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sexta-feira, outubro 02, 2015

O Voto Urgente.

No domingo vou votar com sentido de urgência. Vou votar de coração aos pulos. Vou votar pela minha filha, pelo trabalho da minha mulher, pelo meu trabalho, pela escola pública, pelo ensino artístico, pela arte e pela cultura portuguesas. Vou votar em minha defesa, em nossa defesa.

Vou votar CONTRA a Coligação Portugal à Frente.

Para impedir que continuem a empobrecer e a desertificar o nosso país.

Para impedir que a nossa pobreza financie a riqueza de meia dúzia de dirigentes partidários, empresários obscuros ou banqueiros linguarudos. A saúde dos nossos pais, a educação dos nossos filhos, o trabalho que produzimos, as musicas que cantamos, os quadros que pintamos, as esculturas que construímos, os livros que escrevemos, as peças que encenamos é que são Portugal. Não essa coisa pastosa que se passeia na televisão a arrotar postas de pescada sobre produtividade, sustentabilidade ou crescimento.

Portugal não é uma dívida que se paga a desconhecidos. Não é um nome atrás de uma nota de rating escrita por um americano que não nos sabe apontar no mapa. Não é o desejo de Merkel nem de Schaüble.

Portugal não é Passos Coelho muito menos a sua hiperTecnoforma onde vai encobrindo com o dinheiro dos impostos a sua própria incompetência. Passos o viciado em mentir. Aquele que hoje diz uma coisa e amanhã o seu oposto para defender sempre a mesma ideia: que mais pobres seremos mais ricos. Não há nobreza nem riqueza na pobreza. Há apenas fome e miséria.

Votar em Passos Coelho é votar a favor da pobreza. Da nossa ou do vizinho. É votar no Paulo Portas dos submarinos, a bailarina irrevogável que se ri da nossa credulidade. É votar no partido de Oliveira e Costa e Dias Loureiro, no partido de Duarte Lima, de Miguel Relvas, o doutor, Miguel Macedo e o esquemas dos vistos dourados. É votar em Maria Luís que fez swaps ruinosos e mentiu no parlamento vezes sem conta. É votar em Bruno Maçães, Nuno Melo e nas visões distorcidas que têm de liberalismo financiado por impostos. É votar nos esquemas de Marco António Costa. É votar em Cavaco Silva, outra vez.

Já sei que está a pensar em Sócrates. Tenho uma resposta: Não vote em Sócrates. Vote noutro qualquer. É simples. Mas vote. Não se renda. Não deixe que outros decidam por si. Não seja o papalvo que se queixa mas não faz nada. Acredite que há gente capaz, inteligente e com outras ideias. Não faça aquele papel dos que dizem mal dos políticos e votam sempre nos mesmos. Salve-nos a todos da miséria e Vote Noutro Qualquer.


domingo, julho 26, 2015

O sistema dual Austríaco serve a Portugal?


fonte: jornal Público de 26 de junho de 2015

Ao lermos esta notícia do Público sobre o sistema dual na Áustria ficamos inicialmente com a impressão de que encontramos o paraíso. Quando avançamos na notícia e, sobretudo, quando avançamos na interpretação do que representa o que está la escrito a imagem perfeita começa a desvanecer e uma outra bem diferente emerge. A tentação básica é imitar o "paraíso" mas rapidamente este modelo se pode tornar num "inferno". Vejamos: 
  1. O desenvolvimento industrial da Áustria é muito diferente do português e com ele desenvolveu-se este modelo de formação dentro das empresas. São cerca de 500 anos de história a ligar a formação industrial e as empresas. Por outro lado o mercado interno austríaco é muito mais pujante. É um país mais rico com uma economia mais forte e virada para dentro. As empresas têm uma cultura de formação diferente da nossa. Ou tinham. O modelo de mercado de trabalho neo-liberal implementado por toda a Europa vai estourar com a colocação de jovens nas empresas muito em breve e já há sinais disso. Os depoimentos na notícia mostram isso mesmo.
    “No passado, fazia-se a aprendizagem numa empresa e ficava-se lá a vida toda até à idade da reforma. Agora é como em toda a Europa, há uma maior mobilidade das pessoas”

    "é cada vez mais difícil encontrar empresas que aceitem aprendizes."
  2. Na sociedade austríaca o trabalho manual não é tão visto como trabalho menor em termos do seu estatuto social e a diferença salarial é menor. Por cá a nossa cultura impõe um olhar completamente diferente em termos sociais e os salários fazem muita diferença. O trabalho manual é uma condenação à pobreza e ninguém deseja ser pobre. Não se pode imaginar que alguém o aceite. Uma coisa está ligada à outra, a um menor estatuto corresponde um nível de recompensa salarial menor. Não é verdade que o mercado neo-liberal seja meritocrático ou reproduza a produtividade económica, ele é sobretudo preconceituoso e conservador. Tende a manter no poder os que já lá estão com o argumento da estabilidade. A Áustria já percebeu isso e o seu modelo é um forte entrave à mobilidade social. Os ricos mantêm-se ricos e vão ficando mais ricos e os outros amanham-se. As tensões criadas são insustentáveis e o modelo começa a quebrar e pede mudanças.
  3. O sistema austríaco é um sorvedouro de dinheiro público que qualquer troika consideraria impensável. Os subsídios de desemprego são altíssimos para jovens e um rendimento anual inferior a 30 mil euros fica isento de impostos. Bem vistas as coisas se estes números fossem avançados para a Grécia dariam origem a imensos posts indignados no facebook. Não vejo como seja possível em Portugal, com a nossa cultura empresarial, financiar as empresas para formação de jovens sem que isso se tornasse num gigantesco modelo para criar trabalho barato. Para além do mais o sistema austríaco mascara o desemprego jovem:
    “Se tivermos disponibilidade financeira para pôr no terreno medidas muito variadas, pode-se ‘esconder’ muitas pessoas que, de outro modo, estariam desempregadas, reconhece Peter Dominkovits."
  4. O que se tentou fazer em Portugal nada tem a ver com a Áustria, apenas as partes más ou nem isso. Não há apoios ao emprego jovem e os cursos "vocacionais", só por se chamarem assim não vão absorver a eficácia do sistema austríaco. São uma cópia de fraca qualidade que não produz emprego nem formação específica de qualidade. Não há dinheiro para investir nem as empresas têm capacidade para oferecer emprego a quem quer que seja. Os estágios acabam por ser uma infindável fonte de trabalho gratuito ou pago pelo Estado. Para implementar um sistema destes tem de haver procura no mercado de trabalho (lembrar que na Áustria isto leva 500 anos). Em Portugal a única procura que existe é por trabalho gratuito. 
Em conclusão, é preciso ser muito inocente do ponto de vista político e educativo para se imaginar que se implementa um sistema destes em Portugal de um ano para o outro. Essa tentativa, desorganizada e sem fases definidas ou objetivos concretos vai degradar o sistema atual e acentuar a falta de mobilidade social já existente em Portugal com a agravante de que no nosso país acarreta uma grave assimetria económica. O nosso problema é sobretudo económico e cultural e não educativo. Aliás a fácil colocação no estrangeiro dos nossos profissionais é a prova disso mesmo.

