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quinta-feira, janeiro 08, 2015

Je Suis Charlie

 

Passei a minha vida toda a desenhar bonecos. Nunca o fiz profissionalmente porque a vida me conduziu noutros sentidos mas sempre percebi o poder dos bonecos desenhados. Tenho uma profunda admiração por todos aqueles que fazem do cartoon e desenho satírico a sua vida. Sobretudo aqueles, como os franceses do Charlie Hebdo, que fazem do desenho um campo de batalha pela liberdade de expressão, pela liberdade do humor.

A profissão de jornalista anda arrastada pelo chão por estes pragmáticos do lucro que promovem o trabalho escravo, sem condições, sem estabilidade e sem segurança. Por algum motivo é tão fácil raptar ou matar um jornalista. Os terroristas e mesmo as polícias e os governos de países civilizados têm zero de respeito por estes profissionais. Sobretudo o poder político que os manipula para proveito próprio. Não há liberdade verdadeiramente.

Os artistas também, por outro lado, são desacreditados e espalmados pela lógica do gosto único, surpreendentemente um princípio do marketing neoliberal. Ou alinham em lógicas parvas de mercado ou desaparecem. De modo algum devem provocar o "establishment". No Portugal democrático foram censurados músicos e artistas plásticos que usaram os símbolos da nação. Censura aclamada por elites conservadoras que hoje choram lágrimas de crocodilo. Ai de quem brinque com a fé dominante e com os seus líderes. Quando um cartonista brincou com um Papa foi um escândalo, quando era suposto ser apenas uma brincadeira crítica e inteligente. Os nossos censores não pegam em armas porque são uns piegas medrosos. Não se aguentam à porrada. Matam de outras maneiras.

Não podemos abdicar da nossa liberdade de desenhar o que quer que seja, de dizer o que quer que seja. Os cartonistas do Charlie Hebdo eram uns brincalhões, nunca fizeram mal a ninguém e ajudaram muitos a ver as coisas de outro modo, por outro lado, e dessa forma ajudaram o mundo a compreender-se um pouco melhor.

Estou com eles. Não vou ter medo de desenhar. Recuso-me a ter medo de desenhar porque, entre outras coisas, houve quem tivesse morrido a defender esse direito.

Obrigado Charlie Hebdo. Obrigado Wolinski, Charb, Tignous e Cabu. Vocês e todos os que defendem a liberdade de expressão são os únicos profetas.

No meu pinboard "Illustration" no Pinterest partilhei alguns desenhos destes artistas.

 

domingo, outubro 05, 2014

O Traquinas da Educação e da Ciência.

O traquinas do ministro da educação conseguiu mesmo partir a jarra. Um dos bens mais valiosos da nossa democracia. A Escola Pública está partida, espalhada pelo chão. A sua missão comprometida, a sua honra colocada em causa.
Crato nunca demonstrou grande respeito pela Escola Pública. Para ele a educação é um privilégio reservado aos melhores. Por melhores entenda-se os que podem pagar para fazer parte do grupo dos melhores. Para Crato a escola pública não é importante. Porque os melhores arranjam sempre maneira de pagar uma escola ao seu gosto e o Estado escusa de gastar tanto dinheiro numa escola de qualidade para o povo. Ao povo bastam cursos virados para o trabalho. Criar operários baratos. Mas as crianças precisam sobretudo de educação. Precisam de saber ler o mundo, não só as letras.
Nuno Crato não gosta realmente do Ministério que ministra. Não acredita na sua missão. Sobretudo não tem respeito pelos alunos e pelos professores da Escola Pública. Trata-os como seres menores. Abaixo de si.
Nuno Crato foi tão displicente e desleixado na preparação do início do ano letivo que não o chegou a preparar de facto. Tal como foi displicente e desleixado em todo o seu mandato. Desde a primeira medida.
Estragou uma oportunidade que qualquer ministro da educação gostaria de ter - a obrigação legal de vincular milhares de professores contratados. Não soube como fazê-lo. Porque quis dar lições de moral enquanto o fazia e estragou tudo. Quis vincular professores enquanto tentava fazer o país acreditar que não precisava deles e nunca soube como os colocar ou selecionar.
Nuno Crato não soube utilizar a capacidade das escolas de escolherem os professores que queriam. Destruiu a confiança pública numa política de autonomia das escolas. Criou regras matematicamente inaplicáveis e não foi competente a lidar com os problemas que ele próprio criou. Sobretudo não foi verdadeiro, sincero ou transparente. Não foi sequer esforçado.
No dia mundial dos professores há muitos jovens competentes em Portugal que não podem trabalhar com os alunos porque o Ministério está mal organizado e não sabe gerir os seus recursos humanos. A incompetência de Nuno Crato está na base de todos os problemas. O seu desconhecimento do sistema e o seu desprezo pelo sistema condicionaram tudo. Estamos em Outubro e o ano letivo ainda não arrancou como devia.
Ao ministro não chega pedir desculpas, é preciso ter capacidade de trabalho e competência. Nuno Crato é hoje a negação da Escola Pública em pessoa e no entanto continua como ministro.
Resta-nos saber se os danos foram inadvertidos ou provocados deliberadamente. Apesar de tudo tenho uma opinião sobre isso...
 

sexta-feira, maio 23, 2014

Porque estão os professores desmotivados?


"Quase dois terços dos professores admitem que a motivação para estar na escola diminuiu nos últimos anos"
PÚBLICO, Samuel Silva, 23 de maio

Desconhecendo a amostra deste estudo em detalhe diria que me parece, à primeira vista, demasiado pequena. Gostaria, apesar de tudo, de realçar o conceito de "massacre sistemático" da comunicação social que contribui, junto com o discurso do poder político, para enfraquecer os professores e desvalorizar o trabalho da escola.
No entanto não podemos deixar de constatar que muitos professores contribuem para o discurso negativo centrando-se, por exemplo, na questão da indisciplina como factor desestabilizador da profissão quando, na verdade, faz parte das competências profissionais de um docente identificar, estudar e procurar soluções de um modo colaborativo para questões como essa. O trabalho de um professor é sempre com os alunos que tem à frente e não com outros que o sonho imagina melhores ou mais sossegados.
É urgente que os professores se afirmem como profissionais com saberes únicos e específicos capazes de lidar com os desafios (sejam eles quais forem) que as gerações atuais e futuras de alunos lhes colocam. Devemos adaptarmo-nos à realidade dos alunos com os quais trabalhamos de modo a ser possível estes realizarem aprendizagens significativas, sejam quais forem as circunstâncias ou as dificuldades. É um projeto profissional. O engenheiro de pontes também não pede um rio mais estreito para ligar as duas margens.
Não se pode ignorar, apesar de tudo, que a desvalorização dos salários equivale a uma desvalorização social da profissão e que ambas, o empobrecimento e a desvalorização social, se somam e multiplicam assim o efeito desmoralizador. Mas nada disto é ao acaso. O ataque aos professores é um ataque à ideia de escola pública e escola para todos. É um ataque ao projeto de uma sociedade que promove a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos. É isso que está em causa e é desse ataque que os professores se devem defender. Pessoalmente (e nem todos têm de ser como eu) é neste momento que me sinto mais motivado. Mas é pelos motivos piores. É por sentido de resistência e por preocupação pelo futuro difícil dos meus alunos. A desmotivação dos professores é totalmente justificada e não se limita à classe docente.
Para o poder político neo-conservador que nos governa a escola pode, se correr mal, encurtar as distâncias e aproximar as oportunidades. A escola pode, se correr mal, abrir os olhos dos futuros trabalhadores para a natureza da exploração laboral e das novas escravaturas. A escola pode, se correr mal, ensinar a tolerância e o respeito pela diferença. A escola pode, se correr mal, fomentar uma crítica dos valores e por em causa os preconceitos que passam por tradição. A escola pode, se correr mal, fazer de crianças e jovens adultos que pensam de modo crítico e que exigem respeito e democracia.
Enfim, se correr mal, a escola pode ser um ninho de subversivos com uma visão mais clara do mundo.
Na Soares dos Reis fazemos um esforço para que corra muito mal. A vingança contra este sistema é o conhecimento e a vontade de saber que plantamos nas cabeças dos alunos como quem coloca uma bomba que mais tarde explode e transforma o mundo completamente. É um acto subversivo e terrorista promover o conhecimento em países europeus pobres e endividados em pleno séc. XXI e os professores, a cada aluno que ensinam, estão a criar homens-bomba da liberdade do pensamento e do conhecimento.
 
