artes plásticas... cinema... poesia... política... sei lá! ... basicamente as ideias todas a monte... o que passa pela cabeça e que escapa pelos dedos...
Isaac Hayes foi um enorme músico da funk e da soul americana. Dono de uma voz incrível Hayes foi produtor, compositor, cantor e actor durante a sua carreira. Trabalhou durante os anos 60 na editora Stax Records como compositor e produtor.
Em 1972 Hayes venceu o Oscar para a melhor música com o tema do filme "Shaft", o primeiro para um afro-americano sem ser como actor, assim como dois Grammy Awards.
Em 1997 aceitou a medo ser a voz de "Chef", uma personagem da famosa série de animação "South Park" do Comedy Central. Acabou por ser um sucesso e trouxe-o de novo para a ribalta. Até 2006 deleitou os fans da série com a sua fantástica voz.
Agora que nos despedimos de Isaac Hayes deixo aqui um pequeno vídeo que editei para nos lembrar-mos dele. Uma actuação em 20 de Dezembro de 2005 no Late Night with Conan O'Brien em que dirigiu a banda e cantou o tema "Shaft" de 1971, com a participação especial de muitos membros dos Max Weinberg 7...
Leslie Hall é uma artista americana que não tem qualquer pudor em utilizar os aspectos mais populares e/ou banais da nossa cultura ocidental a seu favor e executa-o de uma forma genial. Este museu das camisolas decoradas é um pequena preciosidade.
Leslie começou por ficar celebre quando rompeu com os padrões e concorreu para rainha do baile no seu secundário, a famosa Prom Queen, e ganhou. Tem três albums de música editados e não se sai nada mal na pintura. A internet é, no entanto, o meio no qual tem feito mais sucesso.
Força Leslie!
as fotos acima foram retiradas de uma sessão feita para o site viceland e são da fotógrafa Laura Waal.
Muitos dirão que eu tenho demasiado tempo livre para descobrir estas coisas... Não é verdade. O que eu tenho é o vício de procurar estas coisas.
O lado negro, o mais escondido, da violência doméstica. O abuso de homens. Homens indefesos, presos, tal como tantas mulheres, a relações doentes e carregadas de violência. Homens agredidos física e psicologicamente todos os dias. Homens violados. Homens com vontade de permanecer indefinidamente no seu cubículo lá na empresa.
É preciso ter coragem para falar, para quebrar o ciclo vicioso.
Alguns sinais preocupantes:
A tua companheira quer saber SEMPRE onde tu estás? A tua companheira acusa-te frequentemente de a traíres? (nota bem que se de facto a estás a enganar provavelmente mereces algumas das coisas que ele te faz) A tua companheira desencoraja-te de teres relações sociais com amigos e família? A tua companheira força-te a teres relações sexuais com ela?
Se respondeste que sim a, pelo menos, três destas perguntas, então deves procurar ajuda. Reparem que não coloquei a pergunta "A tua companheira costuma dar-te porrada frequentemente?". Achei que nesses casos um gajo já percebeu que qualquer coisa deve andar mal.
Provavelmente é mais barato, mas não necessariamente mais fácil, arranjar outra mulher ou então desistir delas para sempre e abraçar, com todo o entusiasmo e nenhuma vergonha, o fantástico mundo da pornografia descarregada da internet. De qualquer das formas dar porrada de volta ou rebater com o mesmo tipo de atitudes só vai prolongar o sofrimento de ambos.
A América, origem de todos os males e de todas as curas, chega a ter mais de 400 000 casos, por ano, de objectos arremessados a cabeças masculinas por mulheres e é estatisticamente mais provável um homem abusado ser esfaqueado do que uma mulher. Por outro lado a violência feminina contra os homens é por vezes escondida por vergonha ou ignorada porque muitas delas não têm realmente força suficiente para magoar um tipo. Um homem só se apercebe quando está a levar com a torradeira na mona.
