quinta-feira, abril 25, 2013

Hoje posso gritar "Passos para a rua!"

Dei este título porque quero escrever algo positivo neste 25 de Abril. Não sei se consigo mas vou tentar.

Este título vale, no dia de hoje, não tanto pelo meu desejo que tal se concretize ou porque seja esse o assunto desta crónica, mas mais pela celebração da minha liberdade de o escrever. É absolutamente inegável que o 25 de Abril marca o início de um processo de libertação dos portugueses das amarras das concepções perversas e curtas do que é um Estado, um País, um Povo. Mas não foi só nesse dia que se conquistou a liberdade. Em muitos dias seguintes, em 39 anos, esta foi sendo conquistada e trabalhada e vivemos hoje uma democracia.

O trabalho está longe de estar concluído. Percebemos hoje que as tentações totalitárias dos que estão no poder se mantêm e que é necessário vigiar a democracia. Percebemos hoje que a democracia é sobretudo fruto de uma educação para a liberdade. Só um povo educado em liberdade vai conseguir viver e exercer totalmente a democracia. O papel dos outros, dos que não foram educados em liberdade, será o de garantir que os mais novos o sejam.

Esta é uma questão absolutamente essencial para aqueles que, no nosso país, se sentem donos da democracia apenas porque já vestiam calças em 1974. A democracia não pertence a ninguém. Uns não são mais dignos dela do que outros. Não se reclama totalmente conquistada. Conquista-se todos os dias.

Existe em Portugal uma geração que se considera a "da democracia". Todos os anos se esforça em provar que o povo português, mais novo, raramente é digno de tão nobre e generosa oferta.

Todos os anos, nos jornais e na TV se torcem todos de alegria nervosa quando vêem um jovem ou uma criança a errar um detalhe histórico ou demonstrar desconhecimento sobre os conceitos em causa. Gemem felizes com a ignorância dos mais novos e vangloriam-se da sua consciência democrática e histórica.

É uma hipocrisia. Se os mais jovens não sabem mais é porque nós temos vergonha de falar do 25 de Abril. Guardamos um dia do ano para o assunto. Cantamos umas músicas e vendemos aquela flor. Mas não falamos de política.

Para uns o 25 de Abril é uma cena de comunistas. Ainda estão sob efeito da era Mccarthy. Para os políticos é mais um dia de discursos e oportunidade para uma aparição televisiva. Para os sindicalistas um dia de manifestações e mais uma aparição televisiva. Para a maior parte é mais um feriado e folclore.

No fundo é como o Natal. A discussão é exatamente a mesma e não vou estar para aqui a enumerar as mais do que óbvias semelhanças nos discursos sobre a natureza, significado e importância de ambas as coisas.

Isto para dizer que para mim o 25 de Abril é todos os dias (como se diz do Natal). Para dizer que a liberdade é um ar que se respira. Ás vezes aparece degradada e cheira mal, está poluída. Por isso é necessária uma proteção da liberdade e da democracia tal como se protege o meio ambiente, ou os animais. É necessário que grupos de pessoas discutam opções políticas democráticas, práticas de liberdade. E devemos olhar para isso com satisfação e não com enfado. Com interesse e não com indiferença.

Nas escolas é necessário ensinar a liberdade e com liberdade. A escola não é neutra portanto é importante que não finja uma neutralidade que não existe. Que assuma o seu papel democrático.

Temos de aceitar que mais importante do que saber coisas sobre este dia é saber como exercer a liberdade, pensar em liberdade. É mais importante saber se os nossos jovens se sentem livres e percebem a importância da democracia. Se se sentem parte do sistema democrático e defendidos dentro do sistema democrático.

A escola existe para fazer entender mas também para criar o desejo de entender, o desejo de crescer. A escola não serve para prescrever pilhas de memórias e de conteúdos.

A liberdade não se entende por um conjunto de factos históricos. Entende-se por uma prática e um exercício em conjunto. Do querer aprender e do viver essa aprendizagem.

Só pela educação se realiza o 25 de Abril. Abdicar dos valores da escola para todos é abdicar da ideia de que nascemos iguais.

 

sexta-feira, abril 19, 2013

O caso do "Excel" avariado

Tenho andado a seguir esta notícia em sites internacionais. É um caso curioso. Em 2010 Carmen Reinhart e Ken Rogoff publicaram um artigo "Growth in a time of debt". Nesse artigo, após uma extensa análise de cerca de 200 anos de dados económicos, afirmam categoricamente que o crescimento económico de um país diminuía sempre que a dívida era mais de 90% do Produto Interno Bruto (PIB).

Este artigo foi um tiro de partida para as medidas de austeridade que a Europa adoptou com tanta dedicação.

Vem-se a ver agora que os dados analisados no artigo, ou seja a folha de "Excel" usada para fazer as contas continha erros. Seria no mínimo cómico caso não tivesse consequências trágicas para milhões de trabalhadores europeus.

Vamos então ver isto por partes:

1- O conteúdo do artigo não foi inteiramente revisto por pares, como a academia exige, nem os dados citados como fonte foram publicados para serem revistos aquando da sua publicação. Só agora foi possível rever os dados. Esta crítica é generalizada. É este o grau de exigência dos economistas europeus a este nível...

2- Pessoalmente acho estranho que, com "ferramentas tão potentes" de análise de dados, se tenha recorrido ao Excel para tão importante empreitada.

3- A notícia do Público não explora a questão como deveria. Os investigadores Thomas Herndon, Michael Ash, e Robert Pollin da Universidade de Massachusetts, ao reverem os dados descobriram que Reinhart e Rogoff cometeram 3 tipos de falhas: exclusão de dados arbitrária, ponderação de dados incorreta e erros de fórmulas de calculo.

Por exemplo: No estudo, 19 anos de dívida acima dos 90% do PIB no Reino Unido com um crescimento médio de 2,6% vale tanto como um ano de dívida acima do mesmo valor na Nova Zelândia com uma retração de 7,6% da economia. Este exemplo é paradigmático.

4- Uma outra análise dos mesmos dados pode levar a concluir o contrário daquilo que afirmam os autores. Que uma retração económica pode levar a um aumento da dívida em percentagem do PIB e não o contrário. Isto é fácil de perceber, não é preciso nenhum "excel". Quando são tomadas medidas de austeridade que retiram dinheiro das carteiras das pessoas por via de quebra de salários e aumento de impostos, e simultaneamente o Estado reduz o seu investimento na economia, o dinheiro a circular diminui porque sai para o exterior em juros de dívida inflacionados, diminui a produtividade porque a procura não existe e a economia retrai-se e o PIB cai. Como os juros são insustentáveis e o pagamento da dívida é suportado por nova dívida, as medidas de austeridade vão provocar um aumento da dívida em percentagem do PIB. É o que está a acontecer em Portugal.

