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domingo, julho 26, 2015

O sistema dual Austríaco serve a Portugal?


fonte: jornal Público de 26 de junho de 2015

Ao lermos esta notícia do Público sobre o sistema dual na Áustria ficamos inicialmente com a impressão de que encontramos o paraíso. Quando avançamos na notícia e, sobretudo, quando avançamos na interpretação do que representa o que está la escrito a imagem perfeita começa a desvanecer e uma outra bem diferente emerge. A tentação básica é imitar o "paraíso" mas rapidamente este modelo se pode tornar num "inferno". Vejamos: 
  1. O desenvolvimento industrial da Áustria é muito diferente do português e com ele desenvolveu-se este modelo de formação dentro das empresas. São cerca de 500 anos de história a ligar a formação industrial e as empresas. Por outro lado o mercado interno austríaco é muito mais pujante. É um país mais rico com uma economia mais forte e virada para dentro. As empresas têm uma cultura de formação diferente da nossa. Ou tinham. O modelo de mercado de trabalho neo-liberal implementado por toda a Europa vai estourar com a colocação de jovens nas empresas muito em breve e já há sinais disso. Os depoimentos na notícia mostram isso mesmo.
    “No passado, fazia-se a aprendizagem numa empresa e ficava-se lá a vida toda até à idade da reforma. Agora é como em toda a Europa, há uma maior mobilidade das pessoas”

    "é cada vez mais difícil encontrar empresas que aceitem aprendizes."
  2. Na sociedade austríaca o trabalho manual não é tão visto como trabalho menor em termos do seu estatuto social e a diferença salarial é menor. Por cá a nossa cultura impõe um olhar completamente diferente em termos sociais e os salários fazem muita diferença. O trabalho manual é uma condenação à pobreza e ninguém deseja ser pobre. Não se pode imaginar que alguém o aceite. Uma coisa está ligada à outra, a um menor estatuto corresponde um nível de recompensa salarial menor. Não é verdade que o mercado neo-liberal seja meritocrático ou reproduza a produtividade económica, ele é sobretudo preconceituoso e conservador. Tende a manter no poder os que já lá estão com o argumento da estabilidade. A Áustria já percebeu isso e o seu modelo é um forte entrave à mobilidade social. Os ricos mantêm-se ricos e vão ficando mais ricos e os outros amanham-se. As tensões criadas são insustentáveis e o modelo começa a quebrar e pede mudanças.
  3. O sistema austríaco é um sorvedouro de dinheiro público que qualquer troika consideraria impensável. Os subsídios de desemprego são altíssimos para jovens e um rendimento anual inferior a 30 mil euros fica isento de impostos. Bem vistas as coisas se estes números fossem avançados para a Grécia dariam origem a imensos posts indignados no facebook. Não vejo como seja possível em Portugal, com a nossa cultura empresarial, financiar as empresas para formação de jovens sem que isso se tornasse num gigantesco modelo para criar trabalho barato. Para além do mais o sistema austríaco mascara o desemprego jovem:
    “Se tivermos disponibilidade financeira para pôr no terreno medidas muito variadas, pode-se ‘esconder’ muitas pessoas que, de outro modo, estariam desempregadas, reconhece Peter Dominkovits."
  4. O que se tentou fazer em Portugal nada tem a ver com a Áustria, apenas as partes más ou nem isso. Não há apoios ao emprego jovem e os cursos "vocacionais", só por se chamarem assim não vão absorver a eficácia do sistema austríaco. São uma cópia de fraca qualidade que não produz emprego nem formação específica de qualidade. Não há dinheiro para investir nem as empresas têm capacidade para oferecer emprego a quem quer que seja. Os estágios acabam por ser uma infindável fonte de trabalho gratuito ou pago pelo Estado. Para implementar um sistema destes tem de haver procura no mercado de trabalho (lembrar que na Áustria isto leva 500 anos). Em Portugal a única procura que existe é por trabalho gratuito. 
Em conclusão, é preciso ser muito inocente do ponto de vista político e educativo para se imaginar que se implementa um sistema destes em Portugal de um ano para o outro. Essa tentativa, desorganizada e sem fases definidas ou objetivos concretos vai degradar o sistema atual e acentuar a falta de mobilidade social já existente em Portugal com a agravante de que no nosso país acarreta uma grave assimetria económica. O nosso problema é sobretudo económico e cultural e não educativo. Aliás a fácil colocação no estrangeiro dos nossos profissionais é a prova disso mesmo.

Para reduzir o número de alunos a concorrer às Universidades o governo criou entraves à entrada aos alunos dos cursos profissionais ou vocacionais. Nuno Crato afirmou que queria metade dos jovens portugueses nestes percursos, daí se depreende que quer muito menos licenciados. Se em Portugal os licenciados têm mais emprego que os outros já se percebeu onde isto vai dar. Acentuam-se mais as diferenças. Por outro lado o discurso do ministro, contraditório ao modelo que ele próprio tenta implementar, vai no sentido de maior exigência e da crítica severa aos níveis de exigência científica do ensino português, atirando os percursos profissionais ou vocacionais para uma espécie de gueto educativo. O ministro acentua, com o seu discurso, o problema de imagem da formação vocacional que, por exemplo, já existe na Áustria e eles gostavam de resolver.

Não estamos preparados nem culturalmente (se alguma vez estivermos ou sequer se isso é desejável) nem economicamente para implementar o modelo austríaco. Um modelo baseado numa forte despesa pública e que ainda assim não promove a igualdade de oportunidades, instrumentalizando os mais pobres para as tarefas mais físicas e menos bem remuneradas. A austeridade moral dos germânicos e austríacos pode aceitar fardos sociais pesados com base na herança familiar mas isso não vai ser sempre assim e a coisa vai estourar mais cedo do que mais tarde.

quinta-feira, junho 11, 2015

O sociopata cheio de "connects".

O discurso de Cavaco Silva no 10 de junho é um lamentável repolho de equívocos que oscilam entre o elogio ao governo e a constatação de coisas que não existem. O líder daqueles que acusaram os portugueses de viverem acima das suas possibilidades, com salários dos mais baixos da Europa, enquanto os seus amigos pessoais (chamemos-lhes contactos) desbaratavam instituições bancárias, vem agora ditar objetivos económicos que nada respeitam aos cidadãos. A coesão social, as desigualdades económicas (que aumentaram nos últimos 4 anos), o equilíbrio no investimento e desenvolvimento regional (estamos hoje ainda mais centrados em Lisboa) e a remuneração justa pelo trabalho, ao nível europeu, deveriam ser os principais objetivos e não a cartilha de Angela Merkel em busca de números perdidos ignorando a pobreza que provoca a sua procura.
Em Lamego, no Douro, onde a pobreza ainda mata e qualquer alemão ficaria enojado com as condições de vida de muitas gentes nas aldeias, Cavaco vem-nos falar de inovação (obrigado Mariano Gago) e empreendedorismo depois de termos destruído milhares de empresas. Toda a política económica deste governo se suporta na compra de dívida pelo BCE. Toda! O resto é um rasto de destruição que só um sociopata não consegue ver. É importante lembrar que o crescimento não chega a metade da queda provocada pelas medidas de austeridade. E que o sucesso seria apenas se o fim das medidas fosse possível. Cavaco quer sucesso económico mas não necessariamente para os cidadãos. É o que se interpreta do seu discurso. É um presidente que se aproxima mais dos portugueses quando desmaia do que quando fala.

sexta-feira, junho 13, 2014

Mais vale uma P. do que um F.P.