 

sábado, abril 19, 2014

O sucesso de Nuno Crato.

(aviso: pode conter teorias da conspiração ou realidades inconvenientes)
Fonte: PÚBLICO e DGEEC.

O jornal Público noticia hoje, com dados do MEC, que o número de estudantes que, à saída do ensino secundário, declara querer prosseguir a sua formação entrando no ensino superior não tem parado de diminuir desde 2008. Avança ainda que as razões económicas são as mais apontadas para não querer continuar a estudar.

Conclui-se daqui que as medidas do MEC e de Nuno Crato estão a resultar em pleno. Reprodução social garantida pela seleção económica. Menos cidadãos habilitados a uma formação superior. O dinheiro e a formação dos pais como decisivos no futuro do aluno. A meritocracia aparente tinha de dar lugar a um sistema mais simples e garantido. Tem quem paga.

Se tornarmos o acesso ao ensino superior menos atrativo economicamente, ou pura e simplesmente impossível, dentro de pouco tempo voltaremos a ouvir frequentemente a frase "não tive dinheiro para estudar", um queixume não tão velho quanto isso. Com resultados muito maus para o país e aparentemente bons para a elite saudosista do fascismo (olha o Durão).

A crise económica, causada pela geração dos 45 para cima, também é fruto da sua falta de formação, não só técnica mas sobretudo ética e, ao contrário do que escreve a elite conservadora, nós temos andado para a frente em termos de qualidade na educação nos últimos anos. Estamos melhor hoje, todos os dados o comprovam. Querem a regressão porquê?

A mudança do projeto económico do país, assente em salários baixos e produção barata para investimento industrial estrangeiro, tinha de ser acompanhada pela criação de uma força operária barata, com pouca formação, essencialmente técnica, profissional e muito específica. Quanto menor a formação e mais específica mais dependente é o trabalhador do empregador, menor o salário, menores os custos de produção. Por isso se criaram os cursos vocacionais. Por isso andaram responsáveis alemães, juntamente com responsáveis do MEC, a apresentar este tipo de cursos. São os investidores estrangeiros os mais interessados na criação dessa força operária, pois é a garantia da diminuição dos custos do investimento e da maximização dos lucros.

Neste projeto económico o país encolhe (como tem sido defendido e exigido por tantos economistas inconscientes), reduz-se a arrecadação por via dos impostos, sejam sobre o consumo ou sobre os rendimentos, e torna-se impossível manter um Estado com um grau de proteção social ao cidadão suficiente. O governo desce os impostos sobre as empresas, em nome do crescimento, e os impostos sobre os cidadãos, apesar de mantidos elevados, não chegam para as encomendas fruto dos baixos rendimentos e fraco consumo.

Aumentam as diferenças entre ricos e pobres e gera-se uma aparência de riqueza, como em todas as ditaduras, investindo na capital da nação, escondendo-se os pobres debaixo do tapete. Seremos um caso de sucesso, tipo Brasil, mas um sucesso que os portugueses nem cheiram. Um país rico com cidadãos pobres. A invenção do neo-liberalismo.

O projeto para Portugal está desenhado. O papel do Ministério da Educação é um dos mais importantes e tem sido cumprido à risca. Sempre contando com o apoio involuntário dos portugueses que gostam pouco dos seus jovens e se esforçam demasiado (e de forma até infantil) para provar que são melhores do que os seus próprios filhos. É que vencer a ignorância e procurar o conhecimento, à escala de uma nação, é um obstáculo bem mais difícil de ultrapassar do que se imagina. Não se chega lá castigando os mais novos.

 

Se defende justiça e igualdade no acesso ao ensino superior assine está petição.

 

sábado, abril 12, 2014

A música oficial do Mundial de Futebol é um insulto ao povo brasileiro.

A música oficial da FIFA para o campeonato do mundo de futebol é um equívoco lamentável. Demonstra bem como a FIFA é composta por ignorantes e como os estereótipos americanos para a denominada (por eles) "Latin America" tomaram conta do discurso internacional sobre as culturas. 
Será que aceitamos todos, como perfeitos idiotas, estes estereótipos que nos são impostos? 
Pitbull, um rapper cubano, brinda-nos com uma música sem personalidade, sem identidade, para um Mundial de Futebol no Brasil, um país com um dos mais ricos patrimónios musicais do mundo? 
Um Rapper? Cubano? A cantar, a determinado momento espanholês... só para agravar a confusão que se faz com as duas línguas. Não chega dizer "Obrigado" com sotaque da Florida.
Uma cantora brasileira lá faz o serviço ao politicamente correcto aos 2'40", mais uns samples de samba no início, numa música que é má, muito má, até no título "We Are One, Ole Ola"
Porquê "Olé"? Estamos em Espanha? Na Argentina? No México?
Porquê a Jennifer Lopez? O que está ela a fazer nesta música?
Qualquer duo sertanejo faria muito melhor! Espero bem que o povo brasileiro rejeite de modo exemplar este insulto à sua cultura musical. Tornaram um evento festivo numa enorme chapada na cara de um povo. Uma chapada com a luva suja da globalização. Os desrespeito pela cultura e identidade dos povos está institucionalizado e a FIFA é um bom exemplo.
A música é um lixo, a FIFA é um lixo, esta globalização da estupidez norte-americana é um lixo!

sábado, janeiro 11, 2014

A imoralidade dos Contratos de Emprego e Inserção

Não podia estar mais de acordo com o Daniel Oliveira sobre os Contratos de Emprego e Inserção.

"Estes desempregados trabalham, no período de um ano, para o Estado e para IPSS, com horários e deveres iguais aos restantes trabalhadores, em troca do subsídio a que já tinham direito e para o qual descontaram. A esse subsídio acresce um complemento de 20% do Indexante de Apoios Sociais, pago pela "entidade promotora" (assim é chamado o empregador), o que corresponde a 83 euros por mês, mais subsídio de transporte e alimentação. Sendo que a tal "bolsa mensal" de 83 euros é, quando as instituições "promotoras" são privadas, paga em 50% pelo Estado. No caso da CEI+ a responsabilidade financeira do Instituto de Emprego e Formação Profissional é de 90% e o trabalho é pago pelo valor total de 419 euros (correspondendo ao total do Indexante de Apoios Sociais). O que significa que o Estado e IPSS (que são apenas responsáveis pelo pagamento de 42 euros) contratam trabalhadores a tempo inteiro a receber abaixo do Salário Mínimo Nacional."

Já em 2012, neste mesmo blog, me tinha insurgido contra um texto de Rui Rio onde era glorificado o seu programa de ocupação de beneficiários do Rendimento Social de Inserção, qualificando-o eu na altura como imoral e ilegítimo.

Como subdiretor de uma escola pública que se vê obrigada a recorrer a Contratos de Emprego e Inserção para ter o serviço a funcionar normalmente, posso afirmar que estes trabalhadores demonstram, na maioria dos casos, uma inexcedível dedicação ao trabalho e à organização e se tornam muitas vezes absolutamente imprescindíveis ao fim de um ano. Trabalhadores que sabem que não terão nunca um vínculo à organização. Nada. É generosidade e capacidade de trabalho em estado puro.

Temos alguns trabalhadores na Soares dos Reis nesta situação. Os que não se dedicam tanto ao trabalho na escola é sempre porque percebem o lado perverso do programa e não porque sejam maus trabalhadores.

Os serviços da escola, tanto na área administrativa como na dos assistentes operacionais, têm uma falta de funcionários crónica, grave, e o problema é "tapado com a peneira" dos CEI ano após ano. Sem reflexão da tutela, sem abertura de lugares para contrato e sem qualquer tipo de verificação real por parte dos gestores do programa nos centros de emprego e nos serviços centrais da tutela para comprovar sequer a necessidade do posto de trabalho. Ninguém faz nada e todos aceitam esta ilegalidade. A escola está de mãos atadas. É ter CEIs ou fechar a porta.

