músicas e vendemos aquela flor. Mas não falamos de política.

Para uns o 25 de Abril é uma cena de comunistas. Ainda estão sob efeito da era Mccarthy. Para os políticos é mais um dia de discursos e oportunidade para uma aparição televisiva. Para os sindicalistas um dia de manifestações e mais uma aparição televisiva. Para a maior parte é mais um feriado e folclore.

No fundo é como o Natal. A discussão é exatamente a mesma e não vou estar para aqui a enumerar as mais do que óbvias semelhanças nos discursos sobre a natureza, significado e importância de ambas as coisas.

Isto para dizer que para mim o 25 de Abril é todos os dias (como se diz do Natal). Para dizer que a liberdade é um ar que se respira. Ás vezes aparece degradada e cheira mal, está poluída. Por isso é necessária uma proteção da liberdade e da democracia tal como se protege o meio ambiente, ou os animais. É necessário que grupos de pessoas discutam opções políticas democráticas, práticas de liberdade. E devemos olhar para isso com satisfação e não com enfado. Com interesse e não com indiferença.

Nas escolas é necessário ensinar a liberdade e com liberdade. A escola não é neutra portanto é importante que não finja uma neutralidade que não existe. Que assuma o seu papel democrático.

Temos de aceitar que mais importante do que saber coisas sobre este dia é saber como exercer a liberdade, pensar em liberdade. É mais importante saber se os nossos jovens se sentem livres e percebem a importância da democracia. Se se sentem parte do sistema democrático e defendidos dentro do sistema democrático.

A escola existe para fazer entender mas também para criar o desejo de entender, o desejo de crescer. A escola não serve para prescrever pilhas de memórias e de conteúdos.

A liberdade não se entende por um conjunto de factos históricos. Entende-se por uma prática e um exercício em conjunto. Do querer aprender e do viver essa aprendizagem.

Só pela educação se realiza o 25 de Abril. Abdicar dos valores da escola para todos é abdicar da ideia de que nascemos iguais.

 

sexta-feira, abril 19, 2013

O caso do "Excel" avariado

Tenho andado a seguir esta notícia em sites internacionais. É um caso curioso. Em 2010 Carmen Reinhart e Ken Rogoff publicaram um artigo "Growth in a time of debt". Nesse artigo, após uma extensa análise de cerca de 200 anos de dados económicos, afirmam categoricamente que o crescimento económico de um país diminuía sempre que a dívida era mais de 90% do Produto Interno Bruto (PIB).

Este artigo foi um tiro de partida para as medidas de austeridade que a Europa adoptou com tanta dedicação.

Vem-se a ver agora que os dados analisados no artigo, ou seja a folha de "Excel" usada para fazer as contas continha erros. Seria no mínimo cómico caso não tivesse consequências trágicas para milhões de trabalhadores europeus.

Vamos então ver isto por partes:

1- O conteúdo do artigo não foi inteiramente revisto por pares, como a academia exige, nem os dados citados como fonte foram publicados para serem revistos aquando da sua publicação. Só agora foi possível rever os dados. Esta crítica é generalizada. É este o grau de exigência dos economistas europeus a este nível...

2- Pessoalmente acho estranho que, com "ferramentas tão potentes" de análise de dados, se tenha recorrido ao Excel para tão importante empreitada.

3- A notícia do Público não explora a questão como deveria. Os investigadores Thomas Herndon, Michael Ash, e Robert Pollin da Universidade de Massachusetts, ao reverem os dados descobriram que Reinhart e Rogoff cometeram 3 tipos de falhas: exclusão de dados arbitrária, ponderação de dados incorreta e erros de fórmulas de calculo.

Por exemplo: No estudo, 19 anos de dívida acima dos 90% do PIB no Reino Unido com um crescimento médio de 2,6% vale tanto como um ano de dívida acima do mesmo valor na Nova Zelândia com uma retração de 7,6% da economia. Este exemplo é paradigmático.