Para reduzir o número de alunos a concorrer às Universidades o governo criou entraves à entrada aos alunos dos cursos profissionais ou vocacionais. Nuno Crato afirmou que queria metade dos jovens portugueses nestes percursos, daí se depreende que quer muito menos licenciados. Se em Portugal os licenciados têm mais emprego que os outros já se percebeu onde isto vai dar. Acentuam-se mais as diferenças. Por outro lado o discurso do ministro, contraditório ao modelo que ele próprio tenta implementar, vai no sentido de maior exigência e da crítica severa aos níveis de exigência científica do ensino português, atirando os percursos profissionais ou vocacionais para uma espécie de gueto educativo. O ministro acentua, com o seu discurso, o problema de imagem da formação vocacional que, por exemplo, já existe na Áustria e eles gostavam de resolver.

Não estamos preparados nem culturalmente (se alguma vez estivermos ou sequer se isso é desejável) nem economicamente para implementar o modelo austríaco. Um modelo baseado numa forte despesa pública e que ainda assim não promove a igualdade de oportunidades, instrumentalizando os mais pobres para as tarefas mais físicas e menos bem remuneradas. A austeridade moral dos germânicos e austríacos pode aceitar fardos sociais pesados com base na herança familiar mas isso não vai ser sempre assim e a coisa vai estourar mais cedo do que mais tarde.

quinta-feira, junho 11, 2015

O sociopata cheio de "connects".

O discurso de Cavaco Silva no 10 de junho é um lamentável repolho de equívocos que oscilam entre o elogio ao governo e a constatação de coisas que não existem. O líder daqueles que acusaram os portugueses de viverem acima das suas possibilidades, com salários dos mais baixos da Europa, enquanto os seus amigos pessoais (chamemos-lhes contactos) desbaratavam instituições bancárias, vem agora ditar objetivos económicos que nada respeitam aos cidadãos. A coesão social, as desigualdades económicas (que aumentaram nos últimos 4 anos), o equilíbrio no investimento e desenvolvimento regional (estamos hoje ainda mais centrados em Lisboa) e a remuneração justa pelo trabalho, ao nível europeu, deveriam ser os principais objetivos e não a cartilha de Angela Merkel em busca de números perdidos ignorando a pobreza que provoca a sua procura.
Em Lamego, no Douro, onde a pobreza ainda mata e qualquer alemão ficaria enojado com as condições de vida de muitas gentes nas aldeias, Cavaco vem-nos falar de inovação (obrigado Mariano Gago) e empreendedorismo depois de termos destruído milhares de empresas. Toda a política económica deste governo se suporta na compra de dívida pelo BCE. Toda! O resto é um rasto de destruição que só um sociopata não consegue ver. É importante lembrar que o crescimento não chega a metade da queda provocada pelas medidas de austeridade. E que o sucesso seria apenas se o fim das medidas fosse possível. Cavaco quer sucesso económico mas não necessariamente para os cidadãos. É o que se interpreta do seu discurso. É um presidente que se aproxima mais dos portugueses quando desmaia do que quando fala.

quinta-feira, março 19, 2015

Não sei se existe, mas se não existe passou a existir.

 
"Como funciona a lista VIP de contribuintes" no Económico.
 
"A gravação que trama o fisco" na Visão.
 
"Passos Coelho afirma que o Governo não sabia de nada" no PÚBLICO
 
Como tem sido habitual nesta governação, tudo o que se vai sabendo e descobrindo sobre as práticas imorais dos membros do governo é justificado com o esquecimento, desconhecimento ou até com a reinterpretação das palavras ditas. Em caso de pânico nega. Nega até ao fim. Se descoberto diz que não sabias. Em última análise pede desculpa e continua como se nada tivesse acontecido...
Em relação à tal lista VIP de contribuintes o mais cómico é que provavelmente não existe mesmo. Não porque não houvesse vontade ou mesmo o desejo de que existisse, até porque foi imaginada e por isso mesmo desejada. Mas o facto é que a lista e o controlo informático que lhe está associado simplesmente não precisam de existir para funcionar. A melhor vigilância é aquela que nem se sabe se existe. "Olha que o Nosso Senhor está sempre a ver!"
O objetivo da lista VIP de contribuintes da Autoridade Tributária é impor o sigilo fiscal mais a uns do que a outros, ou seja, ameaçar os funcionários das finanças, deixando claro que quem andar a bisbilhotar o histórico fiscal de certas figuras importantes está à pega. Para o resto da população estão mais à vontade.
Na verdade a simples ameaça pública de que tal lista existe desmotiva todo e qualquer funcionário da bisbilhotice fiscal aos cidadãos mais importantes de Portugal (sim, isso existe para a maioria dos portugueses). Os mesmos cidadãos que nós queríamos bisbilhotar, precisamente porque também têm mais a esconder. Não é necessário acrescentar que há interesses político/partidários envolvidos. Há sempre.
A esperteza do governo, aliada à sua incapacidade de implementar seja que sistema for que não implique aumento de impostos ou reduções remuneratórias, é perfeitamente possível que tal brilhantismo na proteção do sigilo fiscal nunca tenha saído do reino da ameaça. Mas é suficiente para a asneira estar feita.
É a imposição da nova regra "Olha para o que eu digo e ai de ti se olhas para o que eu faço!". Mas no actual estado de coisas são muito poucos os que entendem o que é a lista VIP (a maioria acredita provavelmente que diz respeito a descontos do fisco) e ainda menos os que discordam da sua existência, mesmo sem saberem que critérios presidiram à sua constituição ou sequer quem lá está.
Estão na moda o estado policial e a opacidade do estado. Á moda antiga como gostam os portugueses.

 

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Je Suis Charlie

 

Passei a minha vida toda a desenhar bonecos. Nunca o fiz profissionalmente porque a vida me conduziu noutros sentidos mas sempre percebi o poder dos bonecos desenhados. Tenho uma profunda admiração por todos aqueles que fazem do cartoon e desenho satírico a sua vida. Sobretudo aqueles, como os franceses do Charlie Hebdo, que fazem do desenho um campo de batalha pela liberdade de expressão, pela liberdade do humor.

A profissão de jornalista anda arrastada pelo chão por estes pragmáticos do lucro que promovem o trabalho escravo, sem condições, sem estabilidade e sem segurança. Por algum motivo é tão fácil raptar ou matar um jornalista. Os terroristas e mesmo as polícias e os governos de países civilizados têm zero de respeito por estes profissionais. Sobretudo o poder político que os manipula para proveito próprio. Não há liberdade verdadeiramente.