Os centros de emprego exercem esta política com um sadismo e perversão ainda mais acentuados porque, mantendo o serviço a mesma necessidade no ano seguinte, proíbem a manutenção do trabalhador que desempenhou bem a função no mesmo posto de trabalho para o programa seguinte. Mesmo quando o trabalhador quer ficar e o serviço o QUER MANTER obrigam à rotação. O argumento prende-se com o cumprimento da lei que implica que os postos de trabalho ocupados nos programas não sejam de caráter permanente. Na verdade os programas são aprovados ano após ano e compreendem necessidades permanentes. Este cumprimento austero do programa, apenas para um dos lados, é prejudicial a todos e não é ponderado. Para que o trabalhador não se acomode sacrifica-se o serviço público e a função específica do posto de trabalho. É um processo de pressão e de depressão imposta ao trabalhador para que este se sinta indefeso e dependente dos serviços do centro de emprego.

Isto tudo para além da profunda imoralidade da coisa, do sistema de remuneração e do modelo de contratação como, MUITO BEM, referiu o Daniel Oliveira no seu texto.

Estes trabalhadores merecem um contrato de trabalho. Merecem condições justas de remuneração para as funções que exercem e merecem manter o posto de trabalho quando, havendo necessidade, o serviço os quer manter.

Quem não defender isto vale tanto como um qualquer latifundiário do sul da América na primeira metade do séc. XIX. E acreditem que, a ver pelos comentários a esta notícia no Expresso, temos muitos Calvin Candies no armário cá em Portugal.

Os CEI representam o imaginário utilitarista e desumano de gente como o futuro comissário europeu Paulo Portas. Mas apesar de ser esta uma das medidas que ele sempre reivindicou foram os socialistas a implementar pela primeira vez (julgo não estar errado). Serve isto para comprovar o estado de alienação e infiltração das ideias neo-liberais desumanas na sociedade portuguesa.

Flexibilidade máxima, segurança mínima e dependência burocrática centralista. Trabalho mal pago e pago com os direitos do próprio trabalhador o que é tão grave como obrigar a trabalhar um reformado pelo valor da pensão e tomar esse valor como um salário justo. Sem perspectiva de ver o seu mérito e esforço reconhecidos e sendo pago pelos seus próprios descontos esta solução moderna de engajar trabalhadores é uma solução muito pouco ética e que deveria ser considerada inconstitucional.

Os CEI não são empregos falsos, inventados, como querem imaginar os conservadores delirantes de má consciência mas de sono pesado. São necessidades levantadas pelos gestores dos serviços públicos para vagas quase sempre permanentes (o que é manifestamente ilegal mas é ignorado pelos serviços centrais e pelo governo). Viver bem com esta situação é não ter um pingo de ética ou humanidade. É um defeito de caráter. Não reconhecer isto é pura e simplesmente ser ignorante. Não podemos continuar a aceitar que o Estado trate o desempregado como alguém que merece um castigo, como um condenado do utilitarismo meritocrático do moderno mercado do trabalho.

Não esqueçamos que boa parte dos nossos governantes, deputados e demais moscas, devem os seus rendimentos e postos de trabalho apenas ao cartão do partido e à militância mais ou menos acrítica em favor dos seus financiadores e clientes de favores. Não há mérito nem conhecimento envolvidos no processo. Há sobretudo falta de pudor.

Os Contratos de Emprego e Inserção são um regime de escravatura e devem ser denunciados.

 

sexta-feira, dezembro 27, 2013

As Bimbys e a inteligência dos portugueses.

O Wall Street Journal pela pena da jornalista Patricia Kowsmann publicou em 25 de dezembro um texto sobre a compra de Bimbys em Portugal. O destaque ao nosso país, está claro, é causado pelo nosso estado de insolvência económica. O título da peça "Mesmo em tempos difíceis Portugal adora as suas Bimbys" tem um pendor claramente pejorativo. O que lhe está subjacente é a ideia de que qualquer tendência de consumo em Portugal deve ser julgada como uma insensata moda despesista de mais um desregulado país do Sul da Europa. É assim que o lêem os americanos e o interpretam os media portugueses e logo será assim entendido pelo fundamentalismo económico das sumidades pró-austeridade.

Esta questão merece alguma reflexão dada a cobertura nos média e nas redes sociais e as habituais reações a quente. Vejamos:

  1. O país que vende armas em supermercados (280 milhões de armas em mãos civis) e inventou o termo TV-Dinner fascina-se facilmente com um povo que compra um eletrodoméstico para cozinhar em casa, e jantar em família. Não um telefone para encomendar pizzas, nem um micro-ondas para aquecer algo congelado. Um eletrodoméstico para cozinhar alimentos frescos. Espantoso.
  2. O povo português, em vez de perceber o elogio que está subjacente a tal destaque mediático dado à sua opção em termos de investimento, em detrimento doutros investimentos mais populares nos países ditos civilizados, chama "modernice" à tal máquina e baixa os olhos em vergonha perante tal achado estatístico.

Conclusão:

As reportagens na Televisão e alguns comentários nas redes sociais, como de costume, revelam os vícios do comentarismo pós-moderno. Pouca reflexão e pensamento unidimensional.

Vão atribuir este facto estatístico à falta de educação económica dos portugueses e à sua predileção pela brejeirice consumista. Já se fez o mesmo com os telemóveis. Esses mesmos que hoje todo o mundo usa.

Mas há outras formas de ler a realidade destes factos.

A "Bimby", como lhe chamam (o seu nome verdadeiro é Thermomix, nem nos EUA lhe chamam Bimby o que torna o título da notícia muito estranho), é um aparelho como outro qualquer para preparar alimentos. Muito usado em restaurantes de topo (esta é para os puristas engolirem) e noutros mais modestos, inclusive no famoso programa Masterchef. Só lhe sente utilidade quem sabe cozinhar e procura variar a ementa. A Bimby não cozinha por nós mas atalha caminhos. Há vários modelos de várias marcas. É importante pensar porque é que um povo pobre decide investir numa máquina para cozinhar em casa e cozinhar de modo variado. É importante refletir o quanto isso representa em termos de inteligência económica, sustentabilidade, qualidade de vida e saúde.

Bem sei que é fácil rir e muitos haverá, no poder, a dizer "Estão a ver! Ainda há dinheiro para Bymbis! Esses esbanjadores lusos! Corta-lhes no vencimento!". Na verdade, um povo mais pobre, que fica em casa, que poupa nos alimentos, soube bem onde investir. Na mesa dos filhos e na variedade da sua dieta. Não sejam burgessos e não digam tolices a este propósito. Portugal tem um povo deseducado mas não estúpido como aqueles que o governam.

 

quarta-feira, dezembro 25, 2013

A encomenda ao Pai Natal

Ainda há poucos dias os "Gato Fedorento" nos brindaram com a mais profunda honestidade humorística e "tentaram" contratar Steven Seagal para, enfim, dar uma carga de porrada no Primeiro Ministro.

Muitas vozes se levantaram contra os "Gato Fedorento". Algumas, mais tristes, acusaram-nos de falta de piada. Impossível, neste caso. Outros, os do politicamente correcto, acusaram-nos de ser incorrectos. De apelar à violência.

Na verdade o que fizeram foi o mais simples humor político usando para isso um desejo (não tão secreto quanto isso) de uma boa parte dos portugueses. Claro que é necessário ter algum sentido de humor e ironia. Pagar a Seagal com azeite e pasteis de nata tem graça e ilustra, com imensa ironia, a descapitalização da nossa economia e como, em seu resultado, as nossas exportações ganham terreno na nossa balança comercial. Tudo normal.

Como é Natal imaginei que a mesma encomenda pudesse ser feita ao Pai Natal. E aqui está o desenho. Com uma pequenos acrescentos à versão publicada no dia 24 no meu Facebook.

O Natal, para mim, é estar em família, é uma trégua, um momento de partilha e generosidade. Lamento que cada vez menos portugueses possam ter um Feliz Natal à conta desta gente que nos governa. Não consigo ficar impávido e muito menos sereno perante o actual estado de coisas.

2014 vai ser pior para uma data de gente, para quase toda a gente. Será melhor apenas para aqueles para quem 2013 nem foi muito mau, ou foi mesmo bom. Para os do costume. Os que vivem do sistema, que o sugam como se não houvesse amanhã, literalmente. Esses, sem pudor, já anunciam o seu sucesso no meio de festejos enquanto empobrecem tudo quanto tocam.