Já há algum tempo que não escrevo no blog e tenho pendente um post sobre o filme "I'm Not There" de Todd Haynes, mas a morte de Robert Rauschenberg aos 82 anos e o filme "Goodnight Irene" de Paolo Marinou-Blanco fizeram-me pensar um pouco sobre a dificuldade que é envelhecer e sobre a forma como, de um modo ou de outro, eu me coloco sempre como o mais velho - algo cada vez mais frequente - ou então o mais novo. Estes extremos definem as duas posturas fundamentais da minha existência perante os outros, quer pela minha profissão, quer pelo meu feitio de eterno adolescente. Definem porque, por qualquer motivo, eu vou deixando que definam e as posturas paternalistas alternam com as rebeldes e inconformadas constantemente. No filme "Goodnight Irene" o personagem Alex diz não ter aprendido nada à medida que foi envelhecendo. Ele sabe que não é verdade mas ao mesmo tempo não consegue perceber que processo é esse que não o deixa agir em conformidade com o que aprendeu. Entendo perfeitamente o que ele diz. A idade adulta é sorrateira na forma como, num ápice, nos invade o rosto, planta alguma solidão e nostalgia mas deixa sinais interessantes de auto-segurança e de firmeza. O filme de Paolo Marinou-Blanco é interessante. Tem diálogos muito inteligentes e um projecto bem definido. A resolução da história não me parece tão bem resolvida como o seu miolo e a utilização da voz off acaba por solucionar problemas narrativos mas sem a convicção necessária. A morte, essa etapa final para todas as histórias, ainda não me assusta mas assusta-me a ideia de uma retirada demorada porque tal como Alex o diz "Toda a gente respeita quem está a morrer mas ninguém tem muita paciência para os que demoram demasiado tempo". Este é um filme sobre a amizade e a solidão, sobre a forma como uma não pode nunca existir sem se conhecer a outra.
O vídeoclip de "Salute your Solution" foi realizado por Autumn de Wilde e consiste em mais de 2500 fotografias editadas de modo a parecerem uma actuação da banda em vídeo.
Mais uma vez fui ao cinema. Mais uma vez três filmes. Há quem diga que não aguenta, que é demais. Ás vezes esqueço-me de como é bom estar no cinema, como me sinto seguro. Esqueço-me e volto para me lembrar. Não se deixem enganar pela minha gulodice cinéfila, vou montes de vezes... nunca são as suficientes.
Comecei com o "Halloween" do Rob Zombie. Remake do clássico de John Carpenter de 1978. É muito caótico o Rob Zombie a realizar. Tão caótico que fica mal. Preconceituoso quanto baste, para um americano, não resistiu a transformar Michael Meyers num filho de uma família completamente disfuncional. Mãe stripper, irmã promiscua (ou não, sei lá, tem um namorado) e um padrasto preguiçoso e violento que por qualquer motivo está entrevado. Esperava que o Zombie fosse um bocadinho menos moralista. Um assassino como Michael Meyers não tem de ser resultado de uma família com problemas. A piada da história vem do facto de não haver motivos para Meyers ser a semente do mal. Esse é o princípio da história de terror. Vem sem motivo e por isso é imparável. Rob Zombie, do alto do trono de estupidez que é a cultura moralista americana, fez um filme onde, sem querer, faz dos pobres a semente do mal. A realização é tão desorganizada que irrita. Sem identidade cinematográfica. Se Rob Zombie tem um imaginário com uma certa piada, para quem gosta do género de terror, não faz a mínima ideia de como se constrói um filme com identidade, com uma voz do princípio ao fim. Não havia necessidade de estragar mais um clássico do cinema de terror.
O segundo filme foi "Falsificadores" ou "Die Fälscher", no original de Stefan Ruzowitzky. Ao contrário de Zombie, Ruzowitzky sabe fazer cinema e conta muito bem a história de Salomon "Sally" Sorowitsch. Rei dos falsificadores, este judeu russo é apanhado pelos nazis e participa, enquanto preso num campo de concentração, na operação Bernhard. Uma operação destinada a falsificar libras, dollars e outros documentos dos Aliados para ajudar ao esforço de guerra alemão. O filme faz-nos viver a angustia dos prisioneiros que não sabem se devem fazer o seu melhor para salvar a vida ou boicotar os seus inimigos atrasando a produção de dinheiro falso. Sally o personagem principal é muito forte e conforta o espectador com a certeza de que resolverá o problema. O filme começa com Sally cheio de dinheiro depois da guerra. O caminho para a salvação não é fácil e a ambiguidade moral atravessa todo o filme. Não há soluções fáceis e as personagens deste filme foram colocadas com a mão certeira de quem retoca uma chapa de gravura para falsificar uma nota de dollar. Quando achava que já não tinha pachorra para mais filmes sobre a Segunda Guerra eis que me aparece mais um a provar que eu afinal não percebo nada do assunto.