Há contradições insanáveis na decisão sobre a contabilização de atividades criminosas no cálculo do PIB. Sei que não será um exclusivo do nosso país mas ainda assim deveremos refletir sobre que estado de alienação ética ou técnica promove este tipo de raciocínio. Ainda que algumas destas atividades pudessem, após algum debate e reflexão, ser descriminalizadas e tributadas sempre que exercidas dentro da lei, é difícil aceitar esta medida como lógica.
Sabemos bem que estes grandes números, como o PIB, têm uma relação cada vez menor com o bem estar dos cidadãos, com os números da pobreza ou outros. São indicadores que servem aos grandes negócios e às lógicas de acumulação capitalista. Nada mais.
Também sabemos que o PIB já refletia alguns negócios criminosos por via das atividades de alguns nacionalistas a militar nos bancos e nas grandes empresas, com ajuda da vista grossa dos reguladores e da justiça, por isso a prostituição e o tráfico de droga pouco melindram os princípios éticos da nossa inteligenza económica.
Será que amanhã a atividade da polícia no ataque ao crime irá ponderar o interesse económico do país? O Ministro da Administração Interna poderá ponderar na vantagem de usar despesa pública para atacar negócios que acrescentam ao Produto Interno Bruto do país. Para que servirá a ASAE? A única polícia do futuro será a polícia fiscal. A lembrar o Príncipe João da história de Robin Hood que sendo a única autoridade mais não fazia do que cobrar impostos aos pobres.
Por este andar vale mais a prostituição e o tráfico de droga do que a educação ou a saúde.
Alguns dirão que tudo que é circulação de dinheiro conta, mas eu lembro que um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento é uma justiça eficaz e abrangente fomenta a segurança e o investimento. Incluir no PIB o que foge à polícia é assumir a incapacidade de gestão e organização das atividades económicas de um país. É uma medida neoliberal imbecil fruto deste zeitgeist de cabelo ao vento no cabriolet e relativismo ético interesseiro.
Quem diria que o governo de direita mais moralista e conservador depois do 25 de abril iria comprometer tantos valores em troca de dinheiro?
A mim não me espanta muito...
 

domingo, maio 11, 2014

Andamos a contribuir para o porquinho deles...

Ajudas a Portugal e Grécia foram resgates aos bancos alemães Isabel Arriaga e Cunha (Bruxelas) in Público 11/05/2014 - 08:10
Já o tinha dito e afirmado logo no início da crise. O resgate foi uma transferência indireta para os cofres de bancos alemães e franceses. Agora vem alguém comprovar isso.
Não era difícil chegar a essa conclusão. Tudo o indicava.
Mas para além de percebermos que desde o início esta crise não foi culpa dos portugueses, mais importante, neste momento, é denunciar a fraude que é o sucesso do programa de ajustamento. É uma irresponsabilidade que roça a traição festejar este programa.
Diz Philippe Legrain ao Jornal Público:

"[...] a troika (de credores da zona euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas. Já é mau demais ter-se um patrão imperial porque não tem base democrática, mas é pior ainda quando este patrão lhe impõe o caminho errado. Isso tornou-se claro quando em vez de enfrentarem os problemas do sector bancário, a Europa entrou numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi claramente o que aconteceu em Portugal. As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa."

Philippe Legrain, ex-conselheiro do actual presidente da Comissão Europeia


terça-feira, maio 06, 2014

Os alunos não são atletas mas podem ser todos vencedores



Inovação, Democratização e Imaginação são os três factores fundamentais para a melhoria constante dos recordes desportivos. David Epstein demonstra, nesta conferência TED, como a única coisa que se transformou para que o ser humano atinja novos máximos físicos foi o seu querer, o seu engenho tecnológico, o seu conhecimento científico, a sua vontade de treinar e a oportunidade de cada um ser diferente ou de tirar partido da sua diferença.
Enquanto ouço David Epstein vou refletindo sobre como o sucesso educativo depende dos mesmos fatores. Da nossa capacidade de conhecer melhor os alunos e o seu modo de aprender, da tecnologia que usamos para os ensinar, das expectativas que vamos semeando nas suas cabeças e que fomentam o seu querer e, muito importante, do respeito que devemos ter pelas diferenças entre os alunos e como elas representam potenciais diferentes e não necessariamente dificuldades de aprendizagem ou de adaptação. Se a sociedade e o poder político de hoje olhasse de um modo mais humano, mais pragmático e mais científico para a educação estaria a potenciar todos os alunos em vez de fazer uma cínica e cuidadosa seleção social, com objetivos políticos e económicos. 
Os professores, em contacto direto e humano com os seus alunos, vão acreditando no seu potencial e vão remando contra a maré sistémica que parece querer garantir que muitos trabalhem barato para o benefício de muito poucos. 
Reconhecer a hipocrisia embutida nos sistemas de seleção falsamente meritocráticos em que se tornaram os sistemas educativos modernos é um primeiro passo para a construção de soluções eficazes e para o cumprimento cabal da declaração dos direitos da criança e da declaração dos direitos do homem.
Se pensarmos bem e se quisermos trabalhar bem, todas as escolas podem ser escolas de sucesso e todos os alunos podem ter direito ao seu sucesso educativo. 
Agora imaginem uma economia assente no sucesso de cada cidadão em vez de uma economia assente na desvalorização do trabalho, na desescolarização das aprendizagens (querem empresas a ensinar alunos, não é?) e com a finalidade única do aumento do lucro corporativo. É utópico apenas na medida em que é realizável. Um sistema educativo eficaz é uma distopia para o capitalismo neoliberal que se instalou na Europa. Porque não promove a exploração do trabalho barato, fruto de uma fraca educação, e nesse sentido não contribui para a diminuição dos custos de produção e provoca, necessariamente, uma diminuição do lucro corporativo, hoje a medida de todas as coisas quanto à saúde financeira de um Estado.

sábado, abril 19, 2014

O sucesso de Nuno Crato.

(aviso: pode conter teorias da conspiração ou realidades inconvenientes)
Fonte: PÚBLICO e DGEEC.

O jornal Público noticia hoje, com dados do MEC, que o número de estudantes que, à saída do ensino secundário, declara querer prosseguir a sua formação entrando no ensino superior não tem parado de diminuir desde 2008. Avança ainda que as razões económicas são as mais apontadas para não querer continuar a estudar.

Conclui-se daqui que as medidas do MEC e de Nuno Crato estão a resultar em pleno. Reprodução social garantida pela seleção económica. Menos cidadãos habilitados a uma formação superior. O dinheiro e a formação dos pais como decisivos no futuro do aluno. A meritocracia aparente tinha de dar lugar a um sistema mais simples e garantido. Tem quem paga.

Se tornarmos o acesso ao ensino superior menos atrativo economicamente, ou pura e simplesmente impossível, dentro de pouco tempo voltaremos a ouvir frequentemente a frase "não tive dinheiro para estudar", um queixume não tão velho quanto isso. Com resultados muito maus para o país e aparentemente bons para a elite saudosista do fascismo (olha o Durão).

A crise económica, causada pela geração dos 45 para cima, também é fruto da sua falta de formação, não só técnica mas sobretudo ética e, ao contrário do que escreve a elite conservadora, nós temos andado para a frente em termos de qualidade na educação nos últimos anos. Estamos melhor hoje, todos os dados o comprovam. Querem a regressão porquê?