Por isso estamos em espiral recessiva. Acreditar em milagres ou conversas como "com sacrifício vamos ultrapassar as dificuldades" é uma treta. Só se resolve a crise com medidas políticas e económicas europeias concretas e inteligentes. A larga escala.

Os nossos sacrifícios não estão a servir para nada excepto um programa de emagrecimento dos serviços do Estado que vai deixar os mais desfavorecidos entregues a si mesmo e garantir uma prática de transferência do dinheiro dos impostos para a iniciativa privada empresarial, sobretudo o sector financeiro da economia. Teremos um páis economicamente rico mas com um povo pobre.

Quem vier dizer que é o contrário está a enganar-nos. Foi o que aconteceu na América de Bush e é o que querem que aconteça aqui.

O facto de Vítor Gaspar citar o "estudo" de Reinhart e Rogoff não é de estranhar. Os políticos liberias no poder "tratam-nos como shamans, não economistas" e vão continuar a acreditar nas suas conclusões ainda que sejam provadas erradas. Nada disto é ciêntifico e fingir que é tem consequências desastrosas.

Gaspar não é um bom técnico, é só um mau político. É preciso perder o pudor de pôr em causa estes deuses de pés de barro da ciência exacta que de exacta não tem nada.

 

quinta-feira, abril 11, 2013

Investir nas pessoas ou no dinheiro?

Do meu ponto de vista todo o dinheiro gasto, pelo Estado, em salários ou pensões tem um efeito positivo para a economia. Na verdade a classe média gasta o seu dinheiro em Portugal e o que poupa guarda-o em bancos dentro de portas. Estes trabalhadores/consumidores põem a economia e a procura interna a funcionar e permitem o crescimento.

É o principal investimento do estado na economia, é o investimento nas pessoas, deveria ser o princípio destes liberais, não o oposto. O bem estar dos cidadãos promove os índices de confiança. Uma nação optimista pode investir e avançar. Uma nação deprimida e castigada dificilmente investe no que quer que seja. São promovidos sentimentos de insegurança, desconfiança e de revolta social.

Emprestar dinheiro aos bancos para sanear as suas contas, agregar compras em contratos gigantes para empresas gigantes, concessionar serviços públicos para gerar receitas a grandes empresas (as que ganham as concessões) à base de serviços piores com salários mais baixos, aceitar as chantagens de agiotas como são o FMI ou o BCE com empréstimos com garantias ruinosas, contratar escritórios de advogados para fazer o trabalho dos deputados e dos acessores (pagos a peso de ouro), baixar os salários aos cidadãos de modo a que não gastem mais do que o absolutamente essencial (pelos vistos uma prática moral purificadora dos valores) e outras aventuras são práticas habituais do estado capitalista e conservador contemporâneo.

Assiste-se hoje a uma dependência total e absoluta do grande capital em relação aos estados para o seu financiamento e para a manutenção de negócios e contratos altamente rentáveis. Esta dependência faz-se igualmente no modo como o tráfico de influências garante um fluxo constante de legislação que desregula o comportamento incorrecto e vai garantindo ferramentas de resgate e saneamento económico quando tudo corre mal.

Passamos de ter pessoas dependentes do estado para ter bancos e corporações dependentes totalmente dos estados. Não é, com certeza, apenas o Estado Português mas é também o Estado Europeu na figura do seu banco central e da comissão europeia.

Por isso, hoje, o trabalho do Estado tem sido financiar uma economia sem pessoas (ou com muito poucas pessoas) com o dinheiro que retira às pessoas e aos organismos que garantem qualidade de vida às pessoas, como são as escolas, os hospitais ou organismos e instituições produtores e promotores de cultura.

Não aceito discursos catastrofistas que apresentem Portugal como um país sem viabilidade económica. Não aceito os discursos que dizem que para haver país temos de ser pobres e muito menos os aceito vindo daqueles que não sofrem com a crise. Ouvimos todos os dias banqueiros e grandes empresários a dizer que devemos fazer sacrifícios mas eles próprios vêem os seus lucros a aumentar com as contradições da crise. Para eles, a desgraça alheia, mais não é do que uma oportunidade de negócio. E eles próprios, como cidadãos, não fazem um único sacrifício.

A verdade é que estamos ao serviço de interesses mais altos do que nós. Interesses que põem a vida das pessoas em segundo lugar.

A única solução passa pela demissão deste governo e por eleições. Passa pela discussão alargada das soluções possíveis para a gestão desta crise. Sim, porque não há saída para a crise, pelo menos enquanto os nossos parceiros europeus acharem que a Europa se faz com os interesses só de alguns.

Deixarmo-nos levar por discursos económicos falsamente pragmáticos é abandonar a ideia de que as soluções são necessariamente políticas, como sempre foram na história, e que passam por opções estratégicas que abram oportunidades de crescimento aos mais fracos. Essa é a margem de crescimento da Europa.

quinta-feira, abril 04, 2013

A demissão de Miguel Relvas.

"Ministro Miguel Relvas pede demissão"
no site do jornal Público.

Miguel Relvas demite-se. Até que enfim! O ar está mais limpo...
Passos Coelho ainda teve menos coragem do que o próprio Relvas e esperou que este saísse nas suas próprias condições, "por vontade própria", "sem condições anímicas" mas estranhamente "como entrou". Já tinha combinado a saída e ainda assim falou de coesão do governo. É só um exemplo da falta de coerência do que habitualmente diz.
Nuno Crato, que deveria seguir o mesmo caminho, guardou o resultado da investigação até que este decidisse sair e recusou-nos ver feita a justiça feita a um ministro. Ficamos a saber que um Ministro que falha ou que mente se mantém no cargo o tempo que quer e que inclusive a justiça do Ministério da Educação espera que se demita para cumprir o seu dever. Viva a dignidade do Governo!
Relvas gaba-se do trabalho feito pela RTP e pelas autarquias que extinguiu. Também se gaba do programa "impulso jovem" com "mais de dez mil candidatos a estágios" ou por exemplo "na igualdade de género". Pois, foi o que eu pensei...
Ou seja, está a pedir-nos a equivalência a Ministro sem ter feito realmente o curso, sem ter cumprido o seu trabalho.
Uma mão cheia de nada, muitas más ideias, algumas mal intencionadas, outras inúteis, e a indignidade do cargo são as únicas coisas que Relvas nos deixou em dois anos.
Relvas deveria agora ir fazer os exames do secundário e tentar o acesso ao ensino superior público, antes que ponham em causa o seu 12º ano. Era de homem sentar-se ao lado dos que verdadeiramente se esforçam e estudam para o seu futuro.
Vamos voltar a ouvir falar de Relvas mas para mim, honestamente, é um político sem interesse mas com interesses, sem ideais mas cheio de ideias, alguém que deveria desaparecer da esfera pública para sempre.

domingo, março 03, 2013

Carta aberta a Rudolfo Rebelo.