Os artistas também, por outro lado, são desacreditados e espalmados pela lógica do gosto único, surpreendentemente um princípio do marketing neoliberal. Ou alinham em lógicas parvas de mercado ou desaparecem. De modo algum devem provocar o "establishment". No Portugal democrático foram censurados músicos e artistas plásticos que usaram os símbolos da nação. Censura aclamada por elites conservadoras que hoje choram lágrimas de crocodilo. Ai de quem brinque com a fé dominante e com os seus líderes. Quando um cartonista brincou com um Papa foi um escândalo, quando era suposto ser apenas uma brincadeira crítica e inteligente. Os nossos censores não pegam em armas porque são uns piegas medrosos. Não se aguentam à porrada. Matam de outras maneiras.

Não podemos abdicar da nossa liberdade de desenhar o que quer que seja, de dizer o que quer que seja. Os cartonistas do Charlie Hebdo eram uns brincalhões, nunca fizeram mal a ninguém e ajudaram muitos a ver as coisas de outro modo, por outro lado, e dessa forma ajudaram o mundo a compreender-se um pouco melhor.

Estou com eles. Não vou ter medo de desenhar. Recuso-me a ter medo de desenhar porque, entre outras coisas, houve quem tivesse morrido a defender esse direito.

Obrigado Charlie Hebdo. Obrigado Wolinski, Charb, Tignous e Cabu. Vocês e todos os que defendem a liberdade de expressão são os únicos profetas.

No meu pinboard "Illustration" no Pinterest partilhei alguns desenhos destes artistas.

 

sexta-feira, setembro 26, 2014

Os ratos vão abandonando o navio.

Vamos diariamente acompanhando as notícias sobre o caso Tecnoforma e o envolvimento do primeiro ministro Passos Coelho. A Tecnoforma é uma referência para o "benchmarking" do tráfico de interesses e captação de dinheiros públicos do ponto de vista da direita conservadora portuguesa. Não há novidade nenhuma aqui e também toda a gente já percebeu que ninguém normal se esquece se recebeu ou não 150 mil euros quando ainda era um garoto. Passos diz que nunca recebeu nada. Ninguém pode provar o contrário. Quando disse que não se lembrava condenou-se.
Agora aparecem uns cronistas conservadores a condenar o primeiro ministro e a Tecnoforma. Como se a governação de Passos Coelho, que defenderam tantas vezes sem critério, tivesse sido a de outro primeiro ministro. Não foi. Foi a governação de um homem que defende interesses de poucos com o prejuízo de muitos. Que entende o Estado como uma vaca leiteira para abastecer os negócios dos amigalhaços, mas tem horror a que se pague a um desempregado um subsídio mensal que não chega a 10% do que ele, alegadamente, recebeu há 15 anos atrás para não fazer nada. Foi a governação de alguém que nunca foi competente para coisa nenhuma, mas sempre se sentiu acima de todos. Usado como charneira de negócios de um Secretário de Estado tão parolo que teve de mentir e dizer que era doutor. Secretário de Estado esse que defendeu até ao limite quando se provou ter aldrabado o currículo. Isto no mesmo circulo de pessoas que defendem a liberalização das regras laborais e a meritocracia absoluta.
Quando os cronistas conservadores começam a dar para trás é porque querem distância. Cheira-lhes mal. Estão a preparar um novo governador de interesses para que o leite não pare de jorrar das tetas da vaca do Estado. Não, não me deixo enganar por achaques de moralismo de pacote. Quando este senhor deu cabo da vida dos portugueses em troca de nada e estava a destruir meticulosamente a escola pública, o serviço nacional de saúde, a justiça e a proteção legal aos trabalhadores, enquanto distribuía "jobs" a "boys" do partido como se não houvesse amanhã para engordar o "governo mais pequeno de sempre", nessa altura estes arautos da moralidade autocolante usavam a sua eloquência para justificar o injustificável. Não, não me deixo enganar.
 

sexta-feira, junho 13, 2014

Mais vale uma P. do que um F.P.



Há contradições insanáveis na decisão sobre a contabilização de atividades criminosas no cálculo do PIB. Sei que não será um exclusivo do nosso país mas ainda assim deveremos refletir sobre que estado de alienação ética ou técnica promove este tipo de raciocínio. Ainda que algumas destas atividades pudessem, após algum debate e reflexão, ser descriminalizadas e tributadas sempre que exercidas dentro da lei, é difícil aceitar esta medida como lógica.
Sabemos bem que estes grandes números, como o PIB, têm uma relação cada vez menor com o bem estar dos cidadãos, com os números da pobreza ou outros. São indicadores que servem aos grandes negócios e às lógicas de acumulação capitalista. Nada mais.
Também sabemos que o PIB já refletia alguns negócios criminosos por via das atividades de alguns nacionalistas a militar nos bancos e nas grandes empresas, com ajuda da vista grossa dos reguladores e da justiça, por isso a prostituição e o tráfico de droga pouco melindram os princípios éticos da nossa inteligenza económica.
Será que amanhã a atividade da polícia no ataque ao crime irá ponderar o interesse económico do país? O Ministro da Administração Interna poderá ponderar na vantagem de usar despesa pública para atacar negócios que acrescentam ao Produto Interno Bruto do país. Para que servirá a ASAE? A única polícia do futuro será a polícia fiscal. A lembrar o Príncipe João da história de Robin Hood que sendo a única autoridade mais não fazia do que cobrar impostos aos pobres.
Por este andar vale mais a prostituição e o tráfico de droga do que a educação ou a saúde.
Alguns dirão que tudo que é circulação de dinheiro conta, mas eu lembro que um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento é uma justiça eficaz e abrangente fomenta a segurança e o investimento. Incluir no PIB o que foge à polícia é assumir a incapacidade de gestão e organização das atividades económicas de um país. É uma medida neoliberal imbecil fruto deste zeitgeist de cabelo ao vento no cabriolet e relativismo ético interesseiro.
Quem diria que o governo de direita mais moralista e conservador depois do 25 de abril iria comprometer tantos valores em troca de dinheiro?
A mim não me espanta muito...
 

quarta-feira, junho 11, 2014

O passado deles é o nosso presente.