A mudança do projeto económico do país, assente em salários baixos e produção barata para investimento industrial estrangeiro, tinha de ser acompanhada pela criação de uma força operária barata, com pouca formação, essencialmente técnica, profissional e muito específica. Quanto menor a formação e mais específica mais dependente é o trabalhador do empregador, menor o salário, menores os custos de produção. Por isso se criaram os cursos vocacionais. Por isso andaram responsáveis alemães, juntamente com responsáveis do MEC, a apresentar este tipo de cursos. São os investidores estrangeiros os mais interessados na criação dessa força operária, pois é a garantia da diminuição dos custos do investimento e da maximização dos lucros.

Neste projeto económico o país encolhe (como tem sido defendido e exigido por tantos economistas inconscientes), reduz-se a arrecadação por via dos impostos, sejam sobre o consumo ou sobre os rendimentos, e torna-se impossível manter um Estado com um grau de proteção social ao cidadão suficiente. O governo desce os impostos sobre as empresas, em nome do crescimento, e os impostos sobre os cidadãos, apesar de mantidos elevados, não chegam para as encomendas fruto dos baixos rendimentos e fraco consumo.

Aumentam as diferenças entre ricos e pobres e gera-se uma aparência de riqueza, como em todas as ditaduras, investindo na capital da nação, escondendo-se os pobres debaixo do tapete. Seremos um caso de sucesso, tipo Brasil, mas um sucesso que os portugueses nem cheiram. Um país rico com cidadãos pobres. A invenção do neo-liberalismo.

O projeto para Portugal está desenhado. O papel do Ministério da Educação é um dos mais importantes e tem sido cumprido à risca. Sempre contando com o apoio involuntário dos portugueses que gostam pouco dos seus jovens e se esforçam demasiado (e de forma até infantil) para provar que são melhores do que os seus próprios filhos. É que vencer a ignorância e procurar o conhecimento, à escala de uma nação, é um obstáculo bem mais difícil de ultrapassar do que se imagina. Não se chega lá castigando os mais novos.

 

Se defende justiça e igualdade no acesso ao ensino superior assine está petição.

 

sábado, janeiro 11, 2014

A imoralidade dos Contratos de Emprego e Inserção

Não podia estar mais de acordo com o Daniel Oliveira sobre os Contratos de Emprego e Inserção.

"Estes desempregados trabalham, no período de um ano, para o Estado e para IPSS, com horários e deveres iguais aos restantes trabalhadores, em troca do subsídio a que já tinham direito e para o qual descontaram. A esse subsídio acresce um complemento de 20% do Indexante de Apoios Sociais, pago pela "entidade promotora" (assim é chamado o empregador), o que corresponde a 83 euros por mês, mais subsídio de transporte e alimentação. Sendo que a tal "bolsa mensal" de 83 euros é, quando as instituições "promotoras" são privadas, paga em 50% pelo Estado. No caso da CEI+ a responsabilidade financeira do Instituto de Emprego e Formação Profissional é de 90% e o trabalho é pago pelo valor total de 419 euros (correspondendo ao total do Indexante de Apoios Sociais). O que significa que o Estado e IPSS (que são apenas responsáveis pelo pagamento de 42 euros) contratam trabalhadores a tempo inteiro a receber abaixo do Salário Mínimo Nacional."

Já em 2012, neste mesmo blog, me tinha insurgido contra um texto de Rui Rio onde era glorificado o seu programa de ocupação de beneficiários do Rendimento Social de Inserção, qualificando-o eu na altura como imoral e ilegítimo.

Como subdiretor de uma escola pública que se vê obrigada a recorrer a Contratos de Emprego e Inserção para ter o serviço a funcionar normalmente, posso afirmar que estes trabalhadores demonstram, na maioria dos casos, uma inexcedível dedicação ao trabalho e à organização e se tornam muitas vezes absolutamente imprescindíveis ao fim de um ano. Trabalhadores que sabem que não terão nunca um vínculo à organização. Nada. É generosidade e capacidade de trabalho em estado puro.

Temos alguns trabalhadores na Soares dos Reis nesta situação. Os que não se dedicam tanto ao trabalho na escola é sempre porque percebem o lado perverso do programa e não porque sejam maus trabalhadores.

Os serviços da escola, tanto na área administrativa como na dos assistentes operacionais, têm uma falta de funcionários crónica, grave, e o problema é "tapado com a peneira" dos CEI ano após ano. Sem reflexão da tutela, sem abertura de lugares para contrato e sem qualquer tipo de verificação real por parte dos gestores do programa nos centros de emprego e nos serviços centrais da tutela para comprovar sequer a necessidade do posto de trabalho. Ninguém faz nada e todos aceitam esta ilegalidade. A escola está de mãos atadas. É ter CEIs ou fechar a porta.

Os centros de emprego exercem esta política com um sadismo e perversão ainda mais acentuados porque, mantendo o serviço a mesma necessidade no ano seguinte, proíbem a manutenção do trabalhador que desempenhou bem a função no mesmo posto de trabalho para o programa seguinte. Mesmo quando o trabalhador quer ficar e o serviço o QUER MANTER obrigam à rotação. O argumento prende-se com o cumprimento da lei que implica que os postos de trabalho ocupados nos programas não sejam de caráter permanente. Na verdade os programas são aprovados ano após ano e compreendem necessidades permanentes. Este cumprimento austero do programa, apenas para um dos lados, é prejudicial a todos e não é ponderado. Para que o trabalhador não se acomode sacrifica-se o serviço público e a função específica do posto de trabalho. É um processo de pressão e de depressão imposta ao trabalhador para que este se sinta indefeso e dependente dos serviços do centro de emprego.

Isto tudo para além da profunda imoralidade da coisa, do sistema de remuneração e do modelo de contratação como, MUITO BEM, referiu o Daniel Oliveira no seu texto.

Estes trabalhadores merecem um contrato de trabalho. Merecem condições justas de remuneração para as funções que exercem e merecem manter o posto de trabalho quando, havendo necessidade, o serviço os quer manter.

Quem não defender isto vale tanto como um qualquer latifundiário do sul da América na primeira metade do séc. XIX. E acreditem que, a ver pelos comentários a esta notícia no Expresso, temos muitos Calvin Candies no armário cá em Portugal.

Os CEI representam o imaginário utilitarista e desumano de gente como o futuro comissário europeu Paulo Portas. Mas apesar de ser esta uma das medidas que ele sempre reivindicou foram os socialistas a implementar pela primeira vez (julgo não estar errado). Serve isto para comprovar o estado de alienação e infiltração das ideias neo-liberais desumanas na sociedade portuguesa.

Flexibilidade máxima, segurança mínima e dependência burocrática centralista. Trabalho mal pago e pago com os direitos do próprio trabalhador o que é tão grave como obrigar a trabalhar um reformado pelo valor da pensão e tomar esse valor como um salário justo. Sem perspectiva de ver o seu mérito e esforço reconhecidos e sendo pago pelos seus próprios descontos esta solução moderna de engajar trabalhadores é uma solução muito pouco ética e que deveria ser considerada inconstitucional.

Os CEI não são empregos falsos, inventados, como querem imaginar os conservadores delirantes de má consciência mas de sono pesado. São necessidades levantadas pelos gestores dos serviços públicos para vagas quase sempre permanentes (o que é manifestamente ilegal mas é ignorado pelos serviços centrais e pelo governo). Viver bem com esta situação é não ter um pingo de ética ou humanidade. É um defeito de caráter. Não reconhecer isto é pura e simplesmente ser ignorante. Não podemos continuar a aceitar que o Estado trate o desempregado como alguém que merece um castigo, como um condenado do utilitarismo meritocrático do moderno mercado do trabalho.