Esta carta vem no contexto desta notícia publicada no jornal Público de 1 de Março de 2013.

Meu querido Ruddy,*

Tendo lido uma carta que tu de modo tão socialmente hábil publicaste no teu mural do facebook venho por este meio enviar-te esta missiva. Espero que compreendas.

Já percebi que és um adepto da epistolografia e que conheces bem a política e os políticos. Usas de muita familiaridade para com todos, pelos vistos. Para além disso imitas muito bem Christine Lagarde, menos o seu penteado prateado, como é visível na fotografia, mas hás-de lá chegar. Também dominas as redes sociais e tens, até ao momento, 28 amigos que gostam da carta que enviaste a António José Seguro. Adivinha quantos amigos vão gostar desta minha carta?

Estás convencido que os problemas de Portugal estão resolvidos. Pagamos tudo a tempo, os juros desceram, está tudo no bom caminho. A crise está a caminho do fim. Bem... ou não lês jornais, para os quais trabalhaste, nem artigos de economia sobre a situação da Europa ou andas a tomar qualquer coisa porque não podias estar mais iludido.

A verdade é que o teu patrono e patrocinador está a destruir o país. Com a ajuda de liberaizinhos de pacote como tu que se armam que percebem muito do assunto e pervertem os verdadeiros resultados desta política.

Ora nem Passos, que sempre foi mau aluno na escola, nem tu, percebem realmente o que está a acontecer. Porque acreditam numa cartilha que divide a sociedade em dois. Os privilegiados chicos espertos dum lado e o povo burro do outro. Porque acreditam que é pela pobreza do povo que se alcança a riqueza da nação. Porque acreditam que uma economia dominada pelo grande capital e sem regras se auto-regula e que o trabalho barato e o Estado mínimo é meio caminho andado para o lucro. Nada mais parvo!

Portugal empobrece a cada minuto. A cada minuto mais portugueses prescindem de uma refeição que não conseguem pagar e tu gozas. Ris-te e tratas o líder da oposição por Tozé numa carta a zombar das suas pretensões e a armar em especialista. Com o teu chefinho Relvas já é outra coisa. O fulano é aquilo que sabemos mas não se pode tocar no senhor. Já é feio gozar com Relvas. Ou, como diz o teu outro amigo Mendes Bota, é crime.

Tu não foste eleito Rudolfo. És um contratado para fazer sabe-se lá o quê com dinheiro nosso. Tem respeito! Não estás em posição de ensinar nada a ninguém. Aliás nem que estivesses terias essa competência. Não chegas lá e a presunção de que o teu paizinho político vai resolver a crise é a prova disso mesmo.

És um lacaio de um partido. Um boy. Um pretenso jornalista que na realidade nunca foi imparcial. E andas nestas lides para ganhar dinheiro. Ganhas dinheiro com a crise Rudolfo. E gozas com os portugueses.

Imagino o gozo que te deve dar observar o modo como os teus patrocinadores destroem o país, o tecido empresarial, a educação, a cultura, a saúde publica.

Por causa de tipos como tu Portugal deixou de existir e tu gozas! E és pago por nós! E gozas com a situação.

Um qualquer amiguito teu poderia brincar com António José Seguro. Não é que ele também não mereça. Mas tu Rudolfo, és pago pelo Estado para aconselhar o Primeiro Ministro. Deverias ser um fulano com mais nível. Mais qualidade.

Afinal quanto te pagam mesmo? E o que é que fazes pelo país mesmo que ainda não percebi? Dás conselhos? Tu?

Quantos colegas teus de escola se estarão a rir agora?

Envio-te esta carta aberta em meu nome. Não estou a fingir que seja outro. Mas se preferires posso dizer que isto também é humor. Só tenho um bocadinho de melhor gosto do que tu.

Se vires este texto no facebook vê bem quantos "likes" tenho e compara e repara bem para que lado pende a balança.

* entenda-se como diminutivo de "rude" em inglês e que significa mal-educado.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

A responsabilidade social e o seu significado

Hoje, por acaso, na procura do significado de uma palavra, fui dar a um site de uma empresa de consultoria financeira e gestão e aconselhamento de investimentos. Os tempos recentes deixaram-me curioso em relação a estas empresas. À sua organização, estrutura e princípios.

Ponho-me a pensar se, há 4 ou 5 anos atrás, aconselharam ou não a comprar dívida grega ou produtos tóxicos do BPN ou outras coisas igualmente desagradáveis. Ponho-me a pensar na complexidade da tomada de decisões e na responsabilidade envolvida no aconselhamento. Tenho algum respeito pelos desafios que este trabalho implica e tenho bem a noção dos perigos e das perversões que pode implicar.

No site desta empresa em particular descubro uma área intitulada "Responsabilidade Social". Vou ler.

Fiquei de boca aberta. Então não é que os senhores doutores, mestres do investimento, do pouco e do muito risco, se preocupam com questões de responsabilidade social. Gostei.

Mas há um problema. Não estão a falar de responsabilidade nas suas funções como consultores e investidores mas sim de caridade. Afinal a empresa entrega uma parte do seu lucro, pequena suponho mas pouca diferença faz, para instituições de apoio social. Isto porque, dizem eles que os sistemas de segurança social se revelam cada vez mais incapazes de responder às necessidades da sociedade. Nada de mal aparentemente.

O problema reside exactamente no que está ausente. Um compromisso de responsabilidade social nos próprios investimentos que aconselham. Ou seja... podemos aconselhar o investimento em fundos que financiam guerras ou o trabalho escravo. Podemos aconselhar comprar dívida má contraída em situações de desespero planeado. Podemos investir em industrias poluentes ou em grupos económicos sustentados por ditaduras. Desde que pareça limpo e prometa resultados não perguntamos de onde vem nem para onde vai o dinheiro. Mas damos algum para caridade.