O terceiro filme foi escolhido muito a medo. "August Rush" de Kristen Sheridan é um drama clássico à volta de um puto com dotes musicais para além do imaginável. É ridícula a forma como o miúdo vai aprendendo os instrumentos à velocidade da luz. A trama tem alguma piada mas cai com demasiada facilidade no clássico encontro/desencontro até ao minuto final. Soma-se a isto a velha história do percurso do menino prodígio e temos um filme igual a tantos outros. Todos sabíamos o que ia acontecer no minuto final... foi só esperar. Se não gostasse tanto de ouvir guitarras tinha odiado o filme. Com um bocadinho de sorte, ou azar, como preferirem, este filme far-nos-á companhia numa tarde de sábado qualquer na sua TVI. Salva-se realmente a música que venceu o Oscar com a interpretação fantástica de Jamia Simone Nash, de 11 anos. A performance de Jamia na cerimónia de entrega dos Oscars valeu bem mais do que todo o filme.
Há muito mais a dizer sobre estes filmes mas agora não me apetece...
pensas tu que sabes... se sabes alguma coisa. penso eu que sei... que não sei nada. vivo eu, se é que vivo, a ilusão de ser, a ilusão de ter, a ilusão de querer.
nada me pertence, tudo é alugado. um dia, que esteja claro, abdicamos do trono, oferecido ou trocado. troca demasiado cara, ou oferta envenenada.
um dia deixei de ser eu e troquei-me pela minha imagem no espelho. descobri, mais tarde, que me tinha esquecido da origem da imagem, desse reflexo.
Mais um ano, mais um Fantas... Para mim este já é o vigésimo!
20 anos de Fantasporto é muita coisa, são muitos filmes, muitas noitadas, muita cerveja, mas principalmente muitos amigos. A maior recompensa que o Fantasporto me deu forma os amigos que fiz durante estes 20 anos. Não me posso esquecer que se não fosse o Fantas dificilmente seria hoje professor de audiovisuais na Soares dos Reis. Aprendi no Fantas a ver Cinema, a falar sobre cinema, a respirar cinema. Conheci o Shynia Tsukamoto, o Dario Argento, o Guillermo del Toro, o Doug Bradley, sei lá... tanta gente... O meu amigo de sempre, o António Pascoalinho, conheço-o há exactamente 20 anos. O Filipe Lopes, O Ricardo Clara, O Ivan, o Fred, nunca mais acaba a lista de amigos. Sempre o Carlão que me levou pela primeira vez em 1988 e que entretanto já não aparece porque a vida lhe exige outros hábitos. Os alunos e alunas da Soares que se juntaram a este grupo de amigos, que até já serviu de notícia de jornal, engrossaram a lista em anos mais recentes. Os namoros que se fizeram. São muitas as coisas boas que o Fantas me deu e deu-me muitos, muitos filmes. "A Chinese Ghost Story" de Siu-Tung Ching foi o vencedor em 88. Chineses voadores em lutas de artes marciais fantásticas a antever a maluqueira que se seguiu no consumo de manga e anime. Vi o Reservoir Dogs, o Se7en, o Braindead, Dead Ringers, Tetsuo, Ichi the Killer, o Cubo, a lista nunca mais acaba. Isto tudo filmes em primeiríssima mão, com direito a acesas e intermináveis discussões no saudoso Carlos Alberto ou no mais recente Rivoli. Dificilmente conseguirei aqui sintetizar 20 anos de Fantasporto, tantas são as histórias. Fazem-se novas todos os anos e as amizades, não é possível eu traduzir a importância das amizades que fiz no Festival.