Não esqueçamos que boa parte dos nossos governantes, deputados e demais moscas, devem os seus rendimentos e postos de trabalho apenas ao cartão do partido e à militância mais ou menos acrítica em favor dos seus financiadores e clientes de favores. Não há mérito nem conhecimento envolvidos no processo. Há sobretudo falta de pudor.

Os Contratos de Emprego e Inserção são um regime de escravatura e devem ser denunciados.

 

quarta-feira, dezembro 25, 2013

A encomenda ao Pai Natal

Ainda há poucos dias os "Gato Fedorento" nos brindaram com a mais profunda honestidade humorística e "tentaram" contratar Steven Seagal para, enfim, dar uma carga de porrada no Primeiro Ministro.

Muitas vozes se levantaram contra os "Gato Fedorento". Algumas, mais tristes, acusaram-nos de falta de piada. Impossível, neste caso. Outros, os do politicamente correcto, acusaram-nos de ser incorrectos. De apelar à violência.

Na verdade o que fizeram foi o mais simples humor político usando para isso um desejo (não tão secreto quanto isso) de uma boa parte dos portugueses. Claro que é necessário ter algum sentido de humor e ironia. Pagar a Seagal com azeite e pasteis de nata tem graça e ilustra, com imensa ironia, a descapitalização da nossa economia e como, em seu resultado, as nossas exportações ganham terreno na nossa balança comercial. Tudo normal.

Como é Natal imaginei que a mesma encomenda pudesse ser feita ao Pai Natal. E aqui está o desenho. Com uma pequenos acrescentos à versão publicada no dia 24 no meu Facebook.

O Natal, para mim, é estar em família, é uma trégua, um momento de partilha e generosidade. Lamento que cada vez menos portugueses possam ter um Feliz Natal à conta desta gente que nos governa. Não consigo ficar impávido e muito menos sereno perante o actual estado de coisas.

2014 vai ser pior para uma data de gente, para quase toda a gente. Será melhor apenas para aqueles para quem 2013 nem foi muito mau, ou foi mesmo bom. Para os do costume. Os que vivem do sistema, que o sugam como se não houvesse amanhã, literalmente. Esses, sem pudor, já anunciam o seu sucesso no meio de festejos enquanto empobrecem tudo quanto tocam.

Por isso não podemos abdicar do nosso sentido de humor, do nosso sentido crítico, da nossa liberdade de expressão. E que esse humor seja tão cáustico que envergonhe os sem vergonha. Contra tudo e contra todos se for preciso.

Feliz Natal.

 

domingo, agosto 25, 2013

Morreu o economista António Borges.

Morreu o economista e conselheiro do governo António Borges.

A morte de alguém é sempre trágica mas não podemos esquecer que António Borges representou o pior que a economia tem para oferecer aos regimes democráticos contemporâneos. As políticas neo-liberais que praticou e defendeu são responsáveis por muita pobreza e infelicidade. O regime neo-liberal deu cabo do país, da Europa, das economias mundiais. A. Borges esteve demasiadas vezes nos centros de poder que orientaram estas políticas. Inclusive no banco de investimentos Goldman-Sachs.

A preocupação exclusiva pelo lucro privado e a crença (não tão inocente quanto isso) de que os mercados tudo nivelam e se auto-regulam provaram ser princípios que levam ao caos económico e beneficiam apenas os que já são ricos. O seu contributo para o país não foi uma mais valia. A sua troça pela pobreza do português comum não deve ser esquecida.

Portugal nada deve ao economista António Borges. Não vamos agora embarcar em agradecimentos porque nada lhe devemos. Portugal não perdeu nenhum intelectual importante, nenhum benfeitor, nenhum artista que tenha acrescentado à nossa riqueza cultural. Perdeu apenas um chefe de fila de um grupo de interesseiros que finge ter ideias globais para atingir objetivos privados e pessoais. Não merece lugar nenhum de destaque.

Infelizmente o poder político vai dizer o contrário e muita gente aparecerá a fazer o elogio do que nunca existiu.

Deve haver respeito pelo ser humano e pela família que com certeza sofre.

Nota: O cartoon desta noticia é uma alteração de um outro desenhado em Outubro de 2012

Para actualizar o post... No meu facebook:
"Os Bombeiros Portugueses que se amanhem. Não merecem condolências dos Portugueses, de acordo com o nosso Presidente.
Já A. Borges merece que o nosso Presidente apresente condolências em nome de todos nós. Está lá escrito "Em nome dos Portugueses e em meu nome pessoal". Pergunto-me se todos os académicos internacionalizados têm direito a este tratamento e se não haverá quem, pelo seu sacrifício para o bem de todos, não merece bem mais esta honra.
Para Cavaco Silva este senhor foi um dos "um dos economistas mais brilhantes da sua geração", sobretudo no modo absolutamente cego como procurou políticas de desregulação dos mercados com os efeitos que se conhecem, acrescento eu.
"Ambicionava um Portugal mais próspero e desenvolvido e nunca desistiu de lutar por esse ideal." Por isso mesmo advogava a diminuição dos salários dos portugueses. Sobretudo dos que já ganham menos. A prosperidade de que fala Cavaco deve ser apenas para aquele circulo de gente que anda a voar à volta do estado como as moscas e depois faz carreira universitária a dizer mal do mesmo.
O que vale é que já estamos habituados..."

quinta-feira, julho 18, 2013

Porque duplicam os lucros do Goldman Sachs em plena crise bancária?

Lloyd Blankfein é o CEO do Goldman Sachs.

A "austeridade" é o processo que os "mercados" inventaram para financiar o lucro dos bancos de investimento como o Goldman Sachs que agora se noticia. Com a ajuda preciosa de clientes e colaboradores, colocados em cargos políticos com grande poder, estes "bancos" vão manipulando as finanças dos países através da especulação sobre os juros da dívida e aproveitando as oportunidades de negócio criadas pelas privatizações dos negócios públicos mais rentáveis. Essas privatizações são impostas por intermédio da chantagem política dos seus agentes colocados por todo o mundo em organismos como o FMI, o BCE, a Comissão Europeia ou mesmo dentro dos governos dos países.

O aumento de impostos e a poupança gerada pelo emagrecimento forçado dos Estados permite o pagamento de juros altíssimos. Esses mesmos juros que nos são vendidos pelos média como resultado da "incapacidade produtiva" dos povos e do demérito das suas economias.

A nossa pobreza financia diretamente a acumulação de capital desta "gente".

O que irrita mais é o facto de os nossos políticos continuarem a promover o enriquecimento destas mega-instituições sem aparente contradição pública dos muitos "especialistas" que vão cuspindo palavras nas TVs e nos jornais.

Nós vivemos acima das nossas possibilidades, eles não.

Os Antónios Borges, os Medinas Carreiras, os Coutos dos Santos, os Gaspares e muitos outros são os porta-voz da limpeza moral que se está a promover via este estrangulamento económico.

Em primeiro lugar convence-se os portugueses, diariamente pelas televisões, de que são uns miseráveis improdutivos. Que vivem acima das suas possibilidades.

Depois desvia-se o dinheiro produto da poupança nos salários e do aumento dos impostos para o pagamento da dívida enorme que se acumula por intermédio do aumento de juros explosivo e por meio da influência política na promoção de negócios ruinosos como foi o caso dos Swaps.

Pior ainda, o prejuízo dos bancos falidos por causa do estrangulamento que os mega-bancos exercem sobre outros mais pequenos ou apenas porque a insustentabilidade do seu negócio é por demais evidente é pago pelos contribuintes.