A presunção, no discurso do Presidente, de que "soubemos vencer as adversidades de um tempo muito difícil", como se as adversidades fossem coisa do passado, "dos últimos três anos" e não se prolongassem ainda hoje ou se projetassem no futuro, é de um cinismo e insensibilidade social próprio de alguém que não foi talhado para representar um povo.
Depois de uma semana em que o Primeiro Ministro e seus acólitos nos brindaram com todo o tipo de birras, insultos e ameaças ao Tribunal Constitucional e à própria lei fundamental por não terem sido autorizados a baixar ainda mais os salários e as pensões, só por gozo alguém considera que as adversidades pertencem ao passado.
Depois de o INE provar que o PIB está novamente a recuar, que as exportações baixaram e a balança comercial está de novo desequilibrada só por calculismo político inadmissível alguém pode considerar a crise uma coisa do passado.
O passado do Presidente da República é o nosso presente e provavelmente o nosso futuro. Isto a acreditar nas palavras dos próprio Primeiro Ministro.
É por estas e por outras que quando o PR desmaia durante uma cerimónia ninguém se cala em respeito ao senhor. Porque ele nos falta ao respeito todos os dias, porque não cumpre o seu juramento, porque não é um de nós. A Presidência da República merece-nos o respeito de ser o alvo privilegiado dos mais importantes protestos. Se o programa de empobrecimento não parou por causa do mal de tantos porque pararia o protesto por uma simples indisposição de um?
Não lhe desejo a doença mas sei que ele também, na prática, não nos deseja a saúde.
 

sexta-feira, maio 23, 2014

Vote Noutro Qualquer!

Em véspera de eleições para o Parlamento Europeu, gostava de deixar um forte apelo ao voto. Ficar em casa é entregar o ouro ao bandido.
Como mensagem política, em final de campanha deixo aqui um pequeno guião em notícias reunido rapidamente mas que será esclarecedor:

 
"Merkel apoia Juncker para suceder a Barroso" Jornal de Negócios, 3 de fevereiro


"PSD critica PS e apoia Juncker" Correio da Manhã, 7 de março.


"Marcelo justifica voto na coligação só para eleger Juncker" Público, 20 de maio

 
"Merkel decide formação da Comissão Europeia antes das eleições"Jornali, 21 de maio


"Nicolas Sarkozy propõe fim da igualdade dos Estados na União Europeia" Expresso, 22 de maio


Faça como eu e VOTE NOUTRO QUALQUER!


domingo, maio 11, 2014

Andamos a contribuir para o porquinho deles...

Ajudas a Portugal e Grécia foram resgates aos bancos alemães Isabel Arriaga e Cunha (Bruxelas) in Público 11/05/2014 - 08:10
Já o tinha dito e afirmado logo no início da crise. O resgate foi uma transferência indireta para os cofres de bancos alemães e franceses. Agora vem alguém comprovar isso.
Não era difícil chegar a essa conclusão. Tudo o indicava.
Mas para além de percebermos que desde o início esta crise não foi culpa dos portugueses, mais importante, neste momento, é denunciar a fraude que é o sucesso do programa de ajustamento. É uma irresponsabilidade que roça a traição festejar este programa.
Diz Philippe Legrain ao Jornal Público:

"[...] a troika (de credores da zona euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas. Já é mau demais ter-se um patrão imperial porque não tem base democrática, mas é pior ainda quando este patrão lhe impõe o caminho errado. Isso tornou-se claro quando em vez de enfrentarem os problemas do sector bancário, a Europa entrou numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi claramente o que aconteceu em Portugal. As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa."

Philippe Legrain, ex-conselheiro do actual presidente da Comissão Europeia


sábado, abril 19, 2014

O sucesso de Nuno Crato.

(aviso: pode conter teorias da conspiração ou realidades inconvenientes)
Fonte: PÚBLICO e DGEEC.

O jornal Público noticia hoje, com dados do MEC, que o número de estudantes que, à saída do ensino secundário, declara querer prosseguir a sua formação entrando no ensino superior não tem parado de diminuir desde 2008. Avança ainda que as razões económicas são as mais apontadas para não querer continuar a estudar.

Conclui-se daqui que as medidas do MEC e de Nuno Crato estão a resultar em pleno. Reprodução social garantida pela seleção económica. Menos cidadãos habilitados a uma formação superior. O dinheiro e a formação dos pais como decisivos no futuro do aluno. A meritocracia aparente tinha de dar lugar a um sistema mais simples e garantido. Tem quem paga.

Se tornarmos o acesso ao ensino superior menos atrativo economicamente, ou pura e simplesmente impossível, dentro de pouco tempo voltaremos a ouvir frequentemente a frase "não tive dinheiro para estudar", um queixume não tão velho quanto isso. Com resultados muito maus para o país e aparentemente bons para a elite saudosista do fascismo (olha o Durão).

A crise económica, causada pela geração dos 45 para cima, também é fruto da sua falta de formação, não só técnica mas sobretudo ética e, ao contrário do que escreve a elite conservadora, nós temos andado para a frente em termos de qualidade na educação nos últimos anos. Estamos melhor hoje, todos os dados o comprovam. Querem a regressão porquê?

A mudança do projeto económico do país, assente em salários baixos e produção barata para investimento industrial estrangeiro, tinha de ser acompanhada pela criação de uma força operária barata, com pouca formação, essencialmente técnica, profissional e muito específica. Quanto menor a formação e mais específica mais dependente é o trabalhador do empregador, menor o salário, menores os custos de produção. Por isso se criaram os cursos vocacionais. Por isso andaram responsáveis alemães, juntamente com responsáveis do MEC, a apresentar este tipo de cursos. São os investidores estrangeiros os mais interessados na criação dessa força operária, pois é a garantia da diminuição dos custos do investimento e da maximização dos lucros.

Neste projeto económico o país encolhe (como tem sido defendido e exigido por tantos economistas inconscientes), reduz-se a arrecadação por via dos impostos, sejam sobre o consumo ou sobre os rendimentos, e torna-se impossível manter um Estado com um grau de proteção social ao cidadão suficiente. O governo desce os impostos sobre as empresas, em nome do crescimento, e os impostos sobre os cidadãos, apesar de mantidos elevados, não chegam para as encomendas fruto dos baixos rendimentos e fraco consumo.

Aumentam as diferenças entre ricos e pobres e gera-se uma aparência de riqueza, como em todas as ditaduras, investindo na capital da nação, escondendo-se os pobres debaixo do tapete. Seremos um caso de sucesso, tipo Brasil, mas um sucesso que os portugueses nem cheiram. Um país rico com cidadãos pobres. A invenção do neo-liberalismo.

O projeto para Portugal está desenhado. O papel do Ministério da Educação é um dos mais importantes e tem sido cumprido à risca. Sempre contando com o apoio involuntário dos portugueses que gostam pouco dos seus jovens e se esforçam demasiado (e de forma até infantil) para provar que são melhores do que os seus próprios filhos. É que vencer a ignorância e procurar o conhecimento, à escala de uma nação, é um obstáculo bem mais difícil de ultrapassar do que se imagina. Não se chega lá castigando os mais novos.

 

Se defende justiça e igualdade no acesso ao ensino superior assine está petição.

 

sábado, janeiro 11, 2014

A imoralidade dos Contratos de Emprego e Inserção

Não podia estar mais de acordo com o Daniel Oliveira sobre os Contratos de Emprego e Inserção.