Este ano mais filmes e mais histórias! Mais um Takashi Miike, o novo Dario Argento - Mother of Tears, Park Chan-wook com I'm A Cyborg and that's OK e Kim Ki Duk com Breath. Para além disto vimos já na abertura o espectacular No Country for Old Men dos irmãos Coen, merecido vencedor do Oscar para o melhor filme. Opium: Diary of a Madwoman do húngaro János Szász é um filme que promete, já premiado em vários festivais. Muita expectativa para [REC] de Jaume Balagueró um filme de zombies que, tal como Cloverfield, Radacted e outros, recorre a um estilo tipo documentário ficcionado ou found footage como estratégia narrativa. Há muita curiosidade por ver Interview de Steve Buscemi com a lindíssima Sienna Miller a contrastar com a cara feia do costume de Buscemi. Mais um filme sobre notícias e jornalistas. Há espaço para uma curta de 3 minutos de Lars Von Trier chamada Occupations e o mais recente Bill Plympton, Shut-Eye Hotel. You, the Living, um filme de Roy Anderson foi o vencedor do Festival de Chicago, mereceu uma longa ovação em Cannes e promete surpreender o público do Fantasporto. The Tattooist e One Missed Call na versão americana (nunca na vida alguém ultrapassa o original de Takashi Miike) são mais dois filmes de terror que completam o cartaz e prometem criar ódios de estimação ou talvez não, quem sabe? O festival encerra com The Mist de Frank Darabont, um verdadeiro filme de terror baseado na história de Steven King. A não perder!
Este é o Fantas 2008. Uma colecção muito interessante de filmes para envergonhar La Féria que se imagina dono do nosso Teatro Municipal e nos enche de musicais foleiros como se isso fosse a única cultura desejada para o país. É fundamental manter o Fantasporto forte. É o nosso Festival de Cinema, um dos melhores do mundo e, pelo menos por uma semana no ano, é a minha casa.
É suposto esta ser uma data importante. Pelo menos para mim. Há uma todos os anos... não sei o que fazer com ela. Fui ao cinema, como é costume. Vi o Michael Clayton e o Juno. São ambos bons filmes. Ás vezes há tão pouco a dizer sobre os filmes... ou então sou eu. Ontem vi o There Will Be Blood do Paul Thomas Anderson. Outro bom filme, mas que me desiludiu... muito. Porque é que o Paul tentou agora fazer o seu Citizen Kane? Pronto, percebemos a piada... sempre que mete petróleo dá merda! É isso que o título quer dizer, acho. Há um pastor baptista que é espancado... duas vezes... e isso é bom. Há um Daniel Day-Lewis perfeito. Será? Um personagem tem de ter contradições, vários vectores... este pareceu-me plano demais para o Paul. Sem surpresas. Não há nada no filme que me surpreenda. Antes de o ver já sabia tudo o que se ia passar... e basta saber que é sobre a ascensão (mas não necessariamente a queda) de um garimpeiro de ouro negro. Um homem que não gosta de homens, nem de mulheres, enfim... não gosta de ninguém. E pronto, qual é a relevância? Fica rico na mesma, ou melhor, claro que fica rico... é mais fácil quando se não gosta de pessoas. A música do nosso Jonny Greenwood dos Radiohead é o que mais marca o filme e o que suporta a tensão que este consegue criar. Há gente que não sabe fazer mal as coisas. Será que o filme é sobre os dias de hoje? Sobre as vidas de americanos e o sangue que rola por causa da questão do petróleo. P. T. Anderson filma este ouro negro sem glamour de qualquer tipo. Para todos os efeitos o petróleo suja tudo à sua volta, até o coração de um homem. O filme mostra sempre um negócio tão vil e desumano como escuro e sujo. Acho que por esta altura o Paul pensa daquela matéria negra e viscosa o mesmo que a maioria do humanos deste planeta. Só dá ganancia, morte e fome! Mesmo assim achei que faltava qualquer coisa... para um filme tão longo (esta mania de fazer filmes com mais de duas horas já me começa a irritar e a cheirar a pretensiosismo).
Michael Clayton é o filme que o António Pedro gostava de ter feito e só não fez porque é mais difícil do que dizer uma banalidade qualquer sobre o Benfica. Grandes empresas, corrupção, advogados, mercedes caros e fato e gravata como quem usa pijamas do snoopy. A história conta-se aqui em linguagem cinematográfica. Imagens daqui e dali. Grandes falas, não em tamanho mas em significado. O melhor início de um filme nos tempos mais recentes. George Clooney a fazer dele mesmo, com umas olheiras que me fazem crescer a auto-estima. Afinal o homem é humano. O filme tem surpresas - o que falta no There will be blood - e funciona como um todo. Boa história e muito bem filmada.