Perante isto é cómico/trágico o modo como se construiu uma ilusão coletiva que faz de qualquer um ser racional, que se revolta contra este estado corrupto das coisas, um comunista, um criminoso, um despesista desprovido de inteligência.

Tanta burrice travestida de conhecimento só convence os povos menos educados... é o nosso caso.

quarta-feira, julho 03, 2013

Marcelo, os comentadores e a "narrativa" do armagedão económico.

Ouvi ontem Marcelo na TVI, num comentário especial por telefone, falar da irresponsabilidade de Portas e da sua substituição no PP. Está visto que está choné. Acredita num governo até ao fim da legislatura com Assunção Cristas como líder do PP. Gargalhada total! Entretanto os ministros do PP já preparam a saída, fieis ao líder.

Também diz uma mentira grave, como já é habitual. Diz que a situação económica se agravou porque Portas saiu. É mentira! É mentira porque nada mudou na economia portuguesa de ontem para hoje. Continua tão miserável como Gaspar fez questão de a deixar.

É a narrativa do desespero. E este é só o episódio piloto de uma série muito longa.

Lá fora os suspeitos do costume, na comissão europeia ou no governo alemão, ameaçam já o próximo primeiro ministro. Tal é o desejo de nos ver no chão.

Um novo governo é uma situação normal em qualquer país. A Europa agora é que diz quem pode ou não pode ser governo? Que treta. Os governos europeus do norte querem suspender a democracia no sul para continuar a gerir, por intermédio de uns quantos Passos Coelhos, os seus interesses económicos e proteger o seu domínio na liderança política e económica da Europa.

Passos Coelho alinha nesta ideia. Sem ele a Europa deixa de acreditar em nós. Mas porquê? A Europa sabe tão bem como nós quão miserável é Passos Coelho como primeiro ministro. Outro qualquer fará, na pior das hipóteses, tão mau quanto ele.

Os mercados tremem com a democracia. Mas que regime é este que especula sobre a democracia. Em que os povos são intimados a escolher governos que protejam os interesses dos donos do dinheiro. Sob ameaça de falta de financiamento. Tudo no mundo é financiado. Tudo gira à volta da circulação do dinheiro, à volta dos bancos, das bolsas e mercados de bens, mas sobretudo de capitais.

Ontem mesmo, nos últimos minutos, subiram juros da dívida, desceram cotações da bolsa daqui até Berlim. Só faltou dizerem que tinham morrido todas as borboletas na China. Esta volatilidade é completamente parva e só mostra como o sistema é instável e especulativo e precisa de uma séria reforma. Aceitar estas consequências como inevitáveis é aceitar sermos escravos da estupidez, é aceitar sermos condenado à pobreza e ao endividamento eterno.

A narrativa de que a desgraça económica, um verdadeiro armagedão, virá se houver eleições vai tentar os portugueses nas vozes de Marcelo, do próprio Passos ou dos habituais comentadores "especialistas" para quem o crónico cagaço dos mercados justifica tudo.

É preciso contrariar este discurso. O melhor para a economia é dar a voz a quem vota. As teorias económicas dos liberais, defensores da ditadura do mercado, conduzem sempre ao autoritarismo e à subserviência da democracia às lógicas perversas da acumulação do capital.

É preciso um governo novo, forte, com consensos partidários que envolvam a defesa da dignidade do Estado e dos cidadãos contra os interesses totalitários da Europa. Não há espaço hoje para uma ideologia de direita que defende o status quo e os interesses dos grupos financeiros acima das pessoas. Há sempre dinheiro para o que é preciso. Depende agora se é mais importante pagar swaps manhosos e aguentar juros de 7% ou manter apoios sociais, apoios ao emprego, salários condignos e serviços públicos de qualidade.

 

sábado, junho 22, 2013

Os nossos sonhos não têm cor nem se encaixam na tua folha de cálculo.

A Direção de Serviços da Região Norte do Ministério da Educação convocou recentemente as escolas, públicas e privadas, que oferecem cursos profissionais para discutir a rede escolar.

Um senhor, ex vereador do CDS/PP da Câmara Municipal de Viana do Castelo, tristemente celebre por defender as touradas na cidade, nomeado "Delegado" e representante do Ministério da Educação (M.E.), fala na importância de "prosseguir o esforço nacional da diminuição da despesa". Confirmo a data. Confirmo o local. Aquele discurso não é para ali, para aquele público. Mas ainda assim acontece. Estou numa ação de propaganda.

Misturam-se informações sobre Jardins Infantis, Escolas do 1º ciclo e do 2º e 3º ciclos, números de turmas e números de alunos por turmas. Parece que para o M.E. as turmas se fazem em múltiplos de 30 e trocos. Significa isto que se uma escola, com espaço e professores para 10 turmas do 7º ano, tiver 280 candidatos pode abrir 9 turmas e manda 10 alunos para a escola do lado, por falta de vagas, em vez de abrir 10 turmas com 28 alunos. Esta é a norma. Não está prescrita nenhuma exceção apesar de depois ser a balda e ninguém controlar nada. Autonomia clandestina.

A norma está mal, logo se vê. É como um pilar que de tão rígido se torna frágil e quebradiço, incapaz de cumprir a sua função de suporte. "A norma é para cumprir" diz o tal senhor. Pode ainda acontecer a escola ter só autorização para abrir 8 turmas e o que sobrar vai para o colégio com contrato de associação mas sobre isto não se falou.

Apesar de tudo o pior ainda estava para vir. Apresentam-se as prioridades na abertura de cursos profissionais. Atenção que a rede pública não foi separada da oferta privada. Não há uma estratégia específica para a rede pública. Na verdade são todos considerados "públicos" uma vez que a oferta privada de cursos profissionais depende exclusivamente do financiamento europeu que só chega quando a administração pública ratifica a abertura de um curso. Há algo de perverso aqui. Uma escola não pode justificar o mérito de uma oferta pela empregabilidade dos alunos, pela procura ou pela qualidade da formação e projeto educativo. A abertura do curso é uma decisão política. Sempre.

A administração decide que cursos quer para o futuro e decide com cores. Não há uma planificação da rede, lógica de continuidade, diversificação e complementarização da oferta, não é tida em conta a especialização das escolas e dos recursos humanos e materiais ou sequer pareceres de diversas entidades empresariais, universidades ou outros organismos. Mais grave ainda, existe uma, pouco pacífica, disputa por alunos entre as escolas e o IEFP que promove a sua própria oferta com recurso a estratégias competitivas muito eficazes.

Para o M.E. há os cursos a verde, os amarelos, os "castanhos" e os vermelhos. Curioso o "laranja" até aos laranjas parece hoje acastanhado.

Aplica-se a técnica da cultura intensiva, promovem-se áreas sem refletir sobre os efeitos nefastos da medida caso, por azar, as escolas a seguissem.

E quais são as áreas que promove o Ministério da Educação?

Suportado num estudo nunca apresentado, o senhor delegado apresenta, a "verde" para o Grande Porto: Comércio, Metalurgia e metalomecânica, Indústrias Alimentares, Materiais: madeiras, cortiça, plástico e outros, Construção civil e engenharia civil e Serviços de Transporte.

Quem ler jornais e acompanhar a economia percebe rapidamente que somos convidados a formar para áreas que hoje oferecem pouco emprego e que estão em crise. Outras áreas de desenvolvimento que se têm revelado de muito sucesso como o Design e a Criatividade ou a Multimédia e as Tecnologias de Informação, numa região marcada pelos serviços e pela presença, ainda que cada vez menor, de sedes de empresas e centros de decisão, aparecem na zona vermelha. O IEFP que se rege por resultados práticos de empregabilidade à saída das formações, por exemplo, coloca estas áreas vermelhas no topo das prioridades. São outros critérios.