4- Uma outra análise dos mesmos dados pode levar a concluir o contrário daquilo que afirmam os autores. Que uma retração económica pode levar a um aumento da dívida em percentagem do PIB e não o contrário. Isto é fácil de perceber, não é preciso nenhum "excel". Quando são tomadas medidas de austeridade que retiram dinheiro das carteiras das pessoas por via de quebra de salários e aumento de impostos, e simultaneamente o Estado reduz o seu investimento na economia, o dinheiro a circular diminui porque sai para o exterior em juros de dívida inflacionados, diminui a produtividade porque a procura não existe e a economia retrai-se e o PIB cai. Como os juros são insustentáveis e o pagamento da dívida é suportado por nova dívida, as medidas de austeridade vão provocar um aumento da dívida em percentagem do PIB. É o que está a acontecer em Portugal.

Por isso estamos em espiral recessiva. Acreditar em milagres ou conversas como "com sacrifício vamos ultrapassar as dificuldades" é uma treta. Só se resolve a crise com medidas políticas e económicas europeias concretas e inteligentes. A larga escala.

Os nossos sacrifícios não estão a servir para nada excepto um programa de emagrecimento dos serviços do Estado que vai deixar os mais desfavorecidos entregues a si mesmo e garantir uma prática de transferência do dinheiro dos impostos para a iniciativa privada empresarial, sobretudo o sector financeiro da economia. Teremos um páis economicamente rico mas com um povo pobre.

Quem vier dizer que é o contrário está a enganar-nos. Foi o que aconteceu na América de Bush e é o que querem que aconteça aqui.

O facto de Vítor Gaspar citar o "estudo" de Reinhart e Rogoff não é de estranhar. Os políticos liberias no poder "tratam-nos como shamans, não economistas" e vão continuar a acreditar nas suas conclusões ainda que sejam provadas erradas. Nada disto é ciêntifico e fingir que é tem consequências desastrosas.

Gaspar não é um bom técnico, é só um mau político. É preciso perder o pudor de pôr em causa estes deuses de pés de barro da ciência exacta que de exacta não tem nada.

 

quinta-feira, abril 11, 2013

Investir nas pessoas ou no dinheiro?

Do meu ponto de vista todo o dinheiro gasto, pelo Estado, em salários ou pensões tem um efeito positivo para a economia. Na verdade a classe média gasta o seu dinheiro em Portugal e o que poupa guarda-o em bancos dentro de portas. Estes trabalhadores/consumidores põem a economia e a procura interna a funcionar e permitem o crescimento.

É o principal investimento do estado na economia, é o investimento nas pessoas, deveria ser o princípio destes liberais, não o oposto. O bem estar dos cidadãos promove os índices de confiança. Uma nação optimista pode investir e avançar. Uma nação deprimida e castigada dificilmente investe no que quer que seja. São promovidos sentimentos de insegurança, desconfiança e de revolta social.

Emprestar dinheiro aos bancos para sanear as suas contas, agregar compras em contratos gigantes para empresas gigantes, concessionar serviços públicos para gerar receitas a grandes empresas (as que ganham as concessões) à base de serviços piores com salários mais baixos, aceitar as chantagens de agiotas como são o FMI ou o BCE com empréstimos com garantias ruinosas, contratar escritórios de advogados para fazer o trabalho dos deputados e dos acessores (pagos a peso de ouro), baixar os salários aos cidadãos de modo a que não gastem mais do que o absolutamente essencial (pelos vistos uma prática moral purificadora dos valores) e outras aventuras são práticas habituais do estado capitalista e conservador contemporâneo.

Assiste-se hoje a uma dependência total e absoluta do grande capital em relação aos estados para o seu financiamento e para a manutenção de negócios e contratos altamente rentáveis. Esta dependência faz-se igualmente no modo como o tráfico de influências garante um fluxo constante de legislação que desregula o comportamento incorrecto e vai garantindo ferramentas de resgate e saneamento económico quando tudo corre mal.