Por isso não podemos abdicar do nosso sentido de humor, do nosso sentido crítico, da nossa liberdade de expressão. E que esse humor seja tão cáustico que envergonhe os sem vergonha. Contra tudo e contra todos se for preciso.

Feliz Natal.

 

domingo, novembro 10, 2013

Cristiano, Leonel e a relatividade dos sucessos

Cristiano e Leonel são dois meninos que gostam muito de jogar à bola. São ambos grandes adeptos do mesmo clube da primeira divisão. Cristiano é filho de dois operários de uma fábrica. Os pais de Leonel são licenciados e quadros superiores na mesma empresa.

Desde os seis anos que Cristiano e Leonel jogam numa equipa de futebol. Cristiano está inscrito na escolinha do clube lá da terra, paga uma mensalidade simbólica. Leonel está inscrito numa escola de futebol na cidade, paga uma propina muito mais alta. Três vezes por semana lá vão para o treino durante hora e meia. No fim-de-semana os jogos.

Os pais de Cristiano, com muito esforço, lá lhe compraram umas botas para jogar e uma bola. São das mais baratas. O terreno de jogo é um pelado, às vezes uma autêntica piscina de lama, mas as condições têm melhorado. A Junta e a Câmara uniram-se e fizeram umas obras. Até contrataram um treinador formado.

Leonel recebeu novinhas umas botas de marca. Cores garridas e pítons especiais para o sintético da escola de futebol. A bola é com desenhos verdes, igual à do mundial. "É super levezinha!" diz Leonel orgulhoso aos amigos. Com a propina paga-se também o equipamento que inclui os calções, as camisolas, os fatos de treino e até as caneleiras. É ver o Leonel vaidoso e vestido a preceito, com a bola debaixo do braço.

Ambos o rapazes estão empenhados na sua atividade desportiva. Em casa os pais de Cristiano acham que é perda de tempo e dinheiro, mas lá o vão apoiando. "Ele nunca será jogador de futebol profissional. É muito franzino" dizem. "Como o pai era".

Em casa do Leonel é diferente. O pai adora desporto e sempre praticou. Ele também joga futsal com os amigos num campo coberto lá perto de casa, duas vezes por semana. Leonel adora assistir aos treinos do pai. Nos fins de tarde Leonel e o pai vão muitas vezes correr para o parque e trocar umas bolas. São os momentos preferidos para o Leonel. A mãe às vezes também vai e faz o circuito de manutenção. Levam lanches leves e chegam a casa muito cansados.

Cristiano quando sai da escola gosta de jogar à bola com os amigos. Às vezes, quando faltam os outros, passa horas a chutar a bola contra a parede. A mãe avisa-o para tirar as botas. "Não as gastes! Olha que não tens outras!"

Quando chove o Cristiano fica em casa a ver televisão. Leonel vai com o pai para o campo coberto do clube. "É muito fixe!".

Antes dos treinos a mãe do Leonel faz-lhe sempre um lanche leve e cheio de energia. "A alimentação é muito importante!", diz sempre a mãe. O Leonel já lhe acaba as frases.

Cristiano come muitos hambúrgueres. Como os pais têm pouco tempo trazem-lhe hambúrgueres e às vezes pizza. "Acaba por ficar mais barato..." ouve muitas vezes o pai a dizer.

Ambos os meninos andam muito felizes lá no clube. O Cristiano deu nas vistas num jogo com a freguesia vizinha. "É muito rápido. Mas precisa de limar umas arestas" disse o treinador ao pai.

Leonel vai com a escolinha a França. É um torneio em que a escola participa. Será uma grande experiência.

Nos jogos do fim-de-semana Leonel tem sempre a presença do pai e muitas vezes da mãe. Dão-lhe um grande apoio e no final reúnem-se com o treinador para ouvir recomendações e conselhos para o Leonel trabalhar em termos físicos e técnicos. O pai de Cristiano também vai aos jogos mas ralha sempre muito com o árbitro e com o treinador da equipa. Cristiano diz ao pai que gosta do treinador e o pai responde com ar sério "O clube não tem condições e ele não quer saber!". É injusto e o pai do Cristiano sabe mas gostava de o ter a jogar na escolinha de futebol privada.

Chega finalmente o dia em que no jornal se anunciam as captações do clube que ambos apoiam. Ficam loucos de entusiasmo. Inscrevem-se e lá vão para o campo do centro de estágio. Cristiano, de autocarro com o pai, botas já calçadas e calções vestidos. A mãe não vai, tem de trabalhar.

Leonel vai num minibus com os outros meninos da escolinha. O pai e a mãe vão lá ter de carro.

Para avaliar os jogadores os treinadores do clube fazem um treino físico, um conjunto de exercícios com bola e um jogo treino. No final publicam num placard uma lista ordenada do jogadores com as respetivas notas. Quem entrou e quem não entrou. Os olhos de Leonel e Cristiano, reluzentes, lado a lado, procuram o seu nome na lista.

Quem acham que ficou à frente na lista e entrou no clube?

As vidas e os processos de ensino e aprendizagem fazem-se em contextos com múltiplos fatores. A nossa mania de fazer listas ordenadas para tudo, unidimensionaliza aquilo que é necessariamente pluridimensional. Os sucessos e resultados de uns não valem o mesmo que os sucessos e resultados de outros porque partiram de condições a priori diferentes.

O sistema de ensino tem uma missão. Ensinar, preparar para a vida numa dimensão comunitária, numa dimensão societária e na dimensão do conhecimento e do desenvolvimento cognitivo. Promover as condições ideais para uma "igualdade de oportunidades" que de outro modo dificilmente aconteceria. Não é papel da escola seriar. Essa função a sociedade faz com particular crueldade e a escola deve ser escudada da perversidade desse processo.

Cada aluno é diferente. Tem sucessos e insucessos diferentes. Nem o seu grau de esforço para alcançar um objetivo pode ser medido de forma linear em comparação com outro. Não sabemos o que se passa lá em casa. Muito menos podemos comparar em listas o seu desempenho em números.

Acho muito bem que o Ministério disponibilize os dados dos resultados escolares e dos contextos sócio-económicos das escolas. Não só dos exames, de tudo. Deveria fazê-lo constantemente em relação às escolas públicas, as que estão na sua alçada. Antes de os divulgar aos jornais deveria trabalhar referenciais e discuti-los com as escolas. Os pacotes de dados deveriam ser do conhecimento prévio das escolas.

Ninguém sabe quem fez mais trabalho, quem criou mais-valias educativas com trabalho importante com os alunos. Ninguém sabe que práticas pedagógicas e programas tiveram sucesso na construção dessas mais-valias. Só se mede a quantidade. Como em tudo.

O que se assiste anualmente nos jornais aquando da publicação destes rankings é a demonstração de que temos muito a fazer dentro das escolas para melhorar as leituras que se fazem do mundo e da sua natureza diversa. Talvez um dia, no futuro, os nossos alunos, então adultos, se riam da nossa santa ignorância quando se lembrarem do entusiasmo bacoco que a publicação destas listas provocava nos jornais.

Isso sim seria um sucesso educativo que eu gostava de poder assistir.

 

quinta-feira, agosto 22, 2013

Eu dava o Nobel da Paz a Manning e a Snowden!

Bradley Manning foi condenado a 35 anos de cadeia, depois de ter passado três anos encarcerado em condições horríveis e com menos direitos do que a maior parte dos prisioneiros que se encontram em Guantanamo. Este jovem militar, com uma consciência e sentido de dever para com a humanidade mais aguçado do que pelos vistos é suposto, é considerado mais perigoso do que a maioria dos "terroristas do Islão" que a trupe de Washington vai mantendo em cativeiro fora de qualquer regime legal.

Edward Snowden está exilado na Rússia. Temporariamente. Arrisca-se a servir de moeda de troca entre um regime corrupto e um outro corruptor. O jornalista Glen Greenwald, do jornal The Guardian, é perseguido e considerado perigoso. Os serviços secretos britânicos prenderam durante 9 horas um amigo do jornalista. Ameaçaram-no e arrancaram-lhe a ferros todas as passwords que abrem a porta à sua intimidade. Retiraram-lhe o direito a qualquer réstia de vida privada. Roubaram-lhe equipamento. Tudo com o argumento legal de que seria suspeito de terrorismo.