Por outro lado está proibida, por qualquer motivo, a inscrição de maiores de 20 anos nestes cursos. Sabendo que a oferta de Cursos de Educação e Formação de Adultos foi drasticamente reduzida eu pergunto-me qual o objetivo real destas medidas em termos de política educativa e qualificação para o trabalho.

Na realidade a oferta tem de ser, necessariamente, diversificada e obedecer a critérios estratégicos económicos mas também culturais e ter sempre em conta a dignidade e a liberdade das pessoas. Não há qualquer necessidade de usar as cores e oferecer a formação profissional aos repelões sem ter sequer respeito pelas vocações e sonhos dos formandos. Mas esta é a questão essencial desta política.

Ao organizar a oferta formativa desta forma a administração garante que a população jovem que foi identificada e carimbada pelo sistema público de educação como menos bem sucedida vai confrontar-se com oportunidades que os disciplinam e organizam consoante necessidades económicas. Perdem o direito a querer ser o que quer que sejam e são obrigados a ser uma daquelas coisas. E essa obrigação produz efeitos sociais interessantes. Trabalhadores em número abundante em áreas tradicionalmente com custo de trabalho baixo assim como competências profissionais simples. Não há procura para esta mão de obra hoje. Mas o governo acha que haverá amanhã e está a trabalhar nesse sentido. Numa sociedade partida, com uma pequena e insignificante classe média, uma abundante e barata classe trabalhadora e uma pequena e abastada elite com direitos adquiridos dados pelas eternas gerações de senhores doutores premiados pela meritocracia que melhor convir.

É esta a natureza das nações ricas do séc.XXI, com um sério deficit democrático e com uma população escrava de objetivos económicos de larga escala para acumulação do capital num grupo cada vez mais restrito.

Este tipo de políticas são motivo de preocupação e devemos refletir sobre elas.

 

quarta-feira, junho 19, 2013

Uma questão de empatia...

O relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, intitulado "duas faces da saúde", revela aquilo que é já uma doença clássica nacional. A total e absoluta falta de empatia da classe política, dos governantes em particular, relativamente aos graves problemas da população portuguesa.

Quem ouviu ontem o Ministro Poiares Maduro na TVI ficou com a ideia de que para este governante Portugal é um caso de sucesso. Como somos todos ignorantes ficamos a saber que não vai haver despedimentos na função pública, apenas "requalificações" e que a coligação está forte. Ora, na mesma altura o outro partido da coligação estava a realizar um congresso em que prometia o oposto do que o governo anuncia. A "requalificação" só se for na situação no trabalho para efeitos de IRS que será requalificado para "desempregado" pois os números de redução de efetivos na função pública prometidos à Troika ultrapassam em muito as reformas e os contratados que vão ser postos a andar. Finalmente todos os números relativos ao nível de vida dos portugueses estão no pior de sempre desde que temos liberdade mas Maduro acha que este é o caminho certo. Para Maduro este é o Portugal com que ele sempre sonhou, um em que ele é Ministro e que os outros se f****. O grau de irrealidade e de desplante na distorção dos factos chega a ser cómico.

Mas voltando ao relatório da OPSS. O que me chocou é que se concluiu que o acesso à saúde piorou, sobretudo para os mais pobres e para os idosos, a aquisição de medicamentos deixou, em muitos casos, de ser feita e que o governo ultrapassou em muitos milhões a poupança prevista ou aconselhada pela Troika para o sector. Ou seja, segundo Maduro, Gaspar ou Passos, estaremos no sentido certo e o Ministro da Saúde Paulo Macedo é, considerado por todos, o melhor do mundo. Tirando para os velhinhos e os pobrezinhos claro, mas o que é que esses interessam no grande esquema das coisas?

Lá na Europa e nos Bildenbergs, G20s e G8s ninguém quer saber. A vida é tratada ao quilo. Como foi tratada a vida dos cerca de mil cidadãos do Bangladesh que morreram soterrados ao lado dos nossos pólos cor-de-rosa da Benetton. Ninguém quer saber. Os números dos gráficos são grandes demais e a riqueza das nações, como é o exemplo dessa grande nação que é o Brasil, não representa os problemas sociais e as dificuldades da grande massa de pobres que não participa desse sucesso económico feito de polícia militar, balas e condomínios de luxo muito fechadinhos.

Conclusão. Há mais gente a deixar de ir aos médicos e a deixar de tomar os medicamentos, há mais suicídios, há mais fome e muito mais pobreza, mas os ministros são bons, são académicos competentes e a sua palavra é rainha. Portugal está bem, a Europa recomenda-se, no Brasil as pessoas que se calem porque a FIFA quer fazer uma festa e quer silêncio, tirando o ruído irritante das "caixirolas" oficiais. Na Turquia vai tudo a eito que os parques não são para as pessoas, são para os governos mostrarem quem manda. No G8 a Rússia defende um criminoso no poder na Síria porque lhe interessa vender umas armas (boa estratégia económica, o rating da Rússia ainda vai subir). A China agora é de todos os que lá vão molhar o pincel, na mão de obra barata, menos dos pobres chineses. Obama anda a espionar a malta toda, a culpa é do rapaz que o denunciou, e na América matam-se na rua todos os dias sem que se legisle contra as armas porque dão muito guito nos bolsos dos políticos republicanos que querem que se ensine o Adão e a Eva na escola primária em vez do Darwin (possa que ainda há pior que o Crato), etc e etc e etc... tenho de deixar de ler jornais e ver notícias. Começa a ser demasiado difícil.

 

domingo, maio 05, 2013

Será que 40 horas chegam para tanto trabalho?

Os professores em Portugal têm de realizar 1100 minutos de aulas por semana. São, de facto, 22 aulas de 50 minutos, os chamados "tempos". Para leccionar uma disciplina que, por semana, ocupe 4 destes tempos, ou seja 200 minutos, cada professor terá de ter 5 turmas e meia. Seja lá o que "meia" for. Nas regras actuais isso significa cerca de 150 alunos. Se por mês o professor dedicar 30 minutos de trabalho de casa a avaliar e a reflectir sobre cada um destes alunos - que dedica mais, tendo em conta toda a preparação de aulas, correcções de trabalhos, etc. - isso representa 4500 minutos por mês, 90 tempos de 50 minutos por mês ou seja 22,5 tempos por semana.

Quer isto dizer que os professores, sem muita dedicação, facilmente atingem os 44 ou 45 tempos (de 50 minutos) por semana. 36 horas de trabalho no mínimo.

A juntar a isto estão as Componentes Não Lectivas (trabalho realizado na escola diferente de aulas - apoios, clubes e outras tarefas) que representam mais 150 minutos no mínimo legal.

São, no total, 39 horas de trabalho hoje, sem aumentos nenhuns!

Agora imaginem em disciplinas com menos de 200 minutos semanais e com o respectivo aumento do número de turmas para 6, 7 ou 8. Mais de 200 alunos. Será que chega?

Isto para explicar que o aumento do horário do trabalho na função pública é uma farsa quando se aplica aos professores e terá consequências terríveis na qualidade do sistema educativo se for aplicado às horas lectivas.

Um caminho sem retorno?

Pode parecer que não, para quem ouça os economistas, mas o caminho que seguimos todos tem retorno. Chama-se respeito próprio. E esse respeito próprio deve expressar-se na rejeição total e absoluta desta visão da escola como uma empresa pecuária.