Juno não é suposto ser uma comédia romântica. Se eu tivesse leitores neste blog tinha já afastado uma boa quantidade de gente do filme. Ellen Page fenomenal. A dupla de Arrested Development, Michael Cera e Jason Bateman deu-me a sensação de ver um filme com velhos amigos. Excelentes diálogos, cheios de pequeninos detalhes deliciosos provavelmente desperdiçados naqueles que procuram a comédia romântica que lhes vai prolongar o namoro por mais umas horas. O filme mente e mente e mente. A gravidez de uma menina de 16 anos não é assim tão fácil, fica bem em filme e pronto. Mas acabei por sair com um sorriso. Por vezes é bom ver uma boa mentira... afinal o cinema não é isso?
22 de Fevereiro é só mais um dia... sinto falta do meu fantasporto.
Hase ou Coelho, como preferirem, é uma instalação do grupo gelitin que consiste num enorme coelho de peluche (6500 x 2500 x 600 cm) 'pousado' na montanha de Colleto Fava a 1600 metros de altitude nos Alpes Italianos, perto da cidade de Artesina, Piemonte. Levou 5 anos a tricotar este coelho, inaugurado a 18 de Setembro de 2005, que deverá manter-se neste local durante 20 anos.
É suposto subirmos e habitarmos por momentos este coelho gigante que parece caído dos céus. Explorar as suas entranhas espalhadas, provavelmente resultado da queda. Curiosos e gulosos como os vermes que comem uma carcaça de um animal atropelado numa estrada, vamos consumindo esta obra que mais não faz do que lembrar-nos da nossa condição última de parasitas.
O documentário Zeitgeist, produzido por Peter Joseph, deixou-me triste e zangado, mas não surpreendido. Este filme sobre a grande teoria da conspiração mesmo quando visto com um olhar de desconfiança deixa alguns bichinhos incómodos na nossa consciência. Apesar das duas horas de duração a narração alimenta a nossa curiosidade de tal modo que vemos o filme sem esforço.
O filme é distribuido pela net de forma gratuita e vendido em dvd sem margens de lucro. Não aceites o que vem no filme como a verdade. Pesquisa e procura porque a verdade não se ouve... descobre-se e percebe-se.
Aconselho o visionamento e a consulta do site oficial para contextualizar e compreender melhor o filme. Partilhei-o pelo google também na versão com legendas em português (que eu confesso que não vi).
Sim, porque é de um caminho que se trata e é esse caminho que é saboroso, que nos fica no paladar dos olhos. Conheço o Zé Miguel há muitos anos, desde as assembleias gerais de alunos nas belas artes, desde as visitas às casas de máquinas no centro comercial STOP onde construimos uma intimidade para além das tintas e das politicas. Ainda hoje somos confidentes apesar da distância que as estradas, mandadas construir por velhos inimigos, tentam encurtar.
O que me impressiona mais, o que sempre me impressionou, foi esse sentido de caminho, de processo continuado. O Gervásio é um pintor que trabalha muito, que se zanga, que lê tudo e que se zanga novamente, mas também se apaixona e zanga-se outra vez, sempre cuidadoso, atencioso, muito educado e no entanto, quem não o conhece entende-o como um gozão cruel incorrigível, quase ofensivo, que brinca com a cegueira de quem abre os olhos demais para não ver nada à frente.
A pintura do Gervásio anda ultimamente a fugir das palavras, sempre às voltas com as cores, que ele tão bem conhece, mas é também uma forma de escrita e re-escrita. Uma escrita secreta feita de códigos indecifráveis mas legíveis em que o palimpsesto parece sempre a chave para tudo mas que engana. Como se o que está por baixo da superfície fosse fundamental para a leitura e a cada camada revelada mais dúvidas surgissem. O Zé agora senta-se mais e os seus desenhos de viagem começam a aparecer na sua pintura. Por cima desses mapas de uma vida, dessas paisagens, lá está uma coisa dele, uma provocação, um outro desenho e assim se vai construindo uma imagem. Sobre papel, porque os papeis parecem mais gulosos e pedem sempre mais desenhos e as coisas vão-se fazendo e nunca se resolvem e depois porque sobre o papel imprime-se e o Gervásio é um impressor. As imagens, os desenhos que se repetem na impressão, podem ficar sempre diferentes e podemos sempre ver as coisas por outro lado, porque hoje toda a gente quer ver a mesma coisa pelo mesmo lado e o Zé Miguel gosta de tirar o tapete de baixo das pessoas todas empilhadas do mesmo lado a tentar ver as mesmas coisas. Há quem pense que falta lá o discurso político. Porque não sabem, não entendem, que o discurso se pode fazer com outras linguagens e que aquelas que mais falam são as que se afastam das palavras mais fáceis ou das palavras todas e que o sangue anda por debaixo da pele e corre furiosamente e poucas vezes o vemos até que alguém nos abre uma ferida.