Ao mesmo tempo um diretor do The Guardian era intimado a destruir toda a informação que o jornal armazenava proveniente de Snowden. Por ordem direta do governo Inglês. Sem pudor.

A Inglaterra era uma democracia. Um Estado de Direito. Mas agora o Estado de Direito é a desculpa que se usa para se desrespeitar a liberdade do cidadão a torto e a direito.

Passam-se coisas que não devemos saber e que somos proibidos de saber. Coisas que nos dizem respeito. Estão a vigiar-nos. Os tribunais e as leis que conhecemos são uma treta. Há uma outra ordem das coisas, acima de todos nós, que tudo dita e tudo vigia.

O governo português, inclusive, acha legítimo mentir sobre o caso do avião de Evo Morales numa comissão parlamentar. Foi lá Paulo Portas (aquele que não gosta dos partidos por achar que os seus dirigentes são miseráveis) dar desculpas que todos sabem serem mentira.

Mannning e Snowden abriram-nos os olhos ou pelo menos deram-nos provas concretas de que temos realmente razões para nos preocuparmos. São os dois primeiros dissidentes políticos dos regimes pseudo-democráticos ocidentais do séc. XXI, pelo menos os mais mediáticos.

Este estado de coisas advém do facto de os desígnios destes governos terem deixado de ser os desígnios dos seus povos e terem passado a ser os das corporações e dos obscuros interesses privados. Fazem-se guerras a povos inteiros, mata-se gente com drones, tudo por interesses económicos. Noam Chomsky chama a estes estados RECD (Really Existing Capitalist Democracies, que se lê WRECKED, o que em inglês significa estragado ou destruído).

O terrorismo não são só os homens bomba do islão revoltado, também são estes Governos e exércitos a soldo dos interesses que nos trouxeram a esta crise interminável.

A iniciativa de propor Manning e Snowden para o Nobel da Paz é um gesto absolutamente essencial na defesa dos cidadãos europeus e americanos e uma réstia de esperança de que um dia possamos viver uma verdadeira democracia participativa.

 

quinta-feira, agosto 08, 2013

Porta aberta ao cheque-ensino e ao fim da escola pública.

Governo abre a porta ao cheque-ensino no básico e secundário.

Samuel Silva in Público de 8 de agosto de 2013

Aí está ele! Queriam saber porque é que se reduzem turmas nas escolas? Porque se criam exames e regras completamente parvas para acesso ao ensino superior nos cursos profissionalizantes, aqueles que obrigam a ter oficinas e equipamentos nas escolas? Está aí o cheque ensino.

Quer pôr o menino num colégio para fugir à rançosa escola pública? Sem problema, o Estado paga.

Aí está o maior golpe de mestre. O processo pelo qual a educação vai passar a ser um negócio de compra e venda de alunos e diplomas. O estado vai passar a patrocinar as escolas privadas, por via indireta, dando aos pais o dinheiro para gastar nos colégios. As escolas públicas nem sequer entregues a si próprias vão ficar. Isto porque não terão nenhuma autonomia. Número de alunos por turma, número de horas de aulas, número de turmas, autonomia na contratação de professores, currículos e métodos de ensino, tudo definido pelo Ministério.

Só faria verdadeiramente sentido o cheque educação se as escolas públicas tivessem mais autonomia e mesmo aí seria uma má medida educativa e económica. O que prova a irresponsabilidade e as más intenções do ministro Nuno Crato é o facto de vivermos o momento em que mais se centraliza na educação, tudo é decidido, tudo é controlado pelo MEC, muito mais do que alguma vez o foi na história da educação pública. É neste preciso momento que se dá a liberdade às famílias para fugir das más decisões do Ministério. Fuga paga pelo mesmo Ministério que criou as medidas que afugentam.

Esta decisão do cheque ensino não tem volta. Não há retorno desta decisão. Criará um clientelismo empresarial na educação que será impossível de reverter. Vai destruir a carreira docente, esvaziar escolas públicas com milhões em investimento em instalações (posteriormente e oportunamente vendidas ou concessionadas) e vai, com certeza, criar oportunidades de negócio para as novas "Modernas" ou "Lusófonas" mas agora no ensino secundário e patrocinadas pelo Estado, esse mesmo que tem imenso dinheiro para dar.

Como se entende que o mesmo Ministério que quer dar às famílias liberdade de escolha na escola ao mesmo tempo esteja a impor a redução do número de turmas em tantas escolas públicas com alunos já inscritos? Essa liberdade só é válida se for para o privado? Será essa a mensagem de Nuno Crato?

Nuno Crato e o PSD tinham um plano - Acabar com o ensino público e ajudar a pagar os colégios aos que procuram o privado. Vão conseguir porque toda a gente vai achar esta ideia o máximo. Quero ver quando as escolas públicas forem guetos de excluídos sociais como acontece nos países em que estas medidas foram aplicadas e as escolas privadas com a qualidade média de uma pública de hoje forem demasiado caras para a família mais modesta.

Nesse momento estes liberais vão acenar com o mercado e a natural seleção social que este faz como uma inevitabilidade económica e algo que devemos aceitar.

Os exames aos alunos, os exames aos professores, as metas, o aumento do número de alunos por turma, vai tudo conduzir ao mesmo objetivo. O que me entristece é que a sociedade portuguesa vai embarcar nesta catástrofe. Porque o sonho do português é ser rico e as medidas para os ricos vão-nos servir um dia... num futuro de sonho. Continue a jogar no Euromilhões e pode ser que um dia este governo lhe sirva para alguma coisa.

sábado, junho 29, 2013

Pobres, ignorantes e covardes?

No dia 27 de junho, dia de protesto e greve geral, um grupo de manifestantes que desfilava em direção à ponte 25 de abril foi cercado pela polícia e identificado um a um como se fossem criminosos. Alega a polícia que o protesto não estava autorizado e punha em risco a segurança rodoviária. Vão todos a tribunal. O país acha normal.

Não há pachorra para o clima hipócrita, pseudo-legalista, de resignação e passividade que se está a instalar neste país. Fruto da proclamação da subserviência como prática obrigatória de cidadania.

Ele é a greve que não pode incomodar, a manifestação que não pode interromper o trânsito, o insuportável Presidente da República a quem ninguém pode chamar gatuno (ele que nem teve nada a ver com o BPN), etc, etc...

Já a Constituição, pelo contrário, é um texto sujeito a interpretações... e não o cumprir é um ato heróico e justificável num momento de emergência económica, blá, blá, blá, blá, blá, blaaaaaaaaaaaaaargh!

A legalidade das manifestações é ditada pelo povo que vê ilegalidades maiores serem votadas como lei sem pudor e sem castigo. Não é, nem pode ser, ditada pelas regras burocráticas do Estado. A emergência que estes senhores justificam para nos retirarem direitos é a mesma que justifica que se interrompa uma estrada ou se ocupe uma praça. Aqui, na Grécia, na Turquia ou no Brasil. A ordem pública pode esperar que nos devolvam o país e a dignidade.

Aceitar ser tratado e conduzido como gado é que não!

Em Portugal aceita-se esta espécie de democraciazinha de brincadeira que uns senhores que nunca foram democratas nos vendem nas TVs. Porque na verdade nunca acreditaram na liberdade do povo. Nunca acharam a liberdade do povo importante para o desenvolvimento económico. São liberarais porque querem a liberdade toda para si e para os seus negócios milionários. É ouvir a gravação dos banqueiros irlandeses que conspiram às gargalhadas para roubar os contribuintes do seu país, porque os de cá fazem o mesmo tipo de coisas. É dessa liberdade que gostam estes liberais.

Os opinistas dos jornais e da televisão alinham-se de pingo de baba no canto da boca a promover a ordem e a legalidade, provavelmente no intervalo de uma ação de campanha eleitoral de um Menezes ou um Seara. Ambos a marimbar-se para a lei e cheios de vontade de mamar no favorzinho que a Assembleia da República lhes fez.

Os Turcos, os Gregos, os Brasileiros, os Franceses quando querem vão buscar. Partem tudo. Vergam políticos e políticas.

Nós, esta cambada lusa de covardes na qual me incluo, baixamos a cabeça e pedimos desculpa pela imaginação do insulto. Somos uns masoquistas pobres, ignorantes e covardes. Uns educadinhos ajudantes de sacristia à espera que a benção do senhor pároco nos invada o reto enquanto lhe agradecemos as graças.