Enfim, investimos na criação de pobreza mas no fim pagamos a sua sopa a uns pobres.

Falta lá dizer que a empresa investe na sustentabilidade, no respeito pelo ser humano e pelo meio ambiente e que faz um rastreio ético dos seus investimentos. Isto é que é responsabilidade social. Mas ninguém quer saber disto pois não?

Como professor a minha responsabilidade social é mais do que ser bom professor mas é sobretudo ser um bom professor. Isso significa ensinar as matérias mas também orientar para a educação de valores éticos. Isso significa ter um comportamento profissional socialmente responsável. Não me chega ser um professor qualquer e depois dar uns euros por mês para a Unicef.

É por estas e por outras, por não existir uma deontologia do investidor e do mercado financeiro, que podemos estar certos que a crise não terminará. Tornar-se-á eterna. Vamos habituar-nos à condição de cidadãos menores. Os sem capital. A força trabalhadora. E vamos aceitar a caridade destes e de outros que ganham dinheiro sem querer saber se investiram na nossa desgraça. O que os levará para o céu é que nos pagaram a sopa e por isso estaremos eternamente gratos.

Não sei se esta empresa investe bem ou mal. Devemos sempre presumir que cumprem a lei e acredito que sejam bons rapazes (só homens nos órgãos sociais). O que interessa aqui é a questão teórica e de comunicação que revela uma forma particular de ver as coisas, de definir um conceito de responsabilidade. Só isso.

 

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Os Donos de Portugal.

Donos de Portugal from Donos de Portugal on Vimeo.

Já tem 9 meses e já passou na RTP2 este documentário de Jorge Costa. Passou tarde. Para estarmos todos a dormir. Como se não fosse costume andarmos todos a dormir...
Ficamos a perceber Portugal e porque é que seremos sempre um povo pobre, miserável. Porque somos canibais, desprovidos de auto-estima e respeito próprio. Porque somos submissos e aguardamos, nesse estado conformado e acrítico, uma oportunidade para explorar e lixar os nossos parceiros de miséria. E por isso fechamos os olhos a evidências como as que são contadas neste interessante filme.

O caso do doutoramento da ministra alemã da educação.

"Doutoramento retirado a Ministra da Educação Alemã" in Público de 6 de fevereiro de 2013.

O caso do doutoramento copiado da ministra da educação alemã tem muito que se lhe diga. Temos, em Portugal, o irritante hábito de comparar nestas notícias o que aconteceu lá fora com o que acontece cá dentro. Por isso peço antecipadas desculpas.

Antes de mais, neste caso como noutros, resta dizer que as trincheiras políticas, lá como cá, estão repletas de chicos espertos com pouca ou nenhuma ética. Não há como confiar nos políticos que nos governam e quando falamos de ministros alemães também estamos a falar de políticos que nos governam. O sistema está doente porque atrai os piores e os qualifica. A meritocracia partidária favorece o descaramento e a falta de escrúpulos em desfavor da inteligência, da ética e do mérito cientifico ou profissional. Podemos facilmente perceber isso sobretudo durante o mandato de um pretenso governo tecnocrata que cada vez mais percebemos como ideologicamente comprometido. Sem mérito e sem ideias reais de como realmente governar o país, o nosso governo vai governando os seus interesses e as fortunas.

Do ponto de vista do caso estritamente académico quero dizer pouco. Apenas que, em defesa da senhora, a originalidade é cada vez mais rara e a universidade incentiva a cópia porque, muitas vezes, se encontra incapaz de avaliar o que é realmente novo. Ou se encontra o bosão de Higgs ou então temos de balançar entre o que foi já dito e o que queremos dizer. Mais difícil ainda quando se trata das Ciências Sociais ou das Artes. Neste caso, antes de demitir a senhora do governo, convinha ver que doutores alemães se deixaram levar e perceber se eles também não estarão um pouco aquém. A internet, de todas as opiniões, está hoje a ganhar dez a zero ao elitismo universitário na diversidade, na liberdade e também na correção científica. A cultura fechada de muitas instituições fará delas edifícios do saber obsoletos e esquecidos.

Para acabar, e porque não podia deixar de ser, a natural comparação com o caso Relvas. A demissão da ministra parece inevitável. Já um outro ministro alemão levou a mesma sentença pelo mesmo motivo. O governo português, por seu lado, insiste em deixar um senhor com uma licenciatura que desafia as regras mais elementares numa posição de destaque. Dá-lhe, inclusive, a autoridade para retalhar e vender o bem público e não o põe em causa. Ética lusitana.

Somos vítimas diárias de presidentes de banco mal educados e outros que mentem nos impostos e são amnistiados com discursos cheios de cagança. Falam alto e mandam, gozam e insultam. Ética lusitana.

A sociedade portuguesa, vista pelo governo de Passos, não é nem será nunca meritocrática apesar das teorias sombra de Nuno Crato. A sociedade portuguesa é feudal. Por isso a questão de um doutoramento forjado nunca seria aqui levantada contra um senhor ministro. Contra um elemento da corte nunca! No caso de o ser, seria considerada uma questão menor pelo primeiro ministro e ignorada. Ética lusitana.

Cabe-nos construir um sistema educativo que trabalhe para a resolução destes problemas pela educação de todos. Para que o exercício do poder possa ser mais ético e os eleitores estejam em condições de emitir um juízo lógico e participar também nas decisões políticas. A resolução da credibilidade dos políticos resolve-se pela educação. Só uma sociedade educada pode produzir e eleger os melhores representantes governativos. Aquilo a que temos assistido, em termos de cortes e políticas educativas, vai no sentido oposto. No sentido de criar uma sociedade em que uns têm tudo, a riqueza e o poder de decisão e governação, e outros têm apenas o dever de cumprir as necessidades dos primeiros.

 

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

As tolices de Fernando Ulrich

A propósito de mais um conjunto de declarações infelizes de um presidente de um Banco provindo de uma família de Banqueiros... alemães!?

Publicado no meu facebook.