A exposição está patente na Plumba, na Rua Adolfo Casais Monteiro, junto a Miguel Bombarda, até ao dia 15 de Dezembro.
O concerto que nunca pensei vir a assistir... os Sex Pistols. Fantasia da adolescência concretizada plenamente já em idade adulta.
Johnny Lydon voltou a ser Johnny Rotten para estes concertos na Brixton. A banda tocou o seu repertório do album "Never Mind the Bollocks, here's the Sex Pistols" de forma muito profissional mas, obviamente, sem a energia que as barriguinhas crescidas e a idade já não permitem.
Punks pais, punks filhos, outros menos punks, foram 5000 a assistir a um concerto em que Lydon foi igual a si próprio nos comentários polémicos entre as músicas. A tónica foi só uma "Nós somos Ingleses, vocês são Ingleses". Bocas para Tony Blair, para o treinador inglês Steve MacClaren - a lembrar o tristemente célebre Malcom MacClaren, primeiro manager da banda - tudo numa tónica nacionalista revolucionária sem se confundir com o nacionalismo de extrema direita.
Foi um concerto espectacular, numa sala cheia de rebeldes que, ao contrário dos Portugueses, aceitam bem o conceito de Não Fumar em espaços públicos fechados. Quem diria que se pode assistir a um concerto Punk Rock numa sala isenta de fumo... pois é... é possível e a malta divertiu-se à mesma!
A frase que me ficou na cabeça foi a última de Johnny Lydon "After all these years you still don't like us!". Já bem entradito na idade Lydon continua mimado e à espera de ser adorado pelo público mesmo depois de já ser uma lenda viva. Crise de meia idade que a gente desculpa vindo de quem vem.
Fica aqui um cheirinho feito com o telemovel... documento da minha presença mais do que qualquer outra coisa.
Quando se pensava que a comédia de ficção portuguesa era toda muito má - ver os exemplos dos canais nacionais e os seus falhanços sucessivos - eis que surge uma boa ideia!
"Um Mundo Catita", série de seis episódios co-produzida pela Pato Profissional e Indivídeo. Escrita e realizada por Filipe Melo e João Leitão.
Claro que teve de vir de fora das televisões e é bem verdade que pode muito bem nunca chegar às casas dos portugueses (o diabo seja cego, surdo e mudo!) - ainda não está vendida a nenhum canal - mas é uma lufada de ar fresco. O Filipe Melo convidou-me para ser beta tester da série e vi, acompanhado por outros amigos, os seis episódios de seguida. Está neste momento ainda em fase de pós-produção mas já se adivinha um produto diferente. Na onda de "My name is Earl" (referência minha e não dos autores), episódios curtos e cheios de momentos divertidos com Manuel João Vieira (Ena Pá 2000 e Irmãos Catita) ao melhor nível. Os episódios estão repletos de referências cinematográficas que vão agradar muito a uma audiência de jovens adultos e informados que até agora dependem da produção americana ou britânica para se rirem um pouco em frente a uma televisão. Alternativa nacional credível para séries como a já referida "My Name is Earl" ou "Curb Your Enthusiasm" ou a comédia britânica de domingo à noite no canal 2 -"The Office", "Extras", "Little Britain" ou "The League of Gentlemen" - espero sinceramente que este projecto tenha algum sucesso porque o merece. Seis episódios da vida atribulada de um personagem torturado pela nacionalidade portuguesa e todos os inconvenientes que lhe estão associados... muitas invejas e má língua, amores impossíveis, picos altos e baixos de auto-estima e muito álcool, assim como todas as características felizes deste pobre mas desenrascado povo afro-latino-europeu! Enfim, Manuel João Vieira um português a Catita que deveria ser o nosso Presidente... "Um Mundo Catita" é uma produção independente que prova que as boas ideias não vêm das empresas mas sim das cabeças dos bons autores!