É isso que somos? Será mesmo só isso que somos? De que esperamos para fazer uma nova revolução?

Para quem quiser ouvir a gravação original dos banqueiros Irlandeses a conspiar à gargalhada clique aqui.

 

quinta-feira, junho 20, 2013

Sr. Doutor Juiz, posso levar um insulto?

Este texto vem no contexto da notícia «Jornalista condenado a multa e indemnização por chamar "idiota" a ex-secretário de Estado» do jornal Público de 19 de junho de 2013.

Atenção: este texto tem linguagem menos própria para o consumo dos mais pudicos.
Acho muito complicado e perigoso que em Portugal se condene alguém por chamar "idiota" a um governante. Em primeiro lugar porque está em causa a liberdade de expressão e em segundo porque pode, em última análise, impedir que alguém diga a verdade.
Bem sei que o acórdão condena o arguido sobretudo por ter chamado "idiota" a um secretário de estado sem ter apresentado justificação para o efeito. Alguns argumentarão que ter sido secretário de estado de Sócrates é motivo bastante, por exemplo. São livres de pensar isso. Mas seria com certeza, como noutros casos se fez, muito fácil fazer prova da idiotice deste ou daquele secretário de estado em tribunal, bastando para o efeito recorrer à leitura de declarações públicas ou ao enunciado das medidas que se vão tomando nas secretarias de estado.
No caso em apreço o jornalista escreveu que o inatacável funcionário do estado "é o mais idiota dos políticos que conheço e foi durante este último ano e meio secretário de Estado da Agricultura e Florestas" e continua dizendo "um dia será ministro das Finanças, ou da Educação, ou da Justiça de um qualquer governo, a confiar no aparelho partidário do Partido Socialista, onde parece que toda a gente boa foi de férias e só ficaram as galinhas".
As palavras são fodidas (olha, usei uma delas agora mesmo). Se o jornalista em apreço tivesse o talento para desenhar um galinheiro com o símbolo do Partido Socialista pendurado e um grupo de galinhas a bicar no chão sendo uma delas a carinha laroca do dito inominável e inatacável secretário de estado, o senhor doutor juiz nunca o teria condenado. Apesar de sabermos todos que as galinhas são um bicho que só não é idiota quando está no tacho.
Mas os símbolos são do caraças e a semiótica é fodida. Se em vez de galinhas fossem porcos numa pocilga já era diferente e o juiz deste caso, admirador confesso, presumo, dos brilhantes trabalhos na área da liberdade de expressão realizados pela justiça iraniana ou chinesa, já iria franzir o sobrolho e pensava "mil... mil e trezentos, devem bastar". Já, por último, se trocássemos os porcos por cavalos talvez o dito ex-secretário de estado, cujo nome é impronunciável e cuja dignidade está acima de qualquer suspeita, decidisse em vez de um processo presentear o jornalista em causa com um belo cabaz de Natal. É a natureza dos signos.
O que, com certeza, o senhor doutor juiz, se esqueceu de estudar foi que a palavra "idiota" está ligada ao exercício da política desde a Grécia Antiga ou antes ao não exercício – a palavra vem da raíz iδio que significa “em si mesmo” alguém que se exclui e não participa e que por isso rejeita a política (como tão bem explica Papandreou na sua comunicação no TED – ver aos 12m34s).
Neste caso particular talvez o jornalista não se estivesse a referir à falta de exercício e participação política do dito cujo, mas antes a um exercício que, em si mesmo, exclui os outros, exclui a comunidade para a qual trabalha. Por estar distante daqueles a quem se destina é idiota por princípio. Exatamente aquilo que se passa hoje na nossa governação “idiota”.
Mas ser "idiota" toca a todos. Ser o "mais idiota" toca a quase todos, uma vez ou outra. Incluindo-me a mim na galeria dos mais idiotas muitas vezes. É diferente de chamar "gatuno" que implica roubar, ou "cabrão" que implica um exercício específico da sua senhora ou, no máximo dos máximos, "filho da puta" que põe em causa a moral da proveniência dos rendimentos da mãe. "Idiota" em Portugal significa um ignorante ou vaidoso. Dificilmente encontraremos alguém que não pense o mesmo da maioria dos políticos. Estarão proibidos de o dizer sem o justificar?
Os políticos, sobretudo os que governam, estão a jeito. Não são cidadãos comuns. Legislam, afetam a vida das pessoas de forma determinante e andam com seguranças não identificados que batem e dão ordem de prisão. Nas revoluções perdem as cabeças. Literalmente. O exercício de um cargo político obriga a aceitar que nos chamem idiotas sem qualquer justificação. Faz parte. É diferente de dizer que roubamos. É só dizer que fomos maus. Dizer que se é "o mais idiota" é só dizer que fomos os piores.
Não quero um país em que não se possa chamar "idiota" livremente a um governante. Sobretudo sendo este um país de governantes Idiotas, Ignorantes, Vaidosos, Mentirosos e que todos os dias vão governando a favor dos seus interesses sem qualquer tipo de pudor nem compaixão pelos seus cidadãos. Será que é proibido mandá-los "à merda"?
Quanto custa senhor doutor juiz?
Neste mercado de insultos que se tornaram alguns tribunais portugueses, na inútil e impossível defesa da dignidade dos que nos governam, apetece-me entrar e dizer: Vou levar três "idiotas", uma dúzia de "gatunos" e apenas um "filho da puta"*, mas só porque não me pagam agora em junho. Venho cá em novembro e levo mais...
Tenham juiz(o).
* atenção que estou só a brincar, não me pagam o suficiente para liberdades dessas...

sábado, maio 25, 2013

Um Ministério que presta um serviço mínimo.

Gostava de saber qual é o conceito de serviço mínimo adaptado aos conselhos de turma ou às vigilâncias de exames nacionais.

Podem-se realizar conselhos de turma só com um terço dos professores (a lei parece dizer que não)? E estes, em greve, entregarão as classificações?

Poderão os exames funcionar só com um vigilante?

A questão é esta: se o professores são tão importantes porque é que são tratados como inúteis?

As greves atingem onde dói mais, nada mais natural. E acontecem em situações extremas, por exemplo:

  • Quando se prepara o despedimento indiscriminado de professores do quadro.
  • Depois de provado que se paga a colégios privados para abrir turmas que as escolas públicas estão proibidas de abrir.
  • Depois de congelamentos intermináveis da carreira.
  • Quebras brutais em salários e benefícios.
  • Aumento das horas de trabalho e do número de funções paralelas.
  • Processos kafkianos de avaliação criados para dividir a classe.
  • Legislação avulsa, fora de tempo e pedagogicamente perversa que altera programas, métodos de acesso ao ensino superior e regras de funcionamento das escolas e dos concursos.
Não chega de motivos?

Os professores têm sido atacados não apenas como classe ou grupo profissional, em assuntos diretamente relacionados com concursos, colocações, salários, horário de trabalho e funções. O próprio sistema de ensino e a qualidade do processo educativo, onde têm um papel absolutamente esencial, estão a ser postos em causa por medidas contrárias à qualidade da educação.

A greve só é surpresa e só é injusta para quem ou anda a dormir ou não tem respeito nenhum pelos portugueses que são ou foram alunos.

Devemos refletir sobre a natureza destas medidas, cuja maioria não foi exigida por nenhuma troika. Foi a ideologia retrógrada, conservadora e sobretudo protecionista dos mais favorecidos que criou esta miséria de ideias em que se tornou o mais importante ministério de uma democracia.

Andam secretários de estado (Poiares Maduro) a dizer que a Constituição é um entrave à livre iniciativa legislativa democrática porque lhes falta escola, falta escola democrática a estes governantes. Porque não sabem que a liberdade pertence aos cidadãos e não aos governos que os exploram e desrespeitam. A Constituição existe para impedir que tais governantes tenham poder sem limites e falhem nos seus deveres aos cidadãos.

Uma escola livre e autónoma, verdadeiramente democrática e centrada no aluno e nas suas necessidades, irá derrotar esta ideologia passadista e criar cidadãos maduros e responsáveis diferentes desta "gente".

O futuro anda na escola e merece o melhor de nós.

 

domingo, maio 05, 2013

Será que 40 horas chegam para tanto trabalho?