"Já comecei três vezes um texto sobre Fernando Ulrich. Na verdade não há palavras. Tolice minha. O que podemos dizer sobre este homem? Que tem zero de respeito pelos portugueses? Que tem zero de respeito pelas pessoas que não tiveram, como ele teve, a papinha toda feita a vida inteira? Que não tem respeito por aqueles a quem o Estado não empresta barato milhões de euros para salvar das asneiras que fez nos negócios?
Faço uma pergunta a Fernando Ulrich: Aguentas dar uma volta a pé aqui pela baixa do Porto num dia a combinar? 
Não aguentas, acredita. A gente também já não te aguenta."

domingo, janeiro 27, 2013

Sobre o caso da laqueação de trompas e a proteção das crianças.

Republicação da minha página no Facebook.


  • Serei sempre contra uma visão utilitarista da justiça, da educação ou mesmo da intervenção da Segurança Social. Não cabe, em situação alguma, ao Estado ou a qualquer outra instituição o direito de limitar uma mulher na procriação. Por muito que pareça lógico ou economicamente favorável um Estado não pode impor uma cirurgia deste tipo a uma mulher. É este consenso sobre a violência que o Estado vai cometendo sobre aqueles que devia proteger que nos deixa indefesos perante estes momentos de lei marcial económica. Confundimos a estreita moral utilitária economicista com valores éticos absolutos. Um juiz que deixa passar uma situação destas deveria renunciar e dedicar-se a outra coisa qualquer. Não serve a lei, a justiça ou os cidadãos. Valha-nos que ainda vão aparecendo vozes esclarecidas como nos é contado nesta notícia do Público.
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  • Laurinda Branco Desta vez não foste muito longe Fundo. Há aqui mais do que uma questão de utilização da justiça para o que parecer necessário em determinada ocasião. Há um profundo equívoco sobre o papel da justiça e as funções do estado. Em primeiro lugar TODAS AS MULHERES TÊM DIREITO A SER MÃES, tantas vezes quanto quiserem e os juízes nada poderão dizer acerca deste assunto. Em segundo lugar, quando uma mãe não tem condições para educar convenientemente os seus filhos, a SEGURANÇA SOCIAL deverá intervir no seio da família e em conjunto com ela. O grande problema deste país é que se confunde justiça e lei com valores religiosos, ideológicos e pouco sobre direitos humanos e de cidadania. Nunca poderão ser um conjunto de velhos e caquécticos juízes, cujas funções físicas já se encontram bastante debilitadas, a julgar e decidir comportamentos.
  • Jose Antonio Fundo Acho mesmo que é o utilitarismo. A falta de respeito pelo direito de decidir das mulheres é um problema antigo e grave mas os juízes de hoje já não são indivíduos velhos, caquécticos. São homens e mulheres no auge das suas competências e ainda assim demonstram, vezes demais, uma completa e absoluta ignorância acerca dos princípios éticos que devem nortear a sua função. Deveriam ser capazes de ver o problema pelo que ele representa. A questão é que hoje já ninguém quer saber dos direitos das mulheres ou das minorias étnicas, muitos juízes, políticos, opinion makers. Esses problemas foram esmagados pelo discurso economicista e quem manda rejeita a sua discussão de modo categórico. Com base num falso e podre consenso que não existe. Os princípios éticos mais básicos, do respeito pelo ser humano, deixaram de interessar e por esse motivo assistimos impávidos e serenos à maior regressão de valores da história. O português dedica mais energia a defender um cão do que alguém que foi chantageado a submeter-se a uma mutilação em nome da redução da despesa. A moral católica de bolso - sim, porque há outra - é um problema, mas o maior problema é termos decidido parar de pensar nas coisas.
    27 January at 18:16 via mobile · Like · 1



quarta-feira, janeiro 02, 2013

O discurso de ano novo do nosso PdR. (republicação do facebook)

O nosso querido Professor de Economia acabou agora de falar. Deu uma aula interessante sobre uma teoria impossível.

As contas de que fala têm séculos de existência e só funcionam hoje naquelas cabecinhas quadradas, recitadas como um credo religioso, pontuadas com umas pitadas de elogio fúnebre a um povo moribundo. Sabemos ser pobres bem! Olha que bom!

O senhor não explica, embora fale disso, porque é que a receita aplicada piorou a tal percentagem da dívida de que falou. Piorou a situação que era suposto resolver! Isso não será um sinal? Não, nós somos todos burros.

A minha conclusão? Está preocupado em respeitar acordos, não em resolver problemas. Os tais acordos que em 2010 e 2011 não previram a crise da zona euro. Realizados por gente muito competente vê-se bem. A tal crise já existia e só piorou com os tais maravilhosos acordos e programas. Os que temos de cumprir a qualquer custo.

Ficamos a saber que o nosso PdR tem amigos que acreditam em Portugal. Amigos estrangeiros. Uau! E também que alguns desses precisam de empréstimos para investir. Sugiro o BANIF, acabou de garantir 1100 milhões de euros que não existiam para a educação ou para a saúde e que os tais senhores dos acordos nem se importam que a gente gaste... já se fosse em escolas ou salários seria um escândalo. Não há pachorra senhor Presidente. Para si e para a geração de políticos e economistas que representa em Portugal.

Desejo-lhe um ano tão bom quanto o será para um dos nossos milhares de desempregados. Obrigado por tudo.

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Carta aos meus alunos.