"Estes desempregados trabalham, no período de um ano, para o Estado e para IPSS, com horários e deveres iguais aos restantes trabalhadores, em troca do subsídio a que já tinham direito e para o qual descontaram. A esse subsídio acresce um complemento de 20% do Indexante de Apoios Sociais, pago pela "entidade promotora" (assim é chamado o empregador), o que corresponde a 83 euros por mês, mais subsídio de transporte e alimentação. Sendo que a tal "bolsa mensal" de 83 euros é, quando as instituições "promotoras" são privadas, paga em 50% pelo Estado. No caso da CEI+ a responsabilidade financeira do Instituto de Emprego e Formação Profissional é de 90% e o trabalho é pago pelo valor total de 419 euros (correspondendo ao total do Indexante de Apoios Sociais). O que significa que o Estado e IPSS (que são apenas responsáveis pelo pagamento de 42 euros) contratam trabalhadores a tempo inteiro a receber abaixo do Salário Mínimo Nacional."

Já em 2012, neste mesmo blog, me tinha insurgido contra um texto de Rui Rio onde era glorificado o seu programa de ocupação de beneficiários do Rendimento Social de Inserção, qualificando-o eu na altura como imoral e ilegítimo.

Como subdiretor de uma escola pública que se vê obrigada a recorrer a Contratos de Emprego e Inserção para ter o serviço a funcionar normalmente, posso afirmar que estes trabalhadores demonstram, na maioria dos casos, uma inexcedível dedicação ao trabalho e à organização e se tornam muitas vezes absolutamente imprescindíveis ao fim de um ano. Trabalhadores que sabem que não terão nunca um vínculo à organização. Nada. É generosidade e capacidade de trabalho em estado puro.

Temos alguns trabalhadores na Soares dos Reis nesta situação. Os que não se dedicam tanto ao trabalho na escola é sempre porque percebem o lado perverso do programa e não porque sejam maus trabalhadores.

Os serviços da escola, tanto na área administrativa como na dos assistentes operacionais, têm uma falta de funcionários crónica, grave, e o problema é "tapado com a peneira" dos CEI ano após ano. Sem reflexão da tutela, sem abertura de lugares para contrato e sem qualquer tipo de verificação real por parte dos gestores do programa nos centros de emprego e nos serviços centrais da tutela para comprovar sequer a necessidade do posto de trabalho. Ninguém faz nada e todos aceitam esta ilegalidade. A escola está de mãos atadas. É ter CEIs ou fechar a porta.

Os centros de emprego exercem esta política com um sadismo e perversão ainda mais acentuados porque, mantendo o serviço a mesma necessidade no ano seguinte, proíbem a manutenção do trabalhador que desempenhou bem a função no mesmo posto de trabalho para o programa seguinte. Mesmo quando o trabalhador quer ficar e o serviço o QUER MANTER obrigam à rotação. O argumento prende-se com o cumprimento da lei que implica que os postos de trabalho ocupados nos programas não sejam de caráter permanente. Na verdade os programas são aprovados ano após ano e compreendem necessidades permanentes. Este cumprimento austero do programa, apenas para um dos lados, é prejudicial a todos e não é ponderado. Para que o trabalhador não se acomode sacrifica-se o serviço público e a função específica do posto de trabalho. É um processo de pressão e de depressão imposta ao trabalhador para que este se sinta indefeso e dependente dos serviços do centro de emprego.

Isto tudo para além da profunda imoralidade da coisa, do sistema de remuneração e do modelo de contratação como, MUITO BEM, referiu o Daniel Oliveira no seu texto.

Estes trabalhadores merecem um contrato de trabalho. Merecem condições justas de remuneração para as funções que exercem e merecem manter o posto de trabalho quando, havendo necessidade, o serviço os quer manter.

Quem não defender isto vale tanto como um qualquer latifundiário do sul da América na primeira metade do séc. XIX. E acreditem que, a ver pelos comentários a esta notícia no Expresso, temos muitos Calvin Candies no armário cá em Portugal.

Os CEI representam o imaginário utilitarista e desumano de gente como o futuro comissário europeu Paulo Portas. Mas apesar de ser esta uma das medidas que ele sempre reivindicou foram os socialistas a implementar pela primeira vez (julgo não estar errado). Serve isto para comprovar o estado de alienação e infiltração das ideias neo-liberais desumanas na sociedade portuguesa.

Flexibilidade máxima, segurança mínima e dependência burocrática centralista. Trabalho mal pago e pago com os direitos do próprio trabalhador o que é tão grave como obrigar a trabalhar um reformado pelo valor da pensão e tomar esse valor como um salário justo. Sem perspectiva de ver o seu mérito e esforço reconhecidos e sendo pago pelos seus próprios descontos esta solução moderna de engajar trabalhadores é uma solução muito pouco ética e que deveria ser considerada inconstitucional.

Os CEI não são empregos falsos, inventados, como querem imaginar os conservadores delirantes de má consciência mas de sono pesado. São necessidades levantadas pelos gestores dos serviços públicos para vagas quase sempre permanentes (o que é manifestamente ilegal mas é ignorado pelos serviços centrais e pelo governo). Viver bem com esta situação é não ter um pingo de ética ou humanidade. É um defeito de caráter. Não reconhecer isto é pura e simplesmente ser ignorante. Não podemos continuar a aceitar que o Estado trate o desempregado como alguém que merece um castigo, como um condenado do utilitarismo meritocrático do moderno mercado do trabalho.

Não esqueçamos que boa parte dos nossos governantes, deputados e demais moscas, devem os seus rendimentos e postos de trabalho apenas ao cartão do partido e à militância mais ou menos acrítica em favor dos seus financiadores e clientes de favores. Não há mérito nem conhecimento envolvidos no processo. Há sobretudo falta de pudor.

Os Contratos de Emprego e Inserção são um regime de escravatura e devem ser denunciados.

 

quarta-feira, dezembro 25, 2013

A encomenda ao Pai Natal

Ainda há poucos dias os "Gato Fedorento" nos brindaram com a mais profunda honestidade humorística e "tentaram" contratar Steven Seagal para, enfim, dar uma carga de porrada no Primeiro Ministro.

Muitas vozes se levantaram contra os "Gato Fedorento". Algumas, mais tristes, acusaram-nos de falta de piada. Impossível, neste caso. Outros, os do politicamente correcto, acusaram-nos de ser incorrectos. De apelar à violência.

Na verdade o que fizeram foi o mais simples humor político usando para isso um desejo (não tão secreto quanto isso) de uma boa parte dos portugueses. Claro que é necessário ter algum sentido de humor e ironia. Pagar a Seagal com azeite e pasteis de nata tem graça e ilustra, com imensa ironia, a descapitalização da nossa economia e como, em seu resultado, as nossas exportações ganham terreno na nossa balança comercial. Tudo normal.

Como é Natal imaginei que a mesma encomenda pudesse ser feita ao Pai Natal. E aqui está o desenho. Com uma pequenos acrescentos à versão publicada no dia 24 no meu Facebook.