Os professores em Portugal têm de realizar 1100 minutos de aulas por semana. São, de facto, 22 aulas de 50 minutos, os chamados "tempos". Para leccionar uma disciplina que, por semana, ocupe 4 destes tempos, ou seja 200 minutos, cada professor terá de ter 5 turmas e meia. Seja lá o que "meia" for. Nas regras actuais isso significa cerca de 150 alunos. Se por mês o professor dedicar 30 minutos de trabalho de casa a avaliar e a reflectir sobre cada um destes alunos - que dedica mais, tendo em conta toda a preparação de aulas, correcções de trabalhos, etc. - isso representa 4500 minutos por mês, 90 tempos de 50 minutos por mês ou seja 22,5 tempos por semana.

Quer isto dizer que os professores, sem muita dedicação, facilmente atingem os 44 ou 45 tempos (de 50 minutos) por semana. 36 horas de trabalho no mínimo.

A juntar a isto estão as Componentes Não Lectivas (trabalho realizado na escola diferente de aulas - apoios, clubes e outras tarefas) que representam mais 150 minutos no mínimo legal.

São, no total, 39 horas de trabalho hoje, sem aumentos nenhuns!

Agora imaginem em disciplinas com menos de 200 minutos semanais e com o respectivo aumento do número de turmas para 6, 7 ou 8. Mais de 200 alunos. Será que chega?

Isto para explicar que o aumento do horário do trabalho na função pública é uma farsa quando se aplica aos professores e terá consequências terríveis na qualidade do sistema educativo se for aplicado às horas lectivas.

Um caminho sem retorno?

Pode parecer que não, para quem ouça os economistas, mas o caminho que seguimos todos tem retorno. Chama-se respeito próprio. E esse respeito próprio deve expressar-se na rejeição total e absoluta desta visão da escola como uma empresa pecuária.

Não somos trabalhadores de um matadouro nem os alunos são animais para serem tratados como tal!

Esta escola está a ser construída para realizar uma triagem social e os professores são os funcionários encarregues do trabalho sujo que os ideólogos do poder exigem mas não admitem.

Os alunos que sairão destes modelos de organização da escola vão andar nas ruas amanhã e não se vão esquecer do que lhes fizeram. Quando a violência, a falta de respeito pelo outro, o caos tomar as nossas ruas os dedos estarão apontados aos professores, esses tarefeiros. Serão então exigidas medidas para repor a ordem, mais polícia, mais autoridade.

Nessa altura os políticos de hoje estarão todos a viver muito bem e longe da confusão que criaram.

Que não se esqueçam também aqueles que se ficam a rir ou aplaudem estas medidas com esgares de vingança porque, se um professor ou funcionário do estado pode dar mais, daqui a pouco tempo o seu patrão irá concluir que ele próprio pode dar ainda mais e a ganhar ainda menos.

Os padrões de tempo de trabalho e vencimento estabelecidos pelo estado têm sempre reflexo nas empresas privadas e em contexto de crise tudo se admite.

Que a divisão que nos semeiam no meio do povo não floresça. Que o nosso respeito próprio vença a estupidez do "hunger game" neo-liberal. É necessário resistir sempre e cansar os ouvidos dos que ainda não acordaram.

 

quinta-feira, abril 25, 2013

Hoje posso gritar "Passos para a rua!"

Dei este título porque quero escrever algo positivo neste 25 de Abril. Não sei se consigo mas vou tentar.

Este título vale, no dia de hoje, não tanto pelo meu desejo que tal se concretize ou porque seja esse o assunto desta crónica, mas mais pela celebração da minha liberdade de o escrever. É absolutamente inegável que o 25 de Abril marca o início de um processo de libertação dos portugueses das amarras das concepções perversas e curtas do que é um Estado, um País, um Povo. Mas não foi só nesse dia que se conquistou a liberdade. Em muitos dias seguintes, em 39 anos, esta foi sendo conquistada e trabalhada e vivemos hoje uma democracia.

O trabalho está longe de estar concluído. Percebemos hoje que as tentações totalitárias dos que estão no poder se mantêm e que é necessário vigiar a democracia. Percebemos hoje que a democracia é sobretudo fruto de uma educação para a liberdade. Só um povo educado em liberdade vai conseguir viver e exercer totalmente a democracia. O papel dos outros, dos que não foram educados em liberdade, será o de garantir que os mais novos o sejam.

Esta é uma questão absolutamente essencial para aqueles que, no nosso país, se sentem donos da democracia apenas porque já vestiam calças em 1974. A democracia não pertence a ninguém. Uns não são mais dignos dela do que outros. Não se reclama totalmente conquistada. Conquista-se todos os dias.

Existe em Portugal uma geração que se considera a "da democracia". Todos os anos se esforça em provar que o povo português, mais novo, raramente é digno de tão nobre e generosa oferta.

Todos os anos, nos jornais e na TV se torcem todos de alegria nervosa quando vêem um jovem ou uma criança a errar um detalhe histórico ou demonstrar desconhecimento sobre os conceitos em causa. Gemem felizes com a ignorância dos mais novos e vangloriam-se da sua consciência democrática e histórica.

É uma hipocrisia. Se os mais jovens não sabem mais é porque nós temos vergonha de falar do 25 de Abril. Guardamos um dia do ano para o assunto. Cantamos umas músicas e vendemos aquela flor. Mas não falamos de política.

Para uns o 25 de Abril é uma cena de comunistas. Ainda estão sob efeito da era Mccarthy. Para os políticos é mais um dia de discursos e oportunidade para uma aparição televisiva. Para os sindicalistas um dia de manifestações e mais uma aparição televisiva. Para a maior parte é mais um feriado e folclore.

No fundo é como o Natal. A discussão é exatamente a mesma e não vou estar para aqui a enumerar as mais do que óbvias semelhanças nos discursos sobre a natureza, significado e importância de ambas as coisas.

Isto para dizer que para mim o 25 de Abril é todos os dias (como se diz do Natal). Para dizer que a liberdade é um ar que se respira. Ás vezes aparece degradada e cheira mal, está poluída. Por isso é necessária uma proteção da liberdade e da democracia tal como se protege o meio ambiente, ou os animais. É necessário que grupos de pessoas discutam opções políticas democráticas, práticas de liberdade. E devemos olhar para isso com satisfação e não com enfado. Com interesse e não com indiferença.

Nas escolas é necessário ensinar a liberdade e com liberdade. A escola não é neutra portanto é importante que não finja uma neutralidade que não existe. Que assuma o seu papel democrático.

Temos de aceitar que mais importante do que saber coisas sobre este dia é saber como exercer a liberdade, pensar em liberdade. É mais importante saber se os nossos jovens se sentem livres e percebem a importância da democracia. Se se sentem parte do sistema democrático e defendidos dentro do sistema democrático.

A escola existe para fazer entender mas também para criar o desejo de entender, o desejo de crescer. A escola não serve para prescrever pilhas de memórias e de conteúdos.

A liberdade não se entende por um conjunto de factos históricos. Entende-se por uma prática e um exercício em conjunto. Do querer aprender e do viver essa aprendizagem.

Só pela educação se realiza o 25 de Abril. Abdicar dos valores da escola para todos é abdicar da ideia de que nascemos iguais.

 

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

A responsabilidade social e o seu significado

Hoje, por acaso, na procura do significado de uma palavra, fui dar a um site de uma empresa de consultoria financeira e gestão e aconselhamento de investimentos. Os tempos recentes deixaram-me curioso em relação a estas empresas. À sua organização, estrutura e princípios.

Ponho-me a pensar se, há 4 ou 5 anos atrás, aconselharam ou não a comprar dívida grega ou produtos tóxicos do BPN ou outras coisas igualmente desagradáveis. Ponho-me a pensar na complexidade da tomada de decisões e na responsabilidade envolvida no aconselhamento. Tenho algum respeito pelos desafios que este trabalho implica e tenho bem a noção dos perigos e das perversões que pode implicar.

No site desta empresa em particular descubro uma área intitulada "Responsabilidade Social". Vou ler.

Fiquei de boca aberta. Então não é que os senhores doutores, mestres do investimento, do pouco e do muito risco, se preocupam com questões de responsabilidade social. Gostei.