Aos meus alunos,

Hoje decidiram protestar nas ruas. Não apoiei a decisão apesar de defender a sua justiça. Creio que o momento certo ainda está para vir. É o meu lado estratega a pôr-se à frente do impetuoso.
Devo, no entanto, salientar a justiça do protesto. As medidas resultantes da aplicação da legislação mais recente no ensino artístico trazem graves injustiças no vosso acesso ao ensino superior.
Em causa estão os exames de Português e Filosofia a aplicar já este ano mesmo ao 12º ano e a não utilização das classificações da P.A.A. e da F.C.T. no cálculo da média de acesso ao ensino superior.
A direção fez propostas para a sua alteração e para uma aplicação gradual dos exames e espera que, pelo menos em parte, estas propostas sejam atendidas pelo M.E.C. Acreditamos verdadeiramente que a justiça das nossas pretensões, que são as vossas, vai prevalecer. Não porque sejamos fortes ou berremos mais alto mas porque temos razão.
Somos uma escola de artistas, artistas cultos que sabem Português e Filosofia, mas artistas ainda assim e é desse modo que os alunos devem ser avaliados.
Somos a escola dos que querem aprender mais e mais cedo, não a escola dos que fogem ao trabalho. É isso que vamos provar àqueles que querem fazer de nós uma escola das Ciências e das Humanidades com umas aulitas de Desenho para enganar. Não há cursos de música sem instrumentos e nós temos o Projeto e as nossas oficinas. Sabemos que não basta pensar nas coisas é preciso fazê-las e devemos rejeitar este modelo em que vos querem dar cada vez menos aulas para terem tempo para estudar para os exames.
A escola existe para ensinar, para dar aulas, para dar espaços de trabalho aos seus alunos, não para os mandar para casa estudar. Não para os ordenar pela sua capacidade de responder a perguntas escritas num determinado tempo.
A vossa Soares dos Reis é a casa onde vocês trabalham tanto como outro qualquer trabalhador numa empresa (o mesmo número de horas por semana). Aprendem e fazem dentro da escola, não lá fora em explicações ou a estudar em casa. É assim que deve funcionar.
Vamos defender o nosso modelo juntos contra os que vos acham incapazes de transformar o mundo.
Como vosso professor proponho que sejamos, em protesto, os melhores do mundo. Que este ano as Provas de Aptidão Artística sejam as mais espectaculares. As notas de Português, História, Desenho ou Filosofia sejam as mais altas. Contra tudo e contra todos porque ninguém pára um artista com uma causa.
Proponho usarmos o artista chinês Ai Weiwei como inspiração contra esta visão preguiçosa do mundo que nos querem impor. A liberdade de um artista nunca termina e é nos momentos difíceis que o seu trabalho se levanta ainda mais relevante e genial. Para nós este é o momento de sermos geniais.

José António Fundo
Professor de Imagem e Som
Escola Artística de Soares dos Reis.

Ai Weiwei fez este vídeo para fazer rir o povo chinês enquanto lutam contra aquilo que o governo lhes tira e o vídeo foi bloqueado pelas autoridades.

Notícia da Agência Lusa (via Jornal Público) neste link.



segunda-feira, dezembro 03, 2012

Por uma internet livre.

Um Documentário sobre o movimento para uma rede livre, uma internet livre, no contexto do "Occupy Wall Street". O controlo exercido, pelo poder, sobre todos os nossos movimentos e a (im)possibilidade de criarmos uma estrutura realmente livre de comunicação. É impressionante como o medo da existência de um pensamento livre e da livre circulação de informação levou a polícia de Nova Iorque, devidamente instruída para o efeito, protegeu a propriedade privada destruindo a propriedade colectiva. 
A luta por uma sociedade livre, contra o poder esmagador do capital de Wall Street, a luta em defesa de uma internet livre, está hoje perdida. É importante, apesar de tudo, que aqueles que participam no processo de destruição da liberdade e do espírito humano saibam que nós sabemos quem eles são e o hoje não é o amanhã. É importante que o 1% que domina não durma descansado. Nem uma noite.



Via MotherBoard (lê o artigo de Brian Anderson que deu a origem a este post). 

A Free Network Foundation.

quarta-feira, novembro 14, 2012

Serei sempre contra o projeto meritoCratico.

Novas regras de exames penalizam alunos do ensino artístico
Público 13.11.2012 - 18:31 Por Clara Viana
 

As escolas públicas, inundadas em burocracia, obrigadas a funcionar como empresas públicas sem poderem contratar pessoal competente para os seus serviços administrativos, obrigadas a cumprir o código da contratação pública sem um único economista ou advogado no quadro - são as únicas empresas públicas em que isto acontece - terão daqui para a frente menos recursos financeiros. O que equivale a menos recursos educativos.

Enquanto o Ministério estrangula as escolas públicas, vai criando dificuldades aos seus alunos no acesso ao ensino superior:

  1. Exames relativos a três anos de ensino - Onde já se viu? Nenhum adulto admitiria fazer isto, preparar dois ou três exames para a mesma semana com dois ou mais anos de matéria dada para cada um. Não é facilitismo nenhum rejeitar esta proposta, é só sensato. Esta regra beneficia os do costume, os que fazem os exames em ambiente controlado com recursos ilimitados e sem pressão nas notas.
  2. Acabar com o contributo da Educação Física para a média do ensino secundário - Uma área em que a oferta de muitos colégios privados de excelência é muito carênciada. Em breve nem obrigatória será. Quem quer saber do desporto e da educação desportiva? Crato não é de certeza.
  3. Criação de exames como barreira nos sistemas alternativos aos enfadonhos ciêntifico-humanísticos - Os exames nos cursos profissionais serão inclusive a disciplinas que os alunos nunca frequentaram. Gostaria de saber qual a reação das elites se os meninos dos colégios fossem assim surpreendidos de um momento para o outro? É inaceitável esta medida.
  4. Acabar com o ensino vocacional de qualidade e concentrar a avaliação dos alunos em disciplinas clássicas e genéricas favorecendo mais uma vez os colégios privados com poucas condições para um ensino diversificado. É mais barato ensinar para exames de Português, Filosofia ou Matemática do que ter oficinas equipadas e projetos educativos dinâmicos e diversificados.
O problema com os exames que agora plantaram em frente aos alunos é que para além do facto de aparecerem a meio do processo, ou quase no fim dele, e de surpresa, criaram um problema complexo.

Agora o aluno tem de decidir no final do 11º ano se quer prosseguir estudos? Não pode decidir mais tarde, no fim do 12º ano? Não é livre de o fazer sem ter necessariamente de fazer um exame a uma disciplina que já terminou no 11º ano? É que há mais cadeiras para se fazer exame. Escolher a Filosofia e o Português é apenas avaliar alunos de artes com um peso descomunal da área das letras desvirtuando qualquer avaliação do seu percurso. E passa a haver duas médias. Uma de conclusão e outra para prosseguimento de estudos. O que significa que vão surgir alunos com o 12° ano feito sem direito a prosseguir estudos no ensino superior em Portugal. Mas lá fora já podem. Que inteligente!

Presumo que as Belas Artes e as Faculdades de Arquitetura e de Design ou Audiovisual não foram consultadas sobre a qualidade dos alunos do artístico especializado ou sequer sobre as competências do aluno que para lá concorre. E agora o trabalho dos alunos na sua área vocacional como é a Prova de Aptidão Artística ou a Formação em Contexto de Trabalho não conta? E conta um exame de Filosofia?

Quem é que se lembra de medidas como estas?