Não somos trabalhadores de um matadouro nem os alunos são animais para serem tratados como tal!

Esta escola está a ser construída para realizar uma triagem social e os professores são os funcionários encarregues do trabalho sujo que os ideólogos do poder exigem mas não admitem.

Os alunos que sairão destes modelos de organização da escola vão andar nas ruas amanhã e não se vão esquecer do que lhes fizeram. Quando a violência, a falta de respeito pelo outro, o caos tomar as nossas ruas os dedos estarão apontados aos professores, esses tarefeiros. Serão então exigidas medidas para repor a ordem, mais polícia, mais autoridade.

Nessa altura os políticos de hoje estarão todos a viver muito bem e longe da confusão que criaram.

Que não se esqueçam também aqueles que se ficam a rir ou aplaudem estas medidas com esgares de vingança porque, se um professor ou funcionário do estado pode dar mais, daqui a pouco tempo o seu patrão irá concluir que ele próprio pode dar ainda mais e a ganhar ainda menos.

Os padrões de tempo de trabalho e vencimento estabelecidos pelo estado têm sempre reflexo nas empresas privadas e em contexto de crise tudo se admite.

Que a divisão que nos semeiam no meio do povo não floresça. Que o nosso respeito próprio vença a estupidez do "hunger game" neo-liberal. É necessário resistir sempre e cansar os ouvidos dos que ainda não acordaram.

 

sexta-feira, abril 19, 2013

O caso do "Excel" avariado

Tenho andado a seguir esta notícia em sites internacionais. É um caso curioso. Em 2010 Carmen Reinhart e Ken Rogoff publicaram um artigo "Growth in a time of debt". Nesse artigo, após uma extensa análise de cerca de 200 anos de dados económicos, afirmam categoricamente que o crescimento económico de um país diminuía sempre que a dívida era mais de 90% do Produto Interno Bruto (PIB).

Este artigo foi um tiro de partida para as medidas de austeridade que a Europa adoptou com tanta dedicação.

Vem-se a ver agora que os dados analisados no artigo, ou seja a folha de "Excel" usada para fazer as contas continha erros. Seria no mínimo cómico caso não tivesse consequências trágicas para milhões de trabalhadores europeus.

Vamos então ver isto por partes:

1- O conteúdo do artigo não foi inteiramente revisto por pares, como a academia exige, nem os dados citados como fonte foram publicados para serem revistos aquando da sua publicação. Só agora foi possível rever os dados. Esta crítica é generalizada. É este o grau de exigência dos economistas europeus a este nível...

2- Pessoalmente acho estranho que, com "ferramentas tão potentes" de análise de dados, se tenha recorrido ao Excel para tão importante empreitada.

3- A notícia do Público não explora a questão como deveria. Os investigadores Thomas Herndon, Michael Ash, e Robert Pollin da Universidade de Massachusetts, ao reverem os dados descobriram que Reinhart e Rogoff cometeram 3 tipos de falhas: exclusão de dados arbitrária, ponderação de dados incorreta e erros de fórmulas de calculo.

Por exemplo: No estudo, 19 anos de dívida acima dos 90% do PIB no Reino Unido com um crescimento médio de 2,6% vale tanto como um ano de dívida acima do mesmo valor na Nova Zelândia com uma retração de 7,6% da economia. Este exemplo é paradigmático.

4- Uma outra análise dos mesmos dados pode levar a concluir o contrário daquilo que afirmam os autores. Que uma retração económica pode levar a um aumento da dívida em percentagem do PIB e não o contrário. Isto é fácil de perceber, não é preciso nenhum "excel". Quando são tomadas medidas de austeridade que retiram dinheiro das carteiras das pessoas por via de quebra de salários e aumento de impostos, e simultaneamente o Estado reduz o seu investimento na economia, o dinheiro a circular diminui porque sai para o exterior em juros de dívida inflacionados, diminui a produtividade porque a procura não existe e a economia retrai-se e o PIB cai. Como os juros são insustentáveis e o pagamento da dívida é suportado por nova dívida, as medidas de austeridade vão provocar um aumento da dívida em percentagem do PIB. É o que está a acontecer em Portugal.

Por isso estamos em espiral recessiva. Acreditar em milagres ou conversas como "com sacrifício vamos ultrapassar as dificuldades" é uma treta. Só se resolve a crise com medidas políticas e económicas europeias concretas e inteligentes. A larga escala.

Os nossos sacrifícios não estão a servir para nada excepto um programa de emagrecimento dos serviços do Estado que vai deixar os mais desfavorecidos entregues a si mesmo e garantir uma prática de transferência do dinheiro dos impostos para a iniciativa privada empresarial, sobretudo o sector financeiro da economia. Teremos um páis economicamente rico mas com um povo pobre.

Quem vier dizer que é o contrário está a enganar-nos. Foi o que aconteceu na América de Bush e é o que querem que aconteça aqui.

O facto de Vítor Gaspar citar o "estudo" de Reinhart e Rogoff não é de estranhar. Os políticos liberias no poder "tratam-nos como shamans, não economistas" e vão continuar a acreditar nas suas conclusões ainda que sejam provadas erradas. Nada disto é ciêntifico e fingir que é tem consequências desastrosas.

Gaspar não é um bom técnico, é só um mau político. É preciso perder o pudor de pôr em causa estes deuses de pés de barro da ciência exacta que de exacta não tem nada.

 

domingo, março 03, 2013

Carta aberta a Rudolfo Rebelo.

Esta carta vem no contexto desta notícia publicada no jornal Público de 1 de Março de 2013.

Meu querido Ruddy,*

Tendo lido uma carta que tu de modo tão socialmente hábil publicaste no teu mural do facebook venho por este meio enviar-te esta missiva. Espero que compreendas.

Já percebi que és um adepto da epistolografia e que conheces bem a política e os políticos. Usas de muita familiaridade para com todos, pelos vistos. Para além disso imitas muito bem Christine Lagarde, menos o seu penteado prateado, como é visível na fotografia, mas hás-de lá chegar. Também dominas as redes sociais e tens, até ao momento, 28 amigos que gostam da carta que enviaste a António José Seguro. Adivinha quantos amigos vão gostar desta minha carta?

Estás convencido que os problemas de Portugal estão resolvidos. Pagamos tudo a tempo, os juros desceram, está tudo no bom caminho. A crise está a caminho do fim. Bem... ou não lês jornais, para os quais trabalhaste, nem artigos de economia sobre a situação da Europa ou andas a tomar qualquer coisa porque não podias estar mais iludido.

A verdade é que o teu patrono e patrocinador está a destruir o país. Com a ajuda de liberaizinhos de pacote como tu que se armam que percebem muito do assunto e pervertem os verdadeiros resultados desta política.

Ora nem Passos, que sempre foi mau aluno na escola, nem tu, percebem realmente o que está a acontecer. Porque acreditam numa cartilha que divide a sociedade em dois. Os privilegiados chicos espertos dum lado e o povo burro do outro. Porque acreditam que é pela pobreza do povo que se alcança a riqueza da nação. Porque acreditam que uma economia dominada pelo grande capital e sem regras se auto-regula e que o trabalho barato e o Estado mínimo é meio caminho andado para o lucro. Nada mais parvo!

Portugal empobrece a cada minuto. A cada minuto mais portugueses prescindem de uma refeição que não conseguem pagar e tu gozas. Ris-te e tratas o líder da oposição por Tozé numa carta a zombar das suas pretensões e a armar em especialista. Com o teu chefinho Relvas já é outra coisa. O fulano é aquilo que sabemos mas não se pode tocar no senhor. Já é feio gozar com Relvas. Ou, como diz o teu outro amigo Mendes Bota, é crime.