O Natal, para mim, é estar em família, é uma trégua, um momento de partilha e generosidade. Lamento que cada vez menos portugueses possam ter um Feliz Natal à conta desta gente que nos governa. Não consigo ficar impávido e muito menos sereno perante o actual estado de coisas.

2014 vai ser pior para uma data de gente, para quase toda a gente. Será melhor apenas para aqueles para quem 2013 nem foi muito mau, ou foi mesmo bom. Para os do costume. Os que vivem do sistema, que o sugam como se não houvesse amanhã, literalmente. Esses, sem pudor, já anunciam o seu sucesso no meio de festejos enquanto empobrecem tudo quanto tocam.

Por isso não podemos abdicar do nosso sentido de humor, do nosso sentido crítico, da nossa liberdade de expressão. E que esse humor seja tão cáustico que envergonhe os sem vergonha. Contra tudo e contra todos se for preciso.

Feliz Natal.

 

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Crato o dominador ou o prazer lusitano da submissão.

A tradição centralista, conservadora e de submissão normativa tende, na cultura portuguesa, a naturalizar tanto as más como as boas práticas de modo indiferenciado. Basta, para o efeito que estejam devidamente normatizadas. A distância temporal e ideológica aos conceitos que estão na base de uma norma vão provocando uma deterioração na interpretação do seu cumprimento, tornando-se este um formalismo sem sentido e com objetivos e/ou resultados que podem, em última análise, ser contrários ao seu princípio inicial.

Tudo isto para dizer que, infelizmente, dentro de poucos anos a prova de acesso à carreira será romaria habitual para carneiros docentes enviados ao sacrifício.

A sociedade portuguesa adulta é pouco escolarizada, fruto de uma democracia pouco participativa e tardia. Sem sentido crítico vai aplaudindo estes laivos de Estado Novo revisitado. Exige-se sobre o outro o que não se exige a si próprio. Dificulta-se a vida ao mais novo com o falso argumento da eterna e infinita deterioração do ADN. Os mais jovens são sempre piores do que as gerações anteriores. Em tudo. "Antigamente é que era bom" como dizia o graffiti na parede da escola.

Agora que uns "moderados" venderam barato a dignidade dos jovens licenciados que estudaram para ser professores, o caminho está aberto a este processo de "naturalização" da prova. O ministro tem uma vitória entregue numa bandeja. O mesmo ministro que chama "pacote de medidas" a atirar exames para cima de qualquer problema. Um ministro de um governo chefiado por um mau aluno, um economista medíocre, sem currículo que não seja sacar uns subsídios numa empresa de formação que nunca deu formação a ninguém. O governo do Relvas. O governo que era dos técnicos geniais, os mesmos que já foram substituídos pelos lacaios partidários.

A mediocridade do governo, do ministro, das suas medidas, são fruto de uma naturalização da incompetência que o povo português aceita com facilidade.

Por isso, daqui por uns anos, em dezembro, haverá a habitual romaria dos contratados à prova de acesso à profissão docente e as escolas de professores ensinarão para a resolução dos problemas da prova, em vez de se debruçarem sobre o currículo ou sobre a pedagogia e a aprendizagem.

O sadismo insano de Nuno Crato, sobre os professores ou sobre os alunos, é visto como uma autoridade produtiva e necessária por um Portugal que cheira a mofo e bolas de naftalina e é patologicamente submisso. A FNE deu voz a esse Portugal e deu uma saída ao ministro que, sem oposição, vai paulatinamente destruindo a educação portuguesa.

 

Crato dominatrix ou o prazer lusitano da submissão.

A tradição centralista, conservadora e de submissão normativa tende, na cultura portuguesa, a naturalizar tanto as más como as boas práticas de modo indiferenciado. Basta, para o efeito que estejam devidamente normatizadas. A distância temporal e ideológica aos conceitos que estão na base de uma norma vão provocando uma deterioração na interpretação do seu cumprimento, tornando-se este um formalismo sem sentido e com objetivos e/ou resultados que podem, em última análise, ser contrários ao seu princípio inicial.

Tudo isto para dizer que, infelizmente, dentro de poucos anos a prova de acesso à carreira será romaria habitual para carneiros docentes enviados ao sacrifício.

A sociedade portuguesa adulta é pouco escolarizada, fruto de uma democracia pouco participativa e tardia. Sem sentido crítico vai aplaudindo estes laivos de Estado Novo revisitado. Exige-se sobre o outro o que não se exige a si próprio. Dificulta-se a vida ao mais novo com o falso argumento da eterna e infinita deterioração do ADN. Os mais jovens são sempre piores do que as gerações anteriores. Em tudo. "Antigamente é que era bom" como dizia o graffiti na parede da escola.

Agora que uns "moderados" venderam barato a dignidade dos jovens licenciados que estudaram para ser professores, o caminho está aberto a este processo de "naturalização" da prova. O ministro tem uma vitória entregue numa bandeja. O mesmo ministro que chama "pacote de medidas" a atirar exames para cima de qualquer problema. Um ministro de um governo chefiado por um mau aluno, um economista medíocre, sem currículo que não seja sacar uns subsídios numa empresa de formação que nunca deu formação a ninguém. O governo do Relvas. O governo que era dos técnicos geniais, os mesmos que já foram substituídos pelos lacaios partidários.

A mediocridade do governo, do ministro, das suas medidas, são fruto de uma naturalização da incompetência que o povo português aceita com facilidade.

Por isso, daqui por uns anos, em dezembro, haverá a habitual romaria dos contratados à prova de acesso à profissão docente e as escolas de professores ensinarão para a resolução dos problemas da prova, em vez de se debruçarem sobre o currículo ou sobre a pedagogia e a aprendizagem.

O sadismo insano de Nuno Crato, sobre os professores ou sobre os alunos, é visto como uma autoridade produtiva e necessária por um Portugal que cheira a mofo e bolas de naftalina e é patologicamente submisso. A FNE deu voz a esse Portugal e deu uma saída ao ministro que, sem oposição, vai paulatinamente destruindo a educação portuguesa.

 

sexta-feira, novembro 01, 2013

A Reforma do Estado e a Educação. (um rascunho)


"Reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor no novo estatuto do aluno. Concluíu-se um regime descentralizado de gestão escolar e a rede escolar teve de ser reordenada, tendo em conta as contingências demográficas e territoriais. Fez-se uma opção pública pela exigência, com a instituição de exames nacionais no final dos ciclos escolares, reforço do Português e da Matemática nos currículos e densificação nas metas curriculares." (Documento "Um Estado Melhor" p. 33) Descarregue neste link a totalidade do documento.

Alguém consegue detetar a incoerência?