A resposta é só uma. Um ministro com uma agenda. Favorecer o ensino privado em primeiro lugar, enterrar o ensino público, depois de o condenar aos maus resultados e ao abandono (talvez para o vender mais tarde), e criar em Portugal um sistema de ensino que garante a reprodução social. Os filhos dos ricos vão para a faculdade, os dos pobres vão para aquela coisa importada da Alemanha, aprender a ser operários das Auto-Europas do futuro estado feudal português. Nuno Crato é muito pior do que Vitor Gaspar. O problema de Crato é que as escolas são bem mais duras do que os contribuintes e esta luta não termina nunca. Havemos de ter um ensino público de qualidade e um sistema de ensino justo para todos. Apesar de Crato, apesar do Ministério da Educação a escola pública artística vai prevalecer.

Outra nota:

Há quem me diga que mais vale estar calado. Que serei prejudicado por escrever o que penso. Haverá quem se vai aproveitar da minha vontade de escrever para prejudicar a Soares dos Reis e marcar pontos para a meritoCratia. Tenho recebido ataques mas permaneço convicto do que escrevo. Não gosto desta política. Não gosto. Não vou fingir que gosto. A minha função como subdiretor da Soares dos Reis obriga-me a ter uma opinião sobre a organização administrativa e pedagógica da escola, do ensino artístico. Podia ficar calado, à espera da palmadinha nas costas dos senhores com poder ou influência, ou então defender os meus alunos, os meus colegas, a minha escola. Decidi-me pela segunda.

 

segunda-feira, novembro 12, 2012

Pétain Passos, o agente de liquidação.

Gostei hoje de saber que, para Passos Coelho, comentar o falhanço óbvio da sua política económica é doentio e a unanimidade da análise ainda o confirma.Extraordinário! Veio uma senhora alemã que gosta dos portugueses para mão de obra barata e pouco mais, justificar a asneira de um governo desorientado sem rumo e que defende tanto a economia lusa como o governo de Vichy defendeu os franceses. O nosso Pétain Coelho envergonha-nos na sua lamentável e caricata promoção de uma nação em estado de liquidação. Isso sim é doentio.

Só faltou dizer que fazemos mais a metade do preço porque por cá vamos deixar de comer bifes e voltar ao tradicional batatas com batatas transmontano do tempo do estado novo.

Claro que quando estivermos mesmo no chão abre-se outra fábrica de automóveis com trabalho mais barato. É sempre um bom negócio. Repare-se que em inúmeras reportagens se fala da qualidade dos trabalhadores portugueses, esses mesmos a quem se paga cada vez menos e se acusa de pouca produtividade e que viveram muito acima das possibilidades durante este tempo todo (Jonet et al, 2012). Os alemães gabam a formação dos engenheiros e enfermeiros, esses mesmos que vêm do péssimo ensino português e das Universidades Públicas que gastam demais.

Até o raio do sol serviu para um triste espectáculo de subserviência. Ver o provinciano Presidente a dizer, num inglês tosco, que nunca viu tantos fotógrafos é tão triste que nem há palavras.

No fim foi bom saber que ainda há dinheiro para todo o aparato policial e que, num país onde até os feriados vão acabar, podemos encerrar ruas e parar o comércio numa das mais importantes zonas turísticas de Lisboa. Afinal nem tudo é mau.

 

domingo, novembro 11, 2012

Mais virão...

Isabel Jonet lamenta polémica mas mantém posição sobre pobreza no país

11.11.2012 - 08:26 Por PÚBLICO

Isabel Jonet insiste... E vai falar à Radio Renascença. Que surpresa. Jonet cava ainda mais o buraco em que se meteu. Mas gosta de lá estar porque é moda agora. É moda aqueles a quem nada falta apregoarem a soberba da nação.

Comportamo-nos todos como ricos! É inaceitável. O povo é suposto ser pobre, comer mal, usar roupa oferecida e em segunda mão. Sem pobres o que seria da Igreja e do seu único contributo social?

O discurso do "acima das nossas possibilidades" põe a dormir sossegados aqueles inocentes - leia-se de inteligência abaixo da média - que querem acreditar que foi a meritocracia divina que os colocou no caminho da prosperidade. Que eles a merecem. Que todos os outros merecem realmente ser pobres e ser castigados por desejarem comer melhor, vestir melhor e tirar mais partido da vida. Assim é a natureza da nossa sociedade uns ricos e outros pobres.

Jonet nem percebe o que disse de errado. Muita gente não percebe o porquê de tanta polémica. A nossa pobreza, a do país, é justa do seu ponto de vista. Pelo menos para aqueles que não a sentem, que nunca a virão a sentir, a pobreza dos outros será sempre justa. O lugar de Jonet na sociedade portuguesa é a olhar de cima, a julgar, e a dar uma mãozinha aos coitadinhos. Uma santa!

Se esta crise alguma vez teve um lado positivo foi o de nos revelar a verdadeira natureza de algumas personagens. Estão a aparecer e a dizer as tolices que lhes saem pela cabeça tonta. Mais virão...

 

sábado, novembro 10, 2012

O Fetiche dos Coitadinhos

Cai a mascara a Isabel Jonet. Economista, mãe de cinco filhos, dedica-se ao voluntariado. Nunca lhe faltou nada calculo. Católica, bem comportada. Trás a caridade ao peito com orgulho. Virá um dia dizer que nada ganha com o que faz sem perceber que isso insulta ainda mais aqueles que todos os dias saem de casa para trabalhar porque não se podem dar ao luxo de passar a vida a voluntariar-se. Imagino que, tal como o cardeal patriarca, sonhe com um país de pobrezinhos. Para ela poder reinar e ir para o céu.


Rejubila com a austeridade e a notoriedade que lhe caberá no futuro. Será a salvadora, distribuidora do arroz e da massa e dos feijões que eu e tu, parvos, pagamos e entregamos generosamente àqueles miúdos à saída do supermercado. Eu a pensar que estava a tirar a fome a alguém e percebo que, pelo caminho, estou a encher o ego de uma Jonet. Um dia uma Jonet, outro dia um Ulrich, enfim...

Nada de salários justos, porque os portugueses que vivem acima das suas possibilidades, têm, já faz tempo, os mais baixos salários da Europa.

Nada de emprego e muito menos de apoios contra a pobreza. Rendimentos Sociais de Inserção ou Subsídios de Desemprego, em Portugal mais baixos do que na generalidade dos países europeus, vão contra os princípios de Jonet porque lhe tiram a clientela.