Tu não foste eleito Rudolfo. És um contratado para fazer sabe-se lá o quê com dinheiro nosso. Tem respeito! Não estás em posição de ensinar nada a ninguém. Aliás nem que estivesses terias essa competência. Não chegas lá e a presunção de que o teu paizinho político vai resolver a crise é a prova disso mesmo.

És um lacaio de um partido. Um boy. Um pretenso jornalista que na realidade nunca foi imparcial. E andas nestas lides para ganhar dinheiro. Ganhas dinheiro com a crise Rudolfo. E gozas com os portugueses.

Imagino o gozo que te deve dar observar o modo como os teus patrocinadores destroem o país, o tecido empresarial, a educação, a cultura, a saúde publica.

Por causa de tipos como tu Portugal deixou de existir e tu gozas! E és pago por nós! E gozas com a situação.

Um qualquer amiguito teu poderia brincar com António José Seguro. Não é que ele também não mereça. Mas tu Rudolfo, és pago pelo Estado para aconselhar o Primeiro Ministro. Deverias ser um fulano com mais nível. Mais qualidade.

Afinal quanto te pagam mesmo? E o que é que fazes pelo país mesmo que ainda não percebi? Dás conselhos? Tu?

Quantos colegas teus de escola se estarão a rir agora?

Envio-te esta carta aberta em meu nome. Não estou a fingir que seja outro. Mas se preferires posso dizer que isto também é humor. Só tenho um bocadinho de melhor gosto do que tu.

Se vires este texto no facebook vê bem quantos "likes" tenho e compara e repara bem para que lado pende a balança.

* entenda-se como diminutivo de "rude" em inglês e que significa mal-educado.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

A responsabilidade social e o seu significado

Hoje, por acaso, na procura do significado de uma palavra, fui dar a um site de uma empresa de consultoria financeira e gestão e aconselhamento de investimentos. Os tempos recentes deixaram-me curioso em relação a estas empresas. À sua organização, estrutura e princípios.

Ponho-me a pensar se, há 4 ou 5 anos atrás, aconselharam ou não a comprar dívida grega ou produtos tóxicos do BPN ou outras coisas igualmente desagradáveis. Ponho-me a pensar na complexidade da tomada de decisões e na responsabilidade envolvida no aconselhamento. Tenho algum respeito pelos desafios que este trabalho implica e tenho bem a noção dos perigos e das perversões que pode implicar.

No site desta empresa em particular descubro uma área intitulada "Responsabilidade Social". Vou ler.

Fiquei de boca aberta. Então não é que os senhores doutores, mestres do investimento, do pouco e do muito risco, se preocupam com questões de responsabilidade social. Gostei.

Mas há um problema. Não estão a falar de responsabilidade nas suas funções como consultores e investidores mas sim de caridade. Afinal a empresa entrega uma parte do seu lucro, pequena suponho mas pouca diferença faz, para instituições de apoio social. Isto porque, dizem eles que os sistemas de segurança social se revelam cada vez mais incapazes de responder às necessidades da sociedade. Nada de mal aparentemente.

O problema reside exactamente no que está ausente. Um compromisso de responsabilidade social nos próprios investimentos que aconselham. Ou seja... podemos aconselhar o investimento em fundos que financiam guerras ou o trabalho escravo. Podemos aconselhar comprar dívida má contraída em situações de desespero planeado. Podemos investir em industrias poluentes ou em grupos económicos sustentados por ditaduras. Desde que pareça limpo e prometa resultados não perguntamos de onde vem nem para onde vai o dinheiro. Mas damos algum para caridade.

Enfim, investimos na criação de pobreza mas no fim pagamos a sua sopa a uns pobres.

Falta lá dizer que a empresa investe na sustentabilidade, no respeito pelo ser humano e pelo meio ambiente e que faz um rastreio ético dos seus investimentos. Isto é que é responsabilidade social. Mas ninguém quer saber disto pois não?

Como professor a minha responsabilidade social é mais do que ser bom professor mas é sobretudo ser um bom professor. Isso significa ensinar as matérias mas também orientar para a educação de valores éticos. Isso significa ter um comportamento profissional socialmente responsável. Não me chega ser um professor qualquer e depois dar uns euros por mês para a Unicef.

É por estas e por outras, por não existir uma deontologia do investidor e do mercado financeiro, que podemos estar certos que a crise não terminará. Tornar-se-á eterna. Vamos habituar-nos à condição de cidadãos menores. Os sem capital. A força trabalhadora. E vamos aceitar a caridade destes e de outros que ganham dinheiro sem querer saber se investiram na nossa desgraça. O que os levará para o céu é que nos pagaram a sopa e por isso estaremos eternamente gratos.

Não sei se esta empresa investe bem ou mal. Devemos sempre presumir que cumprem a lei e acredito que sejam bons rapazes (só homens nos órgãos sociais). O que interessa aqui é a questão teórica e de comunicação que revela uma forma particular de ver as coisas, de definir um conceito de responsabilidade. Só isso.

 

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

As tolices de Fernando Ulrich

A propósito de mais um conjunto de declarações infelizes de um presidente de um Banco provindo de uma família de Banqueiros... alemães!?

Publicado no meu facebook.

"Já comecei três vezes um texto sobre Fernando Ulrich. Na verdade não há palavras. Tolice minha. O que podemos dizer sobre este homem? Que tem zero de respeito pelos portugueses? Que tem zero de respeito pelas pessoas que não tiveram, como ele teve, a papinha toda feita a vida inteira? Que não tem respeito por aqueles a quem o Estado não empresta barato milhões de euros para salvar das asneiras que fez nos negócios?
Faço uma pergunta a Fernando Ulrich: Aguentas dar uma volta a pé aqui pela baixa do Porto num dia a combinar? 
Não aguentas, acredita. A gente também já não te aguenta."

quarta-feira, janeiro 02, 2013

O discurso de ano novo do nosso PdR. (republicação do facebook)

O nosso querido Professor de Economia acabou agora de falar. Deu uma aula interessante sobre uma teoria impossível.

As contas de que fala têm séculos de existência e só funcionam hoje naquelas cabecinhas quadradas, recitadas como um credo religioso, pontuadas com umas pitadas de elogio fúnebre a um povo moribundo. Sabemos ser pobres bem! Olha que bom!

O senhor não explica, embora fale disso, porque é que a receita aplicada piorou a tal percentagem da dívida de que falou. Piorou a situação que era suposto resolver! Isso não será um sinal? Não, nós somos todos burros.

A minha conclusão? Está preocupado em respeitar acordos, não em resolver problemas. Os tais acordos que em 2010 e 2011 não previram a crise da zona euro. Realizados por gente muito competente vê-se bem. A tal crise já existia e só piorou com os tais maravilhosos acordos e programas. Os que temos de cumprir a qualquer custo.

Ficamos a saber que o nosso PdR tem amigos que acreditam em Portugal. Amigos estrangeiros. Uau! E também que alguns desses precisam de empréstimos para investir. Sugiro o BANIF, acabou de garantir 1100 milhões de euros que não existiam para a educação ou para a saúde e que os tais senhores dos acordos nem se importam que a gente gaste... já se fosse em escolas ou salários seria um escândalo. Não há pachorra senhor Presidente. Para si e para a geração de políticos e economistas que representa em Portugal.

Desejo-lhe um ano tão bom quanto o será para um dos nossos milhares de desempregados. Obrigado por tudo.