Mas há um problema. Não estão a falar de responsabilidade nas suas funções como consultores e investidores mas sim de caridade. Afinal a empresa entrega uma parte do seu lucro, pequena suponho mas pouca diferença faz, para instituições de apoio social. Isto porque, dizem eles que os sistemas de segurança social se revelam cada vez mais incapazes de responder às necessidades da sociedade. Nada de mal aparentemente.

O problema reside exactamente no que está ausente. Um compromisso de responsabilidade social nos próprios investimentos que aconselham. Ou seja... podemos aconselhar o investimento em fundos que financiam guerras ou o trabalho escravo. Podemos aconselhar comprar dívida má contraída em situações de desespero planeado. Podemos investir em industrias poluentes ou em grupos económicos sustentados por ditaduras. Desde que pareça limpo e prometa resultados não perguntamos de onde vem nem para onde vai o dinheiro. Mas damos algum para caridade.

Enfim, investimos na criação de pobreza mas no fim pagamos a sua sopa a uns pobres.

Falta lá dizer que a empresa investe na sustentabilidade, no respeito pelo ser humano e pelo meio ambiente e que faz um rastreio ético dos seus investimentos. Isto é que é responsabilidade social. Mas ninguém quer saber disto pois não?

Como professor a minha responsabilidade social é mais do que ser bom professor mas é sobretudo ser um bom professor. Isso significa ensinar as matérias mas também orientar para a educação de valores éticos. Isso significa ter um comportamento profissional socialmente responsável. Não me chega ser um professor qualquer e depois dar uns euros por mês para a Unicef.

É por estas e por outras, por não existir uma deontologia do investidor e do mercado financeiro, que podemos estar certos que a crise não terminará. Tornar-se-á eterna. Vamos habituar-nos à condição de cidadãos menores. Os sem capital. A força trabalhadora. E vamos aceitar a caridade destes e de outros que ganham dinheiro sem querer saber se investiram na nossa desgraça. O que os levará para o céu é que nos pagaram a sopa e por isso estaremos eternamente gratos.

Não sei se esta empresa investe bem ou mal. Devemos sempre presumir que cumprem a lei e acredito que sejam bons rapazes (só homens nos órgãos sociais). O que interessa aqui é a questão teórica e de comunicação que revela uma forma particular de ver as coisas, de definir um conceito de responsabilidade. Só isso.

 

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

O caso do doutoramento da ministra alemã da educação.

"Doutoramento retirado a Ministra da Educação Alemã" in Público de 6 de fevereiro de 2013.

O caso do doutoramento copiado da ministra da educação alemã tem muito que se lhe diga. Temos, em Portugal, o irritante hábito de comparar nestas notícias o que aconteceu lá fora com o que acontece cá dentro. Por isso peço antecipadas desculpas.

Antes de mais, neste caso como noutros, resta dizer que as trincheiras políticas, lá como cá, estão repletas de chicos espertos com pouca ou nenhuma ética. Não há como confiar nos políticos que nos governam e quando falamos de ministros alemães também estamos a falar de políticos que nos governam. O sistema está doente porque atrai os piores e os qualifica. A meritocracia partidária favorece o descaramento e a falta de escrúpulos em desfavor da inteligência, da ética e do mérito cientifico ou profissional. Podemos facilmente perceber isso sobretudo durante o mandato de um pretenso governo tecnocrata que cada vez mais percebemos como ideologicamente comprometido. Sem mérito e sem ideias reais de como realmente governar o país, o nosso governo vai governando os seus interesses e as fortunas.

Do ponto de vista do caso estritamente académico quero dizer pouco. Apenas que, em defesa da senhora, a originalidade é cada vez mais rara e a universidade incentiva a cópia porque, muitas vezes, se encontra incapaz de avaliar o que é realmente novo. Ou se encontra o bosão de Higgs ou então temos de balançar entre o que foi já dito e o que queremos dizer. Mais difícil ainda quando se trata das Ciências Sociais ou das Artes. Neste caso, antes de demitir a senhora do governo, convinha ver que doutores alemães se deixaram levar e perceber se eles também não estarão um pouco aquém. A internet, de todas as opiniões, está hoje a ganhar dez a zero ao elitismo universitário na diversidade, na liberdade e também na correção científica. A cultura fechada de muitas instituições fará delas edifícios do saber obsoletos e esquecidos.

Para acabar, e porque não podia deixar de ser, a natural comparação com o caso Relvas. A demissão da ministra parece inevitável. Já um outro ministro alemão levou a mesma sentença pelo mesmo motivo. O governo português, por seu lado, insiste em deixar um senhor com uma licenciatura que desafia as regras mais elementares numa posição de destaque. Dá-lhe, inclusive, a autoridade para retalhar e vender o bem público e não o põe em causa. Ética lusitana.

Somos vítimas diárias de presidentes de banco mal educados e outros que mentem nos impostos e são amnistiados com discursos cheios de cagança. Falam alto e mandam, gozam e insultam. Ética lusitana.

A sociedade portuguesa, vista pelo governo de Passos, não é nem será nunca meritocrática apesar das teorias sombra de Nuno Crato. A sociedade portuguesa é feudal. Por isso a questão de um doutoramento forjado nunca seria aqui levantada contra um senhor ministro. Contra um elemento da corte nunca! No caso de o ser, seria considerada uma questão menor pelo primeiro ministro e ignorada. Ética lusitana.

Cabe-nos construir um sistema educativo que trabalhe para a resolução destes problemas pela educação de todos. Para que o exercício do poder possa ser mais ético e os eleitores estejam em condições de emitir um juízo lógico e participar também nas decisões políticas. A resolução da credibilidade dos políticos resolve-se pela educação. Só uma sociedade educada pode produzir e eleger os melhores representantes governativos. Aquilo a que temos assistido, em termos de cortes e políticas educativas, vai no sentido oposto. No sentido de criar uma sociedade em que uns têm tudo, a riqueza e o poder de decisão e governação, e outros têm apenas o dever de cumprir as necessidades dos primeiros.

 

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

As tolices de Fernando Ulrich

A propósito de mais um conjunto de declarações infelizes de um presidente de um Banco provindo de uma família de Banqueiros... alemães!?

Publicado no meu facebook.

"Já comecei três vezes um texto sobre Fernando Ulrich. Na verdade não há palavras. Tolice minha. O que podemos dizer sobre este homem? Que tem zero de respeito pelos portugueses? Que tem zero de respeito pelas pessoas que não tiveram, como ele teve, a papinha toda feita a vida inteira? Que não tem respeito por aqueles a quem o Estado não empresta barato milhões de euros para salvar das asneiras que fez nos negócios?
Faço uma pergunta a Fernando Ulrich: Aguentas dar uma volta a pé aqui pela baixa do Porto num dia a combinar? 
Não aguentas, acredita. A gente também já não te aguenta."

quarta-feira, janeiro 02, 2013

O discurso de ano novo do nosso PdR. (republicação do facebook)

O nosso querido Professor de Economia acabou agora de falar. Deu uma aula interessante sobre uma teoria impossível.

As contas de que fala têm séculos de existência e só funcionam hoje naquelas cabecinhas quadradas, recitadas como um credo religioso, pontuadas com umas pitadas de elogio fúnebre a um povo moribundo. Sabemos ser pobres bem! Olha que bom!

O senhor não explica, embora fale disso, porque é que a receita aplicada piorou a tal percentagem da dívida de que falou. Piorou a situação que era suposto resolver! Isso não será um sinal? Não, nós somos todos burros.

A minha conclusão? Está preocupado em respeitar acordos, não em resolver problemas. Os tais acordos que em 2010 e 2011 não previram a crise da zona euro. Realizados por gente muito competente vê-se bem. A tal crise já existia e só piorou com os tais maravilhosos acordos e programas. Os que temos de cumprir a qualquer custo.

Ficamos a saber que o nosso PdR tem amigos que acreditam em Portugal. Amigos estrangeiros. Uau! E também que alguns desses precisam de empréstimos para investir. Sugiro o BANIF, acabou de garantir 1100 milhões de euros que não existiam para a educação ou para a saúde e que os tais senhores dos acordos nem se importam que a gente gaste... já se fosse em escolas ou salários seria um escândalo. Não há pachorra senhor Presidente. Para si e para a geração de políticos e economistas que representa em Portugal.

Desejo-lhe um ano tão bom quanto o será para um dos nossos milhares de desempregados. Obrigado por tudo.