Se "reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor" e se se concluiu "um regime descentralizado de gestão" acho curioso que no âmbito de tanta autonomia e descentralização se tenha tomado a opção "pública" pela "qualidade" para todo o sistema assente em medidas centralizadoras. Medidas como mais "exames nacionais", leram bem "nacionais", ou seja de conceção e execução centralizada, em ciclos iniciais do ensino e também o "reforço do Português e da Matemática nos currículos" igual para todo o país, sem olhar às especificidades dos teritórios educativos e das escolas. Ainda mais interessante é o conceito de "densificação nas metas curriculares". Muito bem aplicada o conceito de "densificação" porque se trata sobretudo de densificar e não de melhorar. Foram também essas metas decididas pelo Ministério de modo absolutamente centralizado. Se existe autonomia não é com certeza curricular ou na organização do processo ensino-aprendizagem.

Quer isto dizer que as políticas educativas do Estado, e deste governo em particular, anunciam e proclamam uma autonomia para depois tomarem decisões centralizadas, normatizando a diversidade educativa e esmagando as diferenças e especificidades num enorme almofariz burocrático. O argumento da qualidade, medida em unidades universais, não respeita nenhum tipo de diferenciação e homogeniza as soluções.

Hoje as escolas não têm autonomia para coisa nenhuma. Têm menos do que alguma vez tiveram. Currículos, organização do ano letivo, número de turmas, número de alunos por turma, tipos de cursos, professores, apoios, educação especial, funcionários ou até o refeitório. Para tudo isto existem plataformas com caixinhas onde os números devem encaixar e para tudo isto existem normas burocráticas a cumprir. As inspeções atentam ao cumprimento da lei e só isso, e não à satisfação e ao sucesso dos alunos.

O cumprimento de algumas destas normas tem sido, historicamente, desvalorizado pelas escolas. O controlo do Estado era fraco e assente sobretudo na leitura de resmas de papéis. O exercício de uma autonomia clandestina fez e faz ainda parte da vida das escolas portuguesas que foram encontrando soluções para problemas que fugiam à uniformidade das normas.

Hoje a implementação de um controlo apertado e implacável com recurso a multiplas aplicações informáticas, programadas para o normativismo, obriga ao cumprimento das normas e revela, em última análise, a impossibilidade prática do seu cumprimento por todos.

 

O documento "Um Estado Melhor" apresentado como um guião para a reforma do Estado faz um conjunto de propostas para a educação que merecem reflexão atenta e separada. É interessante realçar a preferência por modelos de gestão contratualizados, seja com as autarquias, com grupos de professores ou empresas privadas, numa lógica descentralizadora mas sempre enquadrada por conceitos de competitividade e concorrência profundamente perversos. Dizer que a "qualidade do ensino é um fator de concorrência saudável entre municípios" é aceitar a ideia de uma luta comercial por melhores alunos ou por melhores escolas em que os que ficam a perder ficam irremediavelmente para trás. No contexto dos territórios educativos parece-me completamente desadequada esta afirmação. Em educação a "concorrência" promove a exclusão social e a reprodução social. Os mais fortes, que é o mesmo que dizer os mais ricos, não deixam nunca de ganhar neste jogo viciado da "concorrência".

Neste sentido toda a lógica da proposta do governo assenta em pressupostos invertidos. De que é necessário, para gerir melhor, descentralizar e contratualizar mas que por outro lado para aumentar a qualidade é necessário centralizar os modelos de avaliação e densificar os currículos.

A autonomia que se promove é sobretudo a da responsabilidade jurídica e financeira e não a curricular, nas escolas na alçada do Estado. Por outro lado abre-se a porta ao aumento do financiamento direto (contratos de associação) e indireto (cheque ensino) do ensino privado apresentado como panaceia para o insucesso educativo, nunca provada na prática, e sem refletir sobre a despesa que esse mesmo financiamento vai implicar num contexto assumido de contração da procura e diminuição da capacidade de investimento do Estado. Os perigos da criação de um clientelismo oportunista no negócio educativo com efeitos irreversíveis na gestão da fatura pública da educação são demasiados. Já temos PPPs a mais. É de concluir que estas medidas vão sobretudo depender, em termos da sua eficácia financeira, de uma diminuição brutal das remunerações dos professores e de uma concorrência fraticida entre os mesmos. O resultado será sempre uma diminuição da qualidade em que mais uma vez a oferta "prime" vai ficar salvaguardada para aqueles que têm mais recursos.

Para terminar é importante destacar a afirmação de que "queremos, em breve, ter no ensino secundário cerca de 50% dos jovens em ofertas profissionalizantes, que permitam o acesso direto a uma profissão útil e necessária à sociedade, não deixando de permitir o prosseguimento de estudos". Esta afirmação, já feita anteriormente pelo Sr. Ministro da Educação, é particularmente interessante. Por um lado porque estes percursos profissionais são indicados, pelo mesmo ministério, para alunos com reiterado insucesso ou com algum grau de insucesso, caso dos vocacionais e dos profissionais respetivamente. Sendo assim dever-se-á concluir que se pretende atingir os 50% de insucesso, na leitura oficial. Talvez de modo a alterar a estrutura social do país e construir uma força de trabalho barata e qualificada apenas para o trabalho menos intelectual. Esta medida visa claramente aumentar a base da pirâmide social, mantendo o topo bem estreitinho e sempre com os mesmos. Por outro lado a igualdade de oportunidades prevista, porque estes cursos "não deixam de permitir o prosseguimento de estudos", é aniquilada pela criação de critérios injustos e impossíveis de superar como são os exames nacionais para alunos que frequentaram curriculos diferentes ou a construção de "médias" ponderadas que desvalorizam o trabalho prático dos alunos e os colocam em clara desvantagem.

O "Estado Melhor" é, enfim, melhor apenas para alguns. A eficácia é sobretudo no modo como se usa muitos para o benefício de poucos gastando menos. É baseado, pelo menos na educação, em lógicas neo-liberais de concorrência que garantem a reprodução social. Procura-se a diferenciação e a autonomia mas de maneira a permitir que o Estado patrocine o sucesso dos que já o garantiram pela via económica.

Pelas medidas até agora implementadas em dois anos de governação, pela escrita legislativa e pela atuação no controlo e gestão do sistema educativo somos inevitavelmente levados a desconfiar das intenções autonómicas e descentralizadoras do governo. O discurso da descentralização e da autonomia é aqui o alibi para a desresponsabilização política e financeira e para a introdução de uma agenda que pretende privatizar e dividir para reinar.

domingo, setembro 29, 2013

Hoje é dia de ir votar.

A vida é feita de muitas escolhas impossíveis, escolhas difíceis, táticas, arriscadas, corajosas. Mais ou menos inteligentes. Umas por vezes irrefletidas outras apenas mal preparadas. Algumas, dizem, mais vale ser o diabo a fazê-las. Mas uma escolha é sempre melhor do que uma não escolha. Do que uma demissão.