Passamos de ter pessoas dependentes do estado para ter bancos e corporações dependentes totalmente dos estados. Não é, com certeza, apenas o Estado Português mas é também o Estado Europeu na figura do seu banco central e da comissão europeia.

Por isso, hoje, o trabalho do Estado tem sido financiar uma economia sem pessoas (ou com muito poucas pessoas) com o dinheiro que retira às pessoas e aos organismos que garantem qualidade de vida às pessoas, como são as escolas, os hospitais ou organismos e instituições produtores e promotores de cultura.

Não aceito discursos catastrofistas que apresentem Portugal como um país sem viabilidade económica. Não aceito os discursos que dizem que para haver país temos de ser pobres e muito menos os aceito vindo daqueles que não sofrem com a crise. Ouvimos todos os dias banqueiros e grandes empresários a dizer que devemos fazer sacrifícios mas eles próprios vêem os seus lucros a aumentar com as contradições da crise. Para eles, a desgraça alheia, mais não é do que uma oportunidade de negócio. E eles próprios, como cidadãos, não fazem um único sacrifício.

A verdade é que estamos ao serviço de interesses mais altos do que nós. Interesses que põem a vida das pessoas em segundo lugar.

A única solução passa pela demissão deste governo e por eleições. Passa pela discussão alargada das soluções possíveis para a gestão desta crise. Sim, porque não há saída para a crise, pelo menos enquanto os nossos parceiros europeus acharem que a Europa se faz com os interesses só de alguns.

Deixarmo-nos levar por discursos económicos falsamente pragmáticos é abandonar a ideia de que as soluções são necessariamente políticas, como sempre foram na história, e que passam por opções estratégicas que abram oportunidades de crescimento aos mais fracos. Essa é a margem de crescimento da Europa.

quinta-feira, abril 04, 2013

A demissão de Miguel Relvas.

"Ministro Miguel Relvas pede demissão"
no site do jornal Público.

Miguel Relvas demite-se. Até que enfim! O ar está mais limpo...
Passos Coelho ainda teve menos coragem do que o próprio Relvas e esperou que este saísse nas suas próprias condições, "por vontade própria", "sem condições anímicas" mas estranhamente "como entrou". Já tinha combinado a saída e ainda assim falou de coesão do governo. É só um exemplo da falta de coerência do que habitualmente diz.
Nuno Crato, que deveria seguir o mesmo caminho, guardou o resultado da investigação até que este decidisse sair e recusou-nos ver feita a justiça feita a um ministro. Ficamos a saber que um Ministro que falha ou que mente se mantém no cargo o tempo que quer e que inclusive a justiça do Ministério da Educação espera que se demita para cumprir o seu dever. Viva a dignidade do Governo!
Relvas gaba-se do trabalho feito pela RTP e pelas autarquias que extinguiu. Também se gaba do programa "impulso jovem" com "mais de dez mil candidatos a estágios" ou por exemplo "na igualdade de género". Pois, foi o que eu pensei...
Ou seja, está a pedir-nos a equivalência a Ministro sem ter feito realmente o curso, sem ter cumprido o seu trabalho.
Uma mão cheia de nada, muitas más ideias, algumas mal intencionadas, outras inúteis, e a indignidade do cargo são as únicas coisas que Relvas nos deixou em dois anos.
Relvas deveria agora ir fazer os exames do secundário e tentar o acesso ao ensino superior público, antes que ponham em causa o seu 12º ano. Era de homem sentar-se ao lado dos que verdadeiramente se esforçam e estudam para o seu futuro.
Vamos voltar a ouvir falar de Relvas mas para mim, honestamente, é um político sem interesse mas com interesses, sem ideais mas cheio de ideias, alguém que deveria desaparecer da esfera pública para sempre.