Este fetiche do coitadinho não é de hoje. Fica bem ao rico ter o seu pobrezinho de estimação. (ler a crónica de António Lobo Antunes "Os pobrezinhos" para perceber, basta procurar no Google)

Esta teoria da caridadesinha cristã redentora dos mais ricos e poderosos é muito popular na América. Políticas para acabar com a pobreza é fugir delas. Reunir camiões de comida enlatada ou distribuir sopa em panelões com as unhas arranjadas por baixo das luvas de plástico isso sim, é de santo.

Não tenho duvidas de que muita gente foi alimentada pelo Banco Alimentar mas imaginaria o seu dirigente máximo a defender políticas de apoio social, de luta contra a pobreza. Pelo contrário, a senhora defende a generalização da pobreza.

Isabel, diz-me tu, o que deste de jantar hoje aos teus filhos?

 

quinta-feira, novembro 01, 2012

No jogo do aguenta, aguenta sempre o mesmo! (republicada do facebook)

A propósito das declarações de Fernando Ulrich acerca da austeridade sobre as quais pode ler esta notícia do Público.

Fernando Ulrich: “O país aguenta mais austeridade?... Ai aguenta, aguenta”

Fernando Ulrich, nascido de família de banqueiros, com origem alemã - vá-se lá perceber o raio da coincidência - não sabe o que é austeridade. Nasceu em berço de ouro e foi sempre rico. Apesar disto nem o seu curso acabou e percebe-se agora porquê (ler páginas da wikipédia a seu respeito tanto em português como em inglês). Ninguém o ouviu tão arrogante quando o banco que dirige recorreu a ajuda do estado neste termos: «O plano de recapitalização inclui a subscrição pelo Estado, em 29 de Junho de 2012, de instrumentos de dívida elegíveis para fundos próprios core tier one (obrigações de conversão contingente), no montante de 1,5 mil milhões de euros, que será reduzido para 1,3 mil milhões de euros logo após a realização do aumento de capital» (retirado do site agenciafinanceira.iol.pt com data de 6 de abril de 2012). A sua incompetência e dos seus parceiros noutras instituições financeiras trouxe-nos até aqui. A um ponto em que para ele continuar a ser rico os nossos impostos têm de pagar os juros e os empréstimos que o estado português tem de contrair para manter os cofres do seu banco cheios. Todos juntos, austeridade incluída, contribuímos para o facto de o BPI apresentar de Janeiro a Setembro de 2012 um lucro líquido consolidado de 117.1 M.€ (subida de 15.3% relativamente aos 101.5 M.€ registados no período homólogo de 2011). Mas não lhe chega. Ele ainda quer mais. É de uma falta de respeito e ignorância que não pode passar em branco. Não há quem aguente estes Ulrichs, Borges e associados e a sua completa e absoluta falta de respeito pelo povo português.

Fala-se agora da refundação do Estado. Cheira-me a golpe de estado. Em boa verdade o Presidente da Republica assim que ouvisse alguém dizer que o FMI está em Portugal a negociar com o Governo a refundação do Estado deveria mandar chamar o Primeiro Ministro e ameaça-lo de eleições antecipadas. Ninguém votou a refundação do Estado, muito menos feita para beneficiar os interesses do FMI e da Europa rica.

sábado, outubro 27, 2012

Um Autarca verdadeiramente generoso.

As coisas que se dizem podem ter várias leituras. Uma das leituras possíveis, pelo menos, vai revelar as ideias que estão realmente por trás do que se diz ou escreve. Corremos todos esse risco, de revelar quem realmente somos. Eu corro esse risco revelando, talvez até demais, aquilo que penso de determinados políticos e/ou as suas políticas. Tantas vezes fui avisado para ficar calado. Não tenho vergonha do que penso ou vou dizendo. Não acho que Rui Rio tenha vergonha e, pelos vistos, também não tem muito cuidado. Mas não deixo de o ouvir e sentir que há coisas ali que estão ocultas. Provavelmente até para ele.

Escreve um texto a criticar a política social do governo, a sua falta de apoio a programas de solidariedade, mas não resiste a dizer o que pensa do Rendimento Social de Inserção. Prémio, para ele, imerecido para os que "não querem trabalhar e acham que os outros os devem sustentar". Foi um pouco bruto para quem usufrui deste apoio e precisa dele. Com certeza não gostaria de estar num aperto, precisar da ajuda do estado, e chamarem-lhe automaticamente preguiçoso e oportunista. Equivaleria talvez a pensar... Autarca igual a corrupto ou vigarista... exemplos a provar esta última teoria não faltam. Rui Rio, caso lhe chamassem estes dois últimos adjectivos, correria para um advogado a pedir a devolução da dignidade. Mas não se coíbe de fazer juízos sobre os outros. Dirá que são só alguns e eu direi que é responsabilidade dos políticos desenhar sistemas justos e que não permitam a burla. Nem todos os cidadãos são honestos é verdade, mas as generalizações não deveriam agradar aos políticos porque eles não se saem nada bem na fotografia.

Outro aspecto interessante é Rui Rio achar positivo pôr esta gente, que tão pouco recebe, a trabalhar na Câmara Municipal do Porto. O R.S.I. é uma prestação de apoio, não é, até pelo seu valor, um vencimento. Ainda que o valor seja aumentado para prestar o trabalho que estão a prestar estes trabalhadores merecem o mesmo tratamento que os outros, um contrato, uma avaliação, até uma carreira, mas não... porque o R.S.I. é antes demais um castigo da sociedade aos poucos produtivos e portanto se assim é tem de se pôr esta gente a trabalhar. No fim, ironia das ironias, diz-nos que são óptimos trabalhadores e pessoas honestas. A minha sugestão é esta: ofereça-lhes trabalho, igual aos outros, até porque precisa deles caso contrário não os tinha colocado nas tarefas. O trabalho dos beneficiários do R.S.I. representa uma poupança ilegítima no valor do trabalho e é o principio de um novo modelo de escravatura. Alguém é despedido e vai cumprir funções iguais em empresa parecida mas a receber um "subsídio" abaixo do seu vencimento original e ainda deve agradecer.

A nossa sociedade, a portuguesa, a europeia, a ocidental, está podre e a vergonha não existe, nem nas palavras escritas de um editorial, esse sim, imerecido e que desconsidera o trabalho e o cidadão com dificuldades. O governo é mau, Rui Rio, mas é o teu governo, dos teus amigos e parceiros políticos, com as tuas ideias e preconceitos. Poupa-nos à tua filosofia moralista. Obrigado.