Participar no ato eleitoral de hoje e fazer as várias escolhas que nos propõem, é reivindicar a nossa casa, o nosso poder, muito ou pouco. É dizer que estamos aqui também para cumprir as nossas obrigações, para dizer com quem queremos trabalhar e pensar o futuro. Este país é nosso, não é "deles". Só vão para "lá" se nós quisermos, se nós deixarmos. Hoje a nossa participação vale tanto como a de qualquer outro português. Não há portugueses a valer mais e outros a valer menos. Valemos todos um. Não é todos os dias que isso acontece. Vamos aproveitar e vamos votar.

 

domingo, agosto 25, 2013

Morreu o economista António Borges.

Morreu o economista e conselheiro do governo António Borges.

A morte de alguém é sempre trágica mas não podemos esquecer que António Borges representou o pior que a economia tem para oferecer aos regimes democráticos contemporâneos. As políticas neo-liberais que praticou e defendeu são responsáveis por muita pobreza e infelicidade. O regime neo-liberal deu cabo do país, da Europa, das economias mundiais. A. Borges esteve demasiadas vezes nos centros de poder que orientaram estas políticas. Inclusive no banco de investimentos Goldman-Sachs.

A preocupação exclusiva pelo lucro privado e a crença (não tão inocente quanto isso) de que os mercados tudo nivelam e se auto-regulam provaram ser princípios que levam ao caos económico e beneficiam apenas os que já são ricos. O seu contributo para o país não foi uma mais valia. A sua troça pela pobreza do português comum não deve ser esquecida.

Portugal nada deve ao economista António Borges. Não vamos agora embarcar em agradecimentos porque nada lhe devemos. Portugal não perdeu nenhum intelectual importante, nenhum benfeitor, nenhum artista que tenha acrescentado à nossa riqueza cultural. Perdeu apenas um chefe de fila de um grupo de interesseiros que finge ter ideias globais para atingir objetivos privados e pessoais. Não merece lugar nenhum de destaque.

Infelizmente o poder político vai dizer o contrário e muita gente aparecerá a fazer o elogio do que nunca existiu.

Deve haver respeito pelo ser humano e pela família que com certeza sofre.

Nota: O cartoon desta noticia é uma alteração de um outro desenhado em Outubro de 2012

Para actualizar o post... No meu facebook:
"Os Bombeiros Portugueses que se amanhem. Não merecem condolências dos Portugueses, de acordo com o nosso Presidente.
Já A. Borges merece que o nosso Presidente apresente condolências em nome de todos nós. Está lá escrito "Em nome dos Portugueses e em meu nome pessoal". Pergunto-me se todos os académicos internacionalizados têm direito a este tratamento e se não haverá quem, pelo seu sacrifício para o bem de todos, não merece bem mais esta honra.
Para Cavaco Silva este senhor foi um dos "um dos economistas mais brilhantes da sua geração", sobretudo no modo absolutamente cego como procurou políticas de desregulação dos mercados com os efeitos que se conhecem, acrescento eu.
"Ambicionava um Portugal mais próspero e desenvolvido e nunca desistiu de lutar por esse ideal." Por isso mesmo advogava a diminuição dos salários dos portugueses. Sobretudo dos que já ganham menos. A prosperidade de que fala Cavaco deve ser apenas para aquele circulo de gente que anda a voar à volta do estado como as moscas e depois faz carreira universitária a dizer mal do mesmo.
O que vale é que já estamos habituados..."

quinta-feira, agosto 08, 2013

Porta aberta ao cheque-ensino e ao fim da escola pública.

Governo abre a porta ao cheque-ensino no básico e secundário.

Samuel Silva in Público de 8 de agosto de 2013

Aí está ele! Queriam saber porque é que se reduzem turmas nas escolas? Porque se criam exames e regras completamente parvas para acesso ao ensino superior nos cursos profissionalizantes, aqueles que obrigam a ter oficinas e equipamentos nas escolas? Está aí o cheque ensino.

Quer pôr o menino num colégio para fugir à rançosa escola pública? Sem problema, o Estado paga.

Aí está o maior golpe de mestre. O processo pelo qual a educação vai passar a ser um negócio de compra e venda de alunos e diplomas. O estado vai passar a patrocinar as escolas privadas, por via indireta, dando aos pais o dinheiro para gastar nos colégios. As escolas públicas nem sequer entregues a si próprias vão ficar. Isto porque não terão nenhuma autonomia. Número de alunos por turma, número de horas de aulas, número de turmas, autonomia na contratação de professores, currículos e métodos de ensino, tudo definido pelo Ministério.

Só faria verdadeiramente sentido o cheque educação se as escolas públicas tivessem mais autonomia e mesmo aí seria uma má medida educativa e económica. O que prova a irresponsabilidade e as más intenções do ministro Nuno Crato é o facto de vivermos o momento em que mais se centraliza na educação, tudo é decidido, tudo é controlado pelo MEC, muito mais do que alguma vez o foi na história da educação pública. É neste preciso momento que se dá a liberdade às famílias para fugir das más decisões do Ministério. Fuga paga pelo mesmo Ministério que criou as medidas que afugentam.

Esta decisão do cheque ensino não tem volta. Não há retorno desta decisão. Criará um clientelismo empresarial na educação que será impossível de reverter. Vai destruir a carreira docente, esvaziar escolas públicas com milhões em investimento em instalações (posteriormente e oportunamente vendidas ou concessionadas) e vai, com certeza, criar oportunidades de negócio para as novas "Modernas" ou "Lusófonas" mas agora no ensino secundário e patrocinadas pelo Estado, esse mesmo que tem imenso dinheiro para dar.

Como se entende que o mesmo Ministério que quer dar às famílias liberdade de escolha na escola ao mesmo tempo esteja a impor a redução do número de turmas em tantas escolas públicas com alunos já inscritos? Essa liberdade só é válida se for para o privado? Será essa a mensagem de Nuno Crato?

Nuno Crato e o PSD tinham um plano - Acabar com o ensino público e ajudar a pagar os colégios aos que procuram o privado. Vão conseguir porque toda a gente vai achar esta ideia o máximo. Quero ver quando as escolas públicas forem guetos de excluídos sociais como acontece nos países em que estas medidas foram aplicadas e as escolas privadas com a qualidade média de uma pública de hoje forem demasiado caras para a família mais modesta.

Nesse momento estes liberais vão acenar com o mercado e a natural seleção social que este faz como uma inevitabilidade económica e algo que devemos aceitar.

Os exames aos alunos, os exames aos professores, as metas, o aumento do número de alunos por turma, vai tudo conduzir ao mesmo objetivo. O que me entristece é que a sociedade portuguesa vai embarcar nesta catástrofe. Porque o sonho do português é ser rico e as medidas para os ricos vão-nos servir um dia... num futuro de sonho. Continue a jogar no Euromilhões e pode ser que um dia este governo lhe sirva para alguma coisa.